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Começa agora o Geração V, o teu programa de comentário político jovem da Rádio Observador. Eu sou o Vasco Galhardo, do Vou Voto, e comigo tenho os meus comentadores residentes. Olá Joana Marques Braz e Gonçalo Sousa, como estão, meus caros?
Olá, Vasco. Estou muito bem.
Olá, Vasco. Está tudo bem.
Muito bem. E hoje convidamos Manuel Pais, que é assessor de assuntos europeus e já escreveu para a coluna de opinião do Vou Voto. Olá, Manuel, e obrigado por te juntares a nós hoje.
Olá, obrigada eu pelo convite. É um prazer.
Antes de avançarmos para os vários pontos que temos na ordem do dia e como vos contei a semana passada, o Bernardo Faro abandonou o painel fixo deste programa, mas não sem antes deixar uma mensagem que vamos agora ouvir.
Olá, Vasco, Joana, Gonçalo e todos os ouvintes que nos ouvem. Queria só mandar um grande abraço especial a todos. Eu agora, este ano, para esta próxima temporada, muito fruto daquilo que são os meus compromissos profissionais, eu não vou mais continuar a estar presente nesses nossos encontros semanais. Mas queria só mandar um grande abraço especial a todos, por aquilo que foi o privilégio de poder arrancar com este projeto ao vosso lado, crescer, aprender convosco e sobretudo também ter um espaço onde eu pudesse partilhar as minhas opiniões. E portanto, também numa lógica só de me despedir, deixo só aqui duas ou três ideias. A primeira, dizer que a este ritmo, os Estados Unidos da América arriscam-se a ter problemas sérios e portanto, se calhar uma previsão audaz será dizer que até 2050, talvez o Canadá possa ser o maior país na América do Norte. Portanto, a ver vamos. Segundo, como eu já tenho dito muitas vezes naquela tese que eu defendo, que os PIGS, Portugal, Itália, Grécia e Espanha, os PIGS, que vão liderar a União Europeia nos próximos anos, ao contrário de França, Reino Unido e Alemanha, que foram quem lideraram nos últimos anos, vejam agora como é que a Espanha já está a crescer precisamente por fatores como aqueles que eu já tenho mencionado várias vezes, que é a bolha do turismo, a transição energética, entre outros. E depois também, só para concluir, deixo uma sugestão que é: quem poder, que vá ao Chefs on Fire. É um evento que vai acontecer em Cascais este fim de semana, onde eu coincidentemente vou estar. E para quem quiser mesmo, sim, lá vocês vão ter hambúrgueres. Está bem? Vai ser mesmo hambúrgueres à séria. Ok? Sem cidadãos, só hambúrgueres.
Festa de hambúrgueres.
Portanto, deixar um grande beijo e abraço a todos, à equipa toda do Observador, que ao longo do último ano sempre nos foi dando aqui a mão. E portanto, a todos vocês, boa sorte, divirtam-se imenso e sobretudo continuem a inspirar esta juventude com aquilo que são as vossas ideias e com aquilo que também é o vosso trabalho. Está bem? Portanto, bom programa a todos e aproveitem.
Muito bem, o Bernardo com uma despedida, um comentário e uma sugestão.
Tudo junto em dois, três minutos. Sim, senhor. Grande Bernardo.
Capacidade de síntese brutal.
Grande Bernardo. Isto é uma terapia que chega. Vamos embora. Vamos lá, Bernardo.
Exatamente. Pois bem, vamos avançar porque esta semana tivemos novidades na corrida às presidenciais de 18 de janeiro, entrevistas e debates para todos os gostos, uma manifestação à porta da Assembleia da República, o programa Jimmy Kimmel suspenso e a ONU a reconhecer o genocídio que está a acontecer em Gaza. Gonçalo, por onde é que queres começar?
Começamos pela manifestação à frente da Assembleia e conecto depois isso para as questões das presidenciais.
Muito tensa, não é?
Sim, bastante tensa, mas eu sempre fui apologista em outras manifestações que já houve anteriormente, quer por parte da esquerda, quer por parte da direita, em não proibir absolutamente nada, porque eu acho que isso é o pior. E aquela interação, as pessoas poderão dizer: "Ah, é provocatório, etc."
A interação de quem? Do André Ventura?
Sim, quando o Ventura lá aparece, porque obviamente é para fazer headlines de telejornais que as pessoas queriam ver. Faz todo o sentido do ponto de vista daquilo que ele procurava. Aqui a questão é que toda a gente é um monstro até nós falarmos com elas. E eu acho que nós temos que parar com aquela ideia de que não podemos falar ou não podemos coexistir no mesmo sítio quando ideias opostas estão ali em cima da mesa. Agora, os imigrantes que ali estavam, eu não sei a situação de todos eles, enfim, claramente parece-me que há ali pessoas que têm a situação mal regularizada ou que há atrasos da AIMA, porque há. Não sei se por façam com aquelas pessoas ou com outras, mas de certeza que há ali problemas com isso. Aqui a questão parece-me outra, é que há a instrumentalização política dos dois lados com grave problema que está a acontecer na questão da imigração em Portugal e é pena que não tenham deixado o Ventura falar com eles. Genuinamente, tenho pena. Porque havia ali pessoas que queriam falar com ele. A determinada altura, um senhor brasileiro, não sei se vocês viram, começa a falar com o Ventura, depois não se percebe muito bem por causa do barulho. Eu pelo menos não consegui perceber.
Tu não tinhas medo que ele escalasse?
Tinha um bocado de receio, estava a ver aquilo quase em filme e o próprio Ventura notava-se que estava assustado e pessoas ali à volta que estavam um bocado assustadas. Mas tenho genuinamente pena que não se tenha falado. Tenho, porque eu não sou apologista nem de se proibir as manifestações, porque não sei o quê, não sei que mais. Eu acho que tem que haver medidas de segurança, claro, básicas, mas tenho genuinamente pena que não se tenha falado. Primeiro, porque o André Ventura é líder da oposição e representa muita gente em Portugal. E eu acho que as pessoas quererem que o Ventura não esteja ali ou que não devia ter ido e não sei o quê, acabam por potencializar ainda mais votos ao Ventura. Porque as pessoas vão pensar: "Bom, corajoso, ao menos representa-me e não sei o quê, não sei que mais. Ele não pode estar ali, não sei o quê, não sei que mais." Mas quer dizer, é o líder da oposição, não pode falar com pessoas que se estão a manifestar? Depois, há ali outras coisas que da parte dos imigrantes, que há ali reivindicações que fazem sentido, mas depois não podem aparecer com cartazes que eu acho que não fazem sentido. Havia ali pessoas de cara tapada. Que eu acho que isso aí é preocupante. A nível de segurança, etc. E viu-se, enfim. Depois há outros pormenores que eu acho que deveriam ser mais bem explicados. Aparecerem pessoas a dizer "documentos para todos" Isto não é assim, não é documentos para todos. Documentos para quem entra legalmente, para quem faz uma assimilação cultural, respeita o país e as normas para cá viver, trabalha e desconta. Mas isso não é documentos para todos, é documentos mediante determinado tipo de regras. E aparecer com esse cartaz não me parece a melhor estratégia. Também não vou dizer que é uma provocação, nem de um lado e de outro, porque eu volto a frisar, toda a gente é um monstro até nós falarmos com elas. Estou a hiperbolizar, mas acho que se percebe a ideia. E eu acho que isso advém um pouco da questão das redes sociais. Como não há conexão a nível não verbal e na linguagem, nós achamos que quando essa conexão a nível de contacto existe, é automaticamente uma provocação, porque nas redes sociais isso é visto como facilmente uma provocação. Portanto, se queres que eu te diga, por um lado, aquilo podia ter escalado e era um perigo, certo, obviamente, mas por outro, fiquei contente que haja uma espécie de diálogo ou tentativa entre um lado e o outro. Porque a situação não se vai resolver em termos das disparidades da opinião em Portugal, se não houver diálogo. Pode ser mais tenso, pode ser menos tenso, pode ser o que vocês quiserem, mas se não houver diálogo.
