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Desfazemos ideias feitas com Alberto Gonçalves. Alberto, boa tarde.
Olá, boa tarde.
Olá, boa tarde, Alberto Gonçalves. Hoje o Alberto não quer sobrevoar os problemas, mas quer falar sobre o aeroporto do Montijo. Tinha de usar esta expressão que já foi utilizada por vezes em campanha eleitoral, aproveitando aqui o tema que o Alberto Gonçalves escolheu hoje para o Ideias Feitas.
Não, porque a questão do coronavírus parece que já está mais ou menos resolvida. Hoje tivemos um comunicado da Direção-Geral de Saúde a dizer que as camas destinadas aos infetados com o coronavírus no Grande Porto já estavam repletas. Eram duas, aparentemente. Agora, o doutor António Costa já falou em duas mil camas em todo o país, portanto nota-se que a coordenação entre as ditas autoridades é excelente e podemos estar descansados em relação ao vírus e partir para coisas sérias, que no caso é o novo aeroporto de Lisboa. Em relação ao novo aeroporto de Lisboa, está-se a discutir, sobretudo, a localização geográfica. Já foi previsto para a Ota, depois para Alcochete, agora é e tem de ser no Montijo. O que ninguém discute é se há necessidade de haver um novo aeroporto em Lisboa. Há sempre duas grandes razões invocadas para que não haja alternativa, tem de haver e é assim que terá de ser. Dessas duas razões, uma delas prende-se com a distância do aeroporto ao centro da cidade. Tenho lido e ouvido por aí, muitas vezes há pessoas a pedirem: "Alguém que me diga uma cidade desta dimensão que tenha um aeroporto urbano." E realmente não encontrei nenhuma, salvo Toronto, Boston, estou aqui a ver uma lista, San Diego, San José, Las Vegas, Miami, Washington DC, Vancouver, Dallas, Phoenix, Salt Lake City. Estou só a falar na América do Norte, falta agora percorrer o resto do mundo. Claro que são tudo cidades muito pequenas comparadas com Lisboa. Portanto, não há mais nenhum caso no mundo de um aeroporto assim tão próximo do centro da baixa de uma cidade. E depois a outra razão que se invoca habitualmente é a saturação do aeroporto em número de voos e de passageiros. Ora, essa saturação é curiosa porque já há 20 anos se dizia que o aeroporto nunca poderia suportar 12 milhões de passageiros ao ano ou 15 milhões. Neste momento, o aeroporto de Lisboa tem 33 ou 34 milhões por ano. E mais uma vez é considerado absolutamente insuportável, o aeroporto não tem capacidade para estes 35 milhões por ano. Agora sucede que, por exemplo, o aeroporto de Gatwick, que é um dos aeroportos que servem Londres, tem 45 milhões de passageiros por ano, salvo erro, 40 e tal milhões ou a caminho dos 50 milhões por ano, e também é um aeroporto de uma só pista, por isso é que eu estou a citar Gatwick. E tem funcionado. Não se consegue perceber os argumentos para a urgência no novo aeroporto de Lisboa, a não ser se percebermos que os argumentos de fato não são estes, estes são os argumentos para iludir o público e os argumentos de fato são os negócios que estão por trás de mais uma grande obra, um grande desígnio nacional que este país vive, na verdade, desde há muito tempo e começou até com maior intensidade no tempo do professor Cavaco, depois acentuou-se a partir do engenheiro Guterres e do engenheiro Sócrates, estas questões dos grandes desígnios nacionais, que são uma forma de alimentar os amigos. Os poderes instalados têm muitos amigos e é preciso que eles estejam satisfeitos e contentes. O aeroporto é mais uma maneira, e é uma maneira bastante dispendiosa e eficaz, de contentar os amigos. Portanto, o doutor Costa já anda por aí a dizer que não há plano B, não interessa se os pássaros no Montijo são inteligentes ou são burrinhos, não interessa a quantidade de pessoas que serão afetadas pelo novo aeroporto, não interessa o impacto no ambiente, o ambiente noutras coisas é tão importante, interessa que o aeroporto tem de seguir, tem de ir em frente e tem de ser feito. E provavelmente será feito. Se não for feito, vão ser feitos estudos que dizem que o aeroporto terá de ser feito e vão ser estabelecidos compromissos que nós teremos de pagar mesmo que o aeroporto não seja feito, como aconteceu no caso do TGV, por exemplo. É assim que funciona o país, mais exatamente é assim que o país não funciona, mas nós estamos habituados.
Obrigado, Alberto Gonçalves. Hoje o Alberto Gonçalves a escolher para tema do Ideias Feitas o aeroporto do Montijo, que continua a gerar polêmica. De recordar que para amanhã o primeiro-ministro António Costa tem uma reunião de emergência em São Bento com várias autarquias, autarquias alegadamente afetadas pelas obras de construção deste novo aeroporto do Montijo.
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