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Começa agora o Geração V, o teu programa de documentário político jovem da Rádio Observador, feito em parceria com o Voto. Eu sou o Vasco Galhardo e à minha esquerda tenho a Joana Zaguri, ao centro o José Paulo Soares e à minha direita a Maria Vilarê. Olá, meus caros, estão confortáveis nas vossas posições?
Perfeitamente.
Acho que sim.
Eu gosto de estar à esquerda da mesa. Eu acho é que o ângulo da Maria no que toca ao vídeo é melhor.
A princípio vais continuar aí. Avancemos. Esta segunda-feira, Portugal assistiu à tomada de posse do nosso sexto presidente da República em democracia. António José Seguro prestou juramento sobre a Constituição na Assembleia da República, homenageou Camões, abriu o Palácio de Belém à população e encontrou-se com jovens. No seu discurso de tomada de posse, que durou cerca de 20 minutos, disse, entre outras coisas, que tudo fará para estancar este frenesim eleitoral que Portugal viveu nos últimos anos. Este será o nosso tema para a primeira parte e na segunda vou querer saber a opinião dos meus comentadores sobre o que parece ser a nova narrativa da direita europeia, com Giorgia Meloni a acusar os Estados Unidos e Israel de terem violado o direito internacional no Médio Oriente, e sobre o Dia Internacional da Mulher. Joana, começo por ti, o que achaste do discurso do agora, sim, presidente Seguro?
Olá, Vasco, obrigada. Já sabemos o que eu vou dizer: bege.
Continua bege na tua opinião?
Continua e ainda bem. Eu adorei. Mais uma vez, eu adoro bege. O discurso tocou em todas as áreas que a Presidência da República deve tocar. Foi um discurso digno. A mensagem era clara e tu acabaste por destacá-la agora no início do programa. A mensagem era clara: a primeira grande missão de António José Seguro é acabar com o frenesim eleitoral.
Ser anti Marcelo, então.
Sim, e é quase que se faz a piada de que é quase preciso Luís Montenegro matar uma pessoa em live na televisão e tem que ser particularmente agressivo, senão António José Seguro não manda abaixo este governo. A mensagem que ele passa é esta. Nós agora vamos ver em outubro, quando estivermos a discutir o orçamento de Estado, é a primeira prova de fogo nesse sentido.
Mas ele também já disse que mesmo que o orçamento de Estado não passe...
Exatamente, ele já disse, mas vamos ver. Eu quero acreditar que António José Seguro vai ser o presidente que ele diz que vai ser, que é o presidente das convergências e que vai obrigar a fazer aquilo que criticava Marcelo por não fazer, sentar os partidos à mesa e dizer: "Meus queridos, entendam-se e não saiam daqui até se entenderem". E acho que essa mensagem foi clara.
Achas que consegue?
Acho, ele é bege, mas ele é firme. E gosto de salar uma coisa. O discurso era tão digno que não mereceu polêmica, e isso é uma coisa muito interessante, que é: nós voltamos a ter uma polêmica como já não tínhamos. O vestido da primeira-dama, a figura institucional que não existe em Portugal, mas vamos lhe chamar primeira-dama, e o vestido da filha de António José Seguro.
Que foi ridículo, não é?
Foi ridículo, mas passou-se a semana a falar do vestido dela. Nós já não tínhamos uma polêmica à volta da política tão inócua, tão idiota, para dizer a verdade. Quer dizer, já ficou mais do que provado para todos os ouvidos.
Dizem que não havia nada para dizer, nada a apontar, então tiveram que ir para o vestido.
Exato, todos os ouvidos que a senhora comprou o vestido com o dinheiro fruto do seu trabalho e alterou o vestido e já houve uma advogada de propriedade intelectual para dizer que ela não cometeu nenhuma infração. E nós tivemos a semana nisto, o que quer dizer que...
Bom sinal para António José Seguro.
Eu acho que foi um bom sinal para António José Seguro, porque não houve ninguém, agora nesta caça à polêmica que nós estamos o tempo inteiro, que conseguiu. A polêmica foi esta. Curiosamente, estavam todos vestidos de azul, estavam todos coordenados, foi uma fotografia muito bonita.
A entrada no Palácio de Belém.
A entrada no Palácio de Belém de mãos dadas. Portanto, neste momento, não há nada que eu possa dizer de negativo. Também não posso dizer que vai ser altamente positivo, porque também não passou essa mensagem.
Muito bem.
E eu acho que essa é a mensagem que um presidente deve passar, que é: a minha preocupação neste momento é esta que eu posso prever que pode acontecer. As outras vou vendo ao longo do caminho.
Muito bem. José Paulo, irá António José Seguro conseguir estancar este frenesim eleitoral que Marcelo nos proporcionou nos últimos 10 anos?
Bem, espero que sim. Acho que foi por isso que votei nele e boa parte dos portugueses votaram nele. Espero que não aconteça muitas vezes, mas vou concordar com a Joana em muitas coisas do que ela disse, porque efetivamente parece-me que sim. Desejo um bom mandato ao novo presidente Seguro, que sejam bons cinco anos. Para já são cinco anos. Convém lembrar que foi o segundo presidente com menos votos na primeira volta.
