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Este é o Gabinete de Guerra das manhãs 360, esta quinta-feira com análise de Manuel Poies Torres, analista de relações internacionais. Muito bom dia e obrigada por ter aceitado o nosso convite.
Olá, bom dia.
Olá, Manuel, bom dia. A Ucrânia já enviou aos Estados Unidos uma nova versão do plano de paz desenvolvido em conjunto com parceiros europeus. A ideia é haver vários caminhos viáveis para o fim da guerra, mas Manuel, Trump insiste que Zelensky tem de ser realista e faz pressão para que aceite pelo menos a perda do Donbass, que Putin diz ser uma zona historicamente russa.
Isso é claramente falso, mas a verdade é que há várias regiões nos próprios Estados Unidos da América que são historicamente russas. E não é por causa disso que os Estados Unidos vão entregar agora o Alasca à Rússia, não é verdade? E, portanto, parece-me clara demagogia. No entanto, tudo isto é política e Donald Trump quer fazer negócios. E o valor do dólar está também em causa. E, portanto, nesta quarta-feira, precisamente ontem, os diferentes líderes europeus conversaram com Donald Trump na tentativa de atrair para a Europa, para uma reunião dos americanos com os europeus aqui na Europa, já neste fim de semana, para discutirem aquilo que serão os termos dos próximos passos que terão que ser dados.
Mas parece-lhe que Trump possa ceder a esse convite?
Penso que não, porque ainda não chegamos a um ponto de equilíbrio nestas negociações. E tudo isto diz respeito à reunião que também aconteceu ontem entre Volodymyr Zelensky e três importantes figuras. Entre o gabinete de segurança de Volodymyr Zelensky, o secretário do Tesouro dos Estados Unidos, Scott Bessent, o genro de Donald Trump, Jared Kushner, que está sempre em todas as reuniões para garantir que existem negócios. Esta é a função de Jared Kushner. E a terceira figura, o responsável da BlackRock, Larry Fink, que vai assistir o plano de reconstrução da Ucrânia do pós-guerra. E, portanto, neste momento estão a ser discutidos três importantes documentos. O primeiro documento diz respeito ao plano para o cessar-fogo. O segundo diz respeito às garantias que Kyiv pode ou não receber dos Estados Unidos da América, dos europeus e da própria Rússia. Veja-se bem. Em terceiro lugar, diz respeito, um terceiro documento, claro, que fala sobre o plano de reconstrução. Sobre o plano de reconstrução, e daí estar nesta reunião Larry Fink, um dos principais responsáveis da BlackRock. Tudo isto tem que ver com a forma como o investimento dos 200 mil milhões de dólares em assets russos, que estão congelados, vão ser utilizados para atrair financiamento americano para a reconstrução da própria Ucrânia. Mas tudo isto pode correr muito mal. Se não existir, de facto, essa atração do investimento americano, se os 200 mil milhões de dólares em assets russos não forem suficientes, provavelmente não serão.
Não serão, pois.
Ou se não houver interesse das partes. O que está em cima da mesa, neste momento, é a construção ou reconstrução da Ucrânia com a utilização destes fundos, já provavelmente pré-negociado com a Rússia. E depois os Estados Unidos da América tiram vantagens destes negócios, porque algumas empresas americanas, nomeadamente a Exxon Mobil, uma das principais produtoras e exploradoras de petróleo, já assinou um pré-acordo com a Rosneft, que é uma das principais produtoras de petróleo na Rússia, para a criação de novas linhas exploratórias no leste da Rússia para oferecer uma recompensa de 4,6 mil milhões de dólares à empresa americana. E, portanto, claro que os interesses das empresas americanas estão aqui em primeiro lugar.
Era como dizia no início, e negócios.
E a construção de um novo data center alimentado pela central nuclear de Zaporizhzhia também está em cima da mesa. Mas a central nuclear de Zaporizhzhia é controlada pelos russos. E, portanto, há uma necessidade grande, antes dos europeus chegarem à Europa, de se conseguir encontrar um ponto de encontro, um ponto de equilíbrio nestes três documentos que eu vos referi. O plano de paz, a reconstrução da Ucrânia e depois a fórmula como estes assets russos vão ou não vão ser usados. Parece-me, no entanto, que o Donald Trump, os seus aliados mais próximos e os principais líderes das empresas americanas, que são os grandes jogadores tradicionais, acabam sempre eles, todos eles, por tirar partido daquilo que é a entrega da Ucrânia ao agressor, partes da Ucrânia ao agressor, e acima de tudo, aquilo que é a desconstrução da arquitetura de segurança e defesa da Europa, mas também dos Estados Unidos. Se estes empresários acreditam que a paz pode chegar meramente pelo interesse económico, penso que os velhos republicanos e os velhos democratas aprenderam essa lição há muitos anos e, portanto, podem ter uma surpresa desagradável no futuro.
A terminar, e sobre o Médio Oriente, o Hamas propõe congelar o armamento em troca de trégua a longo prazo em Gaza. Podemos confiar, Manuel?
Não. E o Hamas é um grupo terrorista e não se confia em grupos terroristas, não têm honra e não têm a palavra. E neste momento não têm qualquer tipo de mandato para governar Gaza. A única coisa que ainda os mantém em Gaza é precisamente a força com que estes terroristas se agarram ao poder e que têm sob mira das suas armas a população indefesa de Gaza. E, portanto, mais tarde ou mais cedo, qualquer tipo de acordo que seja desenvolvido para o governo da Palestina e para o governo de Gaza, não poderá nunca envolver estes terroristas, nunca poderá envolver o Hamas. Daí a necessidade de se encontrar uma terceira via, daí a necessidade de se poder reabilitar a autoridade palestiniana. E infelizmente, penso que mais tarde ou mais cedo, teremos novos conflitos, porque já sabemos que o Hamas não vai largar o poder. E isso poderá levar a quietas algumas condições. E nós sabemos que o próprio Qatar está a tentar reformular os termos do acordo que já foram assinados. Isso é extraordinariamente perigoso, porque muito certamente vai levar a novos conflitos. Israel não confia no Qatar, Qatar não confia em Israel, mas confia em terroristas do Hamas, que servem precisamente a sua causa. Parece-me evidente que mais tarde ou mais cedo, os americanos serão também obrigados a tomar uma posição relativamente a esta questão.
Manuel Poies Torres, muito obrigada pela sua análise. Bom final de semana.
Muito obrigado.
Muito obrigada, um bom dia.