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"Ideias Feitas" na Rádio Observador com Alberto Gonçalves. Olá, Alberto, bem-vindo.

Olá, Ricardo, boa tarde.

E hoje regressamos ao tema política e futebol.

Eu ontem falei mais de futebol do que de política. Ontem foi uma coisa mais técnica e tática do que propriamente política.

E com o resultado de ontem, muitos dos comentários que eu previa encaixaram que nem uma luva.

Tinha três hipóteses, uma delas acertei, Portugal empatou, de facto, e depois as consequências também eram mais ou menos previsíveis. Não foi grande mérito meu. Mas de facto vi o jogo e o jogo divertiu-me. E divertiu-me não por ser um bom jogo, precisamente pelo contrário, mas reparei que na assistência no estádio, em Houston, no Texas, estava o senhor Presidente da Assembleia da República, o doutor Aguiar Branco, e a senhora Ministra da Cultura, a doutora Margarida Balseiro Lopes. Depois fui procurar e li que o objetivo da viagem era garantir o apoio institucional à comitiva desportiva, que seja a seleção, mas sinceramente não sei bem em que consiste o apoio institucional. Acho que a seleção já tem apoios que chegue. Depois, se não conseguem jogar, a culpa ou o mérito não é exatamente dos políticos e de qualquer maneira, se eles foram lá prestar apoio, o apoio não foi muito eficaz, porque a equipa jogou pior que mal, como toda a gente pôde ver. Segundo ouvi dizer, também não reparei especialmente nisso, mas fez um remate à baliza e ia perdendo com uma equipa que também não me pareceu ser lá essas coisas. Portanto, metade das justificações usadas para a presença de políticos nacionais nos Estados Unidos, essa metade não colhe. Eu acho que o erário público acaba por patrocinar estes passeios. Eu sei que o convite é da Federação Portuguesa de Futebol, mas depois há gastos inevitáveis que nós acabamos por pagar e se não pagarmos também não muda muito a natureza da questão. Mas a outra metade dos argumentos, dizia eu, para justificar a presença de políticos lá no estádio, também não consta que tenha sido um êxito retumbante, porque segundo o palavreado oficial, a deslocação de suas excelências visou igualmente uma vertente de diplomacia e os governantes justificaram a deslocação com a necessidade de realizar encontros oficiais com a comunidade portuguesa residente no Texas, em Houston acho que não chega às 1000 pessoas, em Houston e com legisladores locais daquele estado norte-americano, estreitando laços culturais e económicos. Sobre isto eu deixo meia dúzia de questões, porque não sei se haveria assim tanta necessidade do doutor Aguiar Branco e da doutora Balseiro Lopes se encontrarem oficialmente com os portugueses que moram no Texas ou com representantes desses portugueses. Esses portugueses que moram no Texas ou os seus representantes, sobretudo eles próprios, tinham alguma necessidade de se encontrar com os nossos governantes? Que laços culturais e económicos estreitaram? Será que a delegação portuguesa acordou uma série de estágios de licenciados nossos nacionais da NASA, cuja sede fica lá? Será que trouxe de lá uma receita de churrasco? O churrasco de Texas é muito aconselhável. E se deixou lá umas postas de bacalhau, não faço ideia. E fui ao site da Assembleia da República, isto dá uma trabalheira, como as pessoas podem notar. Fui ao site da Assembleia da República e lá há apenas uma nota básica sobre o tal encontro, na casa particular do cônsul honorário de Portugal em Houston. Mas não esclarece nenhuma destas dúvidas. É legítimo concluir, por isso, que o senhor Presidente da Assembleia da República e a senhora Ministra da Cultura, desporto e juventude ou juventude e desporto, não foram lá fazer rigorosamente nada, exceto turismo e assistir, coitados, a um jogo miserável. E rigorosamente nada, exceto turismo e assistir a jogos miseráveis, é o que farão os políticos que vão estar presentes nos próximos dois jogos da seleção. Ao que consta, já está tudo combinado, já têm uma programação. No próximo desafio contra o Uzbequistão e ainda em Houston, teremos o doutor Montenegro. No desafio seguinte, em Miami, contra a Colômbia, é a vez do doutor Seguro. E com certeza vão levar também mais alguns penduricalhos a tiracolo, entre figuras secundárias da política e quiçá, se calhar, da cultura e do desporto, mais umas personalidades, como se costuma dizer, todas empenhadíssimas em apoiar institucionalmente a seleção e em reunir oficialmente com as comunidades portuguesas locais. No caso da comunidade texana, está cheia de sorte que vai poder reunir com governantes nacionais pela segunda vez em poucos dias. E depois, se houver mais jogos a seguir a esses, se Portugal passar esta fase, a chamada fase de grupos, se não for despachado, já que já começa a ser uma possibilidade, é muito provável, nesse caso, que a quantidade de políticos e de apoios institucionais e de comunidades portuguesas cresça exponencialmente. Eu imagino que se a seleção chegar à final, nós podemos parafrasear o grande Paulo Futre e dizer que vão ir charters pagos, não se percebe bem por quem, e carregadinhos de gente interessada em estreitar laços culturais e económicos com as comunidades que andam por lá. Agora, a sério, para terminar, Ricardo, descontada esta conversa fiada, o que impressiona, como se costuma dizer, em 2026, o que é impressionante não é que políticos sem escrúpulos se queiram ver associados a eventuais hipotéticas vitórias desportivas, mesmo os que não viajam, pelos vistos andam para aí a fotografar-se. Eu ouvi hoje o Miguel Pinheiro de manhã, andam para aí a fotografar-se com a camisola da seleção e a fazer umas figuras tristes do género. Mas o que impressiona, dizia eu, após meio século de democracia e em pleno século XXI, em 2026, essas coisas todas, o que impressiona é ver inúmeros cidadãos adultos e alfabetizados que engolem uma entorpece tão óbvia. E é por isso, e só por isso, que os políticos nunca desistem de a praticar. Porque se as pessoas não valorizassem isto, se as pessoas interpretassem isto pelo valor facial, os políticos não se prestavam a estes papéis. Eu não acredito muito naquela conversa, eles querem passear e tal, essa história, obviamente, não é por aí. Eles querem é ser vistos ao lado de vitórias. Ontem correu mal. Estamos a ver como é que corre das próximas vezes.

Obrigado, Alberto, e até amanhã.

Até amanhã, Ricardo. Um abraço.