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"Ideias Feitas", na Rádio Observador, com Alberto Gonçalves. Olá, Alberto, bem-vindo.

Obrigado, Ricardo. Boa tarde.

E tu vislumbras no horizonte a silhueta de Pedro Passos Coelho, é isso?

Sim, sequer não é um horizonte tão distante quanto isso. E já que estamos a falar de Pedro Passos Coelho, acho que é melhor avisar as pessoas, quem está a ouvir, que ele não fez nenhuma declaração pública hoje, não é por causa disso que estamos a falar dele, ou que eu estou a falar dele, e nos últimos dias também, já não fala há umas semanas, até que me lembre. Mas se ele tivesse dito alguma coisa, acontecia aquilo que costuma acontecer. Aparecia meio mundo a discutir se ele está ou não está interessado em voltar à política ativa, ou à chamada política ativa. Como ele nunca confirma nem desmente cabalmente, cada comentador acaba por ter uma opinião diferente sobre o assunto. E o único ponto em que a esmagadora maioria dos comentadores, talvez não todos, mas uma maioria muito significativa deles, parece estar de acordo é na impossibilidade do Pedro Passos Coelho regressar à política por falta de um caminho. Praticamente toda a gente acha que se ele quiser voltar, não terá uma via aberta através da qual possa fazê-lo, pelo menos do que se perspetiva. E eu, à semelhança dos demais comentadores, também não faço ideia se o Pedro Passos Coelho pondera ou não pondera regressar à política, eu discordo da maioria deles nesta questão, nesta questão do caminho para o regresso, que de fato hoje não existe, não se está a ver. Não está à vista, mas está a ser construído ou pode vir a ser construído e pode até nem demorar tanto quanto isso. E não é assim muito difícil perceber que caminho possa ser esse. E só hoje, nem vale a pena recuar dia nenhum, houve duas notícias que demonstram que a coisa se pode estar a compor na perspetiva de um eventual regresso de Pedro Passos Coelho, claro. Uma das notícias, vocês agora estavam a falar, já se falou bastante da rejeição da dita reforma laboral proposta pelo governo. A outra é mais uma sondagem que dá o PS à frente e a AD abaixo do Chega. Vamos por partes, eu não me vou estender agora, obviamente, sobre a rejeição da reforma laboral. Não é reforma propriamente dita, o nome é abusivo, parece-me, acho que são umas ligeiríssimas alterações, que se tivessem sido aprovadas, fariam com que a nossa legislação do trabalho fosse um bocadinho de nada menos esclerosada e ainda assim continuaria a ser uma das mais rígidas e mais punitivas da Europa em matéria de produtividade, por exemplo. Por exemplo, produtividade, mas não só, mas é isso que conta, feitas as contas. Mas acho que nem é preciso acrescentar que a votação de hoje deixou claro que o Chega pretende erguer-se como o novo representante dos famosos direitos dos trabalhadores, que o PS mantém-se completamente sedimentado como o partido dos pensionistas, e o PSD, que ninguém pode acusar de reformismo, coitado, mas governa realmente e vai continuar a governar enquanto lá estiver realmente em minoria. E para cúmulo, isto prende-se com a tal segunda notícia de hoje, a da sondagem que põe a AD em terceiro lugar e que não é uma sondagem única, é somada a outras sondagens dos últimos meses, vem na mesma linha, e sugere, a acreditar nessas sondagens, que a estratégia do doutor Montenegro em ser uma espécie de doutor Costa menos permeável a entusiasmos leninistas, não está a ser propriamente um sucesso. Mesmo com o secretário-geral de que uma boa parte dos portugueses nem sequer sabe o nome, não vi uma sondagem neste sentido, mas acho que é o que acontece com o doutor José Luís Carneiro. Mesmo assim, acho que o PS tem vindo a liderar os estudos de opinião e acho que isso, se não prova, pelo menos dá indícios fortes que entre o original partido da estagnação e a cópia, uma quantidade suficiente de eleitores prefere o original. E quanto ao Chega, recolhe a simpatia de todos quantos rejeitam o sistema, ainda que muitas vezes, como hoje, por exemplo, o Chega vote sem qualquer hesitação a favor do sistema. Mas a ideia que o Chega quer passar, essa ideia tem funcionado e tem continuado a funcionar. E resulta disto tudo e da ânsia do PS em voltar a ocupar o governo e do Chega em consolidar o seu peso, que não deveremos estar muito tempo sem novas eleições. E que nessas eleições há uma forte possibilidade de o PSD ou a AD sair do poder e que uma liderança que perde o poder perde depressa o respeito das bases que agora juram, e não com muita convicção, mas juram eterna fidelidade, e que, portanto, a carreira política do doutor Montenegro é bem capaz de estar por um fio e o PSD ou entra numa crise que leva o partido a esvair-se aos poucos, ou obriga o partido a chamar por um eventual salvador, que pode muito bem ser Pedro Passos Coelho, e Pedro Passos Coelho, nesse momento, a chegar essa ocasião, pode ou não atender à chamada. São muitas as dúvidas, mas nenhuma é demasiado improvável. Não é nada impossível que este cenário se desenhe. Aliás, neste momento, acho mais provável haver esta sucessão de acontecimentos do que qualquer outra coisa. Só mesmo para terminar, Ricardo. Seria curioso assistir ao regresso, talvez em glória, do único político que tem demonstrado vontade de implementar reformas a sério num país e num sistema e num eleitorado que em larga medida parecem ou dão a entender que abominam reformas. Vamos ver, mas já aconteceram coisas mais estranhas no mundo e na política nacional ainda mais estranhas do que acontecem no mundo.

Obrigado, Alberto, e bom fim de semana.

Igualmente, Ricardo. Um abraço.

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