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Bem-vindos à "Geração Francisco". Até à primeira semana de agosto, até o arranque da Jornada Mundial da Juventude, vamos falar de jovens, de fé, de preocupações e da Igreja Católica semanalmente na Rádio Observador. Este é o primeiro de quatro programas. E por que "Geração Francisco"? Porque procuramos entender as grandes questões, os anseios dos jovens de hoje que em agosto recebem o Papa Francisco em Lisboa. Este é um podcast que também passa na rádio e tem duas partes. Na primeira, vou conversar com três destes jovens da Geração Francisco e, na segunda parte, temos um convidado para uma conversa. Neste primeiro episódio, Filipe Teixeira, um católico que na sua história de vida tem um almoço com o Papa Francisco no Rio de Janeiro há 10 anos, mas isso é na segunda parte. Agora vamos conhecer este painel fixo com quem vou ter o privilégio de conversar em quatro semanas, em quatro episódios. A Joana Bacelar tem 30 anos, é escuteira em Cascais e é coordenadora do Departamento Nacional dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável do CNE. Olá, Joana, bem-vinda.
Olá, obrigada.
Temos também conosco o Duarte Pagô, 27 anos, licenciado em Publicidade e Marketing e trabalha nessa área e é catequista na Paróquia de Adamaio. Olá, Duarte.
Olá, obrigado.
E o terceiro elemento deste painel é o Miguel Simões Correia, 23 anos, é licenciado em Direito, está agora a tirar o mestrado e trabalha com os jesuítas no Serviço de Proteção e Cuidado, um serviço criado na sequência da crise dos abusos de menores por membros do clero. Bem-vindo, Miguel.
Obrigado pelo convite.
E neste primeiro episódio procuramos responder a uma pergunta: a Igreja Católica ainda é para jovens? Nós estamos a ter esta conversa justamente um dia depois da Universidade Católica ter apresentado um estudo, não sei se ouviram, que diz que 49% dos jovens portugueses entre os 14 e os 30 anos são católicos e que 56% são religiosos. Joana, com base na tua experiência até hoje, na tua vida de fé, de pertença a movimentos da Igreja Católica, mas também na escola, na faculdade, no trabalho, isto surpreende que menos de metade dos jovens portugueses se digam católicos?
Não me surpreende, até porque quando penso nos meus grupos de amigos, é mais ou menos isto. É um meio e meio, é um 50/50, sobretudo a parte de amigos escuteiros, mais ligados, claro, à religião e se calhar outros amigos mais de círculos como a escola ou a faculdade, menos.
Em que aí existe menos expressão da fé, existe menos vontade até de...
Sim, não sei se é menos vontade ou se é menos desconhecimento. Se calhar também houve algum conhecimento e houve até alguma relação com a Igreja, mais quando éramos mais pequenos, mas depois um afastamento.
Ainda assim, o estudo tinha um número curioso que li: 22% dos jovens portugueses dizem-se crentes, mas sem praticar uma religião. Duarte, isto é uma realidade que testemunhas no teu dia a dia, uma espécie de fé passiva, pessoas que se dizem crentes, mas que não praticam uma religião?
Sim, não posso dizer que seja uma realidade que é descabida. De facto, até no meu próprio grupo de amigos, no meu exemplo, sou dentro de uma minoria, num pequeno grupo, sou a única pessoa que frequenta a igreja, que é catequista e, portanto, tem uma vida de fé ao longo destes anos. Mas a maior parte destas pessoas, de facto, tiveram, ao longo do seu percurso, uma parte, uma história de fé, ou foram batizados, fizeram a primeira comunhão e ao longo da sua vida foram perdendo essa ligação, foram perdendo esse contacto com a Igreja.
Abandonaram a pertença, digamos assim, a uma instituição, mas achas que também abandonaram a fé?
A questão do abandono da fé é uma questão que dava para muita conversa, de facto. Eu acho que a diferença entre aquilo que é a fé e aquilo que é a crença ou a religiosidade de uma pessoa tem algumas diferenças e uma pessoa pode ser religiosa, pode ter a sua religiosidade e não ter a fé que nós acreditamos, a fé que nós vivemos. Mas a fé católica, a fé que eu professo, nota-se que estas pessoas foram perdendo essa ligação com a Igreja, embora possam se dizer cristãos, possam dizer que acreditam em Deus, que acreditam na criação, que acreditam nos ensinamentos da Igreja, mas que a ligação diária da missa diária, da catequese, acredito que não está muito nas realidade, porque há muitas pessoas que vão perdendo com o idade.
