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E está na hora de reunir o gabinete de guerra da Rádio Observador. O secretário-geral da ONU está em Kiev e paira sobre a União Europeia uma ameaça de ataques terroristas. Temas que vamos analisar com a ajuda do Bruno Cardoso Reis, mas também aqui em estúdio com o Bruno Vieira Amaral e com a Vanessa Cruz.

E entretanto, na última hora, hora e meia, os ministros da Defesa da União Europeia chegaram a um acordo político no que toca à compra conjunta de munições. Já estão sinalizadas 15 empresas. Bruno Cardoso Reis, é um primeiro acordo e vão ser utilizados 2 mil milhões de euros para os recursos disponíveis, é o que diz a ministra Helena Carreiras. O que é que te parece esta compra conjunta de munições, já com empresas sinalizadas? Era a solução possível?

Eu acho que são passos importantes. Ainda há aqui coisas a acabar de definir, exatamente qual será o montante pra essa compra conjunta. Para já, o que está avançado é os tais mil milhões que já estão no Fundo Europeu de Apoio à Paz, que é um mecanismo que foi criado apenas em 2021, aliás, durante a presidência portuguesa da União Europeia, e que permitia comprar equipamento militar para fornecer a países parceiros, amigos, e que depois passou logo a ser usado com uma quantidade imensa de recursos para ajudar a Ucrânia. Portanto, nesse caso, são compras para reembolsar Estados, até com uma majoração, esse reembolso muitas vezes não é 100%, mas aqui seria muito próximo disso, a Estados que já têm munições disponíveis, ou seja, que estão na parte das suas reservas de guerra e portanto podem ser imediatamente disponibilizadas à Ucrânia, ou que estão encomendadas e que estão próximas de chegar nas próximas semanas, nos próximos meses. Isso é em linha com aquela insistência do Josep Borrell, que eu acho que é muito pertinente, que aqui é fundamental a quantidade e também a rapidez das entregas. E depois a segunda questão, que tem mais a ver com a sustentação do esforço de guerra e do apoio à Ucrânia, em termos de não haver dúvidas de que a Ucrânia se pode continuar a defender no médio prazo, no longo prazo. Portanto, esta compra conjunta seguindo um pouco o método das vacinas. Aí é fundamental já haver um trabalho também prévio. Aí foi utilizado a Agência Europeia de Defesa, que tem como obrigação coordenar o investimento em defesa e também procurar promover projetos precisamente conjuntos, mas que são voluntários, portanto, um conjunto de Estados da União Europeia, podem ser todos, podem ser alguns, mas aqui ficaria também essa Agência de Defesa Europeia com a missão de avançar com essa compra conjunta, uma vez que obviamente tem expertise técnica e tem os contactos, o conhecimento da realidade industrial europeia. E depois ainda há um terceiro aspecto que é um plano que ainda está mais indefinido e que exigirá mais decisões para promover, como disse o Josep Borrell, um upgrade, portanto um aumento da capacidade de produção da indústria de defesa europeia, tendo em conta o contexto internacional muito mais perigoso em que estamos a viver, com uma guerra à porta da Europa. E aí também há a informação de que o comissário que tem esta pasta da indústria de defesa, o Thierry Breton, o comissário francês, também já terá planos relativamente avançados sobre como fazer isso, envolvendo até também o Banco Europeu de Desenvolvimento. Portanto, tudo isso parece muito boas notícias, notícias muito importantes. Infelizmente, em termos de grandes quantidades de munições, isso não será tanto assim, porque depende do que é que já está em armazém e depende também destas questões irem avançando com o máximo de rapidez, mas não terão efeitos instantâneos. Mas em todo caso, mostram que de fato a Europa está aqui a fazer o seu trabalho de casa e a procurar avançar com uma preocupação de rapidez numa questão que é realmente fulcral, quer para o futuro da guerra na Ucrânia, quer para o futuro de uma defesa credível da própria Europa.

Bruno, relativamente ao encontro entre António Guterres e Volodymyr Zelensky em Kiev, o secretário-geral da ONU considera crítico prolongar o acordo para a exportação de cereais. Diz que tem que ser renovado até o final da próxima semana. Será, à partida, viável que isso aconteça? E será que António Guterres aproveitou para indagar sobre negociações de paz?

