Por estes dias, o universo dos cinéfilos divide-se em dois tipos: o daqueles que já estão a falar de You Can See Everything e o dos outros, os que têm os dias contados até começarem a falar de You Can See Everything.
Até há cerca de dois meses ninguém sabia nada sobre este projeto, mas depois de uma estreia quase secreta no Festival de Cinema de Telluride e de 40 milhões de euros feitos em bilheteira em dez dias, é já a maior estreia de um documentário não musical (é difícil destronar Taylor Swift: The Eras Tour) nos EUA, nos últimos 20 anos.
Com 2h54 de duração está a cativar espectadores com menos de 30 anos, já deu origem a memes, vídeos no Tik Tok e os principais intervenientes estão a inspirar disfarces para o Halloween deste ano.
Em Portugal, a primeira projeção pública está marcada para 7 de novembro no LEFFEST e, também aí, os bilhetes esgotaram assim que ficaram disponíveis (a estreia em sala acontece no dia 12, apesar de algumas sessões anteriores a essa data já agendadas). A curiosidade está a ser o maior incentivo — sabe-se que há reviravoltas, mas estas têm sido mais ou menos mantidas em segredo. Há quem diga que o projeto realizado por Nathan Fielder e Lance Oppenheim desafia regras, mantendo uma linha ténue entre ficção e realidade; há quem descreva o filme como genial, consfrangedor e cómico. Cabe tudo nas críticas, boas ou más, que se têm multiplicado.
Será que o burburinho tem razão de ser? A poucos dias de You Can See Everything invadir os cinemas portugueses, tentamos perceber melhor qual é a história, quem são os protagonistas e porque é que já se fala de Óscares.
[o trailer de “You Can See Everything”:]
O que é You Can See Everything?
Tudo começa em 2023, 34 dias antes de Elizabeth Holmes dar início a uma sentença de 11 anos de prisão (entretanto reduzida). Instalados numa casa de praia arrendada em Del Mar, Califórnia, é aí que ela, o companheiro e os filhos recebem a equipa de filmagens de um documentário. O acesso é supostamente total, mas um dos realizadores, Nathan Fielder, suspeita que há informação que não está a ser partilhada e mostra-se muitas vezes frustrado, em frente à câmara, com as dificuldades de comunicação. Esta mulher é sincera ou manipuladora? Será que conseguimos perceber quando alguém está a mentir? Porquê permitir o acesso de câmaras num momento tão delicado?
Nessa primeira fase, as câmaras chegaram a gravar durante 16 horas por dia e, se se pensava que não haveria grande coisa a acrescentar quando Elizabeth Holmes fosse presa, toda a gente foi surpreendida com o oposto. Uma história real que parece encenada junta-se a situações psicológicas estranhas e até Amanda Seyfried, que interpretou Holmes em The Dropout, uma série sobre o escândalo que a envolveu, retoma o papel, atirando também ficção para o monte de coisas que este documentário é.
Quem é Elizabeth Holmes?
Ficou conhecida por fundar uma empresa que prometia ser revolucionária, a Theranos. Detentora de uma tecnologia nunca antes vista, garantia ser capaz de fazer datalhadas análises de sangue com apenas algumas gotas. Quando se descobriu que não era bem assim e que Holmes tinha conseguido avultados investimentos dando garantias falsas, foi condenada por fraude e conspiração para defraudar investidores. Em 2022 recebeu uma pena de 11 anos e três meses que começou a cumprir em maio de 2023, na prisão federal de segurança mínima de Bryan (Texas). Em 2026, o tempo foi reduzido para dez anos e três meses, estando agora a libertação prevista para 22 de fevereiro de 2030.
Quem é Billy Evans?
Apesar de Elizabeth Holmes ser a peça central do documentário, as atenções são muitas vezes roubadas pelo companheiro, Billy Evans. Com comportamentos pouco claros e desconcertantes, tenta controlar conversas e revela um lado vingativo. É, também ele, uma figura que parece pouco fiável. Faz parte de uma abastada família do setor hoteleiro, estudou no MIT (Instituto de Tecnologia do Massachusetts) e tem uma startup de biotecnologia que desenvolve uma técnica a laser para testar amostras biológicas. Já terá angariado 18 milhões de euros de investidores, mas ainda nenhum produto viu a luz do dia. Conheceu Holmes em 2017 e manteve-se ao lado dela durante o escândalo da Theranos. Não são casados, mas têm dois filhos, de cinco e três anos.
▲ Aos comandos da Theranos, Elizabeth Holmes era vista como uma revolucionária da biotecnologia
Getty Images
Quem é Nathan Fielder?