Miguel, e no teu caso, na tua vida até hoje, tu tens uma ligação, naturalmente, muito próxima à Igreja e trabalhas em instituições da Igreja. Pegando aqui num conceito que o Duarte estava a usar, dirias que sempre foste mais a regra ou mais a exceção, no que toca à prática da fé entre os teus grupos de amigos?
Eu penso que para mim foi sempre muito diversificado. Nos ambientes mais escolar, acadêmico, fui sempre a exceção. Eu estudei no Liceu Francês e tirei o curso de Direito na Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa. Mas depois há muitos meios que são praticamente exclusivamente católicos, não por estarem fechados, mas porque são ligados aos campos de férias, à igreja, etc. No meu caso, grupos muito ligados aos jesuítas. Acho que não se perdeu os 80% ou 90% de católicos que se dizia que havia, porque isso nunca foi uma realidade. Estes 80% ou 90% de católicos, que agora se calar é 50% ou é 40%, na verdade, a qualidade da relação espiritual e da relação mesmo com a própria instituição Igreja, que estes 40% têm, é se calar muito maior do que os 40% da altura, para não falar dos outros 40% que eram batizados e está a andar. Acho que as relações que existem hoje entre os jovens e a Igreja são mais fortes, são mais profundas. Acho que é um discernimento muito mais sério feito por parte dos jovens que querem entrar na Igreja, precisamente porque para dar esse passo são confrontados com imensa oposição social nos grupos, sobretudo grupos ligados à academia.
E achas que há um risco aí? Lembro que o Papa Francisco alertava para isso na exortação que dirigiu aos jovens em 2019. Achas que há um risco de, por esses grupos de católicos mais ligados, por exemplo, aos jesuítas ou a determinados colégios, etc, serem de facto grupos em que se vive muito intensamente a fé, acabarem por ser grupos que se isolam do resto do mundo, da generalidade da geração jovem contemporânea e acaba por se tornar numa espécie de minoria, uma espécie de elite crente. Achas que há esse risco?
Há o risco e verifica-se não só o risco, mas a prática. Eu penso que isso acontece muito. Acho que é preciso fazer um esforço muito grande para sair daqui, para falar uma linguagem mais comum aos outros jovens e não fechar as comunidades, porque isso muitas vezes também leva a uma certa radicalização. As comunidades acabam por se construir em oposição ao mundo, contra o mundo, porque nós é que somos, nós é que acreditamos. E há um certo elitismo, quase espiritual, que é construído e que é totalmente negativo e com muitas demonstrações práticas, parece-me, na nossa vivência hoje em dia.
Nessa mesma exortação de 2019, o Papa Francisco ia buscar uma citação do Óscar Romero, agora São Óscar Romero, para dizer, e gostava de pegar nesta citação, que o cristianismo não é um conjunto de verdades em que é preciso acreditar ou de leis que se devem observar ou de proibições, e que apresentado assim, até repugna. Joana, parece-te que atualmente aquilo que a Igreja ainda transmite aos jovens ainda é essencialmente um conjunto de regras e de proibições, muitas delas, por exemplo, na moral sexual, e que isso afasta, repugna os jovens, para usar a expressão do Papa?
Eu acho que depende da Igreja de que estamos a falar. Depende das paróquias, depende dos padres, depende muito da mensagem que é transmitida. E, portanto, sim e não. Depende de quão abertos são e da visão que transmitem e também do apoio que dão aos jovens. E, portanto, eu acho que é importante percebermos.
Mas existe esta realidade, não é? Esta ideia de apresentar a fé católica como um livro de regras, de proibições, é uma tentação de alguns setores da Igreja, na tua opinião?
Eu acho que sim, mas eu acho que também é importante nós, enquanto católicos, percebermos a nossa missão e o que é que nós podemos ainda mudar na Igreja, porque não são as pessoas de fora, digamos assim, entre aspas, que vão mudar a Igreja, são as pessoas de dentro da Igreja. E, portanto, se os jovens não se sentem confortáveis, acho que é importante falar e é importante falar sobre isso. Mas, lá está, não sei se é em todos os lugares que existe essa abertura para se falar, para se conversar e para podermos avançar.
A Jornada Mundial da Juventude, agora em Lisboa, com o Papa Francisco, o mesmo Papa que disse estas citações que eu acabei de dizer, é uma boa oportunidade para isso acontecer?