Uma coisa importante, desculpa, esqueceste, Vasco.
Do quê?
E que cumpra a sua promessa de vir cá ao programa.
É verdade. Sim.
Venha cá.
Desculpa, José Paulo, isso é um pormenor importante.
Eu estou a deixar António José Seguro assentar no Palácio de Belém, mas volto a fazer o convite.
Exato, mas prometeu aqui, venha cá.
E que venha cá.
E que venha cá conversar conosco.
Que venha cá ao Geração V. Consiga manter a proximidade, consiga manter a afetividade que Marcelo teve no cargo e que certamente foi boa, mas que melhore em um conjunto de aspectos. Que consiga conter o uso da palavra, que a use de forma mais parcimoniosa para que ela não perca significado. Também atenção às gafes. Esta semana já foi uma e se começarem a suceder, também vai começar a perder autoridade política.
Qual é que foi a gafe?
Disse que o Parlamento não tinha nomeado as pessoas para a comissão dos incêndios, quando a culpa era das universidades e dos politécnicos.
Certo.
Acho que é bom também que se contenha mais com as fontes. As fontes de Belém foram muito profíquas nos últimos 10 anos.
Só havia uma fonte.
Era só uma, mas falava bastante. E que crie aquilo que o Marcelo nunca criou, que era um espírito reformista, um espírito que foque no crescimento do país, que seja ambicioso para o país durante estes cinco anos. Duvido que o faça, mas espero que o faça também. E se não o fizer, espero que os portugueses também tirem as conclusões disso daqui a cinco anos. E que se lembre sempre, uma coisa que acho que Marcelo nunca se lembrou: há cinco anos, aí está, quando Marcelo foi reeleito, falava em estabilidade, era o presidente da estabilidade e demos cinco anos de instabilidade estagnada. Estivemos completamente estagnados, a crescer por causa do decrescimento que tivemos na pandemia e do aumento da população e da quantidade de pessoas a trabalhar, mas efetivamente estivemos com a produtividade estagnada. E, portanto, gosto do compromisso de não dissolver Mas convém que o presidente também sinta e saiba que tem que ter jogo de cintura para se perceber que em algum momento que o tenha de fazer, não embirre com o fato de não dissolver. E, portanto, desejo que seja um bom mandato, que sejam bons cinco anos e espero que venha cá também para poder falar com ele.
Nós é o que todos desejamos.
Esperas, não. Vem! Comprometeu-se, cumpre, senão será crucificado nesta mesa. Então lembras só.
Maria, o que te apraz dizer sobre estes primeiros dias de António José Seguro como mais alto magistrado da nação?
Eu vou ser do contra, como sempre.
É isso que nós gostamos aqui neste programa.
Eu acho que foi um discurso, sinceramente...
Pior que bege?
Eu acho que não teve cor. Foi ausência de cor, portanto, diria branco. Não acho que foi um mau discurso, no sentido de ter sido um discurso que disse alguma coisa de errado ou disse alguma coisa que não fazia sentido, mas acho que foi um discurso poucochinho, um discurso previsível, um discurso que me faz um bocadinho ter aquela ideia que se calhar vamos ter um bocadinho mais do mesmo. No entanto, ele disse uma coisa que eu achei muito relevante, que foi: falou da regionalização. E eu acho isso essencial em Portugal. Portugal é um país que não pode ser só Lisboa, como dizia o Eça: "Portugal não é só Lisboa e o resto é paisagem."
De onde estás a tirar a frase.
Desculpa. Não sabia.
É verdade, não tinha falado.
Não andei a ver o teu caderno.
Sempre que se fala de regionalização, acabas essa frase.
E bem.
E eu acho que é uma coisa muito importante, porque Portugal não pode ter só toda a concentração de empregos, a concentração de pessoas em centros urbanos. Mas depois isso também me levou a pensar um bocadinho na questão da regionalização aplicada um pouco ao caso do novo presidente, que é por muito que ele não queira ou por muito que muita gente não goste, o centro político nacional está em Lisboa. E eu acho um bocadinho esquisito ele ter decidido que vai ficar nas Caldas da Rainha. Não acho só esquisito, é compreensível do ponto de vista pessoal, mas ele foi eleito como presidente da República e o centro político, o governo está aqui, a Assembleia da República está aqui, o Tribunal Constitucional está aqui. E eu acho curioso isso porque como... E a Joana agora vai-
Ninguém está a ver Cascais. Nada disso está em Cascais.
E daqui até às Caldas é um tirinho também.
É um tirinho, mas vocês se calhar não viram uma coisa que apareceu nas notícias esta semana num artigo do Público. Eu hoje vou falar bastante do Público, mas não vai ser pelas melhores razões.
Normal.
Eu não consigo abrir o Público, são muitos anúncios.
É, mas o Público tem um artigo interessante que toda a gente devia ler, que é o custo que isso vai ter para o país.
Custo acrescido de ter um presidente.
O custo acrescido que isso vai ter para o país.
Que é quanto?
Eu já levou os números. Eu fiz as minhas contas, eu não sou excelente a matemática, mas tu depois podes corrigir. Mas há uma equipa que é a equipa das-
Tu deixas as contas para as juristas?