Nunca tinha realizado para cinema e, em televisão, o seu habitat natural, é conhecido por desenvolver projetos inusitados, muitas vezes juntando situações reais a momentos encenados. Em Nathan for You tentava ajudar pequenos negócios com ideias invulgares e em The Rehearsal ajudava várias pessoas a ensaiar para situações da vida real recriando cenários (por vezes milionários). Os projetos de Fielder têm inúmeras vezes uma linha muito ténue entre o que é real e o que é ficção e, neste caso, tudo se mistura também.
Também ele surge constantemente à frente das câmaras, embora garanta que isso não foi intencional, mas sim devido à intensidade do que estava a acontecer. Lance Oppenheim, com quem divide a realização, fica nos bastidores.
E se não houvesse mais nada para contar?
Um dos receios de Nathan Fielder era que tudo o que havia para saber sobre Elizabeth Holmes e o escândalo da Theranos já tivesse sido contado em várias plataformas. Por isso, só avançou com a garantia de que poderia deitar o projeto para o lixo se não encontrasse nada de novo durante as filmagens. “O Nathan [disse à produtora A24]: ‘Bem, acham que, se o Lance e eu fôssemos ver se havia lá alguma coisa, se sentiriam à vontade para nos dar dinheiro e, basicamente, deixar-nos em paz, e incluir no nosso contrato uma cláusula — independentemente do montante — que nos permitisse simplesmente desistir do projeto a qualquer momento’? Se não encontrássemos nada, poderíamos simplesmente deitar tudo fora, poderíamos atirá-lo para o caixote do lixo’”, disse Oppenheim em entrevista ao site IndieWire. “E, felizmente, eles concordaram.”
A poucos dias da ida de Elizabeth Holmes para a prisão, era muito improvável encontrarem material interessante, concordavam os dois realizadores. Por isso, ter a possibilidade de simplesmente não ter nada para apresentar descansou Nathan Fielder. “Isso significava, na verdade, que eu não tinha de me conter com ela nem com eles [Holmes e Billy Evans]. Fazer um filme, ou qualquer projeto, é muito stressante. Por isso, se tivéssemos de desistir porque as coisas não estavam a correr bem, seria, de certa forma, um alívio para mim”, disse à revista Wired.
▲ Nathan Fielder e Lance Oppenheim, os realizadores de "You Can See Everything"
Porque é que a estreia nos EUA foi tão exclusiva e secreta?
A 6 de setembro de 2026 o filme foi exibido na 53.ª edição do Festival de Cinema de Telluride — e todos os espectadores tiveram de guardar os telemóveis em bolsas especiais para que não fossem gravados conteúdos durante a sessão. Até ali, praticamente nada se sabia, primeiro para surpreender o público e, segundo, para proteger as reviravoltas. Na verdade, todo o processo foi secreto, tendo sido filmado por uma equipa muito reduzida durante três anos.
Que recordes já bateu?
Chegou aos cinemas norte-americanos a 16 de outubro, recebendo rasgados elogios da crítica e arrecadando 40,58 milhões de euros em dez dias, muito acima dos 6,3 milhões gastos na produção. 14,04 foram somados no primeiro fim de semana, fazendo de You Can See Everything a maior estreia de um documentário não musical (Taylor Swift: The Eras Tour fez 83,50 milhões de euros) nos EUA nos últimos 20 anos. Fahrenheit 9/11 ocupava o primeiro lugar do top desde 2004.
Elizabeth Holmes recebe parte dos lucros?
Esta é uma das questões mais recentes a envolver o projeto, levantada pelo Los Angeles Times. Não é comum pagar aos intervenientes de um documentário porque pode causar um conflito de interesses devido aos motivos para participar e à tendência para se mostrar sob uma determinada ótica, podendo ser pouco natural. Depois de muito bater o pé, porque queria parte da faturação, Billy Evans decidiu renunciar a qualquer tipo de remuneração, diz o documentário.
Elizabeth Holmes deve mais de 400 milhões de euros em restituições a investidores e empresas defraudados pela Theranos. Segundo a própria, as dívidas acumulam-se porque ela não tem forma de pagar — mas no documentário vive numa casa na praia. O companheiro tem uma empresa que ainda não passou da teoria. Que tipo de rendimentos tem então o casal? Fica por explicar. O que se sabe é que agora, na prisão onde está a cumprir pena, Elizabeth Holmes ganha 27 cêntimos por hora.
▲ Elizabeth Holmes e o companheiro, Billy Evans, no dia em que Holmes voltou a ser ouvido pelo tribunal, em março de 2023, numa sessão de recurso
Getty Images
O que se diz do filme?