Claro que sim. Ter jovens do mundo inteiro, católicos, unidos por uma religião, unidos por uma missão, porque temos todos a mesma. Sim, sem dúvida. E de certeza que todos nós, pelo mundo fora, partilhamos muitas das mesmas ideias, concordamos, não concordamos, mas é sem dúvida um espaço de debate e um espaço de poder avançar em conjunto.
Eduardo, tens esta perspectiva também na tua vida enquanto catequista. Perante os jovens a quem dás catequese na paróquia da Damaia, sentes este afastamento das novas gerações perante a ideia de que a Igreja Católica pode ser apresentada como um mero livro de regras e de proibições?
Sim, de facto. A Igreja é composta por pessoas e de facto quem a faz e quem a constrói são as pessoas. E tem havido um trabalho, tem havido também por questões sociais, por questões de devolução da própria sociedade. A geração que hoje em dia está à frente das paróquias, a geração que é catequista, que é à frente dos movimentos escutistas, dos movimentos religiosos, já não é a mesma geração de há 30, de há 40 anos. E, portanto, a visão que estas pessoas têm daquilo que é o mundo, daquilo que é a sociedade e da própria Igreja, do papel da Igreja na vida das comunidades, alterou-se e é completamente diferente. E ainda existe alguma resistência, porque para muitos destes jovens, o ir à catequese, como para mim era a exceção, eu era a pessoa do meu grupo da escola, da faculdade, que era a pessoa que fazia parte da vida da Igreja, muitas destas crianças, muitos destes jovens, também são a exceção. E, portanto, ser a exceção também não é fácil, porque embora seja uma responsabilidade e tenha, de facto, um poder muito grande de nós podermos marcar a diferença e demonstrar e liderar pelo exemplo, tem também o peso de estarmos um bocadinho afastados e não termos muitas pessoas com quem nos possamos relacionar e com quem possamos partilhar essa experiência.
E corremos aquele risco que o Miguel falava há pouco de observar uma espécie de grupo fechado.
Exatamente. E muitas destas pessoas, às vezes, por sermos se calar a única pessoa que pertence a estes grupos, somos vistos como o peixinho dentro do aquário. O que é que aquelas pessoas fazem ali? O que aquelas pessoas fazem? O que se faz dentro da Igreja? Quem são aquelas pessoas? Para onde é que elas vão? O que é que elas pensam? O que é que elas acreditam?
Existe esta possibilidade de os jovens ainda terem alguma reticência, alguma resistência a serem tão expansivos e a serem tão abertos naquilo que é a sua fé, naquilo em que acreditam. Mas, ainda assim, esta geração está mais preparada do que qualquer outra para responder a este desafio, para poder dar o exemplo, para poder explicar aquilo que nós fazemos. E estas jornadas vão ser precisamente uma oportunidade excelente para mostrar o que é a Igreja e o que é que a juventude faz na Igreja.
E como é que isso pode-se fazer concretamente? Por exemplo, tu na tua vida enquanto catequista, como é que procuras apresentar uma proposta de fé, de pertença a uma instituição religiosa, que não seja por este prisma que afasta os jovens?
Eu acho que, como em muitas coisas da vida, na Igreja e quando se lida com os jovens, é o exemplo que conta. E mais do que nós na catequese, mais do que quando lidamos com os jovens, mais do que darmos uma lista de dogmas, de regras e de instituições morais, o que nós queremos é mostrar-lhes uma forma de viver, uma forma de olhar para o mundo, aquilo que de facto nos move, que é o apoiar o próximo, estar junto do próximo, mostrar que ser cristão não é só estar fechado no meu cantinho a rezar infinitamente, sem me mover. O cristão é uma pessoa que é chamada à ação, é uma pessoa que é chamada para a atitude, para sair da sua própria zona de conforto e estar no seio das comunidades. E portanto, o exemplo dá-se através de atividades de voluntariado, a participação neste tipo de eventos, como as Jornadas Mundiais da Juventude, a participação em instituições sociocaritativas. Tudo isto são ações e são atitudes que nós podemos ter e que mostram mais do que aquilo que se deve fazer, mostra através do exemplo e, portanto, nós lideramos e mostramos o que é ser cristão, não através das palavras, mas através dos nossos exemplos.