Mas é a falar que as pessoas se entendem, não é?
Exatamente. Só mesmo assim. As pessoas poderão dizer: "Os imigrantes não tiveram a melhor abordagem porque tinham os cartazes X ou Y, ou estava lá um de cara tapada". As pessoas podem dizer também: "O Ventura não teve a melhor abordagem porque estava a haver debates no Parlamento sobre incêndios." Não é? Fez-me estiver enganar. Estava a ver e ele foi lá só para aparecer. Tudo certo. Agora, é um problema grave e se não houver diálogo relativamente a isso, a situação não se resolve. Portanto, acho muito bem que os imigrantes se manifestem, o país é livre, estão à vontade para o fazer, e acho também muito bem que o André Ventura tenha lá ido para conversar relativamente a esse tipo de circunstância, que é algo que o país muito honestamente precisa. Mais do que até o tópico em si, o país precisa de conversar. As pessoas, geralmente os grupos em si, era fazer um focus group, só para concluir. Um focus group com a malta que discorda da direita, com a malta que discorda da esquerda. Porque se não houver comunicação, aí garantidamente é que o país não se resolve, independentemente da qualidade do método.
Joana.
Por acaso eu concordo contigo no que diz respeito à conversa.
Ficaste contente com a presença do André Ventura também?
Eu acho que André Ventura devia ter convocado essa conversa há dois anos. Ou seja, eu acho que André Ventura deveria convocar essa conversa antes de todos os ataques que faz aos imigrantes e das leis que tenta fazer para regular a condição dos imigrantes, de imigração em Portugal. Antes de fazer essa lei, devia ouvir as pessoas. A conversa não se faz quando há uma associação, que é a Associação pela Solidariedade Imigrante, que convoca uma manifestação pacífica, que tem um objetivo muito concreto, que é o protesto contra a intimidação e mudança nas leis de imigração. Portanto, esta manifestação já é contra uma ação que André Ventura fez. Estás a perceber? Ou seja, este diálogo devia acontecer antes. Ou seja, estas pessoas estão a se manifestar de forma pacífica em frente à Assembleia da República por uma alteração legislativa, que foi proposta, que é intimidatória. Ou seja, esse diálogo que estás a falar, sim, mas por que o André Ventura não chama essas pessoas para conversar? Aliás, quando nós temos uma manifestação de outra coisa qualquer, seja dos professores, seja dos bombeiros, seja da polícia, o diálogo não acontece. O primeiro-ministro não sai da sua secretária e vai para o meio da rua falar com as pessoas, porque a probabilidade de naquela manifestação que as pessoas estão exaltadas e o ministro ou quem seja, vai falar com as pessoas no meio da manifestação, a probabilidade de acontecer alguma coisa é grande. E não é por serem imigrantes, não é por serem professores, não é por serem polícias. Se as pessoas estão a manifestar, é porque estão revoltadas com alguma coisa. Portanto, a conversa não acontece ali, a conversa acontece no espaço próprio, em sede própria, como a democracia assim regulou. André Ventura não o fez. Mais, quando tu falas de caras tapadas, é interessante porque houve uma manifestação dos bombeiros, não sei se recordam, que alegadamente instigada por membros do Chega nas redes sociais, onde os bombeiros estavam precisamente de cara tapada. E nessas instigações nas redes sociais, havia essa nota para as pessoas irem de cara tapada. Portanto, eu percebo, é sempre mau estar de cara tapada numa manifestação. Acho que as pessoas devem estar na sua plenitude de direitos e, portanto, também com a sua personalidade à mostra, no sentido em que é a sua cara e sua identificação. Acho que sim, para a segurança de todos. Agora, o Ventura tem muito esta ideia, tem muito esta forma de estar, que é: ele faz uma coisa, mas depois quando alguma coisa lhe acontece a ele, ele já é a vítima. E queria dizer uma nota que é: a conversa que estava a ter na assembleia não é qualquer coisa como incêndios, é a conversa sobre incêndios. Quer dizer, nós acabamos a época dos incêndios. Nós tanto criticamos Luís Montenegro, e eu aqui tenho que dizer isto, apesar de não ser propriamente fã do Luís Montenegro, tanto criticamos o Luís Montenegro por não ter falado sobre os incêndios. Realmente, o nosso primeiro-ministro disse que a seguir aos incêndios passados ia falar sobre esse assunto.
E era o que estavam a fazer.
