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Este é o Gabinete de Guerra da Rádio Observador. Eu sou o Luís Soares e connosco temos hoje o politólogo José Filipe Pinto. Boa tarde, José Filipe Pinto. Obrigado por se juntar a nós mais uma vez. Começamos hoje com os ataques israelitas na Síria. Há pelo menos 16 mortos, a contabilidade ainda não é totalmente certa. No entanto, há quem diga que este é o pior ataque israelita contra a Síria. Que significado têm estes ataques, José Filipe Pinto, e que efeitos podem provocar no conflito do Médio Oriente?
Muito boa tarde, Luís Soares. Boa tarde, senhores ouvintes. Esta é uma prova a mais de que este conflito não é local, é regional e numa perspectiva mais global. Portanto, o que acontece é que durante muito tempo nós nos concentrámos num conflito entre o exército israelita e o Hamas. Depois percebemos que o Hezbollah também era parte interveniente. Agora estamos a perceber a questão da Síria, a questão das milícias sírias. E por quê? Porque repare, o que Israel disse é que tinha atacado um local em que estavam a fazer armas químicas. E a grande verdade é que nós percebemos que o Irão tem muitos proxies na região e verdadeiramente é o Irão que está a controlar tudo. Repare, quando o Irão acusou Israel de um ataque criminoso na Síria, ao dizer que tinha sido este ataque criminoso, significa que se colocou imediatamente ao lado da Síria. Mas de fato, o que Israel diz é que atacou um centro de investigação militar e que se destina a produzir armas químicas que são utilizadas contra Israel. O que isto prova, verdadeiramente, é que este conflito está longe de se centralizar ou de se reduzir apenas a Gaza. E por isso mesmo, o ministro da Defesa, Yoav Gallant, disse já que está preparado pra escalada do conflito na fronteira norte de Israel. E por isso mesmo, o que nós estamos a perceber é que neste momento as negociações estão presas por um corredor, o corredor de Filadélfia. Com as palavras de Gallant e com esta incursão e este ataque israelita na Síria, nós percebemos que vai aumentar, e muito, o valor estratégico do corredor de Netzarim, aquele que divide Gaza em duas partes. E a seguir vai aumentar muito a influência da zona norte de Israel. E por quê? Porque a população deslocada de Israel da zona norte está a começar a querer regressar a casa e não pode regressar a casa enquanto o Hezbollah for uma ameaça permanente e constante. Portanto, o que nós aqui temos é um conflito em que o Irão dita a regra, os seus proxies seguem essa regra e cada um deles também tem a sua agenda própria. E verdadeiramente, nós pensamos num grupo e não temos um grupo. E talvez valha a pena recordar, Luís, que quando as fações palestinianas se reuniram na China para tentar uma solução pós-conflito, não esteve lá uma, nem duas, nem três, foi mais de uma dúzia de fações palestinianas, o que prova aquilo que eu sempre tenho dito: não há um povo palestiniano, há muitas etnias e há muitos grupos dentro deste pretenso povo palestiniano.
Há instantes houve um comunicado, José Filipe Pinto, do Ministério Sírio dos Negócios Estrangeiros a alertar que, na sequência deste ataque israelita, o Médio Oriente está a ser empurrado por Israel para um abismo perigoso e que terá consequências graves que não podem ser previstas. De que consequências é que podemos estar aqui a falar?
Poderemos levar a uma escalada a nível global. Nós não podemos esquecer que a Síria de Bashar al-Assad foi apoiada pela Rússia de Putin no conflito que manteve contra o Estado Islâmico, mas que também a Turquia entrou nesse conflito e que se preocupou muito mais em bombardear os curdos do que propriamente atacar o Estado Islâmico. Portanto, o Médio Oriente é neste momento um barril de pólvora e é evidente que um governo extremista que Israel tem, tem todas as condições para atiçar o rastilho. Mas temos de perceber quem está do outro lado. Do outro lado estão essencialmente grupos terroristas, porque, de fato, nós falamos do Líbano, mas o Líbano é uma terra de ninguém. Nós falamos da Síria, mas nós percebemos que a Síria de Bashar al-Assad não consegue impor a sua autoridade ao país inteiro. E temos que perceber que não é por acaso que os Estados Unidos têm bases militares em praticamente todos estes países da região. E o que acontece neste momento é que o Irão está também a tentar que os seus proxies ataquem essas bases. Ora, por quê? Porque repare, neste momento nós sabemos que o Irão, e é o outro conflito, já está a mandar mísseis balísticos para a Rússia. Isto prova o quê? Que há um envolvimento. Houve desde o início um envolvimento e que este conflito que se pensava local é global. E é global porque há players, há intervenientes, há agentes que estão em todos os cenários de guerra, direta ou indiretamente.
