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Começa agora mais um Gabinete de Guerra, esta manhã com a análise do especialista em Direito Internacional, Francisco Pereira Coutinho. Bom dia, Francisco, bem-vindo.
Muito bom dia.
Bom dia. Começamos por Zelenskyy, que diz que a Ucrânia está pronta pra eleições nos próximos dois, três meses, se os países europeus e os Estados Unidos garantirem a sua segurança. Francisco, ainda que demonstre confiança e respeito pela lei, isto não é ceder à narrativa russa de que Zelenskyy não tem legitimidade para estar no poder? E sabendo de toda a influência que a Rússia tem, ir para eleições nesta altura não pode ser um perigo para a Ucrânia?
Pode, mas eu acho que é acima de tudo uma tentativa de resposta às pressões americanas, designadamente Donald Trump, que ecoa as narrativas russas. Isto vem no sentido justamente de comentários de Trump numa entrevista que ele deu ao Politico, em que vem dizer isso mesmo, que os ucranianos usam a guerra para não fazer eleições, e esta é a resposta de Zelenskyy: "Não, não é verdade. Aliás, até posso tentar fazer eleições se me ajudarem a organizá-las". Mas há aqui um ponto que eu acho que é importante, que é, eu acho mesmo que os ucranianos necessitam de organizar eleições, porque o problema que nós vemos neste momento é que não há um fim da guerra à vista e será necessário organizar eleições a certa altura para legitimar as próprias lideranças ucranianas. E os ucranianos sabem disso. Agora, claro, organizar eleições no contexto de guerra é muito difícil. A lei marcial já foi decretada há quatro anos, mas há quatro anos ninguém imaginava que isto durasse tanto tempo. E, portanto, eu creio que seria avisado que Zelenskyy tentasse encontrar uma forma de organizar eleições. Nunca serão perfeitas, mas pelo menos calaria os críticos. Agora, ele é o presidente legítimo. Não há eleições na Ucrânia há muito tempo, como não houve, por exemplo, no Reino Unido durante 10 anos, durante a Segunda Guerra Mundial.
Claro que foi assim.
O problema é, imagine que isso dura mais dois, três, quatro, cinco anos. Se calhar é preferível tentar organizar eleições, as que se conseguissem organizar, porque isso pelo menos resolveria o problema durante algum tempo, até internamente, mais do que a pressão externa russa.
Trump diz também que a Rússia tem vantagem na guerra e que geralmente o tamanho vence, antecipando assim uma derrota ucraniana. Francisco, isto diz muito sobre o acordo de paz dos Estados Unidos, que depois de reunirem com Putin, depois da delegação norte-americana reunir com Putin, ficou, segundo o jornal Axios, com condições mais gravosas para a Ucrânia, nomeadamente em questões como concessões territoriais, sobre o controle da central nuclear de Zaporízhia e ainda quanto às garantias de segurança.
Sim, a pressão americana continua e acima de tudo mostra uma visão muito básica do Donald Trump em relação a quase tudo. Se o tamanho ganhasse, eu não sei quem ganha a Guerra do Vietnã, ele já era vivo, ele não foi, não participou. Mas eu tenho a impressão que os Estados Unidos não ganharam essa guerra, como a Rússia não ganhou, a União Soviética, a guerra no Afeganistão. Enfim, e já estamos nisso há quatro anos. Se, de facto, o tamanho ganhasse, então explique como é que quatro anos depois, o grande país, o maior país do mundo, não consegue avançar, para além de ganhos glaciais no campo de batalha. Isto faz parte da pressão americana sobre a Ucrânia, mas não está a resultar, porque vimos as reuniões dos ucranianos com os europeus e depois Trump está, no fundo, a colocar-se num canto, porque o que é que vai fazer a partir de agora? Já se percebeu que está a pressionar a Ucrânia, não está a funcionar. O que vai fazer a seguir? Vai voltar a pressionar a Rússia, como a certa altura fez durante este ano, ou vai romper completamente com a Ucrânia e passar ativamente para o lado da Rússia? Não parece que queira fazer também isso. Portanto, ele vai tentando pressionar as partes e pressionar a parte mais fraca, que é a Ucrânia. E eu creio que isso é algo que toda a gente já percebeu e perdendo muito surpresa. Por vezes usamos a ideia de tiro louco das relações internacionais. O problema é que já ninguém acredita muito em nada do que vem dos americanos e este tipo de linguagem se calhar funcionava há um ano, mas um ano depois eu acho que a sua eficácia realmente é muito reduzida neste momento.