Efetivamente, a bancada parlamentar da PS estava a falar e todas as outras bancadas estavam a falar sobre incêndios e o André Ventura sai dali naquele momento para ir para o meio da manifestação. Para o meio da manifestação essa que ele alega que foi agredido ou que houve uma tentativa de agressão, que ele ontem teve uma entrevista na Nau em que dizia para o jornalista que a Nau e a CM foram os únicos canais que deram as notícias realmente verdadeiras e, portanto, que ele foi agredido e que mais ninguém quis dar, ou que tentaram agredi-lo, não sei se ele estava a falar verbalmente ou se estava a falar fisicamente, mas ele diz agredido e ficou por ali, e que ninguém deu essa notícia verdadeira. Eu queria terminar com a nota de que nessa entrevista ele dedicou-se muito tempo a falar da manifestação, por isso eu acho que ele não queria ir falar com as pessoas. É uma boa narrativa, eu gostava de acreditar. Eu não acredito. Eu não acredito por quê? Por causa das ações que ele faz a seguir. Ele vai para a manifestação e a seguir vai ter uma entrevista para falar da sua candidatura às presidenciais, e nessa entrevista tanto fala da manifestação, que o jornalista foi obrigado a dizer a seguinte frase: "André Ventura, mas aquela manifestação não era sobre si Portanto, ele tanto focou o tema nele, ele tanto teve aqui uma utilização política, isso sim. E nota só uma coisa para terminar, para isto não ficar perdido. A manifestação era uma coisa muito concreta: era contra a intimidação e as mudanças nas leis de imigração. Era uma resposta a uma intimidação que tem sido feita por um partido em Portugal, ou dois, porque o PS também tem sido-
Gonçalo, muito rápido, depois passamos à Manel e à Joana
Repara, eu não posso considerar sequer que a mudança à lei de estrangeiros seja uma intimidação. Isso não, é uma alteração legislativa, até porque Portugal, há 20 anos, tinha uma lei de estrangeiros muito mais rígida do que aquela que está a ser proposta neste momento. Portanto, nós não podemos nunca dizer que é uma intimidação. Nós nunca podemos dizer que uma alteração a nível da lei de estrangeiros, neste momento, é uma intimidação, porque senão estamos a limitar aquilo que é o normal funcionamento da própria democracia. Isso não é uma intimidação.
Era consentiam.
Mas uma coisa é o que tu sentes, outra coisa são os factos.
Estão a manifestar-se as pessoas reagem e essa democracia permite isso.
Legítimo. Agora, não podes é dizer factualmente que aquilo é uma intimidação, quando é uma alteração legislativa, é uma coisa completamente diferente.
Isto é uma reação ao que o Ventura fez sem conversar com eles.
Certíssimo. Está certo.
Se o Ventura conversasse com eles, eles já não se sentiam intimidados.
Não há problema nenhum com isso. Tudo certo. A questão é que nós não podemos andar a dizer que uma alteração legislativa é uma intimidação quando há legitimidade, claramente, do ponto de vista legal e prático, para se fazer essa alteração.
O Tribunal Constitucional está a averiguar se há legitimidade ou não.
Mas repara, isso é outra questão. A questão é que depois ela vai ser alterada, a própria lei de estrangeiros, para uma matriz que até é mais moderada do que aquilo que era há 15 ou 20 anos atrás, e mesmo assim, ninguém dizia que há 20 anos o país intimidava quem quer que fosse.
Há 20 anos ninguém perdia a nacionalidade quando cometia um crime. Essa é a proposta que está.
O Chega, neste momento, em matéria de imigração, é mais moderado do que o PS do António Guterres.
Deixa-me perguntar agora ao Manel. Foi uma atitude de provocação este aparecimento de André Ventura na manifestação?
Claro que sim. Aliás, aquilo que o Gonçalo estava a dizer, eu não acho que ele não queria falar com ninguém, tanto que ele foi para a manifestação, não se ouvia absolutamente nada, e é assim, ele se quer efetivamente no espaço público, ter essa conversa, ter esse diálogo, não é ali, não vai ser ali.
Por que não?
No meio de uma manifestação, com todo aquele alvoroço normal, que é democrático, que acontece no espaço democrático, faz sentido que aconteça. Aquilo que aconteceu, não sei se vocês viram o vídeo, o Ventura aparecia, o Power Ranger vermelho, os deputados todos atrás, que eram os outros Power Rangers, a entrarem por ali adentro com os assessores e com o resto da equipe mediática. E fizeram ali um circo mediático, que foi aquilo que aconteceu, foi um circo e uma utilização daquela manifestação para isso. Eu acho que se ele quer falar efetivamente com as pessoas, ele sabe como fazer.
Eu concordo contigo, mas eu acho é que nós não podemos retirar a possibilidade de se falar ali. Eu acho que era um exercício fantástico de democracia se tivessem conversado. E era a melhor resposta que se podia ter dado até ao próprio Ventura.
Será que André Ventura foi à procura das pessoas que organizavam?
Deixa-me só concluir. Porque o Ventura, a partir do momento em que entra ali, se as pessoas lhe dessem a resposta de conversar, o argumento dele estava completamente deitado por água abaixo. A realidade é essa.
Mas estamos a exigir.
E é isso que ninguém está a perceber. O Ventura entra ali no sentido da provocação mediática, etc. Mas se a resposta fosse: "Ok, então vamos falar", ficavam a falar e o alarido mediático era muito menor.
Que ato de condescendência que estamos a ter com o André Ventura. Então o André Ventura pode ir fazer um disparate, mas as pessoas que lá estão-
Desculpa lá, não é um disparate ires querer falar com pessoas. As pessoas podem dizer, para mim é um disparate-
Querem provocá-las. Exato, eu acho isso mesmo. Ou seja, foi num tom provocatório. Foi fazer um disparate porque foi num tom provocatório a manifestação.
O disparate para mim é abandonar o debate dos incêndios, aí parece-me um disparate.
E as pessoas têm que voltar a ter mais paciência ainda, pois vão-se acostumando.
Mas isolando o caso da questão de falar com as pessoas, se querem que vos diga, muito honestamente, a melhor resposta que se poderia dar ao Ventura era: "Ok, vamos falar." Percebes o que eu quero dizer?
Eu concordo contigo, Gonçalo. Acho que o diálogo é, sem dúvida, a resposta para sair deste conflito que estamos neste momento a ter em relação à imigração. Das duas partes, acho que é a resposta.
Achas que isto deu ou tirou votos ao Ventura?
Eu acho que é assim, quem dá votos ao Ventura, são as pessoas que votam nele.
Pois.
Ponto final. Não, mas é isso mesmo. Não, é mesmo isso que eu quero dizer, porque neste momento está-se a criar uma narrativa de que quando alguém fala do Ventura, por exemplo, eu muitas vezes sou culpada disso, falam de Ventura ou gozam com o Ventura, ou dão mais notoriedade ao Ventura, o mediatismo vai aumentar os votos. Não, quer dizer, então nós não vamos falar do segundo partido com mais votado? Não pode ser. Mais votado, não, com mais deputados. Portanto, não pode ser. Ou seja, ele está a fazer isto, qual é a resposta? É ignorar o que ele está a dizer?
Não.
Nós ignoramos durante tantos anos, ele está aqui.
E olha onde o ignorar o que ele quer que faça.
Dá mais notoriedade ao Ventura. Ele é que deve ele próprio-
É exatamente o oposto do que eu estou a dizer. Se tu falares com ele, porque o que aconteceu foi o ignorar de um lado.
Mas ele não quer falar.
Exatamente, por isso mesmo.
Mas ele não quer falar com as pessoas.
Exatamente.
Ele não foi à procura de falar com as pessoas.
Joana, estás a chegar lá. Porque se ele falar, não é o que ele quer. Percebes? É comunicação política.
Então estás a concordar comigo desde o início.
Sim, em determinados aspetos.
