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Uma publicação nas redes sociais do presidente norte-americano veio mais uma vez colocar em causa as relações entre Estados Unidos e União Europeia. Donald Trump ameaça com tarifas de 10% já a partir de fevereiro, a todos os produtos enviados para os Estados Unidos por vários países europeus. Bom dia, coronel José do Carmo. Bem-vindo a este gabinete de guerra. Conseguimos entender o racional de Trump com esta ameaça? É com pressões econômicas que o presidente dos Estados Unidos acredita que vai conseguir o controle da Gronelândia?

Bom dia.

Bom dia.

Donald Trump tem um conceito não muito favorável dos líderes europeus. Acha que são fracos, acha que cedem facilmente a estas jogadas em que ele ameaça. E, sim, ele de facto pode impor as tarifas. Embora também, na segunda-feira, o Supremo Tribunal americano vai produzir um acórdão, segunda, ou seja, pelo menos na próxima semana, vai produzir um acórdão sobre a legalidade das tarifas presidenciais e toda esta jogada Trump pode cair pela base, porque tudo aponta para que mesmo os juízes conservadores consideram que muitas das tarifas que Trump tem tentado impor, são meramente pressões políticas e não têm nada a ver com economia, nem com a segurança dos Estados Unidos. E, portanto, é provável que Trump perca um bocado aqui a sua arma preferida, com a qual faz pôquer, joga pôquer, no fundo, tenta intimidar os outros.

Mas será que mesmo uma decisão das instituições europeias possa demover o presidente de continuar a utilizar este instrumento?

Eu acho que não, porque Trump não tem grande consideração pela União Europeia. Ou seja, se somente ele vier a impor tarifas, aquilo que é mais pragmático para os europeus é não lhe dar a hipótese de fazer espetáculo interno e notícias em que ele possa parecer como um grande líder que afronta toda a agenda. O que a Europa deveria fazer, na minha opinião, era discretamente, sem grandes parangonas, ir negociando e também impondo restrições, não noticiáveis, mas daquelas mais técnicas, porque essas tarifas também vão afetar a América. Ou seja, há uma série de cadeias de abastecimento que têm a ver com a indústria aeronáutica, a indústria automóvel, a indústria farmacêutica e química, que muitas empresas americanas vão também ter consequências a isto, porque incorporam muitos dispositivos fabricados na Europa, e nomeadamente naqueles países que são alvos dessas tarifas.

Sim.

De qualquer maneira, essas tarifas não irão produzir efeito nenhum, porque nenhum desses países vai vender a Gronelândia, como ele pretende. Isto expressa apenas uma manifestação de frustração, porque não é expectável que os países visados deixem agora de fazer exercícios no âmbito da NATO com a Dinamarca, portanto, no território dinamarquês, nem é expectável que eles próprios vão dizer à Dinamarca para vender o território, que a Dinamarca também não pode vender, tinha que alterar a sua lei, a sua Constituição. Mesmo que quisesse, lá lá, digamos assim, tinha que alterar aquilo tudo. É como em Portugal, alterar uma Constituição não é uma coisa fácil, quer dizer, obriga a negociações, mesmo que quisesse, também não querem. Portanto, eu, sinceramente, vejo isto como um gesto de frustração e, no fundo, também a política americana mostrar que é um homem forte, que a Europa são fracos e que não têm poder, e que são um ator dependente dos Estados Unidos.

Mas coronel José do Carmo, não vê aqui uma escalada na forma como estes dois blocos, que até há pouco tempo pareciam ser único e que agora parecem cada vez mais afastados?

Sim, o Donald Trump considera a Europa como um ator dependente, não tem grande consideração pela Europa, nem pelos países europeus. E portanto, dá-se a este luxo de ir empurrando até os aliados. Eu creio que isto, a prazo, para os Estados Unidos, é muito negativo, porque ele está a empurrar os aliados. Ainda agora, o Canadá acaba de fazer uma série de acordos comerciais com a China, que, no fundo, tudo isto está a empurrar todos os aliados americanos para uma grande desconfiança em relação à América.

Claro.

Pode ter efeitos na aura imperial de Trump, mas isso acaba por ser desvantajoso tanto para a América como para os seus aliados. A China, entretanto, aproveita, ao seu estilo, que é um estilo muito mais sub-reptício e muito mais longo, mais paciente, e vai estendendo a sua influência. Os Estados Unidos, ao pretender, supostamente, se for esta a estratégia americana, ao pretender confrontar a China e empurrá-la, cortar-lhe as suas rotas, está exatamente a fazer o contrário. Está a empurrar os aliados americanos, muito mais predispostos a fazer acordos com a América e a aliarem-se com a América, está a empurrá-los para os braços de outros atores e, no fundo, em termos de interesses americanos, a prazo, isto é uma política muito negativa.

Havia alguma coincidência com o facto deste anúncio, desta ameaça de tarifas, ter acontecido precisamente no dia em que a União Europeia e o Mercosul assinam o acordo comercial negociado já há tanto tempo?