Dos efetivos do corpo de segurança da PSP, que pelo facto de António José Seguro ter decidido ficar nas Caldas da Rainha, sempre que ele decidir deslocar-se a Lisboa, que acho eu vai ser frequentemente, vai ter entre 11 a 12 efetivos a acompanhá-lo. Efetivos esses que vêm de Lisboa.
Todas as deslocações?
Todas as deslocações, por quê? Porque eles têm que garantir a segurança. O que é que estes efetivos fazem? Estes efetivos são as pessoas responsáveis, são um corpo especial da PSP, que é o responsável por proteger os mais altos dignitários do Estado, mas também testemunhas em processos complicados, como por exemplo, foi aquele do caso do Acar, para não haver incidentes. Ou seja, estamos a pegar aqui em 11 pessoas. Estamos a alocá-las a este serviço específico. Isto, eu fiz aqui umas contas assim por alto. Se cada um deles receber 2.000 € por mês, e isto é dar por baixo, porque normalmente recebem mais, de acordo com as tabelas, depois o acréscimo das prestações, dos abonos. Se forem 12 e receberem 12 meses, também estou a ser conservadora outra vez, nem sequer estou a fazer a 13, nem a 14, temos aqui 300.000 € por ano que António José Seguro já começou a gastar. Depois metemos a gasolina, se metemos a gasolina 1,80 € o gasóleo, nos últimos temos 20.000 € de gasolina e a gasolina tudo indica que vai aumentar.
Sim, está quase uns 2 €.
E eu estou só a falar destas 11 pessoas, não estou a falar do resto da comitiva que o vai acompanhar, não estou a falar da questão de que ele vai entupir a A8 cada vez que vier, porque vem com as luzes e vai causar problemas. Portanto, o António José Seguro faz aquilo que todos os socialistas fazem quando chegam a cargos de poder, que é começar a gastar dinheiro dos contribuintes.
Tu não achas que ele vai para as Caldas só ao fim de semana?
Não sei. A única coisa que eu posso dizer sobre isto é ainda bem que não elegemos um presidente que é dos Açores.
Também já houve, e logo o primeiro era açoriano.
Pois, mas não ficou lá. Imagina se tivesse ficado, se António José Seguro já vai gastar.
Uma viagem de avião todos os dias.
Pelas minhas contas, 350.000 € anuais.
Eu percebo o que dizes, mas também percebo o significado, porque as Caldas não são assim tão longe.
São 94 km.
Só um presidente da democracia é que morou no Palácio de Belém, que foi Ramalho Eanes.
Mas moraram todos em Lisboa.
Mas moravam em Lisboa ou em Cascais. Você também está a perceber onde é que eles teriam- Mas é que esse corpo policial de António José Seguro não é diferente do corpo policial que tinha a Marcelo Rebelo de Sousa.
Não, mas estes 11 membros são adicionais, ou seja, eles vão ficar alocados especificamente para as deslocações.
Ou seja, se ele ficasse em Lisboa, eles não tinham.
Se eles não ficassem, não.
Mas em Cascais, será que já existia?
Esse corpo já existia. O corpo varia entre 30 a 50 operacionais, dependendo daquilo que são as necessidades do presidente.
Sim, e neste caso vão ser maiores as necessidades porque ele está mais longe e vai precisar.
Está mais longe e precisa, mas isso depende das necessidades de cada presidente. Eu não tenho nada, nem tenho qualquer tipo de pudor. Sim, os centros de decisões estão em Lisboa, mas eu acho que passa uma mensagem política muito forte. Nós termos um presidente da República e essa conversa de quanto é que isso vai custar ao Estado.
Não interessa.
Não, essa conversa interessa, mas as contas que tu estás a fazer são altamente falaciosas.
Por quê?
Porque nós temos então que fazer uma comparação, e aí se quiseres podemos ter essa conversa para a semana, depois de nos sentarmos e fazermos um Excel, porque nós as duas não temos a capacidade, só se o Zé Paulo conseguir fazer agora de cabeça. Deixa-me só terminar, desculpa.
Qual é a variação para a presidência de Marcelo Rebelo de Sousa, para a presidência de Cavaco Silva? Mas tu não disseste que seguro vai ser diferente? Mas seguro vai ser diferente. Agora, é uma mensagem política muito importante, e isso é muito interessante de se ver a análise das próprias pessoas nas redes sociais e em vários fóruns que falam sobre isso, que é: finalmente temos um presidente fora de Lisboa. Mas qual é o valor acrescentado que isso traz? Qual é o valor acrescentado que isso tem? Qual é o valor acrescentado prático? Acima de tudo, o valor simbólico. Mas o valor simbólico é super importante.
Pois é, eu acho que também acho que sim.
O valor simbólico é super importante para todas as pessoas que estão fora de Lisboa, que estão longe dos centros de decisão, e isso é muito importante. E nós víamos isso, por exemplo, no movimento acadêmico, que era a grande crítica que se fazia, que era: vocês em Lisboa estão mais perto. E há vários exemplos. Vai continuar exatamente a mesma coisa. Não, o valor simbólico altera a realidade. Se formos por essa lógica, então por que o CHEGA não usa cravos encarnados? Porque tem um valor simbólico. Joana, tu dás uns saltos lógicos assim que é qualquer coisa. Eu dou uns saltos lógicos como é que é.