Ele foi lá, ele nunca foi para conversar, que foi aquilo que disseste no início. Não é verdade, ele não foi lá para conversar, ele foi lá para provocar as pessoas, porque tal como tu acabaste de dizer, ele não quer conversar.
E ele conseguiu fazer aquilo que queria.
Foi o que acabaste de dizer, certo? Ele não quer conversar. Para que ele foi para uma manifestação, se não quer conversar?
Eu não sei se ele não quer conversar, porque ele conversou com algumas pessoas.
Até ao acabaste de dizer que ele não queria conversar.
Em determinado aspeto, essa não era a primeira prioridade dele. A primeira prioridade era aparecer mediaticamente e eu referenciei isso. Se efetivamente aparecessem ali pessoas tranquilamente a dizer: "Olha, vamos conversar então." Achas que ele teria sequer a hipótese de dizer: "Não me deixam falar e não sei o quê e estar a gritar sozinho e a fazer uma figura ridícula."
Então espera, os imigrantes são os culpados porque vêm para Portugal. Os imigrantes são os culpados porque trabalham, mas dizem que não trabalham. Os imigrantes são os culpados de tudo. E os imigrantes agora são culpados.
Por que é que saltamos?
Não, porque é a narrativa do Chega.
Dos imigrantes?
Porque é a narrativa do Chega.
Mas isto estamos a ter que fechar.
E às tantas também são culpados porque não tiveram paciência com o André Ventura. É muito difícil pessoas que estão cá numa situação desprotegida. E eu percebo o que estás a dizer. Eu concordo que o diálogo devia ser a solução.
É porque também há imigrantes que votam no Chega.
Eu percebo isso.
E muitos imigrantes. Eu arriscar-me-ia a dizer que é a maioria.
Mas são outro tipo de imigrantes.
Não, são muitos imigrantes.
Mas há imigrantes de nacionalidade brasileira, indiana, chinesa. Não, eu compreendo. Só que é a narrativa do Chega. Há imigrantes de outras nacionalidades que estavam ali a manifestar e que também votam no Chega e nós vemos isso. Agora, não sei se são muitos. Nem sei qual é o background daquelas pessoas. No entanto, o que eu estou a dizer é: eu concordo quando tu dizes que o diálogo devia ser a via de conversa, devia ser a via de solução para isto. Agora, eu acho que André Ventura é o primeiro a cortar essa via. E o que tu estás a dizer é: se ele é o primeiro a cortar esta via, se ele vai lá para provocar aquelas pessoas, elas iam conversar com ele. Acho que é uma exigência muito difícil para as pessoas.
Eu não vejo aquilo como provocação. Eu vi aquilo como uma aparição mediática, que é diferente do que uma provocação.
E ele conseguiu aquilo que queria.
Não.
Muito bem, Nuno. Nós temos que fechar a primeira parte do "Geração V". Vamos agora para um curto intervalo e já voltamos para a segunda parte do nosso programa. Até já. E estamos de volta para a segunda parte do "Geração V". E como sempre, vou querer ouvir as sugestões da semana dos meus comentadores. Joana, começo por ti, o que é que vais recomendar aos nossos ouvintes e espectadores?
Vou recomendar um filme que se chama "A Incrível História da Ilha das Rosas", tem um nome italiano que eu não sei pronunciar. É de 2020 e conta a história do Giorgio Rosa. Tentei. Acho que estou perto.
Está ótimo.
Giorgio Rosa. É uma história real de um senhor que decidiu fazer uma ilha suficientemente longe da costa italiana para ser águas independentes. Fez lá uma ilha, mas com uns bidões, portanto uma ilha artificial, e declarou aquilo uma nação. E é o processo dele legal para justificar aquilo.
É uma história verídica? Desculpa, eu não percebi.
É uma história verídica. Depois Itália conseguiu interromper esta criação desta nação. Já estou a espalar o filme.
Isso é a China.
Eu acho que é muito interessante. Eu pelo menos vi este filme que contava Estado de Direito em Relações Internacionais e é muito interessante ver este filme e perceber a importância que é reconhecer um Estado como um Estado.
Muito bem. Obrigado, Joana. Manuel? Olhem, eu vou recomendar um livro que é "A Tirania do Mérito, O Que Aconteceu ao Bem Comum." Não sei se algum de vocês já leu.
Não. Acho que já foi aqui recomendado. Já? Acho que foi pela Catarina ou pelo aquele amigo da Catarina, o Zé Pedro.
Sim, exatamente.
Eu comecei a ler, estou a adorar e acho que é um muito bom livro sobre o que aconteceu ao bem comum. Muito bem. Obrigado, Manuel. Gonçalo?
É um bocado off-topic. Normalmente eu não faço este tipo de recomendações, mas I'm sorry if I'm a bit arrogant, but I'm not one of the bottle. I think I'm a special one. José Mourinho volta ao Benfica e portanto tenho que fazer essa recomendação, porque acho que é um símbolo português, não só a nível nacional e a nível internacional também. Clubismos à parte, acho que é bom para o futebol português, é bom para a economia portuguesa, é bom para a reputação de Portugal no estrangeiro.
Eu prefiro na seleção, por que não na seleção?
Eu também prefiro na seleção, mas no Benfica já não é mau.
Então o senhor foi despedido porque perdeu contra o Benfica, agora vai para o Benfica. Acho perfeitamente razoável.
É uma das minhas referências pessoais. Não tanto por questão clubística, apesar de ser benfiquista, mas não sou ferranho, mas mais por uma questão de sempre ter muita apreciação pelo José Mourinho. Portanto, a minha recomendação vai para isto, que eu gosto sempre de deixar estas notas.
Tenho uma pergunta para o Gonçalo, que é: como é que tu consegues mediar com as pessoas que te seguem, que gostam muito de ti, como é que tu consegues mediar o facto de seres benfiquista? Porque há tanta gente portista, ferranhista. Isso é um problema. Aliás, o Paulo Negro teve esse problema, mas assumiu. Se fosse do Porto também não quer saber.
Não, eu tenho um problema que é: evito falar de futebol o máximo possível.
Ele vai de ferranho do Benfica.
Não, eu sou ferranho da seleção. E sou um grandessiado que eu tenho mau perder. Sou um aziado.
Consegues gerir bem?
Sim.
Não falas disso, não é?
Não falo de futebol muito. Não falo muito. Falei uma vez. Falei do Luís Filipe Vieira, na altura: "Bem, não estás bem a ver."
Olhem, e eu esta semana tenho uma nota mais pessoal, quero contar-vos que no espaço de quatro dias ganhei quatro novos sobrinhos. Um filho de um primo meu.
Isto é uma forma de combater a falta de natalidade no país. Fantástico.
Correm aos templos, por um mistério qualquer, para a natalidade. Sei lá.