Pois, mas e o que é que se pode fazer? Já está negociado. Há um momento em que Os Estados Unidos, que é o país que advoga o livre comércio e, no momento, impõe tarifas a toda a gente e usa as tarifas não como proteção comercial, mas como arma de pressão política sobre os países, a reação dos outros países não é submeter-se. Esta visão de Trump de uma visão imperial, em que ele decide e os outros obedecem, nunca foi assim. Pode haver um momento inicial em que o choque faz os alvos do seu diktat parar e paralizar, mas depois a seguir começa a reação. Ou seja, a prazo, é uma estratégia péssima, porque os países começam a reagir, os países não se submetem assim. Isso nunca aconteceu na história, os países submetem-se quando não podem ter reação nenhuma, mas aqui podem ter reação, o mundo é muito mais diverso do que era, o poder imperial americano não é tão forte como já foi, apesar de não ser usado de forma imperial, agora está a ser. E portanto, o que vai acontecer é um paulatino afastamento desses países, aos poucos arranjarem alternativas, afastarem-se de um poder que deixa de ser confiável. Os Estados Unidos estão a deixar de ser confiáveis, mesmo para comércio. Até a China, que não é confiável, já aparece aos olhos de alguns aliados americanos como mais confiável, mais previsível. E portanto, isto tem consequências graves para a América também.

Os embaixadores da União Europeia vão hoje reunir-se de emergência esta tarde em Bruxelas. O que se pode esperar deste encontro, coronel?

Eu acho que vai haver duas tendências, uma que pretende que seja a União Europeia a reagir, e isso pode ter vantagens e inconvenientes. O inconveniente é que Trump sentir-se-á confrontado e, na sua tendência habitual, pode fugir para a frente. Quer dizer, pode agora dizer: "Se não querem 25, vou impor 50". E portanto, vai estar neste jogo para depois mais tarde fazer um acordo, enfim, no fundo é o que ele faz sempre. Até porque depois internamente terá muita gente a pressioná-lo e muitas empresas, essas empresas importantes, o caso até da Boeing, por exemplo, a Boeing recebe uma série de elementos para os seus aviões que são fabricados nestes países e que estão afetados pelas tarifas, portanto vai aumentar o preço dos aviões. Tudo isso vai ter consequências para os Estados Unidos também. Não só estas consequências imediatas, económicas, mas também as consequências estratégicas que isto tem. Aquilo que parece menos heroico, mas que se calhar é mais eficaz, que é os países decidirem por si próprios, ou seja, a União Europeia pode reunir, e os países decidirem por si próprios impor restrições equivalentes, onde dói, cirúrgicas, não é gerais, cirúrgicas, onde dói. Inclusive direcionadas a estados americanos onde há uma disputa eleitoral importante, ou seja, onde há possibilidades de haver mudanças de representantes ou de senadores. Isso é o que seria fazer, enfim, numa atitude mais racional, não a União Europeia como um todo é que estar tarifas também, em retaliação, porque isso faz crescer a guerra comercial, mas aquelas restrições, e não são bem tarifas, mas são questões técnicas impostas sobre determinados produtos que afetam determinados círculos eleitorais. Eu penso que vai estar em discussão isto, quer dizer, ou uma tomada de posição da União Europeia de força, vamos retaliar com isto, ou então uma decisão para os países, de alguma forma, debaixo da mesa, combinarem este tipo de reações mais cirúrgicas, que vão onde dói, que é a política interna americana e a parte das eleições, que no fim do ano irá haver. De qualquer maneira, vamos esperar para ver o que é que o Supremo Tribunal diz na próxima semana, era para ter dito já nesta sexta, o Supremo Tribunal Americano, sobre as tarifas, porque se Trump ficar de repente sem a sua principal arma de extorsão, digamos assim, tudo vai mudar. Trump não terá muitas capacidades de fazer, porque não vai de certeza enviar os porta-aviões para a Groenlândia, nem sequer são lá precisos, não vai fazer nada disso.

E, portanto, esta estratégia pode cair por terra, sendo que neste momento e muito rapidamente, coronel José do Carmo, o acordo comercial que foi estabelecido entre Estados Unidos e União Europeia, muito recentemente, caiu por terra depois disto, ou parece-lhe que não?

Neste momento é só um anúncio.

Até fevereiro, não falta muito.

Ainda não há nenhuma decisão, embora, claro, não seja difícil passá-la logo à prática. Enfim, é fácil. De qualquer maneira, é um anúncio. Sim, porque se o acordo está feito com determinados parâmetros e passado uns meses, ou menos que isso, é violado, digamos que os Estados Unidos vão se colocar numa situação em que a sua palavra não vale nada. E ninguém gosta disso, nem os norte-americanos, nem as empresas. As próprias empresas não gostam disto. Vai certamente haver uma queixa, se estas tarifas forem para a frente, uma queixa à Organização Mundial do Comércio, que não terá grande eficácia, mas vai colocar o problema em banho-maria, vai obrigar a negociações. E tudo isto vai ser mau para toda a gente. A Groenlândia não vai cair nos braços dos Estados Unidos por causa de tarifas e também não vai cair por causa de vendas. E portanto, tudo isto é algo que Trump meteu na cabeça, vem agora empoderado pelos seus sucessos na Venezuela e supostamente no Irão também, embora seja muito discutível o sucesso no Irão. E, portanto, Trump acha-se neste momento, quem diga que ele se sente um imperador, quer dizer, que está a agir como imperador.

E já tem uma medalha do Nobel da Paz, pelo menos. Coronel José do Carmo, muito obrigada por ter estado esta manhã neste Gabinete de Guerra. Um bom resto de domingo e boa semana.

Obrigado.