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Gabinete de Guerra esta manhã com a análise do coronel José do Carmo. Bom dia, bem-vindo.

Olá, bom dia.

Bom dia. Assistimos nas últimas horas à mais grave troca de agressões diretas entre os Estados Unidos e o Irão desde o início do cessar-fogo. Tudo começou com o ataque norte-americano a um petroleiro do Botswana que se dirigia para um porto iraniano. Teerão respondeu com ataques contra bases aliadas dos Estados Unidos no Kwait e no Barein. Coronel, que leitura faz de tudo isso e de que forma compromete o acordo que Trump tanto quer, tanto precisa e que tem dito que está praticamente finalizado?

Para começar, temos que notar esta estranha situação de Botswana, um país que está a centenas de quilômetros do mar, ter petroleiros. Isto demonstra o grau de selvageria que vai no direito do mar e o fato de este ser um navio da frota fantasma, e basicamente dirigia-se para a ilha de Karg para carregar petróleo e ficar lá guardado enquanto não puder vender. E os Estados Unidos, obviamente, dispararam sobre ele para o parar. O que aconteceu a seguir é que o Irão disparou drones sobre navios, outro tipo de navios que havia ali, que foram interceptados, houve o bombardeamento da ilha de onde vieram os drones e depois houve este conjunto de retaliações em que o Irão tentou depois atacar o Barein e o Kwait. O que isso mostra? Isto mostra que o acordo, o memorando, está à espera de que o trabalho seja acabado. Ou seja, o que se nota aqui é que ontem, segunda-feira, quando o Irão exigiu que parasse a ofensiva contra Beirute e disse que cessou os contatos com os Estados Unidos, o Irão esticou a corda a um ponto que obrigou os Estados Unidos a fazer uma escolha. E só havia duas possíveis: ou os Estados Unidos ignoravam estes avisos e obrigavam o Irão a mostrar as cartas, ou os Estados Unidos pressionavam Israel, que foi o que fizeram.

Foi o que fez.

Exatamente. E isto demonstra uma coisa importante: mostra que Trump quer desesperadamente um acordo. E não quer voltar à guerra. Quer um acordo ao ponto em que aceita quase que apunhalar um aliado mais importante pelas costas.

Aliás, Trump terá chamado louco ingrato ao primeiro-ministro israelita. Disse que ele estaria na prisão se não fossem os Estados Unidos.

Exatamente. A avaliar pela retórica de Trump, eu não me admiraria se isso fosse verdade. Quando um país ataca os aliados que o ajudam a combater o inimigo do próprio país, estamos em um ponto em que voltamos àquela expressão de Trump, "always chicken out", ou seja, o taco.

Mostra o desespero de Donald Trump.

Existem duas hipóteses. Ou, de fato, é desespero, ou Trump tem na mão uma jogada fantástica, um acordo maravilhoso que irá resolver tudo, os prócees, os mísseis, a parte nuclear, o Tratado de Ormuz, e irá transformar o Irão em uma potência regional. Eu não acredito nada que esta carta mágica esteja a jogar, que este acordo que aí vem seja um acordo que justifique isto tudo. Um acordo que venha aí e que Trump, provavelmente, diz que tem na mão, que vai resolver todos estes problemas e transformar aquilo tudo num Éden, em que todos ficamos amigos uns dos outros, explicaria isto tudo. Isto até justificaria, de facto, apunhalar os aliados, deixar o Irão atacar países à volta, enfim, tudo isto seria justificado. Se isso não acontecer, pode ser uma vitória tática dos Estados Unidos, em que anunciam um acordo que será basicamente um acordo Obama 2, se calhar com fanfarra e com trunfa, cor de laranja, mas tudo será pior, porque está a comprar apenas a prestação do próximo conflito, porque se nada disto for resolvido, este conflito vai voltar e vai voltar pior.

Sobre o ataque massivo da Rússia à Ucrânia, na madrugada de terça-feira, o número de mortos já vai em 22, o número de feridos ultrapassa a centena. Zelenskyy diz que o apoio dos Estados Unidos no fornecimento de mísseis para os sistemas de defesa é absolutamente necessário para suportar ataques como esse. Mas, coronel, há relatos de inteligência que dizem que os Estados Unidos e os seus parceiros no Golfo Pérsico gastaram mais mísseis intercetores, os Patriot no Médio Oriente, do que a Ucrânia recebeu de Washington desde o início da invasão, em 2022. Esta asfixia de estoque provocada pela guerra com o Irão condena a defesa aérea ucraniana a ficar de braços atados perante a Rússia e Putin, sabendo disso, está claramente a aproveitar-se.