Mas deixem-me contar, isto eu vou perceber porquê. Um, que é filho de um primo meu, que tive a honra de ser escolhido para ser seu padrinho.
É, parabéns.
A filha de uma grande amiga minha, muito antiga, que nasceu hoje de manhã, mas quero falar de uma das minhas melhores amigas que teve ontem duas gêmeas verdadeiras e que por causa do risco da sua gravidez, teve que ser acompanhada na maternidade Alfredo da Costa e o feedback foi muito positivo. Correu tudo bem, elas foram muito bem tratadas. Por isso, como só ouvimos coisas negativas ligadas às grávidas, também é bom sabermos de casos de sucesso como este. Por isso, fica este agradecimento à MAC e ao SNS por terem trazido a Isabel e a Carmo em segurança. O pior mesmo é o horário das visitas, mas felizmente vou conseguir sair daqui a correr para ir conhecê-las. Por isso, fica aqui o agradecimento.
Palmas.
SNS.
Viva o SNS
Muito bem. Avançando, Joana, que tema é que nos trazes agora para a segunda parte?
O tema que eu trago para a segunda parte é: eu queria dar só uma nota para depois acabar de falar do Chega e acabou a conversa.
Tu adoras os Chegas.
Não, o que eu vou dizer agora é o seguinte. Eu vou explicar. Há uma coisa que me está a dar alento, negativamente, e mal vale uma pessoa rir-se disso, senão chora e emigra, que é a incoerência do Chega. Eu tenho que dizer aqui dois casos que não podem passar. Nas autárquicas, na Chamusca, temos uma candidata à presidente da câmara, que é a Íris Ascensão, de 28 anos, que tem uma página da OnlyFans. Para quem não sabe o que é uma página da OnlyFans, é uma página com conteúdo para adultos. Depois, na Junta de Freguesia de Safara, desculpem que eu não sei, porque eu nunca fui à Junta de Freguesia, mas é em Moura. A Sara Godinho, que tem 35 anos, tem umas imagens ousadas numa revista. E deixem-me dizer-vos: parabéns, meninas, porque eu não vou fazer aqui body shaming nenhum.
Muito bem.
Para mim, a Érica Fontes podia fazer o que ela quisesse. Acho que uma mulher pode fazer o que ela quiser. Eu posso hoje estar a revelar o que eu quiser e fazer o que eu quiser com o meu corpo e amanhã estar a ir para a política e tenho a mesma legitimidade. Agora, por um partido como o partido Chega, que tantas vezes propaga mensagens conservadoras sobre as mulheres, eu não quero imaginar os senhores que tanto ódio destilam na internet a chamar rameira, a dizer que eu preciso é de cama, a dizer que eu tenho cara de lésbica. Todos estes homens que tanta coisa dizem, tanto comentário tecem sobre as mulheres. Como é que eles vão fazer? Vão pôr a cruzinha na Sara Godinho e na Íris Ascenção? Acho que deviam, porque acho que são mulheres desconstruídas, pelo menos parece-me.
Olha a Joana a apelar ao voto no Chega.
Não, imagina, eu acho que estas mulheres, eu não sei se elas estão lá porque gostam muito de política ou porque o Chega abre as candidaturas a qualquer pessoa. E queria dar só aqui uma nota, Gonçalo, sobre a semana passada, quando eu dizia que o Chega é incoerente porque ele promove tanto que não devia haver corrupção nos cargos políticos, mas depois coloca pessoas nas listas para os cargos políticos que têm crimes. E tu disseste: "Não, mas isso é depois". E toda a gente diz isso, esse argumento. Depois é que ele sabe que as pessoas fazem crimes.
Repara, eu não disse nos cargos autárquicos, não sei. Eu disse nos outros casos.
O caso do senhor da gasolina.
Não faças de mim...
Não, desculpa. És o veículo, começa já.
Eu percebo que estejas próximo, mas não me faças...
Pronto, então para as pessoas que são do partido Chega e que dizem tanto: "O Ventura não sabia, não tinha como saber". Não, o Ventura devia aplicar no seu partido os mesmos mecanismos que pede para o governo e para o Parlamento. E devia conseguir antecipar que as pessoas, quando chegam para a candidatura aos cargos de poder, possam ter algum tipo de questão prévia no seu passado, porque alguns têm, nomeadamente o senhor da gasolina. Aquele senhor que roubava gasolina. Esse senhor foi despedido com justa causa em 2019 porque roubava gasolina com os cartões de frota.
Não sabia disso.
É em Aveiro.
Olha em Aveiro, conhece o Manel.
2019. É uma simples chamada para a entidade empregadora e dizer assim: "Olhe, este senhor trabalhou aí, qual é a referência que tem dele?"
Joana, não vou estar a fazer isso para 308.
Então não abram 308.
Pois. Eu percebo o que estás a dizer, isso era o ideal.
Ou as pessoas vão devagar, como acontece com o PS, com o PSD, até com o Bloco de Esquerda, com o PCP, com o CDS, a IL, por isso é que a IL não vai às 308.
Nem o Bloco.
Nem o Bloco, acho que não.
Nem o PCP acho que vai.
O PCP acho que é capaz de ir quase a todos.
É?
As pessoas vão devagarinho e começam a crescer enquanto partido com pessoas de confiança. Ou então estão-se a pôr a jeito. Olha, está-se a pôr a jeito.
Manel, tens alguma coisa a comentar sobre isto ou queres falar de presidenciais? Queres nos dizer em quem é que vais votar em janeiro?
Eu voto sempre no sítio certo.
Isso depende.
Relativamente aos autarcas, achei engraçadíssimo que eu semana passada fui ao Algarve passar o fim de semana e passei por várias freguesias, aldeias, e vi imensos outdoors do Chega. Só que em todos eles, mesmo em freguesias diferentes, o André Ventura aparece.
Mas isso é no país todo, sim.
Todas. E eu acho isso hilariante, quer dizer, é efetivamente um partido de um homem só, que está ali única e exclusivamente para dar a sua cara ao partido e ninguém faz a mínima ideia quem são o resto dos candidatos. É absurdo.
E agora com as candidaturas das presidenciais, não é?
Com ele agora nas presidenciais, exatamente.
O que achas dessa candidatura dele à presidência da República?
Eu acho que o Ventura aquilo que ele quer fazer é consolidar o partido, consolidar a influência que ele tem. A mesma coisa que ele também está a fazer com as autárquicas. Quer dizer, ele pode não ganhar, mas vai consolidar poder de alguma forma, vai conseguir ter influência nas zonas mais pequenas do país. E agora com a candidatura dele às presidenciais, é exatamente a mesma coisa, é a influência partidária que ele quer.