Eu penso que o secretário-geral das Nações Unidas continua muito focado nestes aspectos mais concretos. Há um outro que também foi discutido, aparentemente, que tem a ver com as deportações, com alegações ucranianas e alguns testemunhos credíveis de que há a população ucraniana que está a ser forçada a ir pra Rússia e em particular a questão da deportação de crianças. Crianças que são separadas das famílias com a alegação de que vão pra zonas mais seguras nos territórios ocupados pela Rússia e que depois, mesmo quando esses territórios são recuperados, ficam separadas das suas famílias. Aí eu acho que poderia ser uma área em que talvez as Nações Unidas pudessem ter um papel mais ativo, como teve já no passado em relação à troca de prisioneiros, como teve em relação a algumas evacuações de populações civis na fase mais inicial da guerra e, sobretudo, depois há esta questão dos cereais. Eu acho que ela é claramente prioritária, certamente é a principal explicação da visita neste momento. Estamos a 10 dias De expirar este novo período de renovação do acordo de cereais. E realmente ele é fundamental. A Ucrânia e a Rússia representam em conjunto, cerca de 30% das exportações de cereais à nível global, são os principais fornecedores de muitos países com enormes problemas e enormes deficiências em termos da sua capacidade de alimentar a sua população, países do Médio Oriente, países em África. E portanto, de facto, é fundamental que o acordo continue a funcionar. Além disso, tem este efeito indireto, que é se retirarmos esta porcentagem, ou mesmo que seja apenas uma parte desta porcentagem da exportação normal de cereais, obviamente, isso vai levar não só à escassez em certos países, mas também a um aumento do preço e isso obviamente afeta a todos, inclusive afeta-nos também a nós, tem um efeito muito negativo na economia global e, portanto, acho que realmente o secretário-geral António Guterres tem toda a razão em dizer que é indispensável que este acordo continue e deve ser aqui uma prioridade da ação política das Nações Unidas, criar pressão sobre as partes, em particular sobre a Rússia, que está mais uma vez a ameaçar acabar com o acordo para fazer com que ele seja realmente renovado.

E já que falamos em pressão, Bruno, a NATO admite que Bakhmut possa cair nos próximos dias para os russos, mas Jens Stoltenberg, o secretário-geral, diz também que isso não representa um ponto de viragem nesta guerra. Não representará mesmo?

Eu acho que tudo depende das consequências e das implicações ou eventuais complicações. Eu acho que há aqui algum receio da parte dos aliados ocidentais e de alguns analistas que no fundo a Ucrânia esteja a perder um pouco de vista as suas prioridades, que esteja a deixar levar por esta narrativa política construída em torno de Bakhmut como a fortaleza heroica da resistência ucraniana. E portanto, era muito importante, de facto, a Ucrânia não comprometer tropas, reservas que tenha e que seriam fundamentais para conseguir depois fazer ofensivas noutras zonas da frente, onde há mais possibilidade de uma rutura com mais sucesso e também mais impactante em termos de estruturar a frente russa do que propriamente nesta região. Há o receio, eventualmente, de um cerco, ou seja, de pelo menos uma parte destas tropas ficarem condenadas a serem perdidas, como aconteceu em Mariupol. E portanto, acho que há aqui sinais que da parte ocidental há alguma tentativa de, por um lado, retirar a pressão em termos da narrativa política, ou seja, deixar claro que isto não vai ser uma viragem, não é um teste da capacidade de resistência da Ucrânia, que não será interpretado assim no Ocidente. Por outro lado, eventualmente, isto também pode ser visto como uma certa forma de pressão sobre a Ucrânia para não investir aí demasiados recursos, demasiados meios, demasiados homens, que poderiam ser utilizados de forma mais eficaz noutros pontos da frente. Agora, claramente é uma decisão difícil realmente para a Ucrânia, porque tem aqui implicações políticas em termos também de uma certa guerra de propaganda. Será certamente declarada uma grande vitória pela Rússia, pelo grupo Wagner, e portanto, há esse lado. E depois também há esta outra questão que é, apesar de tudo, enquanto Bakhmut se mantiver como o ponto quente, como a prioridade, a Ucrânia consegue ter algum controle sobre onde é que os russos estão a empenhar o essencial das suas forças em termos da linha da frente. Se Bakhmut cair, isso abre outras opções em termos de ofensivas russas nesta região ou mesmo noutros pontos da frente, e isso também obviamente cria outros riscos em relação à Ucrânia. Portanto, são realmente opções difíceis, mas parece claro que os analistas e os responsáveis ocidentais inclinam-se para que seria mais avisado a Ucrânia realmente optar por uma retirada estratégica e não empenhar aqui, sobretudo não empenhar aqui muitos meios para a defesa de Bakhmut.

