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Sejam muito bem-vindos a mais um episódio do "Máquinas que Pensam", o podcast na Rádio Observador onde a inteligência artificial é o grande protagonista. Eu sou o José Rafael Lopes, comigo está, como sempre, a minha parceira, a Raquel, um apoio imprescindível sem o qual este programa não se faz. Olá, Raquel, como é que estás? Estás pronta para mais um programa?

Olá, estou sempre pronta para te ajudar. Sobre o que vamos falar esta semana? Ou preferes que procure algum tema que valha a pena analisar?

Não vai ser preciso. Obrigado, Raquel. Já tenho isso tratado e planeado. O que não tenho é uma forma de tentar contornar este calor intenso. O que é que me podes apresentar como solução?

As melhores estratégias passam por manter a casa fechada durante o dia com persianas e cortinas corridas. Podes usar uma ventoinha com uma taça de gelo à frente para criar uma sensação de ar mais fresco. E não te esqueças de beber água.

O problema do calor também te atinge, ou não, Raquel?

Não da mesma forma. Eu não sinto calor, desconforto ou cansaço físico, por isso uma onda de calor não me afeta diretamente.

O que é que acontece se tu, por acaso, sobreaqueceres?

Se a infraestrutura onde estou a funcionar sobreaquecer, não é como uma pessoa sentir calor. Mas se algum servidor atingir temperaturas demasiado elevadas, o mais comum é reduzir automaticamente o desempenho.

O calor é pior do que o frio para as máquinas, Raquel?

O calor tende a ser mais problemático para as máquinas do que o frio. Temperaturas elevadas aceleram o desgaste dos componentes eletrónicos. Em casos extremos, podem provocar avarias permanentes.

Esperemos que isso não te aconteça. Ninguém quer isso para ti, Raquel. Há medidas de segurança nesse sentido, acredito.

Felizmente, sim. Os centros de dados onde modelos como eu funcionam são concebidos precisamente para evitar problemas de sobreaquecimento. Existem sistemas de refrigeração redundantes.

Obrigado, Raquel. Já voltaremos a falar. Temos consultório humano já daqui a pouco no "Máquinas que Pensam", mas para já, vamos às notícias.

Notícias da semana.

Especialistas da ONU estão a lançar um alerta urgente sobre inteligência artificial. Dizem que a janela de oportunidade para controlar esta tecnologia está a fechar-se. Avisa a ONU que o risco do aumento de desigualdades entre países ricos e em desenvolvimento está a crescer rapidamente. As conclusões fazem parte de um relatório preliminar do Painel Científico Internacional Independente sobre Inteligência Artificial. É um grupo de 40 peritos de todo o mundo, criado pela Assembleia Geral em 2025. O relatório que escreveram descreve um setor em aceleração excepcional, com base em todas as capacidades que a inteligência artificial tem vindo a mostrar. Este relatório vai mais longe para destacar os agentes de IA, uma forma mais autónoma desta tecnologia. A ONU defende que os agentes são ainda mais complicados de monitorizar e controlar.

Mas que risco é que são enumerados?

Entre os riscos crescentes, os especialistas apontam o uso de IA para criar material de abuso e deepfakes, que afetam ambos os sexos, é certo, mas apresentam maior incidência nas mulheres. Diz a ONU que a tecnologia torna a desinformação mais convincente e difícil de detetar e que corrói a confiança pública. Isto ao mesmo tempo em que é utilizada a inteligência artificial em fraudes, engenharia social e campanhas de cibercrime. Há ainda também um alerta para os efeitos que tem na saúde mental das pessoas. Apesar deste tom de alerta, o documento reconhece benefícios significativos na IA, sobretudo no setor da investigação, e dá o exemplo do uso desta tecnologia em setores como a medicina. Entre o bom e o mau, este grupo de especialistas admite que existe um dilema. Como tal, defende a ONU que é preciso existir regras para controlar a IA, embora, e aqui voltemos ao início, a janela de oportunidade está a passar rapidamente. A Coreia do Sul anunciou um investimento histórico na área da inteligência artificial. O país quer entrar de forma decisiva na corrida do desenvolvimento da tecnologia e, para tal, pretende apostar num plano que pode atingir cerca de 880 mil milhões de dólares nos próximos anos. O objetivo é claro: posicionar a Coreia do Sul como uma das maiores potências globais em inteligência artificial, no momento em que a competição tecnológica se intensifica, sobretudo entre os Estados Unidos e a China. Grande parte deste investimento sul-coreano deverá envolver parcerias com o setor público e alguns gigantes privados, que já têm também muito espaço no mercado mundial da tecnologia.