Antes de fugir aos cravos, eu percebo a questão do valor simbólico, tendo a concordar com a questão do valor simbólico, percebo também a questão do custo, mas parece-me que seria interessante olhar para a diferença, comparado a cenários anteriores, e não a quantos é que vão andar a subir e a descer em Lisboa e Caldas.
Mas eu vou ser a primeira pessoa a dizer que Marcelo gastou muito dinheiro aos transportes do estado.
Seja o Marcelo, seja com Cavaco, seja com Jorge Sampaio. Se o número de polícias associados continua a ser o mesmo, não vejo que haja grande problema, mas eu gostava de focar na questão da regionalização ou da descentralização.
Ele é simpatizante do PSD, temos que pedir desculpa, regionalização, eles ficam doidos.
PSD ou simpatizante de partidos.
Mas é um tema interessante. É verdade.
Eu acho que é importante, porque temos um país inclinado, um país inclinado que qualquer dia cai ao mar.
Viu-se um pouquinho as consequências agora nos temporais, não é?
Sim, e aqui em Lisboa, particularmente. O Luís Montenegro é o primeiro primeiro-ministro a não estudar, a não ter a licenciatura em Lisboa desde Mota Pinto em 79.
É sério? É verdade.
Todos os presidentes da República eleitos em Portugal estudaram em Lisboa.
Presidentes ou primeiro-ministros, quiseste dizer.
Não, estou a dizer que todos os presidentes da República eleitos estudaram em Lisboa, mesmo António José Seguro. Não há ninguém que tenha estudado. A Universidade do Porto nunca formou um presidente da República, a Universidade do Porto nunca formou um primeiro-ministro, formou apenas um presidente da Assembleia da República, que é Augusto Santos Silva. Ou seja, este simbolismo é também importante. Olhar para alguém que estudou em Lisboa, mas que é orgulhosamente fora de Lisboa e que quer manter essas origens fora de Lisboa, eu acho que tem um significado importante. Eu acho que tem um significado importante António José Seguro ter ido a Guimarães e ter ido ao Porto no segundo dia de mandato e ter feito o discurso que fez no Porto.
Isso, evidentemente.
Eu acho que essas questões simbólicas importam. E acho que se António José Seguro quer ter um tema para a sua presidência, já que os do Marcelo foram todos um falhanço, tanto a questão dos sem-abrigo, como da reforma da Justiça. Se António José Seguro quiser lembrar o país, que o país vai desde Montalegre a Vila Real de Santo António, eu acho que isso pode ser algo que efetivamente ele fará de bom ao longo destes cinco anos.
Então vamos ver aqui agora aqui a uns três meses, quantas vezes por semana ele vem a Lisboa e se a regionalização vai pegar. Eu acho que ele vai ficar sempre em Lisboa. O desafio que eu te lancei foi precisamente esse. Vamos primeiro fazer as contas dos antigos presidentes. Eu já fiz algumas.
Aguardem pra semana.
Exato. Para a semana, não, daqui a três. A Maria estava a dizer três semanas? Três meses. Três meses? Então pronto, daqui a três meses voltamos ao tema. Agora, é muito importante falar sobre isso. Eu tenho sempre algum pudor no tema regionalização, porque eu acho que o termo estragou-se ao longo dos anos. Era sempre uma matéria de arma política quando não havia nada para falar.
E não se sabe muito bem o que é, porque há vários tipos de regionalização e nunca se chega a isso.
Falar de um modelo de regionalização é problemático. Digo uma coisa, para isso acontecer teria que ser com referendo, certo? Essa é uma das discussões à volta da regionalização. É que há quem diga que sim, há quem diga que não, dependendo daquilo que é. Eu achei que sim, por acaso. Não, mas é que depende, depende do modelo que tu queres. E há vários modelos. Há uma coisa que é importante discutir, para mim, que é o tema mais importante da regionalização ou de qualquer solução, que é as assimetrias regionais. Nós vivemos num país muito pequenino, são 600 km de costa, em que as realidades de um curto espaço. São um pouquinho mais. Sim, em números redondos é 600 troco a passos. Em números redondos é 600 km de costa. Temos mais de área. Sim, certo. Desculpa, continua. Temos pouco tempo. Para fechar. As assimetrias regionais são talvez a coisa mais assustadora deste país. E há um tema, e até para ser polêmica, que eu vou trazer, que é precisamente, por exemplo, as touradas. A propósito do outro assunto, falei muito de touradas esta semana, a propósito do Campo Pequeno e de falarem algo que confesso que me passou completamente ao lado, o número de touradas diminuiu consideravelmente no Campo Pequeno. E por que o poder político não intervém aqui? Por que eu não vejo os partidos de direita, os partidos que defendem isto, a reclamar? E eu digo, porque a verdade é que o custo político disto em Lisboa e o valor político é baixo. Depende do sítio, claro. Depende do sítio. Agora, se nós formos ter esta discussão. Em Salvaterra de Magos. Em Salvaterra de Magos, em Santarém, em Coruche, em Barrancos, então nem se fala. Perde eleições. Não, mas é isso que eu estou a dizer. Por isso é que eu estava a dizer. Eu aí não estou nem desacordo contigo, o que eu estou a te dizer, o tema da regionalização em si, o modelo, não é o tema, é as assimetrias que existem. E as touradas é um bom exemplo, como há vários, que é o valor aqui de haver quatro corridas no Campo Pequeno, o número de eleitores que vai deixar de votar em Carlos Moedas, por ele dizer, vamos imaginar, isso não aconteceu, é residual.