José Filipe Pinto, em todo este contexto e com tudo aquilo que temos vivido e todos estes ataques, hoje há essa visita também do chefe do Comando Central dos Estados Unidos a Israel, com a situação no Líbano e no Irão também em cima da mesa. Ao mesmo tempo, como também dizia há pouco, continuam essas negociações para se tentar alcançar a paz na Faixa de Gaza. De que forma ou até quando é que vai continuar este impasse, tendo em conta que nem Israel, nem o Hamas encontram um pano comum para conseguir esse entendimento e, por outro lado, que papel é que poderá ter aqui os Estados Unidos para tentar também conseguir, dentro de todos estes conflitos, que são vários, apesar de serem um só, conseguirem também tomar mão em toda esta questão do cerco?
Muito bem, Luís. É que estes conflitos, que afinal parecem muitos, são um só. E é importante percebermos que o Hamas, por exemplo, está a acusar os mediadores norte-americanos de estarem a envenenar as negociações, ao dizerem que o Hamas tinha exigido a libertação de um número mais elevado de prisioneiros O Hamas está a procurar fazer-se de vítima e conseguiu levar parte da opinião pública, incluindo norte-americana, a esquecer-se que foi ele o responsável pelo massacre de 07/10. E é por isso que os Estados Unidos estão tão empenhados. Está a decorrer nos Estados Unidos a campanha eleitoral. Não sabemos quem vai vencer, se Kamala Harris, se Trump. E o que acontece é que desta vitória resultará não a resolução do conflito, porque o conflito vai manter-se ad eternum, vai ser para sempre, mas poderá haver, isso sim, um cessar-fogo, ainda que temporário. O que acontece é que os Estados Unidos estão a apostar tudo. Biden gostaria de deixar um legado e o legado dele ficará sempre marcado, eu acabei de escrever isso para os Estados Unidos, ficará sempre marcado pela retirada do Afeganistão. E é evidente que ele pretendia agora deixar um legado pela positiva, não pela negativa, porque nós percebemos que a retirada das tropas dos Estados Unidos do Afeganistão traduziu-se na chegada dos talibãs ao poder. E agora percebeu-se que foram sacrifícios sem efeito nenhum prático. Neste momento, Biden queria deixar um legado pela positiva, mostrar que tinha conseguido juntar à mesma mesa os representantes daquelas fações palestinianas e de Israel e que tinha encontrado, se não uma solução para o conflito, como eu disse é intemporal, pelo menos uma solução precária para esta guerra, uma paragem, ainda que momentânea. Biden precisa disso e por isso está tão empenhado. Mas a grande verdade é que a história muitas vezes desautoriza a nossa vontade. E o que acontece aqui é que verdadeiramente nenhuma das partes, e sejamos claros, nenhuma das partes, nem o Hamas, nem os proxies do Irão, nem, por outro lado, Israel, estão interessados no fim do conflito. Aliás, eles alimentam-se precisamente da manutenção do conflito e os reféns, custa muito dizer, mas é um facto, são apenas uma moeda de troca.
José Filipe Pinto, vamos olhar ainda também para o conflito entre a Rússia e a Ucrânia, com essa notícia já confirmada também pela Romênia e pela Lituânia, da violação do espaço aéreo de um país da NATO por parte da Rússia, por causa dos drones russos que violaram o espaço aéreo na Letónia e também na Romênia. Pensa que isto poderá trazer algumas consequências neste conflito entre a Rússia e a Ucrânia?
É difícil, por quê? Porque apesar de serem membros, por exemplo, depois de alguns destes membros, destes países serem também membros da União Europeia e também membros da NATO, porque nem todos os membros da União Europeia são membros da NATO, a grande verdade é que há aqui um problema grave, porque do artigo quarto para o artigo quinto da NATO é um passo muito curto e a NATO não está interessada, ao contrário de Zelenskyy, em ingressar no conflito na Ucrânia. Aliás, há um dado muito importante, e nós temos que perceber isso à luz das palavras do nosso ministro dos Negócios Estrangeiros, que mais não faz do que reproduzir também em parte aquelas que têm sido as palavras de Ursula von der Leyen, a presidente da Comissão Europeia. Existe, de facto, em várias capitais da União Europeia, o desejo de antecipar a entrada da Ucrânia na Comunidade Europeia. Eu julgo, a meu ver, é um erro, porque a Ucrânia tem um longo caminho a percorrer antes de estar preparada para a adesão. Boa vontade, a meu ver, não chega. A Ucrânia não é uma democracia. Aliás, nunca foi uma democracia, mesmo que incompleta, a não ser nos três primeiros anos iniciais do índice de democracia, ou seja, em 2006, 2008 e 2009 ou 2010. Zelenskyy recebeu, e essa é a verdade, um regime híbrido e não o transformou numa democracia. E o que acontece é que Zelenskyy apresenta-se como o oráculo da defesa da democracia contra a ditadura. Nenhuma dúvida, Luís, de que a Rússia é uma ditadura. Ontem houve eleições regionais na Rússia. Em 49 das 83 regiões, o partido de Putin venceu com praticamente dois terços dos votos. Só que nós sabemos que em um regime totalitário, ou pelo menos autoritário a tender para totalitário, não há eleições livres. E o que acontece é que nós temos aqui de um lado uma ditadura e do outro lado um regime híbrido. E os vizinhos tomaram o partido do regime híbrido. Por quê? Com medo da expansão russa. Eu já expliquei muitas vezes que, a meu ver, o que aqui está em causa é a expansão da ordem eurasiana. Que Moscou pretende anexar o Donbass e a Crimeia, que evidentemente essa será a sua fronteira ocidental e que os vizinhos, em princípio, nada terão a temer. Mas nós percebemos que não é esse o sentimento de quem está nas proximidades da fronteira com a Rússia. Por isso percebemos que a Suécia aderiu à NATO, por isso nós percebemos que a Finlândia aderiu à NATO e é por isso que todos estes países que sentem o seu espaço aéreo invadido por um drone, imediatamente dão conhecimento à organização, no sentido de essa organização, no caso a NATO, os vir a proteger. Mas atenção, é importante que percebamos que eu não penso que a Rússia pretenda atacar todos os países vizinhos. Agora a questão da Ucrânia tendo a encontrar uma solução.