O que temos a dizer, agora queria saber a vossa opinião, sobre o almoço que Mário Ferreira, que é assumidamente apoiante de Gouveia e Melo e financiador, promoveu entre Gouveia e Melo e André Ventura em agosto. Vieram agora essas notícias.
O Gouveia e Melo disse na entrevista que fez que não ia revelar quem é que combinou o almoço.
Mas então digam-me o que vocês acham.
Ele disse que teve com a Clara de Sousa porque ela lhe perguntou por isso.
Acham que aquilo foi uma combinação?
Não é preciso fazermos um diagrama de Venn, não é preciso irmos almoçar com o líder da extrema-direita portuguesa para saber que temos poucas ou nenhumas interseções. Acho eu, enquanto cidadão.
Não, mas o que achas que foi o objetivo de Mário Ferreira em juntar estes dois, agora candidatos a presidente da República?
O almirante Gouveia e Melo tem uma estratégia bem montada. As pessoas estão a dizer que não dá jeito ao almirante com o Ventura de candidato, eu acho completamente o oposto.
Pois, eu também acho que é o oposto.
O almoço foi propositado. Claro que há interseções entre ambos. O Gouveia e Melo sabe é comunicar mal. O problema é esse, comunica mal.
Não sabe comunicar. Ou seja, sabe comunicar mal. Eu gostei da simpatia.
Não é? Portanto, tentei ser educado. Eu não sou fã dele.
Andá a aprender essa parte.
Sabe comunicar mal.
Sabe comunicar bem. Por outro lado, diz sabe comunicar mal, por isso que é almoço.
Se o Gouveia e Melo me quiser contratar como assessor comunicacional, desde que pague bem, eu aceito.
Ficava bem.
Os liberais vão puxar a sardinha.
O almoço foi propositado no sentido de perceber se era possível efetivamente que André Ventura se candidatasse.
Achas que o Mário Ferreira queria isso?
O Mário Ferreira queria isso, e o almirante quer isso, e o Ventura quer isso, por razões diferentes.
Achas que é porque já a não falar de que querem almirante e André Ventura a passar à segunda volta e assim o almirante garantia a vitória. Achas que é isso?
Tão simples quanto isso e outra coisa. Porque uma mão lava a outra na política, aqui não há amigos. Na política não há amigos.
O governo é o presidente e depois o André Ventura quando-
Porque o André Ventura vai precisar de alguém que mais facilmente lhe indigite-
Um primeiro-ministro
...a candidatura a primeiro-ministro do que propriamente o António José Seguro ou Marques Mendes, que eventualmente teriam que o fazer caso o Ventura conseguisse uma maioria. Portanto, já todos disseram isso.
Teriam que colocar entraves no processo legislativo.
Mas teriam que colocar entraves.
O problema que temos a TVI e a CNN é primeiro-ministro.
No ponto de vista comunicacional, da postura e até da história política, têm algumas similitudes, embora o almirante diga que não, porque tem vergonha de o dizer. Mas a realidade é que partem ambos de uma perspectiva antissistema, embora ambos possam, independentemente das suas visões, vir do sistema, um da Marinha, porque não deixa de ser sistema a nível de poder político, porque a política não é apenas os partidos, a malta que acha que em Portugal é, mas o poder são as instituições, são as dinâmicas de articulação de atores políticos e, portanto, é do sistema, e o Ventura esteve muitos anos no PSD. Mas mediaticamente eles são vistos como antissistema. Ora, o que é que sucede? O almirante tem mais facilidade numa segunda volta contra o Ventura, porque o Ventura penetra mais dificilmente nos eleitorados de centro.
Tem uma taxa de rejeição muito grande.
Sim, exatamente. É muito forte naqueles 20, 25% que tem.
Não vai ter a esquerda toda a votar nele.
Não vai ter a esquerda toda.
Não, vai ter o almirante.
O almirante.
Está a falar do André Ventura. É isso.
Mesmo eu não gosto do almirante.
Sim, entre o almirante e o Ventura, a esquerda votaria toda no Ventura. E mesmo algumas fações do centro mais moderado não votariam no André Ventura. Portanto, aí o Ventura talvez ganhasse nos abstencionistas.
Toda a gente sabe que ele não quer ser presidente da República.
Exatamente. E portanto, o almirante pensou bem: "Tu tens 25%, ou 23, ou 22, ou o que é que é. Se tu fores a uma segunda volta, nenhum destes candidatos que se candidatou até agora nas sondagens tem 22%. Nenhum teve tanto como tu tiveste nas legislativas, embora sejam eleições diferentes, sabemos tudo isso. Portanto, tu vais à segunda volta, eu também, eu ganho mais tranquilamente contra ti. Já não tenho que me sustar com o Tozé Seguro, ou com o Cotrim Figueiredo, ou com o Marques Mendes, etc."
Eu adoro que o Gonçalo acha que eles fizeram tipo uma reunião mesmo-
Um complô. Tu não achas, Joana? Eu também estava à espera que tu tivesses esta sensação.
Olha, eu já vi muita coisa, eu não vou adiantar, mas eu já vi muita coisa na política que não desconheço.
Teorias da constipação, tinha saudades das teorias da constipação.
As teorias da constipação, pronto.
A minha pergunta é por que só saiu agora, se isto foi em agosto, e saiu no jornal Sol, que foi agora comprado pela Media Capital.
Esta informação estava a ser guardada para o melhor momento mediático. O Ventura, por exemplo, ontem não apresentou. Sim, claro, o Ventura ontem não apresentou o governo de sombra porque o Mourinho foi apresentado no Benfica e ele queria ter o palco mediático todo, por isso é que apresenta hoje. Tanto que a entrevista dele no Now só começa quando o jogo do Sporting pra Liga dos Campeões acaba. São pormenores que parecem estúpidos, mas é real.
Diz, Manuel.
Relativamente à questão do espaço mediático, isso estávamos a falar há pouco da questão da manifestação. Nos media, eu não vi absolutamente nada sobre qual é que foi o objetivo da manifestação. Se foi bem-sucedida, se não foi, os imigrantes, o que é que afinal eles dizem ou não dizem.
A notícia foi o Ventura lá não vai.
Se conseguiram conversar com ela.
Exatamente.
Se conseguiram arranjar um encontro pra conversar sobre o tema.
O Ventura foi à manifestação.
Eu posso vos explicar porquê. Porque o Ventura e a comunicação social têm uma relação de amor-ódio. Eles podem gostar ou não gostar, ou não gostar, no caso, uns dos outros.
Mas não saem do pé dele.
Mas não saem do pé dele, porque o Ventura dá muito mais audiência do que qualquer político em Portugal.
Não, e dá muitos cliques, e nós vemos isso até aqui no nosso podcast. Dá muitos cliques.
É em todo lado. Eu vejo isso pelos meus próprios vídeos.
E está tudo a rodar.
E pode ser uma coisa a falar mal ou falar bem.