Muito bem.
E isso é um tema polêmico, de propósito, para pensarmos nisso.
Havemos de ter tempo para continuar a falar sobre isto. Está feita a primeira parte do "Geração V". Vamos agora para um curto intervalo e já voltamos para a segunda parte do nosso programa. Até já.
Estamos de volta para a segunda parte do "Geração V". Esta semana assistimos também às declarações da primeira-ministra italiana, Giorgia Meloni, a acusar os Estados Unidos e Israel de violarem o direito internacional ao atacar o Irão. Zé Paulo, o que significa esta afirmação pra narrativa da direita europeia, na tua opinião?
Eu acho que é uma declaração interessante e importante da Meloni. Sucede-se à de Macron e à de Mark Rutte, no caso do Holanda. Acho que são um bocadinho diferentes daquelas Pedro Sánchez, até pela veemência, mas talvez esteja mais associada com questões internas. Meloni vai ter um referendo dia 22 e 23, que se assemelha muito ao que fez Renzi em 2016 em potencial político, e portanto talvez tenha tido essa razão. Pra termos uma ideia, em Itália as sondagens indicam que Trump tem uma opinião negativa por parte de 77% dos italianos, portanto é bastante. Pode ter sido por algumas razões políticas, e se olharmos pro caso de Meloni e pra estabilidade que tem trazido pra Itália, é muito interessante. Está a uns meses de ser o governo mais longo pós Segunda Guerra, o mesmo governo seguido, e pode ser o primeiro governo a durar uma legislatura inteira, que seria uma coisa também interessante de vermos acontecer, em Itália são de cinco anos. Mas acho que a questão pra direita europeia também é interessante, porque temos agora daqui a um mês eleições na Hungria e vamos ver o que vai acontecer entre Viktor Orbán e Péter Magyar, que até inclusivamente falou no último mês na possibilidade da Hungria entrar no euro até 2030, tem defendido uma posição ligeiramente mais favorável à Ucrânia do que Viktor Orbán defendia. Vamos ter referendo na Islândia até o fim do ano para reatar as negociações para a entrada na União Europeia e vamos ter três eleições muito importantes para o centro-direito europeu no próximo ano, as eleições em França, e vamos ver o que é que é a incógnita Bardella e quem é que o centro-direita vai conseguir pôr na segunda volta, potencialmente, que estão em Itália e as eleições em Espanha. Portanto, isso vai ser muito interessante, e se Meloni conseguir passar este próximo ano e meio e conseguir efetivamente durar como previsivelmente parece que vai conseguir durar, pode servir como uma espécie de ponte entre o centro-direita e a direita mais radical na Europa. Lembrando que Meloni não pertence ao grupo do Chega, pertence ao grupo dos conservadores e reformistas na Europa, e pode ser essa ponte interessante entre direitas que podemos estar a ver pros próximos anos no contexto europeu.
Muito bem, Joana, surpreendida com esta tomada de posição de Meloni?
Na situação atual, não. O Zé Paulo tocou aqui numa data de assuntos que tinha pensado até pra se falar sobre este tema, e pegar só aqui especificamente no referendo. O referendo versa sobre a justiça, é um referendo e esse é um dos grandes problemas que se está a falar agora neste momento em Itália, que o referendo é difícil pra população compreender.
É muito constitucional.
É muito constitucional e é muito complexo, mas em termos mais simples, é um referendo que quer separar as carreiras dos juízes e dos magistrados, e criar um tribunal superior, um novo tribunal superior para os membros do sistema judicial. Portanto, um mecanismo de avaliação da forma como os magistrados e os juízes se comportam.
E a questão da justiça em Itália é importante por causa do Mani Pulite há 30 anos.
Era exatamente o que eu ia dizer. E a questão da justiça é muito importante nesse sentido e aliás, é uma discussão que nós também temos em Portugal, que começa a se ouvir um burburinho sobre como é que nós avaliamos o trabalho. Nós temos uma justiça que está atrasada e, portanto, eu compreendo. Agora, é um referendo e até a forma como está escrita, isso é uma das coisas que se fala muito, que é muito difícil pra população compreender. A Giorgia Meloni informou que não se vai demitir caso a sua posição perca. Agora, nós temos que ser realistas. É verdade, há aqui uma questão de jogo eleitoral, mas há aqui outra questão também.
Então.
Que é a grande questão dos líderes europeus que estão a manifestar desta forma tão específica, que foi uma violação do direito internacional, e falam com um tom muito empolado, mas acabam por não fugir e não dizer diretamente assim mal de Donald Trump e fugir um bocadinho, por uma razão muito simples.
Então, que é qual?
