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"Ideias Feitas", na Rádio Observador. Bem-vindo, Alberto Gonçalves. Queres hoje adivinhar o futuro de Mariana Mortágua?

Vou tentar, Ricardo. Olá, boa tarde. Ontem foi dia de manifestações em várias cidades portuguesas, e não só portuguesas, contra a detenção da Dra. Mortágua e dos demais participantes da flotilha humanitária. Fui ver as notícias, parece que no Porto estiveram mil pessoas, em Lisboa mil ou mil e poucas, e nas restantes cidades em que houve manifestações, a coisa não terá ultrapassado umas dúzias de manifestantes por cidade. Portanto, o total, para ser generoso, terá rondado as 3 mil pessoas indignadas com a ação das forças israelitas em interceptar a flotilha. Em simultâneo, ontem foi também lançada online uma petição pública e com os formalismos todos, a pedir o seguinte, passo a citar: "Pedimos ao Estado de Israel o favor de não devolver a Mariana Mortágua, porque já não a podemos aturar". Fim de citação. E agora quando fui ver, meia hora antes de começar o programa, os subscritores da petição chegavam aos 36 mil e and counting, como dizem os estrangeiros. E assim, usando aritmética elementar, temos que há 12 vezes mais cidadãos a desejar que a Dra. Mariana Mortágua não regresse ao seu país do que cidadãos a exigir o seu regresso, ou pelo menos, cidadãos que se incomodam o suficiente com uma ou com outra coisa para sair à rua em protesto ou para cumprir aquelas chatices todas, os procedimentos burocráticos todos necessários à subscrição, que parecendo que não, ainda demora uns cinco minutos. Eu sei porque eu assinei, não resisti. E entre parêntesis, também devo dizer que isto é uma brincadeira, com certeza. A petição foi formulada como uma brincadeira, deve ser entendida assim e, aliás, pelo modo como está formulada, também nem preenche os requisitos para ser discutida no Parlamento, independentemente do número de subscritores. Além de que as petições também acho que não podem interpelar países estrangeiros, mas não é esse o ponto. O ponto é que o futuro da Dra. Mortágua afigura-se um bocadinho turvo, senão negro, porque imagino quando Israel ignorar a petição e a devolver à origem, vá haver uma receção triunfante da heroína que ousou passar umas semanas no Mediterrâneo em prol dos interesses do Hamas. Mas em poucos dias essa efervescência extingue-se, essas coisas passam, não duram muito. E de resto, duvido que haja receções e louvores suficientes para apagar a figura que a Dra. Mortágua tem andado a fazer e que a transformaram numa piada da internet, como é essa petição, por exemplo, mas há outras piadas. Ontem chegaram-me uma série delas. E hoje. Percebe-se, de algum modo, porque é que ela fez o que fez. Para lá das convicções ideológicas que a movem contra Israel, em particular, e contra o Ocidente em geral, aquelas coisas todas próprias da extrema-esquerda, havia a necessidade, no caso pessoal da Dra. Mortágua, de arranjar uma carreira como ativista internacional, uma carreira que a resgatasse de um partido moribundo, partido do qual ela é ainda a líder, do qual ela é todo o grupo parlamentar e do qual qualquer dia ela é a única eleitora. O problema é que não me parece que este circo todo da flotilha tenha projetado internacionalmente a Dra. Mortágua. Nós conhecemo-la aqui, falámos dela aqui e ouvimos o que ela dizia aqui, porque feliz ou infelizmente, nós aqui sabemos quem ela é. Agora, lá fora, acho que ninguém sabe quem ela é. Não sabiam antes da flotilha e acho que continuam a não saber depois. Por isso, é capaz de ser improvável que ela alcance essa desejada notoriedade e os respetivos rendimentos, ou a notoriedade, por exemplo, da pequena Greta Thunberg, que no fundo era a única vedeta daquela gente toda, que eram umas largas dezenas, talvez centena e meia, não sei, de pessoas que iam na flotilha. Contas bem feitas, sobram poucas alternativas à Dra. Mortágua se esta carreira internacional não vingar. Se o partido aqui morrer, como promete, restam poucas alternativas à senhora. Israel, repito, não a quer nem com todas as petições do mundo. Portugal também não está, pelos vistos, a morrer de saudades da senhora. Restaria Gaza, que é um território ao qual ela, aliás, tem dedicado quase em exclusivo a sua atividade política desde há meses ou se calhar anos. A chatice é que o regime que manda em Gaza não é conhecido por tratar bem, desde logo, os seres humanos. E em especial os seres humanos do sexo feminino e ainda mais em especial, os seres humanos do sexo feminino confessadamente homossexuais, como é o caso, é público, a Dra. Mariana Mortágua já o disse. Se calhar, o que resta à Dra. Mortágua é fazer como a sua colega de flotilha e passar a declarar-se atriz. Não será uma grande atriz, já que não convenceu muita gente de que estava genuinamente preocupada com a população de Gaza. Mas também isso não parece ser uma exigência. Ela passa a identificar-se como atriz e como noutras áreas em que as pessoas se identificam com o que querem, nós temos que respeitar, a gente passa a respeitá-la como atriz e pronto.

Obrigado, Alberto, e bom fim de semana, Alberto Gonçalves.

Bom fim de semana, Ricardo. Obrigado.

O "Ideias Feitas" regressa na segunda-feira. O "Ideias Feitas" conta com o apoio do azeite Talismã.