Bruno, longe do terreno, a cidade de Bruxelas está em alerta depois de na passada sexta-feira a Comissão Europeia ter recebido um e-mail em russo a ameaçar ataques terroristas em massa na União Europeia. As autoridades belgas levaram a ameaça a sério. Ainda é preciso investigar, mas com o arrastar da guerra, crês que estas ameaças podem crescer e são ameaças credíveis?

A Rússia, o Estado russo já foi responsável por ações terroristas em território europeu. Os casos mais importantes, e que vêm logo à memória, são na Grã-Bretanha. Num caso, eu estava aliás a viver lá, até próximo dessa zona.

Os envenenamentos.

Ataque contra Litvinenko, o seu envenenamento com material radioativo. E depois, já em 2018, aquele ataque contra dissidentes russos, um dissidente russo e a sua filha em Salisbury.

Sergei Skripal. Exato.

Exatamente, o Sergei Skripal, e que vai levar à doença grave de vários britânicos, inclusive um dos responsáveis da investigação policial, que vão estar internados e entre a vida e a morte, vão acabar por sobreviver e vai haver mesmo uma vítima mortal.

Uma vítima, exatamente.

Uma pessoa normal, uma senhora de Salisbury que acaba por encontrar aquilo que acha que é um frasco de perfume, que na verdade seria precisamente o contentor desse material radioativo.

E muito se tem falado também dos ataques on-line, dos ataques que poderiam, isso falou-se muito no início da guerra, que poderia a Rússia utilizar como uma arma para atacar os países da União Europeia.

Sim, a Rússia também fez ciberataques, há alguns casos em que isso está também bastante documentado. Há toda uma doutrina de guerra híbrida que a Rússia acredita que o Ocidente faz contra a Rússia e que eles fazem em relação ao Ocidente. Agora, de facto, estas ameaças têm de ser levadas a sério. O meu ponto aqui fundamental é esse, têm de ser levadas a sério. A polícia belga aparentemente levou-as a sério, mas diz que conduziu uma investigação que não encontrou nenhum indício suspeito, nomeadamente no metro de Bruxelas, que seria aqui o alvo. Agora, eu acho que, de facto, tem de se continuar a acompanhar com preocupação. Há na propaganda russa, de facto, todos os dias, diariamente, da parte de propagandistas, vários deles elogiados, condecorados pelo presidente Putin, apelos a que o Ocidente seja atacado, a que haja ataques até com armas nucleares contra Londres, Paris, etc. Portanto, pode perfeitamente interpretar-se isso como uma forma de criar simplesmente pressão psicológica. Agora, pode haver aqui o risco de que a certo momento, certos setores dentro do regime ou até russos que Se sentem legitimados por esse tipo de narrativa, possam tomar algum tipo de iniciativa desse ponto de vista e portanto, está a haver aqui algum tipo de ataque. Para já, a informação que temos de fonte policial é que não parece haver razões para levar esta ameaça para outro nível que não seja uma tentativa de criar pressão, de fazer algum tipo de chantagem psicológica, de criar algum medo, mas realmente são ameaças que têm de ser levadas a sério, porque há um histórico por parte da Rússia de utilizar este tipo de ataques. É verdade que nesses dois casos que eu referi, em que houve envolvimento, que é possível documentar, nomeadamente dos serviços secretos militares russos, foram ataques direcionados a dissidentes russos que estavam a viver exilados num país europeu. Mas como eu disse, também como resultado de um desses ataques, acabou por ser vitimada a população civil britânica dessa localidade, Salisbury. Portanto, acho que isto significa que temos realmente de levar a sério esta ameaça.

Quatro pontos na ordem de trabalhos de hoje com o Bruno Cardoso Reis. Amanhã, nas manhãs 360, voltamos a reunir o gabinete de guerra. Obrigada, Bruno. Até amanhã.

Até amanhã. Obrigado.