Petróleo. Nós temos um problema que é o aumento do preço do petróleo, que neste momento, e já se está a sentir cá, e neste momento nós temos um problema muito grande, é que nós estamos neste vai não vai guerra. As economias europeias estão em estagnação, ou têm um crescimento muito pequeno, e nós arriscamos a ter uma nova crise inflacionária.
É que, portanto, aumenta o petróleo e aumenta tudo o resto.
É que aumenta tudo o resto e arriscamo-nos a ter uma nova crise inflacionária. E aqui o Zé Paulo poderá falar melhor do que eu sobre este assunto, mas as previsões não são positivas, nenhum cenário é positivo. E portanto, há um medo da parte dos líderes europeus, porque no final do dia, têm que se preocupar com as suas populações.
Estão a ser cautelosos, então.
E estão a ser cautelosos nesse sentido. E assim, dizer que o ataque de Israel e dos Estados Unidos da América é uma violação do direito internacional e da política internacional e da Carta das Nações Unidas, é uma verdade, é um facto. E um jurista que tente discutir isto não sabe do que está a falar.
Discordo completamente.
Esta afirmação não implica, nem significa que se é a favor daquilo que é o regime iraniano, que é uma ditadura onde morrem pessoas, onde se vive um terror, onde as mulheres não têm direitos, de fanatismo religioso, que estava ou não a fazer, aí temos a questão nuclear. E portanto, uma coisa não anula a outra. E aqui termino por dizer uma coisa: eu acho sempre muito bonito falares do direito internacional. Eu gosto muito do direito internacional. E a frase que eu mais gosto sobre direito internacional é que direito internacional não existe O direito internacional é aquilo que a política internacional definir no momento. E isso, para mim, é o maior problema do direito internacional atual. É que essa foi a promessa que foi feita, de que estes tratados, estes acordos, estas organizações iam garantir que nós não íamos estar na situação em que estamos a avistar agora, e ele está a mostrar que não são suficientemente firmes, porque qualquer país que decida, os incumpre. Gostava da frase, não me lembro de quem é que era o professor que dizia isto, mas eu tive um professor que começava as aulas de Direito Internacional Público por dizer: "O direito internacional não existe." Cada vez concordo mais.
Maria, discordaste da Joana?
Completamente.
Ainda bem.
E por quê?
Porque eu acho que Israel, não estou a falar dos Estados Unidos, estou a falar de Israel, Israel, ao abrigo do direito internacional, tem o direito de autodefesa. Israel tem sido alvo de um flagelo por parte do Irão, tem sido alvo de ataques verbais, físicos, e a própria Europa não se deveria esquecer que o Irão tinha mísseis de longo alcance que chegavam aqui. Portanto, essa conversa do direito internacional foi violado, talvez pelos Estados Unidos, enquanto aliados de Israel, não creio que por Israel. Mas voltando à Giorgia Meloni.
Como é que tu viste estas afirmações?
Isto é uma discussão jurídica interessante.
Se calhar é um episódio inteiro.
Acho que é um episódio inteiro. É uma discussão jurídica interessante. Eu tenho muita dificuldade em falar em ataques diretos, porque diretos nunca foram, mas é interessante.
A Giorgia Meloni, como vocês disseram, e bem, acho que isto é mais uma questão interna de política interna do que propriamente uma questão de política internacional. Tem um bocadinho esses contornos. Mas ela também disse algumas coisas interessantes que vocês, acho que foi por lapso, não mencionaram.
Não dava para mencionar tudo.
Que foi que ela disse: "Nós reconhecemos uma violação do direito internacional, mas nós também achamos", e ela disse: "Eu também acho que um país governado por regimes de aiatolas estejam na posse de armas nucleares e com mísseis capazes de atingir a Europa, não se pode permitir."
E deixou usar as bases também.
Houve alguma distorção daquilo que ela disse. Ela continua a dizer que houve uma violação do direito internacional, mas também deixa ali a ressalva de realmente eles não deviam poder ter aquelas coisas. Alguém devia ter feito alguma coisa sobre isso. E alguém fez. Giorgia Meloni, na minha opinião, é uma mulher extremamente inteligente. É uma mulher que se fosse de esquerda, era altamente valorizada, mas como é de direita, nunca se fala dela. Nunca se diz que ela é uma pessoa extremamente capaz, nunca se diz que ela é uma mulher, eu ia dizer outra expressão, não posso dizer aqui.
Nós calculamos.
É muito assertiva e sabe o que quer, sabe o que faz e tem Donald Trump em linha, que é uma coisa que mais nenhum líder europeu foi capaz de fazer. Ela é literalmente a única pessoa que olha para o Donald Trump de frente e que ele respeita. E por isso é que eu também acho que ela pode dizer estas coisas. Ele gosta bastante dela, dá para perceber, porque ela é uma mulher forte e é uma mulher com capacidade. E voltando aqui a esta questão de ela ser uma mulher de direita, eu acho que a Giorgia Meloni é aquele típico caso de uma mulher forte, que na altura, antes de ela ser eleita, toda a gente dizia: "É a extrema-direita, vem para a Europa e para Itália, meu Deus!" É um caso de sucesso. Absolutamente um caso de sucesso. Toda a gente tinha medo dela, era o bicho-papão que ia comer crianças, que ia ser uma coisa horrível.
Mas ela moderou-se também no cargo ou não?