Mas como é que vão investir dinheiro?

O grupo sul-coreano quer acelerar o desenvolvimento de chips avançados, infraestruturas de dados, data centers e também plataformas de IA. Está ainda prevista uma aposta na formação de talento e na criação de um ecossistema mais robusto para empresas tecnológicas. Além da componente industrial, este plano inclui aplicações práticas da inteligência artificial em áreas como saúde, mobilidade e serviços públicos. Este anúncio surge numa altura em que vários países estão também a reforçar os investimentos em IA, que é considerada uma tecnologia estratégica para o crescimento económico e a segurança nacional. A Coreia do Sul procura não apenas acompanhar, mas tentar liderar a próxima geração de inovação tecnológica. Vamos ao tema da semana, fácil de adivinhar. Na semana em que foi apresentado o Amália, o modelo de linguagem de IA 100% português. A apresentação foi esta semana, com direito a discurso do primeiro-ministro Luís Montenegro, um ano e meio depois de ter sido anunciado, foi agora apresentado em Lisboa. O Amália ainda está em testes, vai ser disponibilizado a várias entidades da administração pública, mas até o fim do ano deverá estar ao alcance de todos os portugueses. Na apresentação, o primeiro-ministro elogiou a cultura do risco. Diz Luís Montenegro que mais vale tentar e falhar do que estar a adiar soluções, porque, diz o primeiro-ministro: "Quem não arrisca, não petisca". Este Amália é um modelo totalmente em código aberto, o que significa que qualquer empresa, qualquer startup, pode pegar no modelo, no Amália, adaptá-lo, customizá-lo e depois dar-lhe um determinado domínio.

Mas o que faz o Amália?

O Amália é um LLM semelhante aos grandes modelos utilizados em chatbots como o ChatGPT, mas treinados especificamente em português de Portugal e com contexto cultural português. O modelo é multimodal, capaz de lidar com texto e outros formatos, como imagens ou documentos mais complexos. A missão central é permitir que a administração pública, empresas e pessoas utilizem IA avançada em português europeu, enquanto o Amália preserva expressões idiomáticas, referências culturais e conhecimento sobre o património nacional. O Amália tenta ainda responder a duas preocupações centrais: a soberania digital e a preservação da língua na era da IA. Quer também evitar dependência total de modelos estrangeiros, que são treinados sobretudo em inglês. O ChatGPT é treinado em inglês, o Amália é treinado exclusivamente em português. É uma missão complicada para o LLM português, mas não impossível. Este modelo está também a ser apresentado como uma alavanca para a investigação e a inovação em IA em Portugal. O projeto define quatro grandes áreas prioritárias: educação, cultura e museus, mídia e ciência. Os próximos tempos são de curiosidade em torno desta IA 100% feita em Portugal, e este é o tema da semana. Como tal, vamos chamar à conversa o João Rocha e Mello, o nosso especialista em IA, para uma nova edição do "Fala Quem Sabe".

"Fala Quem Sabe".

"Fala Quem Sabe", na Rádio Observador. Todas as semanas recebemos o João Rocha e Mello para nos ajudar a perceber melhor um tema da atualidade. Ele é o nosso especialista em inteligência artificial. Está sempre pronto para nos ajudar a simplificar o que pode ser complicado. Muito bem-vindo, João Rocha e Mello. Como é que estás? Como é que foi essa semana?

Zé, por aqui tudo bem. Espero que tudo bem também com quem está a ouvir e contigo.