Miguel, pegando no que o Duarte estava a dizer, estávamos há pouco a falar fora do estúdio, como tu trabalhas numa IPSS que acompanha crianças e jovens institucionalizados. Esta é, por um lado, também uma forma de cumprir o apelo do Papa Francisco de buscar as periferias. E depois gostava de ouvir também a tua opinião: nos dias de hoje, que são muito marcados por uma crescente secularização, um afastamento das práticas religiosas, por exemplo, o voluntariado em instituições não ligadas à Igreja substituiu, tomou, de certa forma, o lugar da ação social da Igreja?
Em primeiro lugar, em relação à Candeia, é uma forma de servir e eu sinto como vocação a Candeia, esta associação. Mas penso que o mais importante de tudo é a pessoa fazer um discernimento que lhe permita perceber onde é que pode servir mais. E acho que esta dimensão do serviço pode ser vivida, eu que sou jurista, poderia ser vivida num escritório de advogados, pode ser vivida como procurador ou juiz. É importante é que seja vivida com discernimento e percebendo que estou no sítio certo. Agora, penso é que o voluntariado, a ação social, regra geral, é muito trabalhado nos jovens católicos. Penso que às vezes é pouco vivido como um encontro e portanto, para ir ao encontro das periferias, tem de se estar ao encontro antes de só chegar às periferias. Não basta fazer um voluntariado, é preciso fazer pontes, é preciso haver diálogo, é preciso ver o outro na sua plenitude e não como alguém a quem eu estou a dar uma relação de total verticalidade, em que eu não tiro nada daquela relação, eu só dou, ou acho que só dou. Em relação à secularização, parece-me que apesar de haver um movimento nesse sentido, a Igreja continua a ter um bocado o monopólio de questões sociais e de preocupações sociais e, por agora, ainda é bastante dentro desse âmbito.
Muito bem. Por uma última pergunta, em 10 segundos, gostava de fazer aos três a mesma pergunta com a qual abri este episódio: a Igreja Católica ainda é para os jovens, Joana?
Claro que sim.
Vão todos dizer: "Claro que sim".
A Igreja não só é para jovens, como é feita pelos jovens.
Exato.
E, portanto, são os jovens que trazem mais jovens e por isso a Igreja, sim, é jovem.
A Igreja é para os jovens, mas precisa trabalhar mais para ser ainda mais para os jovens e abrir-se à linguagem e às experiências dos jovens.
E precisa de o fazer ainda mais.
Certamente.
Nós já voltamos para a segunda parte deste "Geração Francisco". Vamos conhecer o Filipe Teixeira, que há 10 anos, na Jornada Mundial da Juventude do Rio de Janeiro, almoçou com o Papa. Até já. Estamos de regresso para a segunda parte da "Geração Francisco" e é nosso convidado, Filipe Teixeira. Bem-vindo.
Obrigado.
O Filipe Teixeira trabalha como designer numa empresa de publicidade, mas durante vários anos trabalhou no Patriarcado de Lisboa, no Departamento de Comunicação. Já participou em oito Jornadas Mundiais da Juventude e em 2013 foi voluntário na Jornada Mundial da Juventude do Rio de Janeiro, que foi a primeira edição num país de língua portuguesa. E foi aí que teve uma das grandes experiências da sua vida, que foi almoçar com o Papa Francisco. Aliás, é uma tradição já consolidada na Jornada Mundial da Juventude, desde há vários anos. Em todas as edições, o Papa tira um dia para almoçar com um pequeno grupo de jovens, uma dezena de jovens, de todos os continentes, para os escutar e conversar com eles. Desta vez, na edição de Lisboa, também vai acontecer. É dia 4 de agosto, sexta-feira, ao meio-dia, com um grupo de jovens que ainda não conhecemos. Em 2013, na edição do Rio de Janeiro, o Filipe Teixeira foi um dos jovens escolhidos para almoçar com o Papa. Minha primeira pergunta, Filipe, é: como é que isto aconteceu? Como é que acabaste a almoçar com o Papa Francisco?
É curioso. Até hoje há uma pergunta que eu faço e insisti em não obter resposta, que é o porquê. Por que isto aconteceu, de facto? Porque a determinada altura eu estava lá e estive durante nove meses e o tema do almoço, apesar de nós, na comunicação, trabalharmos tudo o que são eventos dentro da jornada, o tema do almoço nunca tinha sido colocado para ser trabalhado por ser um evento privado. Nesse sentido, nunca foi sequer um pensamento ir ou poder ir ao almoço. E a coisa dá-se. Onze dias, quem tinha permissão de convidar os jovens, porque grande parte desse grupo foi a partir de jovens que lá estavam a trabalhar, tal como eu, com mais ou menos tempo, de todo o mundo. O convite dá-se.