Ela provou que a direita pode ter posições que algumas pessoas consideram radicais e quando chega ao poder, é capaz de tomar as decisões corretas na altura correta. E por isso é que ela é tão popular. Eu não sei se posso fazer aqui um ponto já diretamente com o próximo tópico.
Pode, pode ir da mulher.
Pode ir da mulher. A propósito de mulheres de direita, no Dia da Mulher, que foi no dia, eu vou fazer um bocadinho como o Donald Trump hoje, que eu trouxe aqui umas fotocópias.
Ela gosta muito de fazer isso.
Para quem está no YouTube, pode ver.
Quem não está, vai para o YouTube.
Portanto, está uma capa do Público, segunda vez o Público.
Estás com a capa do Público esta semana.
Eu leio todos os jornais.
Eu também, mas tu...
Quando eu acho que não pode haver pior, fico surpreendida. No dia 8, foi o Dia da Mulher, no domingo, e o Chega, eu vou ler para quem não nos consegue ver, resolveu colocar um artigo que se chama "Política de género: como o Chega usa as mulheres contra a igualdade." O que o Público fez aqui? Foi buscar um estudo de uma aluna de 23 anos, que foi orientada por uma antiga secretária de Estado do PS, a orientadora de tese, para dizer que o Chega, no fundo, eu vou resumir, porque aquilo é uma coisa muito grande, muito maçuda, para no fundo, passar um atestado de incompetência às mulheres de direita. Ou seja, o que o Público diz? Diz: "As mulheres de direita são umas tontinhas, que são usadas pelo André Ventura e pelo seu partido como fantoches para fazer uma coisa que elas chamam o feminacionalismo." Isto é aquelas palavras que as pessoas-
Essa eu nunca tinha ouvido.
Eu vou confessar, esta expressão também, feminacionalismo, essa é nova.
"É a apropriação da retórica da defesa das mulheres para deslegitimar agendas nacionalistas xenófobas e conservadoras." E depois é uma misturada, é uma salganhada, mistura-se direitos das mulheres com apropriação de retórica.
Isso no Público?
Isto no Público.
Mas a pariga era de onde? Da Universidade?
Era da Universidade de Coimbra, fez este estudo que o Público achou por bem publicar no Dia da Mulher.
E por que ter uma fida Rita Matias também?
Essa é outra questão, porque este enorme estudo, muito bem feito academicamente, pegou em 18 deputadas do CHEGA e analisou o discurso de duas delas, que foi a Rita Matias e a Cristina Rodrigues.
Eu acho que a crítica que temos que fazer é à estudante.
Não, a crítica que temos que fazer é ao Público, como é que no Dia da Mulher se passa um atestado de incompetência a que uma mulher que seja do CHEGA ou seja de direita, é um fantoche do partido, porque é isto que está lá dito, é um fantoche, e as mulheres que votam no CHEGA são outros fantoches. Porque estas 18 deputadas que lá estão, diz o Público, só servem para atrair as outras tontinhas das outras mulheres que lá estão pra irem votar no CHEGA. Ou seja, long story short, desculpem.
Não faz mal.
O Público acha que as mulheres de direita não sabem o que querem, não sabem o que fazem, e conseguiu fazer um artigo muito machista, o inverso daquilo que queria fazer, que é dizer que quando uma mulher é de direita, não tem competência nenhuma pra decidir seja o que for, porque aquilo que ela vai decidir, vai decidir mal. Vasco, não sei se tenho só mais um segundo.
Mais um bocadinho.
Depois também é engraçado, o outro artigo que está exatamente ao lado, que fala: "Portugueses ciganos, quatro vidas que mostram que o futuro vai ser diferente". Ou seja, o Público-
Foi escolhido a dedo.
Pega aqui, passa um atestado de incompetência ao CHEGA e usa os ciganos pra dizer: os ciganos que casam crianças aos 10 anos, e isso está documentado.
Eu não estou a rir de quem casa crianças aos 10 anos.
Não. Como todos sabemos, e muitas vezes enterramos a cabeça na areia, isso existe, casamentos de menores na comunidade cigana.
Não só na comunidade cigana.
Eu não disse que era só na comunidade cigana, mas disse que há na comunidade cigana. E portanto, o Público achou que pro Dia das Mulheres era bom usar o CHEGA pra passar um atestado de incompetência às mulheres de direita e usar os ciganos pra dizer que as mulheres são valorizadas.
Joana, o que tem a dizer sobre isto e sobre o geral do Dia da Mulher?
Eu começo por fazer um voto de repúdio ao Público, até inclusivamente, Maria. Até porque a Maria critica, eu, de facto, passei à frente da capa do Público, que a Maria é muito correta, eu leio online e portanto vou lendo os artigos.
Eu também leio online.
Eu também leio isso online, mas eu não tiro as capas.
Eu tirei esta só para o vosso prazer.
E depois, além destes dois artigos que a Maria fala, PSD quer atestado médico obrigatório pra mudança de sexo no registro civil no Dia da Mulher.
Não tive tempo pra essa, ainda bem que tu achaste.
