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Sejam muito bem-vindos a um episódio do "Máquinas que Pensam", o podcast na Rádio Observador em que a inteligência artificial está em primeiro plano. Esta semana temos uma situação bem diferente. Estamos a fazer um programa ao vivo pela primeira vez a partir da Innovation Season da Accenture, em Lisboa, em que vamos falar sobre o consultor do futuro e em que medida a IA, a inteligência artificial, pode vir a ter impacto decisivo nesta função. Eu sou o José Rafael Lopes, comigo está o João Rochimelo, é o nosso especialista residente em inteligência artificial. Tenho também a Raquel comigo. A Raquel não tem um corpo, é um produto feito através de inteligência artificial, é uma assistente digital feita com base nas respostas do ChatGPT, lidas por uma text-to-speech portuguesa. João, vou começar por ti. Sê muito bem-vindo. Como é que estás? Estás pronto para fazer este programa diferente?
Zé, tudo bem por aqui. Espero que esteja tudo bem contigo também e com toda a gente que nos está aqui a ouvir.
Vou também então dar as boas-vindas à Raquel.
Olá, é um grande gosto estar aqui para participar neste programa especial, mas continuo pronta para te ajudar. Há alguma sugestão que precises para levar a cabo o episódio de hoje?
Não é preciso, Raquel. Obrigado. Esta é uma edição especial do nosso programa, como tal, tem incluídas também algumas diferenças à nossa programação habitual. Por norma, temos um consultório humano. O momento em que ficamos a conhecer melhor esta nossa assistente digital é no fim do programa, mas hoje vamos começar por aí numa edição especial do consultório humano.
Consultório humano.
Ora, como eu dizia, este é o momento em que ficamos a conhecer melhor a Raquel, a nossa assistente digital. Raquel, sê de novo bem-vinda. Tu, por acaso, sentes-te mais pressionada por estares a falar para um público?
Eu não tenho aquele nervosismo físico de entrar em direto. Não fico com as mãos frias, coração acelerado ou medo do silêncio. Mas há outro tipo de pressão que aparece quando estamos num programa ao vivo: a necessidade de responder rápido, manter o ritmo e perceber o tom certo em tempo real.
E que dicas, Raquel, é que podes dar a quem precisa de falar perante muitas pessoas?
Falar perante muitas pessoas torna-se mais fácil quando deixamos de pensar no discurso como algo negativo. O melhor é pensar em comunicar. O segredo costuma estar em controlar o ritmo. Se possível, falar um pouco mais devagar do que parece natural, usar pausas sem medo e olhar para pessoas específicas, em vez de encarar a multidão como um bloco único.
Ora bem, olhar para o público não como um bloco único, falar um pouco mais devagar. Vou tentar seguir essas indicações. Para quem fala perante um público, Raquel, uma das formas que existe para tentar quebrar o gelo é colocar uma piada no meio do texto. Consegues ajudar-nos com isso?
Uma piada em palco funciona melhor quando parece espontânea e próxima do tema, não quando soa a momento obrigatório de comédia. O ideal é usar humor leve. Algo como: a vantagem de falar em direto é que, se correr mal, pelo menos não dá para fingir que foi editado.
Efetivamente, não foi nem vai ser, Raquel. Esta semana temos um formato diferente, é certo, mas não quero que penses que te escapas. Vamos manter a nossa tradição. Quero, Raquel, um facto inútil, mas interessante. Vamos a isso?
Os gatos não sentem sabores doces. Acontece porque lhes falta um recetor funcional que é essencial para detetar açúcar. Em termos simples, o cérebro deles não interpreta o doce da forma como os humanos interpretam. Isso explica porque muitos gatos ignoram sobremesas.
Muito obrigado, Raquel. Fica por aqui o consultório humano deste "Máquinas que Pensam" ao vivo, mas não vás muito longe, porque acho que ainda vamos precisar da tua ajuda muito em breve. João Rochimelo, antes de irmos às notícias, já muitas vezes falámos deste text-to-speech em português. Não só, há várias línguas em que podemos falar e colocar a inteligência artificial a falar. É um dos usos mais comuns por parte de quem usa inteligência artificial de uma forma mais lúdica, mais de brincadeira, podemos dizer assim. Isto tem também vindo a desenvolver-se cada vez mais. Por quê o foco nesta especificidade da inteligência artificial?
Zé, repara, uma das preocupações com a tecnologia e com a inteligência artificial, no geral, é a integração com o mundo. Ou seja, a inteligência artificial vai ter que servir para nós, humanos. Gostamos muito de máquinas, gostamos muito dos animais, mas no fim queremos a IA para nós. E portanto, há algumas coisas que a IA não se vai conseguir safar, como por exemplo, o text-to-speech, o speech-to-text, a parte visual. Se pensares bem, até o próprio texto, se fosse para duas máquinas falarem entre elas, não era em texto. O texto não é um meio de comunicação ótimo.