Quem é que te telefonaram?
Não, neste caso foi um dos responsáveis de um dos departamentos das relações internacionais que me fez o convite. Foi muito curioso, porque aquilo surgiu mais ou menos 11, 12 dias antes da JMJ. E naquele primeiro choque, eu sinceramente não quis. Achei que seria até uma brincadeira, mas achei mesmo, de facto. E depois de alguma insistência, acabaram por me convencer que se calhar poderia ser.
Nós já vamos falar sobre a experiência de voluntariado. Estiveste lá nove meses antes da jornada, mas como é que foi esse almoço? Qual é que é o objetivo desse encontro do Papa com os jovens de modo tão íntimo? Porque há o encontro em grandes dimensões, com um milhão, no caso do Rio de Janeiro, três milhões. Mas depois aquele é um encontro mais privado, mais íntimo. Qual foi o objetivo?
Exatamente. O conceito deste almoço é ter à mesa uma representação dos cinco continentes. Perante isso, estamos a falar de um momento em que a comida até acaba por ser o menos importante.
Não te lembras o que foi o menu?
É verdade, não me lembro do que foi a ementa. Tenho lá. Aliás, o Aura Miguel até no mais recente livro acabou por publicar a ementa completa. E aquele passa a ser um momento em que temos a oportunidade de sermos, entre aspas, porta-vozes daquilo que representamos do país ou, pelo menos, do continente de onde vimos. Comigo, a representar a Europa, esteve também uma voluntária francesa, a Anne Sophie, e fomos os dois representantes do continente europeu.
Quantos jovens estavam no grupo, que almoçou com o Papa?
Eu creio que éramos 12.
Doze. E de que é que falaram? Como é que foi essa conversa? Foi cerca de uma hora e meia com o Papa?
Sim, uma hora e 20, creio eu, até a segurança vir chamar-nos. Vir terminar com o almoço. Falámos de vários assuntos. Aliás, nós estamos num ambiente muito propício, é como se fosse uma espécie de avô, um almoço de família em que o avô tem a oportunidade de responder a algumas perguntas. E foi muito variado, desde perguntar como é que eu posso ter a certeza da minha vocação, como é que isso pode acontecer, desde perguntar como é que a Igreja pode melhorar nesta ou naquela realidade. A pergunta que eu fiz, porque nós estávamos em 2013, os jovens estavam muito curiosamente como estamos hoje. Ou seja, afundados com a incerteza em relação ao futuro e na altura da Troika, etc. Colocava-se muito a pergunta: o que é que os jovens podem fazer? E eu fiz a pergunta: o que é que o Papa pode dizer aos jovens? E recordo-me muito ainda hoje, porque acho que isso é muito atual, o Papa respondia que é importante os jovens não perderem a esperança. Eu creio que até acaba por ser essa a mensagem que o Papa Francisco acaba por deixar também noutros encontros aos jovens de todo o mundo.
E ele fez também alguma pergunta ou foram os jovens a fazer perguntas ao Papa?
Foram os jovens. Não sei se ele queria fazer alguma, mas não houve tempo para o deixar fazer a pergunta.
Desde que o Papa João Paulo II criou a Jornada Mundial da Juventude, nos anos 80, que em grandes dimensões, este evento tem sido uma oportunidade para o Papa se encontrar com os jovens de todo o mundo, para tomar o pulso à geração dos jovens que tem pela frente. Aquele almoço foi um desses momentos. Com que imagem é que o Papa ficou da geração dos jovens de 2013?
É curioso porque 2013 estamos a falar de tudo novo. O Papa é novo. Uns meses antes nós tínhamos e estávamos a trabalhar tudo o que era comunicação ao Papa Bento XVI e ele resignou.
Pois, o plano era que fosse o Papa Ratzinger a participar.
Exatamente. Até a própria agenda, ontem recordei-me disso, a própria agenda estava mais preparada para o Papa Bento XVI. E depois com o Papa Francisco, que foi uma novidade para todos os que estavam lá a trabalhar. Eu creio que é das duas partes, ou seja, o Papa tomar o pulso aos jovens, mas os jovens também terem a oportunidade de tomar o pulso à Igreja, outros jovens que estão com eles e, particularmente, a este Papa que tinha acabado de ser Papa. Eu acho que a visão que o Papa Francisco teve foi de jovens muito interessados em buscar mais as razões da sua fé e hoje, aqui nesta primeira parte, falávamos se a Igreja ainda é para jovens. Eu creio que o Papa, se tinha dúvidas, talvez, aí ficaram dissipadas, porque a Igreja é mesmo para jovens e todo o caminho que se fez de há 10 anos para cá, no que diz respeito a JMJs, provou isso mesmo.