Sobre a Venezuela, Donald Trump diz que Maduro tem os dias contados e não descarta uma invasão terrestre do país. Há inclusive notícias que apontam para um ataque até o Natal. Entretanto, o Irã manifestou esta terça-feira o apoio incondicional a Caracas. Francisco Pereira Coutinho, ponto de situação conseguimos fazer.
O apoio iraniano não vai resultar em grande coisa para Nicolás Maduro, presumo. Mas em relação aos americanos, de facto, têm o maior porta-aviões nas Caraíbas, mais de 3 mil marines nas Caraíbas. Portanto, tudo indica que querem fazer alguma coisa. O que é em concreto? Ninguém sabe. E eu acho que o próprio Trump ainda também não sabe, ainda não decidiu o que é que quer fazer, porque uma invasão terrestre propriamente também não tem homens pra isso, nem quereria arriscar. Agora não podemos excluir a possibilidade de um ataque aéreo, provavelmente pra tentar forçar Nicolás Maduro a sair. Mas e o dia seguinte, quem é que o substitui? Será Corina Machado? Acho pouco provável, provavelmente outro alguém do regime. Portanto, provavelmente ele estará a fazer isto, e está a fazer isto já há vários meses, pra tentar extorquir um acordo mais favorável aos Estados Unidos na exploração dos recursos venezuelanos. Isto é claramente uma prática predatória, mais do que propriamente uma tentativa de impor a democracia na Venezuela. Isso parece-me bastante evidente.
Quanto ao Médio Oriente, Netanyahu diz que os ataques de 7 de outubro revelaram uma falha grave, que deve ser alvo de uma investigação imparcial e não tendenciosa a favor de qualquer dos lados. Deu como exemplo a comissão criada depois do 11 de setembro nos Estados Unidos, em que metade era republicana e a outra metade democrata. Francisco, parece-lhe que seja possível chegar-se aqui a um equilíbrio nessa investigação?
Vai ser muito difícil e será um dos temas mais tóxicos em Israel, porque Netanyahu, nos últimos dois anos, o que tem feito é tentar culpar os militares por aquilo que aconteceu a 7 de outubro, e tentando evitar a todo o custo qualquer tipo de investigação independente. É um bom sinal que esteja a dizer isso, mas isto vai resultar justamente da pressão que vai surgindo dentro de Israel para que seja feita uma investigação independente àquilo que ocorreu, que não foi feita durante a guerra. Mas entretanto, como o cessar-fogo aparentemente se tem aguentado e se discute agora a possibilidade de avançar pra uma segunda fase e vamos entrar no ano eleitoral em Israel, eu creio que é Netanyahu, no fundo, a abrir um pouquinho a porta, justamente para não ser acusado de estar a tentar esconder alguma coisa e designadamente esconder as suas próprias responsabilidades, que vai ter que, provavelmente este ano, ter que responder sobre elas, porque as pessoas vão lhe perguntar qual é a sua responsabilidade, tendo em conta que foi primeiro-ministro de Israel de forma quase ininterrupta nos últimos 15 anos.
Francisco Pereira Coutinho, muito obrigada pela sua análise em mais um Gabinete de Guerra, hoje mais curtinho do que o habitual. Um bom dia, Francisco.
Bom dia, obrigada.
Obrigada.