Não, mas eu aqui vou fazer uma crítica também, porque eu acho que há aqui uma confusão muito grande entre mulheres e ideologia de gênero, direitos das mulheres e ideologia de gênero. Há uma confusão muito grande entre um grupo feminista, uma linha feminista que é muitíssimo barulhenta, faz imenso barulho, mexem-se imenso, mas não representam a grande maioria das mulheres feministas no mundo, que é esta linha feminista que odeia homens e que odeia outras mulheres que não sigam esta linha.
As mulheres de direita, por exemplo.
Que não sigam esta linha. A deputada Eva Brás Pinho, inclusivamente, falou há pouco tempo num podcast sobre isto, que é este ódio que foi criado à palavra feminismo e ao feminismo à direita, por este grupo, e é precisamente este grupo, a Eva se calhar não fala sobre esse tema, mas a ideia é a mesma. Este grupo que é muito barulhento. Este grupo diz-nos que a culpa de todos os problemas do mundo não é do patriarcado, é dos homens. Eu não sei como é que este grupo quer viver, porque se não houver homens e mulheres, não há filhos. Isso aí é indiscutível. Por razões anatômicas de palavras que eu não posso dizer aqui. Mas é um facto. Independentemente da forma como as crianças podem ser geradas, mas é um facto, é preciso.
Ainda não mudamos isso.
Ainda não mudamos isso, ainda não conseguimos chegar lá. E portanto, não concordo, nem nunca vou poder concordar que uma mulher que expressa as suas opiniões, mesmo que eu não concorde com elas, e mesmo que eu ache que em certa medida, algumas dessas opiniões a podem estar a prejudicar, não só como mulher, mas enquanto cidadã, eu não posso dizer que esta mulher é completamente idiota e não sabe o que está a fazer. Não, esta mulher é uma adulta. Ela é responsável pelas suas decisões e ela tem que saber pensar pela própria cabeça. Se eu acho que amanhã a deputada Rita Matias vai comer muitas das palavras que diz, tenho a certeza absoluta.
Mas tem direito de as dizer.
Não só tem direito de as dizer, como eu não lhe posso passar um atestado de estupidez. Não posso, não me é permitido, por questões que são relativas a causas em que acredita, sejam elas o aborto, vamos entrar por aí, à conciliação da vida familiar e profissional. O que eu posso dizer é que a deputada Rita Matias está errada quando diz que todas as feministas odeiam homens. Isso posso. Porque o feminismo, o que pede é igualdade. Quando vai citar, vão ao fundo do baú buscar cartas da Simone de Beauvoir e vão buscar feministas altamente radicais.
Não, é preciso estar aqui no Público.
A menina da Universidade de Coimbra, a quem eu faço um voto de repúdio, e terminar por dizer o seguinte: há 15 anos atrás, tínhamos o blog conhecido as capazes, a Rita Ferro Rodrigues, a Inês Ferreira Leite, a Isabel Moreira.
Que terminou.
Que terminou. Já terminou há bastante tempo. E nós achávamos que o que estava escrito nesse blog. Não. Eu convido a Maria a fazer um exercício, que é ir ler o que está escrito nesse blog. Porque nós achávamos que aquilo era um feminismo ultraradical E aos olhos de hoje em dia, em comparação com estas questões.
O que mudou nos últimos anos.
O que mudou nos últimos anos. E aqui dizer, falar sobre questões de mudanças de sexo no Dia da Mulher é uma ofensa àquilo que o Dia da Mulher defende. O Dia da Mulher defende a igualdade salarial, tudo aquilo que é falado todos os anos, o gap salarial que existe, os 16% que a mulher ganha a menos.
Os casos de violência doméstica.
Os casos de violência doméstica, as mutilações genitais femininas. Essas são as questões do Dia da Mulher. Isto não são.
Muito bem.
Tinha até números para falar sobre isso.
Zé Paulo, para acabar assim no minuto.
Sim, só dizer que temos em Portugal, quando olhamos, por exemplo, as 50 maiores autarquias, só seis são lideradas por mulheres. Historicamente, temos apenas uma primeira-ministra, nas condições em que foi, uma presidenta da Assembleia da República, ironicamente, só os partidos de direita e o Bloco de Esquerda é que tiveram líderes mulheres. Mas 58% dos diplomados em Portugal são mulheres. E portanto, há aqui uma desigualdade que acho que é interessante analisarmos. E olhando para a questão dos salários, a diferença salarial é preocupante, a diferença salarial vem através, por exemplo, de títulos e de cargos diferentes. As mulheres tendem a ocupar cargos inferiores aos homens, tendem a ser prejudicadas por um conjunto de razões que os homens não são prejudicados. Em 2023, a Claudia Goldin foi laureada com o Nobel da Economia exatamente por falar sobre isso mesmo. E acho que é importante, não seja só no Dia da Mulher, mas que nos lembremos sobre esta diferença no gap salarial, porque é efetivamente isso que conta no fim do mês. É o que as pessoas conseguem trazer para casa. E não é justo que em 2026 as mulheres continuem, por razões aleatórias do próprio nascimento, a trazer menos rendimentos para casa.
O nosso tempo chegou ao fim. Muito obrigado aos meus comentadores, Joana Zaguri, Zé Paulo Soares e Maria Vieira Laré. Até à próxima.
Obrigada.
Obrigada.
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