Sim, a Rússia não produz muitos mísseis por mês. Produz cerca de 150, de vários tipos. E por isso também não pode fazer ações dessas todos os dias. Por exemplo, os mísseis Zircon, que são mísseis antinavio, hipersônicos, mas que eles usam também para atacar cidades, produz três por mês. Lançou ontem oito, o que quer dizer que gastou praticamente aquilo que produz em três meses. Não pode fazer isto muitas vezes. Mas de fato, esses mísseis, o Zircon e os mísseis balísticos, o Iskander e outros que têm, com o intercetor adequado, só há dois intercetores na Ucrânia capaz de abater estes mísseis, que são os Patriot, PAC-3, e é o SAMP/T, que é europeu e tem o míssil Aster, que consegue abater. E também há um míssil no sistema Aegis, que é o Standard Missile 6, que também consegue abater isto. Mas são só estes três. A Ucrânia tem capacidade de abater mísseis cruzeiro, drones, mas mísseis hipersônicosSó estes três interceptores conseguem fazê-lo. E mísseis Aster não há muitos. A Europa queixa-se muito, mas ainda não conseguiu produzir.

Portanto, aqui a Europa também não poderá ajudar.

Tem que aumentar a produção de determinados tipos de mísseis que podem ser substitutos do Patriot, que é americano. É o caso do SAMP/T e o interceptor Aster 3, mas que produz muito pouco por ano. Por enquanto, aquilo não é significativo. Os Estados Unidos, de facto, desviaram uma série de mísseis Patriot para o Médio Oriente, porque lá há muitos mais mísseis balísticos. O Irão tem milhares de mísseis balísticos, enquanto a Rússia, neste momento, já só tem umas centenas, vai fazendo umas dezenas por mês e é isso que lança, vai lançando, não conseguiu grandes reservas. De facto, a Ucrânia é obrigada, perante ameaças de mísseis balísticos e mísseis hipersônicos, até porque isto é depois feito em saturação, com packets de centenas de vetores de ataque, é obrigada a fazer escolhas, é obrigada a dar prioridade a certas zonas. E também não pode lançar dois mísseis, dois interceptores, porque não os tem contra cada míssil, que é aquilo que mais ou menos dá uma garantia com mais probabilidade de atingir o míssil. Portanto, basicamente, sim, a Ucrânia, nestes aspetos, mísseis balísticos e mísseis hipersônicos, está neste momento praticamente em defesa, porque os restantes interceptores que tem, o NASAM, o IRIS-T, não são feitos para bater este tipo de míssil.

Mas sabendo disso, acredita que Putin possa intensificar os ataques, ainda que também esteja limitado, não é? Em termos de material militar.

Sim, Putin aproveita. A única estratégia que resta neste momento à Rússia para ter uma hipótese de ganhar esta guerra já não é a vitória no campo de batalha, porque isso está parado. Mesmo agora se fala de uma mobilização de reservas lá para o fim do verão. Fala-se nisso, mas a questão é que a Rússia, neste momento, não tem uma doutrina de ataque terrestre que consiga solucionar o problema dos drones. Os drones estão de tal modo a cobrir o campo de batalha e para a frente das linhas, que a Rússia não consegue concentrar tropas para fazer ataques. É um autêntico desastre. Os homens são abatidos, circulam a pé, circulam em viaturas ligeiras, circulam em animais para tentar infiltrar-se em pequenos grupos, mas são abatidos porque são quilómetros e quilómetros de cobertura de drones. Não há maneira de concentrar forças para lançar um ataque num ponto do terreno. A Rússia não consegue resolver este problema. Até agora não conseguiu. Talvez venha a encontrar uma solução, mas até agora não conseguiu. Não tem outra maneira de ganhar, digamos, com a operação especial, do que não seja tentar o terror, tentar pela pressão psicológica, pela moral da população, e também para tentar dissuadir a Ucrânia.

A ceder os territórios que tanto quer, não é?

Não, dissuadir a Ucrânia de fazer ataques nas cidades russas.

Contra em facto. Nos últimos dias, o de esta noite.

Exatamente, porque o que passará na cabeça de Putin, na sua bolha, é de que: "Ok, eu vou lançar estes ataques para as cidades, onde toda a gente vê, vou matar uma série de pessoas, destruir uma série de coisas com estas vagas de mísseis", quando junta todos, "e ao menos eles podem ser tentados a não fazer o mesmo, ou seja, a não atacar as cidades, que é onde a minha população vê que há uma guerra e não uma operação especial militar". E por isso Putin tem esta crença ainda de que pode vencer a guerra pela desmoralização da população, por algo que leva a Ucrânia a render-se por fadiga, por desespero. Sabe que às vezes os grandes líderes, estes líderes que se fecham na sua bolha de informação e que não aceitam informação negativa, as pessoas também não lha dão. Quem anda à volta deles não lhe dá informações negativas e por isso vivem num mundo virtual em que acreditam que realmente aquilo que está a acontecer é o que lhe dizem e não o que está a acontecer.

Coronel José Ducar, muito obrigada pela sua análise. Um bom dia para si.

Um bom dia para si também. Obrigado.

Obrigada.