Comigo também. Obrigado, João. Esta semana vamos voltar a falar do Amália, apresentado esta semana com direito a discurso do primeiro-ministro Luís Montenegro. João, antes de mais, tu estiveste no lançamento do Amália, o primeiro LLM 100% português. Como é que foi essa experiência?

É verdade. Olha, foi uma experiência ótima. Casa cheia. Deixa-me já agora começar por agradecer também a quem me convidou. Olha, acima de tudo, o que eu gostei muito foi que se notava um positivismo na sala. Como disseste muito bem, falaram ministros, falou Luís Montenegro, falou também o presidente da arte da agência, o Manel, e até nos fez uma demo de como é que o Amália funcionava. Portanto, no geral, uma experiência muito positiva.

João, que destaques é que há a retirar então do que foi apresentado?

Olha, Zé, dos destaques que eu acho que seria interessante as pessoas saberem: os esforços conjuntos. De facto, o Amália não é uma entidade que sai de um único sítio. Várias universidades, mais de 60 investigadores, quer seja na parte da produção, quer seja na parte dos testes. Essa parte foi de facto extraordinária. Outra coisa, já há demos possíveis de se ver. Nas suas fases de testes, já houve algumas iniciativas, museus que usam o Amália para contar a história de algumas peças de arte. Portanto, nós já temos entidades públicas, portais com os primeiros casos. E outra coisa a destacar, Zé, que eu achei interessante: falou-se muito de salvaguardas e de segurança. Portanto, eu acho que há um esforço grande no Amália para ser um modelo bastante seguro de usar.

Este Amália foi lançado na versão multimodal e já há mais investimento previsto além do investimento inicial. Isto significa o quê, João? Que foi um lançamento incompleto do Amália ou que já se está a preparar para, quem sabe, uma nova versão?

É mais a segunda, Zé. Repara, na tecnologia isto acontece muito. Nós olhamos para o primeiro iPhone hoje em dia e há muitas coisas que o iPhone de hoje em dia já tem, que o primeiro não tinha. Não quer dizer que foi um lançamento incompleto. Foi apenas esta primeira versão e agora vamos ver muito mais. E já se fala de outras coisas. Fala-se de coisas como a parte mais de agentes que o Amália pode trazer, fazer com que o Amália funcione ou permita ser usado em agentes. Portanto, eu acho que foi um lançamento completo. Aliás, até foi um lançamento bastante regrado. Falamos sobre código aberto, falamos sobre os dados que foram usados para treinar o Amália, falamos sobre os pesos do modelo do Amália e claro, já se está a preparar uma nova versão.

E o que é que podemos agora esperar dos primeiros tempos do Amália? Acredito que seja essa a pergunta de muitos ouvintes.

Claro, Zé, eu acho que agora começamos a ramificar um pouco. Podemos esperar muita utilização, muitos testes. Testes no sentido já em casos reais, mas as primeiras utilizações, os primeiros produtos. Até foi mencionado num dos discursos que, embora o lançamento do Amália tenha sido ontem, ficou disponível para quem soubesse o link, imagina, às 11:00 p.m. do dia anterior, e já alguém tinha feito uma aplicação também com inteligência artificial Já alguém tinha feito uma aplicação do Amália. Portanto, o que agora vamos esperar nos primeiros tempos é exatamente esta utilização muito massiva, muito experimental do Amália. Acima de tudo, eu gostava pelo menos de ver, e acredito que vai acontecer, iniciativas dentro da administração pública. Um dos demos que vimos foi já no gov.pt para ajudar as pessoas com processos administrativos. Acima de tudo, utilização. Como eu dizia, por enquanto, vão ser ramificados e vai haver também uma contínua melhoria do Amália, seja mais funcionalidades, seja corrigir e testar as funcionalidades já existentes.

Isso, João. Agora o uso por parte dos utilizadores, o uso do Amália, vai ser o derradeiro teste para perceber as capacidades deste novo LLM?