O que interessa é que falem.
Desde que esteja lá Ventura, não sei o quê, eu vejo isso mesmo em vídeos que critico ou elogio o Ventura, não todos, há outros que não têm visualizações, mas por norma aparece sempre mais do que se eu falar de José Luís Carneiro ou de Luís Montenegro. Montenegro, agora, que é primeiro-ministro, é diferente.
Tem que se falar, porque ele tem aquela expressão toda de votos, ele, porque é ele, não é à partida eu. Portanto, tem que se falar, mas ao mesmo tempo, tem que se abrir espaço, pelo menos, para se falar as pessoas que se manifestaram e ainda não sabemos o desfecho.
A culpa aí, eu vou dizer. Eu concordo contigo, mas aí a culpa, eu não diria que seja da comunicação social. A culpa aí é dos outros partidos. Porque ontem o Ventura eu vi a entrevista, não sei se viste.
O Blimber está a falar sobre isto.
Não vamos conseguir falar sobre Jimmy Kimmel.
Eles não estiveram presentes na manifestação.
Nem nos vamos.
Certo, exatamente, mas eu não quero, como é que eu vou te dizer? Eu acho que os outros partidos-
Não têm esse palco
...não é isso, não é o palco, têm que ser interessantes. E a realidade é que os outros partidos não são tão interessantes mediaticamente. Têm que criar um branding melhor.
Meio intelectual demais.
Não, mas não é isso. Reparem, a esquerda não sabe comunicar. Enquanto que a direita mais à direita ou direita radical, quiserem chamar, é um bocado mais trauliteira, talvez, mas tem um branding comunicacional melhor.
É eficaz numa comunicação de chegar às pessoas.
A esquerda não sabe, a esquerda está totalmente parada.
Exatamente por isso, pela quebra do status quo, é isso que eles querem, é isso que lhes dá-
Mas repara, a quebra do status quo não acontece por causa do Ventura. O Ventura aparece a aproveitar-se já da queda inerente do status quo.
Já havia uma saturação muito grande daquilo que eram as ideias mais tradicionais.
A que é que demorou mais tempo a chegar, o Ventura aproveitou a onda.
A política, de repente, torna-se um hype. Se calhar há uns anos atrás as pessoas gostavam de ver o Big Brother e pronto, acabou a conversa. E a política agora também dá mais visibilidades.
Sim, dá mais agora, mas eu acho que sim, também dá mais, eu percebo porque também-
Também temos um sistema com microciclos.
Sim, e a comunicação tornou-se mais simplificada. Portanto, eu acho que estivemos agora aqui a dizer-nos ao lado, mas foi.
E olha, e a prova de que realmente a força do André Ventura é que ficamos o programa todo quase a falar sobre ele e já não temos tempo pra falar dos outros temas.
Não temos tempo pra mais nada, não produzimos o podcast das 20h.
Deixa-me só dar uma nota. A pessoa que melhor consegue comunicacionalmente combater o Ventura, tem o nome em Portugal.
Que é quem?
Rui Tavares. De longe. O Rui Tavares é absolutamente genial. O problema é que o Rui Tavares está sozinho
É um historiador de óculos, percebes? Há pessoas para quem é interessante, mas há pessoas que não querem saber.
Ela é uma macaca.
Olha o Cotrim. No debate que tiveram o André Ventura e o Cotrim.
Se o Rui Tavares pagar bem, eu também faço.
O Cotrim, vocês sabem que eu não adoro a Iniciativa Liberal, mas o Cotrim conseguiu, porque ainda por cima falam para um eleitorado muito semelhante. Há uma parte de eleitorado que é intercessiona. E ele conseguiu, atenção.
O Cotrim fez um vídeo para essa manifestação. Também tem um pouco de anti status quo.
E eles têm marketing muito bom.
Podemos ir para o podcast dois minutos?
Eu não sei se temos estúdio, por acaso.
O Cotrim fez um vídeo sobre a manifestação a dizer que isto é o resultado da imigração descontrolada em Portugal, e eu fiquei: "O que a Iniciativa Liberal tem que fazer mais para desiludir os verdadeiros liberais em Portugal?"
Gonçalo, queres dar aqui uma nota sobre o programa Jimmy Kimmel que foi cancelado?
Sim, cancelado, não é?
Mas ainda não se sabe bem.
Não.
Foi cancelado.
Eles disseram que não voltava e não sabiam quando é que voltava.
Foi praticamente terminado. Certo. Eu só quero dar uma nota, também tenho que ir embora, desculpem aos ouvintes. Mas quero dar aqui uma nota. Sou completamente contra o cancelamento do programa. Eu não via.
Sim, nós cá em Portugal.
Mas acho que estão aqui a acontecer várias coisas. Ponto acento, completamente contra, não faz sentido absolutamente nenhum.
Perigosíssimas ou não, preocupantes também.
Sim, nesse aspecto.
Num país como a América, como os Estados Unidos.
A direita que falava tanto do wokeismo à esquerda, que é verdade, agora há o wokeismo à direita. Portanto, ponto acento. Agora, parece-me que a visão, pelo menos que eu tenho visto do eleitorado americano, é que a cultura do cancelamento criada pela esquerda nos Estados Unidos agora está a ser utilizada pela direita para aplicar à esquerda, quase como se fosse a teoria da destruição mútua das armas nucleares. Ou seja, eles tinham armas nucleares para nos atacarem, agora nós vamos mandar-lhes uma bomba nuclear também, que é para os atacarem para ver se isto para. Agora, o problema é que eu não sei se vai acabar. Este é que é o problema. Portanto, completamente contra. "Mas ele disse aquilo." Ainda para mais em contexto humorístico, eu tenho uma visão, e vocês sabem que entre Trump e Kamala, embora Trump com alguns dos seus defeitos habituais, eu preferia sempre Trump entre os dois. Agora, isto aqui é completamente inadmissível, não me faz sentido absolutamente nenhum.
E não foi o primeiro programa, já foi o segundo, não é?
Sim, mas é onde eu queria chegar. Se as empresas querem despedir o trabalhador, tudo bem. Agora, não posso é ter agências governamentais a fazerem pressões às empresas privadas porque se disse X ou Y. Isso não pode acontecer.
É uma empresa que é a Disney. Não estamos a falar de qualquer empresa, não estamos a falar de uma empresa de Venda do Pinheiro. Estamos a falar de uma das maiores empresas do mundo.
Certo, exatamente. Não é um jornal regional.
Exato. Quer dizer, a Disney seria isso.
Mas mesmo aí era aí que eu queria chegar, porque vocês colocaram aqui um ponto, que já é o segundo, foi o Jimmy Kimmel e o Stephen Colbert. E eu acho que isto está a ser utilizado pelas empresas como uma desculpa para despedirem e acabarem com este tipo de programas. Porque se forem ver as margens de lucro dos programas dos late night shows, têm caído imenso nos últimos anos. Têm caído a pique.