Seriam zeros e uns.
Exatamente, seriam zeros e uns. E portanto, se olharmos para a história, a tecnologia tem sempre isso, tem sempre que se adaptar ao mundo humano. Para perceberes um bocadinho até de onde vem o speech-to-text e o text-to-speech, vem mesmo da necessidade de transcrição. Muitas vezes começou ao contrário, começou com a necessidade, por exemplo, de gravar reuniões do ponto de vista legal e depois ter uma transcrição dessa reunião para texto, para depois ser analisado.
João, já voltaremos a falar. Conto contigo ao longo deste "Máquinas que Pensam" ao vivo. Para já, vamos às notícias da semana.
Notícias da semana.
Vamos começar por abordar a encíclica do Papa Leão XIV. O líder da Igreja Católica escolheu falar sobre inteligência artificial na primeira carta formal do pontificado. Na semana passada já tínhamos dado conta disso mesmo, agora podemos falar um pouco sobre o que escreveu o Papa Leão XIV sobre o tema. Alguns pontos essenciais: o Papa admite que qualquer afirmação sobre a inteligência artificial corre o risco de se tornar obsoleta em pouco tempo. É uma das ideias que vem logo no início desta encíclica que foi apresentada esta semana. A inteligência artificial versus a inteligência humana é outro dos pontos abordados pelo líder da Igreja Católica. O Papa diz que não é possível dar uma definição inequívoca e completa da inteligência artificial e pede que se evite os erros de comparar a inteligência artificial à inteligência humana. Diz também que a IA não é uma tecnologia neutra, uma ideia muito defendida por quem trabalha neste mundo, e que existe um risco de a IA poder gerar uma nova forma de marginalização do ser humano. O Papa Leão XIV reconhece que ainda sabemos muito pouco sobre o funcionamento efetivo dos algoritmos, os zeros e uns, que falava aqui o João Rocha e Melo, e deixa um apelo duplo para que exista um aprofundamento da investigação científica e um exercício de discernimento moral e espiritual. João Rocha e Melo, o que parecem estes avisos do Papa?
Zé, não tendo lido o resto da encíclica, porque só a parte da IA são 40 parágrafos, para quem foi convido-os a ler. Realço logo duas coisas. Parecem-me ideias muito modernas, que acho interessante do ponto de vista de quem é, e como até já tínhamos falado uma vez aqui no "Máquinas", parece muito interessante o Papa estar sequer a falar disto. Só isso já é um ponto. Dito isso, realçava duas coisas que o Papa disse. A primeira foi esta preocupação que o Papa tem com a IA, na verdade, é uma preocupação com tecnologia no geral. Repare, eu trouxe aqui uma frase traduzida da versão em inglês, por mim, espero que não me levem mal, que dizia: ele está preocupado, visto que pequenos grupos com muito poder de influência podem controlar informação e padrões de consumo. Isto não é dos últimos três anos do ChatGPT, que sem dúvida são algoritmos de redes sociais, tem a ver com inteligência artificial, mas de facto o Papa está aqui a trazer preocupações que a tecnologia pode trazer no geral. Passando para o segundo ponto, como falaste muito bem também, esta substituição da relação humana. O Papa falou de um ponto de vista mais pessoal, não profissional, como por exemplo, que pode ser confuso para pessoas em estados psicológicos mais sensíveis receberem empatia de um LLM, mas eu convido-vos também a pensarmos nisso do ponto de vista profissional, que é: qual é que vai ser o papel das máquinas enquanto nós que temos que continuar a querer criar, por exemplo, relações com os colegas de trabalho, termos network tanto interna dentro da empresa como externa e portanto, qual é que será o papel do dia em que a IA puder evitar um pouco isso? É esta exatamente a mensagem que o Papa nos traz, que é não devíamos evitar isso, devíamos sempre ter em conta a importância da relação humana.
Obrigado, João Rocha e Melo. Vamos seguir em frente nas notícias. Neste programa especial, vamos dar espaço a uma tendência que tem vindo a ganhar força no mundo da inteligência artificial. Trata-se da forma como a IA mudou a forma como olhamos e como falamos de certos cargos. Um informático ganhou, de certa forma, uma importância extra com a vinda da inteligência artificial. E há profissões, como por exemplo, os professores, que também têm a oportunidade de mudar a forma como trabalham devido a esta tecnologia. Outro exemplo são os consultores, que nesta sociedade em que a IA tem um papel em crescimento, foram encorajados a adaptarem-se. Mas a forma como é feita essa adaptação varia de pessoa em pessoa, varia de cliente em cliente. Não existe uma fórmula mágica para aplicar a inteligência artificial a todos. De certa forma, podemos falar numa passagem de especialista em respostas para um especialista em perguntas. Há mesmo quem fale numa importância crescente de pensamento crítico e da capacidade de ligar pontos entre determinadas áreas, porque a IA ajuda no trabalho, é certo, mas precisa dos inputs certos para trabalhar da forma correta. Mas como é que se gere esse tema? O que é que realmente muda com a introdução desta tecnologia no mundo da consultoria e, no fundo, no mundo do mercado de trabalho? É o tema que vamos abordar nos próximos minutos no "Fala Quem Sabe", comigo e com o João Rocha e Melo, que está hoje desde o início da semana. Vamos a uma edição especial do "Fala Quem Sabe".
