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"Ideias Feitas" com Alberto Gonçalves a fechar a hora das 18h na Rádio Observador. Bem-vindo, Alberto. Hoje queres falar de burcas, de ONU e de um cartaz sobre as mulheres no Sudão. Que história é esta, Alberto?
Olá, Ricardo. É uma história quase inacreditável, tanto que eu fiz tudo o que pude para tentar apurar que o cartaz era verdadeiro, mas parece que é verdadeiro. Só não tive o aval, ainda não tive o documento assinado pelo engenheiro Guterres a confirmar, mas tudo indica que é verdadeiro. Toda a gente sabia que a ONU, já antes da regência do engenheiro Guterres, mas sobretudo a partir da regência do engenheiro Guterres, se tinha tornado, por um lado, uma instituição essencialmente anticionista, e por outro lado, uma instituição irrelevante. O que não sabíamos é que entretanto a ONU tenta sobreviver a essa irrelevância através da comédia muito negra. E eu passo a explicar. Pelos vistos, há uma entidade das Nações Unidas chamada UN Women que se dedica a fomentar, e cito: "A igualdade de género e o empoderamento das mulheres." Nada a opor. O problema é que um dos cartazes representativos dessa entidade, e que foi este mês apresentado no Conselho de Segurança da ONU, mostra meia dúzia de pessoas vestidas com burca dos pés à cabeça. E é-nos dado entender que as pessoas em causa são mulheres, que essas mulheres são sudanesas e que essas mulheres sudanesas foram responsáveis por alcançar aquilo que diz na frase, que é a mensagem do cartaz: "When women lead, peace follows." Qualquer coisa como: "Quando as mulheres lideram, a paz chega." Eu juro que não consigo imaginar uma perspectiva em que semelhante cartaz tenha sido concebido, exceto para gozar. Para gozar conosco, para gozar com as mulheres que são obrigadas a usar burca e para, em particular, gozar com as mulheres sudanesas, que com certeza são as maiores vítimas ou estão entre as maiores vítimas da imensa desgraça que acontece por lá. Embora não venha nas notícias como Gaza, fui ver os dados, o Sudão enfrenta desde 2023 a maior crise humanitária do mundo. Tem 25 milhões de pessoas a passar fome, 12 milhões de desalojados, dezenas de milhares de mortos e por aí fora. E no que diz respeito especificamente às mulheres, há uma espécie de surto permanente de agressões, de violações em massa, de casamentos forçados, de crianças, etc. Estas maravilhas todas que se somam, ainda por cima, a toda a sorte de discriminações instituídas na lei e na religião que influencia a lei. E por isto tudo, o Sudão não é apenas um dos piores lugares do planeta para se viver, como é um dos piores lugares do planeta para se ser mulher, com certeza. Ao contrário do que reza o cartaz da UN Women, as mulheres no Sudão, coitadas, não lideram coisa nenhuma e estão um bocadinho longe de alcançar um vestígio de qualquer coisa parecida com a paz. Pelo contrário, as mulheres no Sudão passam fome, sucumbem a doenças, sofrem maus-tratos legitimados pelo direito local, são abusadas e, no limite, são mortas. E o que é que a ONU conseguiu fazer para inverter ou pelo menos mitigar este estado de coisas? A ONU não conseguiu fazer absolutamente nada. Fez um cartaz. E se virmos bem, não é novidade que as Nações Unidas, que em geral estão apenas interessadas em condenar sucessivamente Israel, como se sabe, sejam impotentes ou sejam irrelevantes ou sejam inconsequentes para resolver conflitos e calamidades, como é este do Sudão. O que talvez seja novidade é que a ONU minta ou tenha passado a mentir descaradamente a propósito e produz a propaganda com uma visão tão alucinada, tão distorcida da realidade. O cartaz em questão é só um exemplo, embora seja um exemplo particularmente ofensivo da tentativa de disfarçar uma tragédia e a inoperância da ONU nessa tragédia, cobrindo-a com slogans agradáveis, com conversa fiada e com falsidades. Isto é tão grotesco quanto mostrar mulheres de burca como símbolos do empoderamento feminino. A ONU do engenheiro Guterres é, em suma, e vou tentar poupar nos adjetivos, uma organização grotesca, uma organização a dar um bocadinho pro infecto. E receio que aquilo esteja de tal maneira contaminado que nem com a remoção do engenheiro Guterres a ONU se possa salvar. Acho que já não há nada a fazer por aquilo e, muito mais grave, evidentemente, e agora sem brincadeiras, acho que também não há nada a fazer pelo Sudão e pelos lugares como o Sudão que sofrem o que sofrem e por aquela gente, coitados.
Obrigado, Alberto. Alberto Gonçalves a desfazer ideias feitas todos os dias, de segunda a sexta, aqui na Rádio Observador. Um abraço, Alberto. Até amanhã.
Um abraço, Ricardo. Até amanhã.
O "Ideias Feitas" conta com o apoio do azeite Talismã.