No agregador de notas e críticas de cinema Rotten Tomatoes, You Can See Everything tem 97%, sendo a pontuação exatamente a mesma no Metacritic. A originalidade, a dúvida que faz o espectador questionar o que é real ou não e as reviravoltas são as características mais elogiadas.
A revista Variety diz que é “é praticamente a coisa mais distante de um documentário ‘puro’ que alguma vez se tenha visto. E isso faz parte do seu encanto — um psicodrama circense único, entre um reality show e filme hangout [termo que se refere a um enredo minimalista, onde nada de extraordinário acontece]”.
“You Can See Everything procura a precisão na sua representação de uma figura muito comentada. Acaba por questionar, com muito humor, mas também com uma boa dose de sabedoria, o que seria, afinal, essa ideia de ‘precisão’, escreve o The Hollywood Reporter.
“Quase de imediato, torna-se evidente que You Can See Everything ultrapassa os limites do cinema documental e, de alguma forma, mesmo após 174 minutos, deixa-nos com curiosidade e fome de mais”, considera Cortlyn Kelly no site IndieWire.
Ainda assim, nem toda a gente ficou impressionada. Na revista Time, Stephanie Zacharek questiona se o filme será assim tão inovador e se faz sentido filmar um documentário desta forma. “Holmes é fascinante e, de uma forma estranha, cativante. Mas, por definição, Fielder é uma figura tão importante em You Can See Everything quanto Holmes, e a vossa opinião geral sobre o filme dependerá do quanto conseguem suportá-lo.” Shane O’Neill escreve no The Washington Post que “mesmo para quem adora situações extremamente constrangedoras, é difícil de ver”.
Pode lutar pelo Óscar de Melhor Filme?
Há muitos zunzuns pela Internet fora, especulando que este poderá vir a ser o primeiro documentário a competir na categoria de Melhor Filme, coisa que nunca aconteceu até hoje nos Óscares. O facto de juntar sequências em que a atriz Amanda Seyfried retoma o papel que fez na série The Dropout: A História de uma Fraude abre a porta da ficção, mas não é claro se isso será suficiente para ser considerado para a corrida ao Óscar mais importante.
A verdade é que, apesar de ser inédito um documentário competir com filmes de ficção, as regras da Academia não excluem essa possibilidade. Para que um projeto possa ser nomeado para o Óscar de Melhor Filme tem de ser distribuído por um estúdio ou produtora (são eles que submetem a inscrição), tem de ter distribuição alargada nos EUA e cumprir pelo menos dois de quatro padrões (representatividade, liderança criativa, acesso à indústria e oportunidades e desenvolvimento do público). Por fim, tem de obter votos suficientes dos membros da Academia para entrar na lista final de dez nomeados.
É um fenómeno nas redes sociais?
Só o trailer ultrapassou mais de 14 milhões de visualizações, tendo a pergunta “Why would I deceive you (porque haveria de te enganar)?”, que Elizabeth Holmes dirige a Fielder, virado meme entretanto. No Tik Tok multiplicam-se imitações, reações e teorias sobre a sinceridade da antiga empresária.
Também para o Halloween, uma festividade com muita importância nos EUA, estão a surgir ideias de disfarces inspirados na mesma dupla, com a Variety a sugerir até adereços para recriar Elizabeth Holmes e Nathan Fielder.
E em Portugal?
A primeira exibição do documentário acontece em Lisboa, no LEFFEST (Lisboa Film Festival), a 7 de novembro, e esgotou assim que os bilhetes ficaram disponíveis. Segue-se um dia de sessões especiais no dia 8, no cinema Trindade, no Porto, e em salas Cinema City e NOS. O mais certo é que, a partir daí, também em Portugal se comece a espalhar o fenómeno. A 12 de novembro, You Can See Everything chega às salas de todo o País.
O que renasceu com o documentário?
Muita coisa já se escreveu e produziu sobre Elizabeth Holmes e a empresa Theranos. Tudo isso já tem alguns anos, mas o documentário está a fazer com que esses conteúdos mexam novamente. As vendas do livro Bad Blood, de John Carreyrou, duplicaram numa semana e estão 55% acima daquelas registadas no mesmo período de 2025. De acordo com o Spotify, as reproduções do podcast The Dropout subiram 673%, enquanto as do podcast Bad Blood: The Final Chapter aumentaram 342%. A série The Dropout: A História de uma Fraude, que se estreou em 2022, regressou aos tops das mais vistas e teve um aumento de 700% nas visualizações numa semana, diz a Forbes. No IMDb ocupa o 47.º lugar (em 100) das séries mais populares. Com tudo isto, é difícil que, nos próximos tempos, alguém diga que não sabe quem é Elizabeth Holmes.