E as audiências também, presumo.
E as audiências e os patrocínios têm caído imensos. A receita tem caído em praticamente todos esses programas. O que me parece também? Que as empresas juntaram a fome à vontade de comer, já queriam despachar estes programas e aproveitaram isto quase como uma desculpa de: "Pronto, vamos lá mandar-vos embora."
Mas ficas muito mal.
Isto aqui é só a minha opinião pessoal relativamente às empresas. Agora, resumidamente, acho que é um aproveitamento das empresas, que já veem que este modelo está ultrapassado. Redes sociais, podcast, hoje em dia dá muito mais, essa é a realidade. Completamente contra, acho que isto é uma passagem do wokeismo à direita, quase como aquela que eu falava da teoria da destruição mútua das bombas nucleares, que acho que não nos leva a lado nenhum. Portanto, vamos ver. Não sei, mas sou completamente contra. E agora tenho que abandonar. Desculpem lá.
Não faz mal. Vai, Gonçalo. Obrigado, um abraço.
Obrigado.
Até para a semana.
Bom programa, Joana. Sempre bons.
Pá, isto hoje foi a doente.
É sempre.
Isto hoje foi a richa.
Até já, Gonçalo. Joana, avança.
Beijinhos. Sobre o programa, eu alinho muito com parte do que o Gonçalo estava a dizer. Acho que a única coisa, não sei se será uma desculpa das empresas, mas concordo.
Sim, isso aí é só o meu beatite.
Também sou contra absolutamente o cancelamento do programa, como é óbvio.
Disseram agora uma das exigências foi que ele tinha que doar dinheiro à família do Charlie Kirk.
Repara, quando aconteceu a situação do Charlie Kirk, a desgraça, porque é não deixa de ser uma desgraça, e é uma desgraça. Ele fez um post muito interessante no Instagram.
O Jimmy Kimmel?
Sim, que eu até queria ler, porque acho mesmo que ele fez no Instagram ou no X, no Twitter, ele deixou as condolências à família e disse qualquer coisa como, vou dizer isto em português: "Em vez de apontarmos dedos em fúria, podemos por um dia concordar que é horrível e monstruoso matar outro ser humano? Em nome da minha família, enviamos amor para os Kirks e para todas as crianças, pais e inocentes vítimas de violência armada sem sentido."
Claro, isto é uma pessoa normal.
Exatamente. Ou seja, claro que apanha aqui o tema em diálogo, que é o uso de armas, a utilização e porte de armas na América, e não só condena a morte do próprio Charlie Kirk, como também a própria morte de todas as pessoas que morrem com armas. Agora, ele em momento algum, na sua vida pessoal, atacou ou celebrou imenso. Agora, na sua vida profissional, em que ele faz stand-up comedy, em que ele faz um programa com ironia.
Eu nem vi a piada, o que ele disse para ser assim tão chocante.
Foi no início.
Pois foi.
Mas tem ideia?
Ele disse basicamente que o Trump estava tão interessado.
Ah, ele mostrou um vídeo, já sei.
Ele deixou no ar que a pessoa que assassinou o Kirk poderia ser da própria MAGA The Make America Great Again. Ou seja, que essa pessoa, não percebi se podia mesmo ser do movimento ou se, em última análise, seria igual a eles. Coisa assim do género. Por causa do ódio. Mas eu acho que não é tanto o conteúdo da piada. Alguém que diz alguma coisa contra Trump, de repente sai. Eu acho que é mais por aí. E aquilo que o Gonçalo estava a dizer das empresas poderem aproveitar isto como a boleia para despedir, porque os números não são bons, as audiências. Eu acho que se a Disney quisesse despedir alguém, este seria o último momento em que o queria fazer, porque neste momento há um boicote pelo mundo todo à pessoas.
Já vi pessoas a cancelar a subscrição.
Estão a cancelar a subscrição na Disney, que estão a desmarcar viagens aos parques. Portanto, há pessoas que estão verdadeiramente a perder o seu dinheiro.
E estes movimentos têm força.
Exato. Acho que estamos a ir para um caminho muito negro na América, mas que já íamos. Eu já estava a antecipar isto desde as eleições, quando o Gonçalo e o Bernardo diziam que iam votar Trump.
E atenção, o Trump ainda, não sei se vocês viram, não sei se foi hoje ou se foi ontem ou esta madrugada, sugeriu retirar as licenças às emissoras que o criticassem.
Sim.
É chocante esta panela de água quente que se passa na América, principalmente com a questão do movimento MAGA e toda esta polarização do discurso público, do discurso político, mesmo por parte dos políticos que legitimizam esse próprio discurso, é perigosíssimo.
Sim, e eu queria só para as pessoas perceberem como é que o Trump faz isto. Porque de repente parece que estamos a viver numa ditadura. Não acontece. A democracia tem que ser defendida, precisamente porque nós temos instituições e as instituições, neste momento, temos os checks and balances todos direitinhos. O problema é quando as pessoas que estão em certos cargos não fazem o seu papel e deixam-se ir pelo aquilo que é o interesse do presidente ou não, e depois começamos a ter aqui um dominó que cai todo por terra. Isto é tudo alegadamente, como é óbvio. Mas aquilo que se anda a falar, precisamente neste caso, é: há a Comissão Federal de Comunicações, que é presidida por um senhor que se chama Brendan Carr. Esse presidente foi nomeado pela administração de Trump. Ou seja, a administração de Trump nomeia a pessoa que vai presidir esta comissão, que vai avaliar, é no fundo a nossa ERC, alguma coisa assim por aí. A nossa ERC é a nossa Entidade Reguladora da Comunicação. Ou seja, é uma entidade do Estado.
Que também é escolhida pelo governo, não sei.
Não, no nosso caso, acho que não é escolhida pelo governo. No nosso caso, a nossa ERC é muito independente.
Ainda bem, isso é que faz sentido.
E isso é necessário, é necessário que seja mesmo independente. É como as ordens profissionais, também são muito independentes. Por quê? Para que não aconteça de termos uma pessoa no governo, neste caso não precisa ser no governo, não sendo a Presidente da República, no governo que queira ser o Deus Todo-Poderoso, o ser omnipotente, e que tente dispersar o poder para todos os lados. Não, tu tens instituições que têm uma divisão de poderes. Mas também devias ter uma divisão de poderes entre a bancada parlamentar e do partido que está no governo, e não tens. Agora não tens o PS.
Vamos ter que fechar, não conseguimos falar do outro tema, mas se calhar deixamos para a semana. Manel, queres dizer uma última coisa sobre isto?
Eu julgo que é tudo.
Ficou tudo dito. Muito bem, muito obrigado a todos então e até para a semana.