De que maneira?
O maior protagonismo, por exemplo, olhar agora para a jornada de Lisboa, eu arrisco-me a dizer, temos a jornada onde os jovens assumem um papel Mais importante no que diz respeito à coordenação. E não estou só a falar em redes sociais, estou a falar também 24 horas presencialmente no comitê organizador local, naquilo que são os CODs, ou seja, os comitês organizadores diocesanos, em todas as dioceses, são os jovens que estão ali a dar a cara e que, no fundo, tomam as rédeas deste projeto.
Mas nós aqui estamos a falar essencialmente ou exclusivamente dos jovens que já estão dentro da igreja, que já estão envolvidos nas organizações, nas instituições da igreja e mesmo no caso da Jornada Mundial da Juventude, o Papa ficará com a ideia daqueles que participam. Mas a minha pergunta até era mais noutro sentido, era se acreditas que o momento em que o Papa se encontra com os jovens, até para esse almoço, lhe permite ficar com uma ideia da globalidade dessa geração, ou seja, se permite compreender a que jovens a igreja tem de falar nos dias de hoje.
Eu creio que sim. Uma JMJ acaba por ser um concentrado, uma espécie de sumo concentrado onde muita coisa acontece e aquilo pode dar para muitas semanas, meses, anos. Eu creio que o Papa tem ideia, mas não é só pela JMJ. Tem ideia, neste caso, o Papa Francisco, por tudo aquilo que já aconteceu até aqui. É um sínodo dedicado aos jovens, os encontros de jovens onde ele tem participado também noutros países. Sempre que há uma visita, normalmente há sempre um ou outro registro mais ligado aos jovens. Eu creio que este Papa tem, sem dúvida, uma grande preocupação e uma imagem muito clara sobre as dificuldades, mas acima de tudo, os desafios dos jovens de todo o mundo.
Tu já participaste, falavas isso no início, numa série de jornadas, oito.
Oito.
Portanto, já correres o mundo todo-
Se ficar até agosto, serão nove.
Serão nove. Já correres o mundo todo atrás das jornadas da juventude. Dirias que a do Brasil, por todas estas razões, foi o momento alto da tua ligação a este acontecimento?
Eu creio que há dois momentos. Existem duas jornadas que eu considero as jornadas mais significativas para mim. A primeira, por ser a primeira, estamos a falar no ano 2000, Roma, é a primeira experiência internacional. As coisas eram muito diferentes, ou seja, hoje pensa-se ir de avião pra todo lado, na altura não era bem assim, mesmo tudo que são máquinas fotográficas, na altura o registro era outro, completamente diferente, por exemplo. E marcou-me porque tive o primeiro contato com aquilo que é a igreja mundial. Os jovens de todo o mundo estavam ali presentes e foi uma oportunidade pra ver que não estávamos sozinhos. Quem vinha de Portugal não estava propriamente sozinho. Depois, outro grande momento acaba por ser, obviamente, o Papa Francisco, por tudo o que gerou a JMJ, ou seja, termos um novo Papa. Recordo que a JMJ do Rio acaba por ser a primeira viagem fora de Itália do Papa Francisco. Portanto, não eram só os jovens que tinham expectativa pra ver o que este Papa dizia ou como é que ele se comportava numa viagem, se tinha um perfil mais fechado ou se era mais aberto. E aquilo que vimos no Rio acaba por ser um perfil muito aberto e muito próximo. Acho que isso foi uma das marcas.
Aliás, foi inclusivamente na viagem do Rio de Janeiro pra Roma que o Papa disse aquela famosa declaração sobre as pessoas homossexuais: "Quem sou eu pra julgar?" Que depois acabou por se tornar uma espécie de lema quase programático do Papa Francisco, relativamente a uma série de questões que durante muito tempo tinham sido tabu pra Igreja ou que a Igreja não tinha querido abordar. Portanto, a Jornada Mundial da Juventude, o facto da primeira viagem do Papa ter sido com os jovens, também serviu pra apresentar o seu programa pra Igreja e pro mundo.
