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Mais um Ideias Feitas. Ideias Feitas, sempre com Alberto Gonçalves. Viva, Alberto. Bem-vindo mais uma vez. Hoje queres falar da entrevista de Boaventura de Sousa Santos.

Quero, sim, senhor. Olá, Luís. Boa tarde. Sim, por estes dias, é um dia ou dois, o professor Boaventura de Sousa Santos, essa estrela cadente do firmamento acadêmico português e boliviano também, ensinou-nos como transformar um escândalo pessoal numa tese de doutoramento. Porque nessa entrevista, ele naturalmente confrontado com as acusações de assédio sexual que se conhecem há dois anos, salvo erro, decidiu apontar o dedo ao verdadeiro culpado: o neoliberalismo. À primeira vista, uma pessoa até é levada a pensar que foi o neoliberalismo e não as mãozinhas marotas do professor emérito que assediou mais de uma dezena de mulheres. O neoliberalismo, nesse caso, seria danado. E além de danado, o neoliberalismo seria o bode expiatório perfeito, porque não tem morada, não pode ser notificado, não consegue contratar advogados, não dá depoimentos, não aparece em tribunal aprovar a sua inocência. E é por isso que gênios como o professor Boaventura responsabilizam frequentemente o neoliberalismo pelas desgraças do mundo e pelas desgraças pessoais, incluindo aquelas desgraças que consistem em senhoras que não ficam caladas quando um cavalheiro de idade avançada, alegadamente resolve testar os limites da intimidade universitária e depois reprova no teste. Note-se que o professor Boaventura, verdade seja dita, ele culpa exclusivamente o neoliberalismo e não a desfaçatez destas senhoras que se queixaram. As senhoras, garante-nos o professor Boaventura, do alto daquela sabedoria que lhe é reconhecida e que é venerada para aí de Coimbra até Caracas. As senhoras são também vítimas do mesmo neoliberalismo. Em que medida? Eu vou citar agora o homem, está aqui escrito: "Elas são vítimas do neoliberalismo que se instalou, que as leva a fazer coisas que se calhar, no fundo, não queriam fazer." Portanto, uma das coisas que elas nitidamente não queriam fazer era denunciar os eventuais assédios. Mas o neoliberalismo manda. Portanto, a questão nem sequer é bem o neoliberalismo ter levado o professor Boaventura a tocar em áreas do corpo alheio, geralmente interditas nos momentos de debate sociológico. A questão aqui, esse é o ponto fundamental, é que foi o neoliberalismo a criar o ambiente propício para as senhoras se queixarem e o Centro de Estudos Sociais dar seguimento às queixas. É o chamado ambiente tóxico, no qual uma criatura tenta abusar civilizada e discretamente de gente perturbada pelo contexto neoliberal e logo a seguir, sem necessidade nenhuma, meio mundo fica a saber de tudo. No fim de contas, o que o professor Boaventura reconhece, de fato, ter feito? O que ele confessa que fez? E agora volto a citá-lo: "Tenho lógica de proximidade com todas as pessoas. Nós, latinos, não somos calvinistas, a gente abraça-se." Isto é extraordinário, é uma frase de uma erudição transbordante, porque num ápice ficamos a aprender que A, os calvinistas não se abraçam. B, os latinos abraçam-se. C, o abraço latino inclui, provavelmente, zonas da anatomia que os abraços convencionais desprezam. E D, às tentativas de um sujeito em usar o poder que a universidade lhe conferiu para engatar alunas, chama-se lógica de proximidade. E no fundo, é apenas disso que o professor Boaventura é acusado, de exercer a lógica de proximidade. Num mundo ideal, num mundo compassivo, num mundo perfeito, o amor fraterno do professor Boaventura pela humanidade em geral mereceria aplausos. Infelizmente, todos sabemos, vivemos sob a égide do neoliberalismo e depois é esta a pouca vergonha.

A lógica de proximidade do professor Boaventura é o título da crônica de hoje do Alberto Gonçalves. Alberto, amanhã há mais Ideias Feitas. Até amanhã.

Até amanhã, Luís.