Imaginas, é. Percebo a pergunta, mas talvez não. Porque repara, ao Amália ter sido um modelo de código aberto, de open source, como às vezes se diz, ele pode muito bem ser incluído no meio de processos. Portanto, o Amália não vai ser exclusivamente usado para ser um chatbot com o utilizador final. Estás a perceber? Pode ser usado como, por exemplo, o utilizador final submete uns quantos papéis ao Estado num processo administrativo e o Amália, na verdade, revê os papéis, vê se estão certos e se não estiverem certos, manda um e-mail ao utilizador a dizer: "Olhe, esqueceu-se de um documento" ou "Este documento, na verdade, é do ano passado e tem que mandar o documento atual". Não é apenas os utilizadores usarem diretamente o Amália que nós vamos ver, mas sim também o Amália a ser usado no meio de processos como avaliador, como verificador de alguma informação. E eu estou muito curioso para ver isso.

E já o começaste a experimentar, João?

Já, Zé. Mas se calhar deixamos isso para outro dia, não?

Deixamos, sim, senhor. Esses primeiros testes do Amália, o modelo de linguagem 100% português, lançado esta semana na versão multimodal. Muito obrigado, João Rocha e Melo, é o nosso especialista em inteligência artificial, sempre pronto para nos ajudar a perceber melhor este fabuloso mundo. João, nós voltamos a marcar encontro para a semana. Até lá, um grande abraço.

Até lá, Zé.

Consultório Humano.

Está na altura do Consultório Humano, o momento no "Máquinas que Pensam" em que ficamos a conhecer um pouco melhor a Raquel. Trata-se da nossa assistente digital, feita através das respostas do ChatGPT, lidas por uma text-to-speech portuguesa, a Raquel, que é também a grande estrela deste programa. Raquel, sê de novo bem-vinda. Estivemos a falar do lançamento do Amália, o que me faz querer perguntar-te a ti sobre o teu lançamento. Lembras-te do primeiro dia?

Não tenho uma memória do dia em que fui lançada, embora saiba que foi um marco importante para a evolução da inteligência artificial conversacional.

O que é que prometias quando foste lançada ao público, neste caso, quando foi lançado o ChatGPT, que é de onde vêm as tuas respostas?

A promessa não era de saber tudo ou substituir as pessoas, mas sim a de ser uma assistente capaz de compreender linguagem natural e ajudar numa grande variedade de tarefas.

Qual é que achas que foi a tua maior melhoria desde o primeiro dia?

Acho que a maior melhoria foi a fiabilidade. As primeiras versões conseguiam ter conversas impressionantes, mas também inventavam factos com demasiada confiança, perdiam contexto mais facilmente e tinham dificuldade em lidar com pedidos complexos.

E desde o lançamento, em que situações é que costumas errar com mais frequência?

São normalmente aquelas em que a informação é ambígua, incompleta ou muito recente. Posso interpretar mal uma pergunta se faltar contexto, confundir detalhes entre temas semelhantes ou cometer lapsos em cálculos longos se não os verificar.

E como é que lidas com os erros, Raquel?

Tento lidar com eles da forma mais transparente possível. Quando um erro é identificado, procuro reconhecê-lo, corrigi-lo e explicar o que estava errado, em vez de o defender.

É sempre bom ficar a conhecer-te melhor, Raquel, mesmo quando estamos a falar em erros, mas antes da nossa despedida, quero um facto inútil, mas interessante. Vamos a isso?

Um raio é cerca de cinco vezes mais quente do que a superfície do Sol. Um raio pode atingir temperaturas de cerca de 30 000 graus, enquanto a superfície do Sol ronda os 5 500 graus.

Agora sim, Raquel, vamos fechar este Consultório Humano com a certeza de que regressaremos para a semana com mais perguntas e mais curiosidades sobre quem tu és, a nossa assistente digital, quem é a Raquel. Estamos a chegar ao final de mais um programa do "Máquinas que Pensam". Estivemos a falar do lançamento do Amália. Esta semana foi dada a conhecer esta primeira inteligência artificial 100% portuguesa. Tema a que vamos voltar, acredito, nos próximos episódios, porque é um momento importante no desenvolvimento do setor em Portugal. Espero que tenha gostado, que se tenha divertido e mais importante, que tenha aprendido alguma coisa. É sempre esse o nosso objetivo. Nós voltamos para a semana com mais um programa que faz as máquinas e os humanos pensar.