José Filipe Pinto, entretanto, nesta semana, o ministro chinês dos Negócios Estrangeiros vai à Rússia para participar numa reunião dos países membros dos BRICS, dedicada precisamente à segurança. Queria perguntar-lhe, por um lado, qual a importância desta reunião e também a importância da presença do ministro chinês também na Rússia.
É muito grande. A China anda a prometer um mundo harmonioso. Anda a prometer aquilo que o governo chinês chama Tianxia Que significa o mundo abaixo do céu e que significa que não há lugar a hegemonias. Eu penso que isto é uma tentativa de terminar, de uma vez por todas, com o paradigma da hegemonia americana e criar aquilo que eles chamam o mundo pós-hegemônico. Verdade que, a meu ver, esta tentativa do mundo pós-hegemônico nada mais é do que uma tentativa de Pequim de impor uma hegemonia chinesa. Primeiro como a base comercial e a seguir como a base militar. Importaria ver, por exemplo, como é que a China alterou o estatuto de concessões de cariz econômico, por exemplo, no Djibouti, para o elemento bélico ou militar. E o que importa aqui percebermos é que a China, que apresenta aquele ar seráfico, em que o seu líder tem sempre aquele sorriso complacente, verdadeiramente está a assistir da plateia ao desenrolar dos conflitos, mas está sempre presente neles. O sharp power chinês é inúmero, é imenso, está a influenciar toda a mundividência ocidental. E o que acontece é que neste momento a China está a conseguir ir além daquele que é o seu objetivo, que é impor a ordem da Rota da Seda. Verdadeiramente, a China está a tentar substituir-se aos Estados Unidos. Neste momento tem a Rússia como aliado, e daí a importância desta reunião. E por quê? Tem a Rússia como aliado porque tem um inimigo comum que é os Estados Unidos. Num segundo momento vai desentender-se com a Rússia, porque verdadeiramente o grande desafio para a hegemonia norte-americana, que já terminou, mas a ordem liberal mantém-se em vigor, não é a Rússia. O grande desafio é a China. E por isso mesmo a China fala em paz, mas a sua paz é o modelo imperial em que todos eram vassalos do imperador chinês. A Tianxia nada mais é do que isso. E não é por acaso que a elite intelectual chinesa recuperou a imagem da Tianxia.
E é nesse contexto, José Filipe Pinto, que podemos compreender que Moscou vai enviar forças navais e aéreas para participar num exercício da China no mar do Japão e no mar de Okhotsk, é uma palavra difícil ainda neste momento, é nesse contexto também que devemos perceber tudo isto?
Exatamente. Significou que a China está a fazer aquilo que na Marinha se chama mostrar a bandeira. Está a mostrar a bandeira em mares onde há muito não navegava. Para mostrar o quê? Que neste momento a sua expansão é de cariz econômico, mas que há três eixos que a China percebe que dominam as relações internacionais. É o eixo economicista e a China é a principal potência. É o eixo belicista ou pugnológico e a China está a apetrechar-se. E há um outro eixo, é o eixo normativo, que tem uma base ocidental. O que é que a China está a fazer? Está a dizer que as grandes cartas de princípios devem ser interpretadas à luz de cada civilização. Significa que a China reserva-se o direito de fazer a sua própria interpretação. E entretanto vai mostrando a bandeira. Vai mostrando a bandeira, mostrando que a sua política expansionista, verdadeiramente, em nome da amizade, em nome do mundo harmonioso, nada mais é do que uma tentativa de imposição da hegemonia chinesa.
José Filipe Pinto, muito obrigado por ter estado em mais um Gabinete de Guerra da Rede Observador. Eu sou o Luís Soares, o Gabinete de Guerra está de regresso amanhã.
Uma boa tarde, Luís.