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Gabinete de Guerra agora na Rádio Observador com os membros residentes, apostos, Bruno Cardoso Reis, coordenador do Doutoramento em História e Defesa do ISCTE, Academia Militar, e ainda com a Judite França, o Bruno Vieira Amaral e a Vanessa Cruz. Vanessa, entre os pontos na ordem de trabalhos para hoje temos a pressão sobre a China e também a reunião do Conselho de Segurança da ONU.

Zelensky e o ministro russo dos Negócios Estrangeiros, Sergei Lavrov, marcam os dois presença neste Conselho de Segurança da ONU. A reunião começou logo com um protesto do embaixador russo a questionar por que Zelensky tem direito a falar antes dos membros do Conselho. Bruno Cardoso Reis, estava-se mesmo a ver que isto ia acontecer. Tens alguma expectativa para este encontro, que já se percebeu estar tenso, com a Ucrânia a pedir a retirada do poder de veto a Moscovo? É uma pergunta que vamos tentar fazer ao Bruno Cardoso Reis daqui a pouco. Vamos tentar estabelecer essa ligação para este Gabinete de Guerra, numa altura em que está a decorrer esse Conselho de Segurança das Nações Unidas. Volodymyr Zelensky tem estado a discursar nos últimos minutos. Diz Zelensky que devia ser retirado esse poder de veto a Moscovo. É um pedido feito frente a frente ao embaixador russo e a Sergei Lavrov. Zelensky quer que os países agressores deixem de participar no Conselho de Segurança. Logo no início do discurso, Zelensky também disse, com todas as letras, que a Rússia matou milhares de pessoas. Afinal, e a esta atualização, Sergei Lavrov, o ministro russo dos Negócios Estrangeiros, não está presente. Quem está presente é o embaixador da Rússia, que está a representar Moscovo. Isto numa altura em que esse encontro decorre há cerca de meia hora e o primeiro-ministro albanês é que está a presidir ao encontro. Agora sim, já contamos com o Bruno Cardoso Reis. Bruno, estava aqui a perguntar-te se se estava mesmo a ver que ia haver este protesto por parte do embaixador russo, por Zelensky ser o primeiro a falar neste Conselho de Segurança.

Sim, era expectável, por um lado, que o Lavrov não estivesse presente, como uma forma de tentar desvalorizar a sessão em que está Zelensky. Portugal era um clássico também neste tipo de postura, desafio às Nações Unidas no tempo em que éramos uma potência colonial. E depois a outra questão também que era habitual na diplomacia portuguesa na ONU nos anos 50, 60 e 70, era realmente procurar sempre desafiar, em termos de processos procedimentais, aquilo que estava a ser feito. Mas quem define a agenda, ou seja, quem é que fala primeiro, segundo, terceiro, é o presidente da sessão. Portanto, isso sempre foi assim, a Rússia sabe isso perfeitamente. Isto é, no fundo, uma tentativa de desviar atenções e mostrar, sobretudo, diria eu, algum serviço a Putin. Portanto, estes diplomatas russos mostrarem que fazem alguma coisa para tentar impedir Zelensky de falar, mas é evidente que isto não tem nenhuma base.

Bruno, vamos agora à pressão sobre a China. O presidente do Conselho Europeu quer que Pequim faça mais para acabar com a guerra e para que conduza a Rússia a uma paz justa na Ucrânia. Do outro lado, há a pressão de Putin, em sentido contrário, porque hoje soubemos que Putin vai visitar a China já no próximo mês. Na tua opinião, para onde irá balançar Xi Jinping?

Eu não vejo razões para achar que ele vai alterar muito a postura que tem. Ou seja, por um lado, a Europa representa, mesmo com o aumento importante do comércio entre a China e a Rússia como resultado da guerra e da falta de opções que a Rússia tem em termos de exportações. Mesmo como resultado disso, as relações comerciais ainda não chegam aos 200 mil milhões de dólares. Ora, com a Europa chegam quase aos 900 mil milhões de dólares. Portanto, a Europa é um mercado muito mais importante, os Estados Unidos é praticamente outro tanto. O comércio entre a China e Europa e a China e os Estados Unidos, apesar de todas as tensões, também cresceu e é fundamental e indispensável para a economia chinesa, sobretudo numa altura difícil. Portanto, parece-me que Xi vai continuar a dar sinais políticos de que valoriza a parceria estratégica com a Rússia, vai tentar continuar a fazer bons negócios com o máximo de desconto, por exemplo, na compra de petróleo e de gás com a Rússia, que é uma forma indireta de apoiar o Estado russo no contexto desta guerra. Agora, não vai dar armamento para a Rússia, não vai vender armamento à Rússia, quando muito algum material de duplo uso. A Europa vai continuar a pressionar para que isso não aconteça e, de preferência, que a China limite, nomeadamente este material de duplo uso, tecnologia mais avançada que possa ser útil ao esforço de guerra. E acho que a China aí vai tentar balancear um pouco e equilibrar as coisas, mas não vejo que, independentemente destes gestos e até desta visita de Putin, haja razões, para já, para achar que vai haver uma grande alteração na postura chinesa, que é uma postura que não sendo de verdadeira neutralidade, não sendo de verdadeiro equilíbrio, ou seja, é um pouco mais próxima da compreensão, mostra sempre mais compreensão pela posição da Rússia do que dos países ocidentais ou da Ucrânia, mas não é uma posição de completo apoio à Rússia, e muito menos de apoio militar à Rússia também nesta invasão da Ucrânia.

