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O grupo Wagner já não vai lutar mais na Ucrânia e essa decisão terá sido tomada antes da rebelião do último fim de semana. Este é um tema hoje em análise no Gabinete de Guerra, que conta com a ajuda do major general Isidro Morais Pereira e também com as dúvidas da Judite França, Bruno Vieira Amaral e Vanessa Cruz.

Prigozhin, o líder dos mercenários, ter-se-á recusado a assinar um contrato com o Ministério da Defesa Russo e isso terá resultado no fim da participação do grupo na guerra. Major-general Isidro Morais Pereira, bem-vindo. Diz a agência russa TASS que a decisão é alegadamente anterior à rebelião, como estava aqui o Nelson a dizer. Terá sido essa a gota de água que levou Prigozhin a encetar esta marcha, como lhe chama?

De facto, a Agência TASS, aquilo que diz parece corresponder completamente à realidade, se no fundo nos confrontarmos com aquilo que vinham sendo os sistemáticos discursos ou as narrativas de Yevgeny Prigozhin, que queria a todo o custo manter uma liberdade própria dele mesmo e dos seus mercenários relativamente a uma suposta dependência do Ministério da Defesa Russo, com o qual ele teve querelas insanáveis. Aliás, todos nós nos recordamos dos inúmeros ataques desferidos, há meses a esta parte, que era o ministro Shoigu, que era o próprio chefe do Estado-Maior General das Forças Armadas e ao mesmo tempo comandante do teatro de operações da Ucrânia, Valery Gerasimov. Portanto, isto não parece ser uma novidade pra nós, porque Prigozhin, quando entretanto a Rússia finalmente verificou que os inconvenientes ou que as desvantagens de continuar a ter organizações militares privadas, não controladas completamente pelo comando unificado das operações na Ucrânia, traziam-lhe mais desvantagens e mais dores de cabeça do que propriamente vantagens. Portanto, o crescimento numa operação desta natureza, numa campanha militar ou numa operação de grande envergadura, onde nós sabemos, por via de regra, é absolutamente fundamental pra que se tenha sucesso, que exista unidade de comando, exista uma cadeia hierárquica perfeitamente definida, onde exista apenas um comandante, que seja o responsável perante o poder político para conseguir conquistar os objetivos que lhe foram definidos pelo patamar político e que, entretanto, na campanha, foram todos eles traduzidos em objetivos militares, cujo somatório da conquista desses objetivos militares deve corresponder, deve dar um resultado de uma soma zero quando comparado com os objetivos político ou estratégicos que lhe foram fixados. Portanto, isto é absolutamente imprescindível, a existência de uma cadeia de comando clara e linhas de autoridade inquestionáveis. Portanto, Prigozhin questionou desde sempre a autoridade do próprio ministro Shoigu e do próprio general Valery Gerasimov, preferindo muitas vezes, e ele disse-o explicitamente, que de fato o único general a quem reconhecia competências para poder dirigir esta campanha e a quem supostamente estaria disposto a obedecer, seria ao general Surovikin, que neste momento tudo leva a crer que poderá estar num centro de detenção em Moscovo, que era um centro de detenção controlado pelo KGB e agora sob a alçada do FSB. Portanto, pensamos que nada disto é novo e Prigozhin ainda em meados deste mês, recusou assinar qualquer contrato com o Ministério da Defesa e aconselhou todos aqueles que dele dependiam a não assinar. Aliás, ele até tomou a voz ativa por aqueles que dele dependem e disse: "Nenhum dos meus homens irá assinar qualquer contrato com o Ministério da Defesa Russo". Portanto, parece-me que aqui não temos nada de novo e é Prigozhin a ser ele mesmo.

Neste caso, olhando agora para o caso de Serguei.

Sobre a questão de Prigozhin poder voltar ou regressar ao teatro de operações da Ucrânia, desta ou daquela forma, parece-me altamente improvável que num futuro próximo ou até a médio prazo, eu até diria a longo prazo, voltarmos a ver Prigozhin e uma organização que dependa dele a combater ao lado das forças regulares na Ucrânia. Não me parece de todo verosímil que possa vir a acontecer.

Major general Isidro Morais Pereira, perguntava-lhe se no caso de Surovikin, que falava ainda há pouco, o Kremlin tem estado a evitar responder a questões sobre o paradeiro do general, que terá tido conhecimento dos planos de Prigozhin. Mas a filha do general Armagedão, como é conhecido, diz que ele não foi-

General Armageddon. É, exatamente.

Diz que ele não foi detido, que está bem e a trabalhar. Qual é a sua sensibilidade pra este secretismo?