Sem dúvida. Depois acaba por ser por documentos mais oficiais, digamos assim, mas aquelas primeiras conversas, aqueles primeiros comportamentos mostraram aquilo que é hoje a imagem que eu creio que quase todo mundo tem do Papa Francisco. É uma figura próxima, é alguém que não está preocupado em encontrar e elaborar uma resposta fechada, mas que, à boa maneira jesuíta, cria espaço para que todos reflitam e todos possam participar.
Abra os debates, não é?
Sem dúvida. Aliás, a prova dos sínodos todos até agora é uma prova muito clara disso mesmo. Este é o objetivo deste Papa e creio que até ao final do seu pontificado, vamos ter um Papa Francisco muito aberto a promover o debate e não o julgamento, e não a guetização daquilo que muitas vezes tinha sido a imagem da Igreja no mundo.
Gostava de falar também da tua experiência de voluntariado no Rio de Janeiro. Foste nove meses pro Brasil como voluntário na preparação da Jornada Mundial da Juventude. Como é que isto aconteceu? Por que foste tanto tempo pra trabalhar?
Deixa-me só dizer que esta ideia de voluntariado de longa duração, pelo menos aqui em Portugal, não estava nada explorada. Ou seja, isto que nós temos agora não existia. Eu estive também na pastoral juvenil e nunca se falou sequer dessa possibilidade em comparação com outros países. Portanto, acabou por ser tudo novo. A questão base prática é muito simples, ou seja, a colaboração que eu tinha na altura, profissional, reduziu e permitiu ter aqui uma janela de oportunidade para que pudesse pôr-me a jeito de um acontecimento onde eu já tinha participado, mas que achava que podia dar o meu contributo a isso. Inicialmente, a minha visão era fazer um trabalho à distância, ou seja, eu estando em Lisboa, colaborando de perto com a organização da jornada e depois, eventualmente, participar lá na jornada enquanto peregrino no Rio. E curiosamente, acabei por mandar um e-mail, na altura pra o diretor de comunicação, e quatro horas depois, muito ao contrário daquilo que nós chamamos o jeito brasileiro, tive a resposta, que era afirmativa. Foi um processo burocrático até ter o visto e até ir ao Brasil, onde fiquei durante nove meses.
E durante esses nove meses, o que é que fizeste concretamente? Qual era o teu trabalho?
Um trabalho normal. Eu estava no departamento da comunicação do Col da JMJ do Rio e estava como designer. Ou seja, tinha eu e também, curiosamente, um outro voluntário, o Gustavo, que está neste momento aqui em Lisboa a trabalhar também na parte gráfica. Tínhamos a missão de coordenar tudo que tinha a imagem da JMJ. Estamos a falar do guia do peregrino, de cartazes, de redes sociais, de tudo para onde saía o logotipo e tudo que era institucional da JMJ. Claro que depois cada um tinha a sua realidade. Eu, vindo de Portugal, acabava por colaborar naquilo que era assessoria de imprensa quando havia algum interesse também de algum jornalista sobre a JMJ do Rio, acabava também por fazer um bocadinho essa ponte. Enfim, mas era sobretudo isto.
E na altura já havia a expectativa de uma jornada em Portugal ou ainda não se falava propriamente?
Eu acho que a expectativa existia sempre, até antes do Rio. Portanto, é uma realidade que eu acho que muita gente gostaria de ver em Portugal, mas em conversas sempre informais, e foi disso que se tratou até perto de 2017, esbarrávamos sempre num ponto importante, que é a questão do dinheiro e depois a questão também que há sempre mais candidaturas para receber a jornada, mas creio que esse sempre foi um sonho da Igreja em Portugal.
Quando estiveste no Brasil durante esses nove meses, segundo sei, ficaste na casa de uma família brasileira, é isso?
Sim.
Essa ideia das famílias de acolhimento é também uma marca importante da Jornada da Juventude. Que experiência que tiveste?
Sem dúvida.
Como é que te marcou?
Ainda hoje mantemos o contacto.
A sério?
Sim, é muito curioso porque a jornada não acontece só aqui no Parque das Nações, em Lisboa. A jornada vai acontecer em cada canto, em cada momento, em cada acontecimento que pode ser o mais variado. A questão de estar numa casa de família ajudou-me, em primeiro lugar, a conhecer aquele povo. O povo brasileiro, o povo que acolhia a jornada. E depois ajudou-me também a crescer durante aquele tempo, porque é um apoio fundamental para quem está longe durante nove meses. E a relação que eu tenho ainda com eles, mas que foi muito importante naquela altura, foi muito engraçada. Houve várias peripécias, vários acontecimentos, mas às tantas eu acabava já por ser da família. Tínhamos rotinas em comum, almoçávamos ao domingo, por exemplo. Isso era religioso, onde podíamos conversar não só sobre o que aconteceu durante a semana, mas também perspetivar o que estava por vir.