Zelensky levou ontem vários objetivos, traçou no discurso que quer ganhar apoios para uma fórmula de paz, mas também pretende mais apoio político-militar, pretende pressionar a Rússia a aceitar o acordo de cereais. Achas que é possível atingir algum dos objetivos que se propôs?

Acho que o discurso de ontem foi bastante hábil. Mostrou de forma bastante eloquente que realmente a guerra, a invasão russa da Ucrânia, não afeta apenas a Ucrânia. O acordo de cereais desta guerra russa contra a segurança alimentar global é um bom exemplo disso. Francamente, acho que, de forma muito realista, não é muito realista pensar que, por causa de um discurso, por muito eloquente, por muitos dados importantes que Zelensky tenha destacado, que isso leva a uma mudança de fundo na posição dos Estados. Já passou bastante tempo, os Estados já tiveram tempo para obter esclarecimentos, perceber melhor a situação, para se situarem. Portanto, acho que neste momento não é muito realista esperar grandes mudanças, a não ser que haja mudanças de regime ou mudanças de governo em algum Estado importante. Não me parece que seja muito realista pensar que poderá ter um efeito dramático na posição de Estados como, por exemplo, o Brasil, com quem o próprio presidente Zelensky, à partida, se irá encontrar, com o líder brasileiro, com o Lula. Acho que o máximo que se pode tentar é limitar um pouco, ou pelo menos contrariar um pouco a narrativa, a propaganda russa, que tem um certo impacto no sul global, e procurar evitar que estes Estados se aproximem mais da Rússia, que assumam uma posição mais para a Rússia. Acho que isso é o máximo que é realista esperar deste tipo de ação diplomática da Ucrânia.

Bruno, ainda no rescaldo deste arranque da Assembleia Geral da ONU, a Polônia vem protestar contra as declarações de Zelensky ontem, por ter se referido a um teatro político, foi esta a expressão, a um teatro político a ajudar Moscovo, isto a propósito da importação de cereais. Assentou a carapuça à Polônia, pode advir daqui uma tensão entre os dois países que nada convém neste momento?

Achei interessante que Zelensky tivesse feito essa referência. Acho que isso mostra bem até que ponto realmente a Ucrânia está desapontada e irritada também com a oposição da Polônia. Francamente, acho que é uma crítica bastante justa. Acho que isso tem tudo a ver com as eleições que se estão a aproximar na Polônia, com o facto de o partido que está no poder depender muito do voto das zonas mais rurais, das zonas mais agrícolas. Acho que é extraordinário que um governo que passou estes últimos dois anos, e até antes disso já, o tempo todo a dar lições moral e bom comportamento aos outros Estados europeus, à Alemanha, à França, sobre não serem suficientemente aliados e apoiantes da Ucrânia, por porem à frente dos interesses da segurança europeia, da resistência à agressão russa, até por uma questão de princípio, porem os seus interesses egoístas, os seus interesses econômicos. Por exemplo, fez críticas extremamente duras à Alemanha por causa dos negócios do gás com a Rússia e depois a seguir, quando se trata de pedir à Polônia que faça algum sacrifício econômico, mesmo que não tome medidas para atenuar um pouco o impacto negativo da exportação de cereais ucranianos, que é um resultado direto desta guerra, do facto de a Rússia impedir a exportação por via marítima para os clientes habituais, e isso ter obrigado a exportar por via terrestre e muitas vezes para os vizinhos mais próximos. Mas não se trata realmente de atenuar isso, trata-se simplesmente de impedir completamente o escoamento dos cereais por via da Polônia e acho que isso é realmente uma enorme contradição com todo o discurso polaco, e eu diria até com os interesses estratégicos da Polônia de conter o expansionismo russo, de apoiar a Ucrânia por razões partidárias, por razões eleitorais.

Bruno Cardoso Reis, ponto final neste nosso encontro no gabinete de guerra, numa altura em que está a decorrer essa reunião do Conselho de Segurança, que estamos a acompanhar também em observador.pt. Até amanhã, Bruno Cardoso Reis.

Até amanhã.

Rádio Observador