Eu prefiro muito mais basear as minhas análises em fatos. E muitas vezes eu confesso que neste conflito que vemos A que temos vindo a assistir ao longo destes 16 meses, muitas vezes torna-se difícil apurar ou destrinçar aquilo que de fato são fatos em si e que revelam verdades daquilo que são narrativas ou que são manipulações, quer de um lado, quer de outro. Neste caso concreto, aquilo que eu apurei, não apenas por aquilo que é escrito em relatórios de fontes de informações ocidentais, quer localizadas do outro lado do Atlântico, refiro-me concretamente aos Estados Unidos, e também deste lado de cá do Atlântico, não apenas aos serviços de informações britânicos, como também ao Bundesnachrichtendienst, que é o serviço de informações da Alemanha, e outras informações a que tenho tido acesso, e também da exploração que tenho feito das informações que correm no ambiente informacional dos inúmeros bloggers militares que escrevem todos os dias nos canais, fundamentalmente no Telegram, na Rússia, aquilo que me parece mais provável e mais verosímil é que, de fato, Surovikin, não agora, já no sábado, na sequência da posta em marcha desta rebelião, chamemos-lhe assim, e quando ele próprio é o primeiro, num ambiente muito constrangido a não parecer ele próprio, sentado numa cadeira, completamente prostrado, numa atitude completamente diferente em termos de linguagem facial e gestual, em que Surovikin solicita ao seu amigo Prigozhin para desistir desta intentona porque não valia a pena. E todos nós assistimos a isto através dos órgãos de comunicação social. Eu, nesse momento, tive a clara sensação de que este homem não estaria no seu gabinete e que já estaria a ser coagido a transmitir este tipo de mensagem e que poderia estar num estabelecimento prisional. Veio a se confirmar mais tarde, já ontem, eu tive a oportunidade de dar esta notícia talvez em primeira mão, que ele estaria até, e agora já me recordo do estabelecimento prisional, do nome, na região de Moscovo, no estabelecimento prisional de Lefortovo, que é conhecido, e sublinhando, que era a prisão para onde o KGB fazia convergir aqueles que eram dissidentes do regime da antiga União Soviética. E agora continua a existir com o mesmo propósito e é o centro de detenção temporário do FSB. Aquilo que sei e da interpretação que faço daquilo que são as informações, e porventura factos, é que neste momento o próprio Surovikin poderá estar a ser interrogado no sentido de avaliar quão grande foi a extensão do seu próprio envolvimento nesta intentona e, naturalmente, a ser interrogado por forma a poderem explorar informações através dele de qual é a verdadeira dimensão da influência que tinha Surovikin na estrutura do exército, na estrutura das próprias forças de segurança, Rosgvardia, falemos assim, a guarda pretoriana de Putin, e até nos serviços de segurança, até no próprio FSB. Porque tínhamos a noção clara de que grande parte destes serviços de segurança e das próprias Forças Armadas poderiam estar do lado do próprio Prigozhin. Cerca de 50%, isto palavras dele próprio, estariam do lado dele. Veio a se verificar que possivelmente no desenrolar do conflito, algumas destas personalidades, face ao evoluir da situação, poderão ter mudado de lado, porque de fato, no final de contas, e quando tudo isto termina, ninguém gosta de estar do lado dos perdedores. Todos querem estar do lado dos vencedores. Surovikin foi apanhado nesta teia e está a ser interrogado, porque naturalmente que vamos assistir à caça às bruxas e vamos assistir, seguramente, ao estilo a que o próprio Vladimir Putin nos tem habituado, a uma purga completa. Quer dizer, aqueles que não lhe são leais, naturalmente que serão depostos, porque este regime autocrático de Moscovo e todos aqueles que se rodeiam na governação daquilo que é a Federação Russa, dirigida por Vladimir Putin, os critérios que ele utiliza são critérios essencialmente baseados na lealdade e muito menos naquilo que é a competência, como nós sabemos. Portanto, para que Putin se possa perpetuar e possa de alguma forma mitigar a imagem de fraqueza que projetou tanto internamente como externamente, ele necessita agora de reconstruir as suas bases de apoio, baseado fundamentalmente naqueles que lhe são leais, e castigar, de alguma forma, aqueles que lhe foram desleais ou que pelo menos teriam em mente passar-se para o lado contrário em caso desta tentativa de golpe de Estado ter êxito. Portanto, é isto que me parece. E nós vamos assistir nos próximos dias, não apenas a esta situação do próprio general Surovikin. Vamos assistir, com certeza, a notícias de muitas outras personalidades de relevo, não apenas militares, mas também da área política e da área das informações e dos serviços de segurança, que poderão passar pelas mesmas dificuldades que está a passar o próprio general Surovikin. E segundo se diz, eu aqui tenho algumas dúvidas, porque há informações contraditórias Que o seu número dois, o coronel-general Yevgeny, também poderá estar a ser sujeito do mesmo tratamento. Não sabemos exatamente, mas eu avançaria como provável esta informação.

Sim, major-general Isidro Morais Pereira, hoje e amanhã o Conselho Europeu estará reunido e terá a presença também do secretário-geral da NATO. O chefe da diplomacia europeia, Josep Borrell, diz que um Putin mais enfraquecido é um Putin mais instável e, portanto, mais perigoso. Que medidas poderão sair desta reunião em Bruxelas para enfrentar também este novo quadro?