E, portanto, tinhas uma vida praticamente normal. Estavas numa casa de uma família, ias trabalhar todos os dias.
Exatamente, o horário normal, entrar às 9h, sair por volta das 18h, 19h, não era mais tarde, quando as coisas começavam a apertar, à medida que chega a data da jornada. No fundo, era um dia normal, mas com esta intenção, com esta missão de algo superior a nós para realizar.
E com base em toda a tua experiência nas Jornadas da Juventude, quer na do Rio de Janeiro, quer em todas as outras que participaste como peregrino, que expectativas é que tens agora para a edição de Lisboa?
Olha, eu acho que há aqui dois contextos muito importantes que vão influenciar aquilo que será o pós-jornada. Em primeiro lugar, a pandemia. Nós passámos por uma pandemia há relativamente pouco tempo, embora muita gente já nem se lembre disso. E em segundo lugar, a questão da guerra. O que isso tirou, no meu entender, aos jovens e à sociedade, particularmente europeia? Tirou um bocadinho a esperança. Eu acho que a JMJ vai ser um concentrado de esperança para os jovens, mas também para quem recebe a JMJ nas suas diferentes experiências. Acho que vai ser uma oportunidade que vai passar e que pode, sem dúvida, mudar a vida de muita gente.
Achas que no mundo atual, marcado, como dizias, pelo regresso da guerra ao continente europeu, pela crise económica, mas também por uma realidade de muita dificuldade dos jovens no acesso ao emprego, à habitação. O que achas que o Papa Francisco terá para dizer a esta geração? Esta geração Francisco, como chamamos neste programa.
É uma boa pergunta. Em primeiro lugar, acho que vamos ter uma surpresa, que é ver um Papa, contrariamente àquilo que nós ultimamente temos acompanhado, um Papa muito jovem e muito próximo dos jovens, apesar da sua idade. Essa, no meu entender, será a primeira surpresa.
Mesmo com muito esforço físico. O programa é bastante intenso.
É bastante intenso e ele não se escusa a nada. Até há tanta história que se podia contar da agenda do Rio de Janeiro, que ele próprio quis mudar aquela agenda para dar mais tempo para ir, por exemplo, a uma favela ou até ao Santuário de Nossa Senhora Aparecida. Eu acho que nós vamos ter noção de um Papa que não se escusa a nada, mas que vai proporcionar momentos muito próximos. Eu creio que todo o discurso do Papa, os discursos do Papa tendem a ir muito para esta proximidade, que é no fundo aquilo que ele inicialmente, no início do seu pontificado, apontou. Alguém próximo. Recordamos, por exemplo, aquele célebre episódio no Rio de Janeiro, quando a comitiva se enganou naquela avenida e acabam por ficar presos numa avenida secundária onde não eram para passar. A primeira coisa que ele fez foi abrir a janela para cumprimentar os peregrinos. Portanto, eu acho que serão estes gestos que nós iremos ver durante a JMJ aqui em Lisboa.
E achas que, para terminar rapidamente, a sociedade portuguesa conseguirá ver isso? A Igreja conseguirá passar à sociedade portuguesa a importância deste evento? Ou corremos o risco de ficar a olhar para um evento apenas marcado por polêmicas com dinheiro, com palcos, etc. Sem irmos ao essencial?
Eu estou convencido que sim, até por aquilo que disse no início, a questão de termos aqui o protagonismo dos jovens. Agora, essa é uma pergunta que nós vamos ter que fazer no dia 6 de agosto, à noite. Quando fecharmos as portas, quando os peregrinos forem embora e os voluntários, que é: o que nós vamos fazer com tudo isto que aconteceu durante estes dias em Lisboa? E acho que esse será o desafio da Igreja em Portugal e no mundo, seguramente, mas particularmente na Igreja de Portugal.
Perceber o que é que ficou deste evento.
Sem dúvida.
Muito obrigado.
Obrigado eu e parabéns pela iniciativa.
Obrigado. Este foi o primeiro de quatro episódios da "Geração Francisco", um podcast que também passa na Rádio Observador, às sextas, depois do jornal das 14h. Para a semana, vamos falar sobre como a crise dos abusos sexuais de menores afetou ou não a relação dos jovens com a Igreja Católica. Até para a semana.