Ao saber do acidente que Diana havia sofrido e sem ter ainda conhecimento da gravidade da situação, a Rainha Isabel II reagiu com irritação: “O que é que ela anda a aprontar agora?”, descreve Charles Spencer, irmão da princesa no seu livro O Canto do Cisne, que será lançado na próxima semana e está a ter trechos divulgados pelo The Daily Mail. No conteúdo publicado no jornal britânico esta sexta-feira, Spencer descreve os momentos antes, durante e após o enterro de Diana, destacando as reações de Carlos III, dos ainda jovens Harry e William e de outros membros da família real britânica.
No Palácio de St. James, de onde partiria o cortejo do funeral, Spencer avistou os seus sobrinhos William e Harry a assistir televisão. “Pensei em como devia ser perturbador assistir ao preâmbulo do funeral da própria mãe na televisão e fiquei impressionado, pela primeira de muitas vezes nesse dia, pela aparente compostura dos meus sobrinhos”, descreveu. A seguir, foi ter com o Príncipe Carlos III, com quem não tinha contacto desde que lhe desligara o telefone na cara. O episódio, no entanto, não foi comentado por nenhuma das partes. Carlos estava sentado sozinho e foi “educado e formal”, descreveu Spencer, sem deixar de questionar no livro a presença do ex-marido (“de um casamento que tinha colapsado tão amargamente”) e a decisão da família real britânica de que Harry e William acompanhassem o cortejo.
William “dono de si” e Harry “minúsculo, franzino e desolado”
“Dar apoio aos filhos foi a razão dada para a sua posição de destaque, mas o que faziam os rapazes ali, afinal? Tudo aquilo parecia uma loucura”. A decisão sobre quem seguiria o caixão de Diana e em qual sequência foi conturbada, segundo os relatos de Spencer. Carlos comunicou que assumiria a posição central, com William à sua direita e Harry à esquerda. Mas terá sido impedido pelo Príncipe Filipe, que definiu que Spencer ficaria no centro entre os jovens enquanto ele próprio e Carlos III caminhariam nas pontas daquela fila. “Carlos pareceu desgostoso, mas não reagiu contra a autoridade do seu pai”. Entre as instruções do monarca para o cortejo fúnebre, estavam a ordem de que todos marchassem juntos com o olhar direcionado para a frente e a cabeça inclinada, “para não parecer que estávamos simplesmente a dar um passeio”.
O carro escolhido para o transporte do corpo, sob um canhão, foi considerado por Spencer “completamente em desacordo com o amor inerente de Diana pela paz”. Sobre o caixão junto às flores, estava um cartão com a palavra “mamã”, segundo o livro, escrito por uma “mão jovem”: “Essa, para mim, continua a ser a imagem marcante do dia: o grito silencioso e escrito de desolação de um filho para uma mãe que se foi”.
▲ Harry e William foram acompanhados pelo tio e o pai durante o cortejo
BBC News & Current Affairs via G
Três anos de idade separavam William (de 15 anos) e Harry (12), pelo que Spencer destaca a “maior compostura e maturidade” do irmão mais velho perante a situação: “William, embora sem dúvida estivesse a sofrer com a mesma gravidade, parecia mais dono de si”. Em sentido contrário, Harry parecia aos olhos de Spencer “minúsculo, franzino e desolado”. A reação do público que seguia o transporte do caixão, “apesar de serem cheias de boa intenção, constituía uma forma de tortura mental”, disse Spencer. Num dos momentos da marcha em que estiveram fora da vista do público, Spencer aproveitou para dar um abraço em Harry e elogiá-lo pela sua postura.
A perda “terrivelmente magoada” do título e a oferta de recuperá-lo após a morte
Na Abadia de Westminster, Spencer refletiu sobre aqueles que apoiaram Diana em vida “enquanto outros se tinham regozijado com a despromoção que se seguiu ao seu divórcio”. Quando Diana perdeu o título de Sua Alteza Real, Spencer afirma que a Princesa Michael de Kent terá agido com “falsa bondade” ao dizer: “Não te preocupes, Diana. Só precisas de me fazer uma vénia quando estivermos em público!”. No regresso para Althorp, a bordo do comboio real, Robert Fellowes (o secretário particular da rainha Isabel II) chamou Spencer para conversar. “Sua Majestade gostaria de oferecer a Diana o seu título de Sua Alteza Real de volta”, terá dito.
Ao refletir sobre os desejos da irmã, que havia ficado “terrivelmente magoada” com a perda do título com o fim do seu casamento, Spencer disse que a atitude era “gentil”, mas que Diana estava morta, e, por isto, não fazia sentido. “O prémio de consolação era oco, por muito bem-intencionado que fosse o gesto da Rainha”, escreveu, considerando um “pacote de humilhação” tudo o que ocorreu após o divórcio. “Pelo menos esta mesquinhez ajudou a salvá-la de uma sepultura sem significado em Frogmore”, disse relativamente à perda do direito de ser enterrada no cemitério real aquando da perda do título. A família Spencer decidiu que o corpo deveria ser levado para Althorp. “Sabíamos que ela teria querido isso”.
▲ A propriedade dos Spencer, onde Diana foi enterrada
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Dois guardas florestais abriram espaço para a sepultura. Estavam presentes o Bispo de Peterborough e o seu capelão para realizar uma cerimónia cristã. “À exceção de dois membros do seu pessoal doméstico e da minha namorada de então, Josie, com quem Diana tinha passado algum tempo e de quem gostava, todos nós no grupo do funeral éramos parentes de Diana”, recordou. Um “estranho”, entretanto, foi avistado: era o Príncipe Carlos, que “colheu uma única haste” do ramo de flores que Spencer tinha para deixar cair sobre o caixão da ex-mulher. “Quanta generosidade, pensei, irritado agora por causa da Diana, enquanto ela começava a desaparecer sob a terra”. Carlos, ao cruzar o olhar com o irmão de Diana, terá dito: “Por favor, ignore-me. Eu sou uma árvore!”, escreveu Spencer. “Depois, escondeu-se atrás de umas hastes esguias penduradas numa das faias da ilha”. É esta propriedade que Spencer terá aberto as portas para receber o sobrinho Harry, a sua mulher Meghan e os filhos do casal nas suas férias de verão este ano.