Aquilo que o Josep Borrell transmite é, de facto, uma evidência. Todos nós sabemos que quando a fera se encontra acossada, a tendência que tem é reagir de forma violenta. Isto para fazer uma comparação com aquilo que se passa no reino animal. Mas temos que interpretar Borrell, ou poderemos interpretar Borrell de duas maneiras. No sentido de termos cautela com as medidas que vamos tomar, mas também de uma outra forma, dizer assim: "De facto, Putin encontra-se acossado, está a procurar reagir para mostrar que ainda está ao leme, ainda é capaz de controlar os destinos desta grande potência nuclear", porque é fundamentalmente no poderio nuclear que o poder da Federação Russa hoje em dia se baseia, porque em tudo o resto não tem características de uma grande potência, tem uma economia débil, tem uma população exígua para a dimensão geográfica que ocupa, 17 milhões de quilômetros quadrados, 140 milhões de habitantes, é uma população exígua. O que é que tem a Rússia? Tem um aparelho militar que herdou do tempo da União Soviética, tem procurado modernizá-lo, fundamentalmente desde a invasão da Geórgia. Não tem conseguido exatamente os objetivos a que se propunha, muitas dessas reorganizações não têm produzido o efeito desejado, mas de qualquer maneira, há um fator de poder que tem que ser considerado e que a Rússia ainda detém. É a maior potência nuclear, pelo menos em quantidade, em número de ogivas. Resta-nos saber em que estado é que se encontram, de conservação e de manutenção, essas ogivas, porque há informações de que apenas uma parte muito pequena, ou seja, dizem os analistas mais próximos dessas questões, que apenas 25% das ogivas poderão estar imediatamente disponíveis para serem carregadas por vetores. Mas de qualquer maneira, é sempre um aspeto a considerar. E um Putin nesta situação, eu julgo que aquilo que poderá resultar, no fundo, é: já que temos um inimigo que pode, eventualmente, tornar-se mais perigoso num futuro próximo, na defesa da sua própria condição como líder incontestado, quer na vertente interna, quer na vertente externa, temos que estar preparados e reagir, e ter planos para poder, pelo menos, não apenas ao nível das narrativas, mas também ao nível da prática. Portanto, tudo aquilo que a NATO vem fazendo, colocando mais forças junto à fronteira leste, realizando mais exercícios. Agora a própria Alemanha tem declarado que vai ter em permanência forças da ordem de uma brigada estacionadas em permanência numa base na Lituânia, os Estados Unidos a colocarem forças em permanência na Polônia, cerca de 12 mil homens, um quantitativo não em permanência, mas que sabemos que também da mesma magnitude na Romênia. Portanto, tudo isto se conjuga para que, quer a NATO, quer a própria União Europeia, possam ter em mente um conjunto de medidas mais vigorosas que possam dissuadir, eventualmente, este Putin acossado, tal qual a fera acossada, a tomar atitudes impensadas. Portanto, eu julgo que é isso que vai acontecer. O que vai acontecer é o reiterar da união do Ocidente alargado, neste caso da União Europeia e dos países que gravitam à volta, portanto, esta noção do Ocidente mais alargado, o reafirmar do apoio incondicional à Ucrânia nesta contenda, que neste momento deixou de ser uma contenda pura e simplesmente entre a Federação Russa e a Ucrânia. Quer dizer, todos nós estamos envolvidos nisto. E depois de todas as declarações a que temos assistido dos líderes deste Ocidente alargado, eu julgo que todos eles têm que ser consistentes com as suas narrativas. Não basta dizer que estamos do lado e que tudo faremos, e que estaremos sempre até o fim ao lado da Ucrânia, para que a ordem internacional vigente baseada em regras, a Carta das Nações Unidas e o direito à soberania e à inviolabilidade das fronteiras, e o direito à autodeterminação dos povos. Quer dizer, temos que ser consistentes com esse tipo de declarações. E para que tudo isto seja posto em prática, é necessário continuar a fornecer, sem hesitações e sem tabus, às Forças Armadas da Ucrânia aquilo que elas necessitam de facto para libertar os territórios que lhe foram usurpados, mesmo que sejam armas de longo alcance e aviação da quarta geração. Portanto, eu julgo que esta postura de Putin, de alguma forma, acaba por ter um efeito positivo naquilo que será a postura do Ocidente alargado, porque neste momento não há espaço para nos sentirmos amedrontados, na minha opinião. Neste momento, há espaço para afirmarmos mais uma vez a nossa determinação e não apenas afirmar. Portanto, secundar essas afirmações com realidades concretas, com apoio concreto àquilo que os ucranianos são capazes, àquilo que os ucranianos necessitam, porque se não o fizermos, mais cedo do que aquilo que pensamos, poderemos ter que ser nós próprios a ter que lutar do lado da Ucrânia para vencer a Federação Russa.

Obrigada pela sua análise, major-general Isidro Morais Pereira. Foi importante olharmos aqui tanto para estes desenvolvimentos da rebelião russa, como também para este Conselho Europeu que começou hoje em Bruxelas, decorre ainda até amanhã, numa altura em que não se vislumbra uma luz ao fundo do túnel no que toca à paz na Ucrânia. Obrigada, major-general.

De nada. É sempre um gosto participar convosco.

Obrigada.