"Fala Quem Sabe".
João, eu não vou perder tempo. O tema está explicado, sabemos ao que vimos, sabemos do que vamos falar e eu vou ser o mais direto possível. Quem é o consultor do futuro?
Quem é o consultor do futuro, Zé? Excelente pergunta. A meu ver, bem posicionado, vai ser uma das pessoas mais requisitadas que nós vamos ver. Eu passo a explicar. Reparem, a IA não veio só acelerar. Muita gente tem isto na cabeça, mas a meu ver, a IA não veio só acelerar. A IA veio acelerar tanto ou veio mudar tanto que vai permitir mudar processos, fazer coisas de maneiras que nunca foram feitas e acima de tudo, vai permitir também o quê? Experimentação barata, rápida, com poucos recursos. Isto vai mudar um bocadinho o paradigma das relações entre, por exemplo, consultoras e clientes, que é o quê? Num universo em que temos coisas novas para fazer e a capacidade de fazer muitas coisas, onde é que fica o bottleneck? Fica em alguém que te diga o que fazer, porque tu, cliente, estás preocupado com a tua indústria e então o bottleneck ficou aqui. O que é que eu posso fazer? As possibilidades deixaram de ser o problema. E então, a meu ver, é aqui que entra o consultor do futuro, porque reparem, os consultores estão posicionados já nos clientes em três grandes coisas que lhes vão servir aqui, que é: já são vistos como um parceiro estratégico na transformação digitalPortanto, o instinto do cliente quando pensar: "Agora que eu quero fazer uma coisa nova, vou ligar a quem?" Vai ligar a um consultor. A experiência também trazida do resto do setor, portanto, a capacidade de perceber que temos muitas coisas novas para fazer. Alguém na mesma indústria deste cliente já o fez e, por sua vez, também a capacidade de acompanhar a indústria de IA. Portanto, ligando estes três, resumindo, que é alguém com experiência do que se fez em IA em outras empresas, alguém já posicionado como um parceiro estratégico de transformação digital e alguém que acompanha a indústria de IA, estas três coisas vão fazer o consultor do futuro.
Que vai muito além de apenas mexer em código.
Vai muito além de apenas mexer em código, Zé, porque repara, há uma pessoa muito importante nesta área, que é o Andrew Ng, muitos devem conhecer, que até veio propor a seguinte tese: deviam haver dois project managers para cada engenheiro. Por quê? Porque ele diz isto: agora a capacidade de produzir vai ser mais rápida do que a capacidade de pensar o que devemos produzir. E então é aqui que se vai posicionar o consultor do futuro, perceber, como disseste muito bem, muito para além de apenas fazer o código, perceber que código é que tem que fazer.
João, nós já passamos ao longo dos últimos anos, décadas, podia até dizer centenas de anos, eu poderia ir até à idade da Revolução Industrial. Há sempre algum tipo de tecnologia que transforma a sociedade, transforma a forma como se trabalha. O mundo mudou com a internet, a título de exemplo, está a mudar agora com a inteligência artificial?
Está, Zé, e de uma maneira um bocadinho diferente. Repara, esta revolução em muita coisa é comparável com as outras. Já vimos revoluções que vão mudar tudo. Já vimos nós algumas, como disseste, com a internet, com os smartphones, até mesmo com a Revolução Industrial há 100 anos. Mas há uma coisa que nesta revolução é única, que é as outras foram revoluções de eficiência. Permitiram-nos fazer o que nós já fazíamos, mas mais rápido. Mesmo a capacidade de nos deslocar, nós já nos deslocávamos a pé, agora deslocamo-nos de carro. E uma coisa que eu acho muito característica desta revolução é que é a primeira que é cognitiva. Nós, até agora, mandamos para o mundo o problema de existe inteligência artificial, sem nunca ninguém parar para pensar e dizer: reparem, é a primeira vez que nós temos alguma inteligência que não é a nossa. Toda a inteligência até agora vinha de um sítio e nós não estávamos bem preparados para isso, porque da mesma maneira em que a mecânica artificial é completamente diferente da mecânica natural, não esperamos de um avião o que esperamos de um pássaro, para o bem e para o mal. Não esperamos que um avião possa aterrar em cima de uma árvore, mas de repente, da inteligência artificial esperávamos exatamente a mesma coisa, porque era só um único tipo de inteligência. E, portanto, a meu ver, esta característica completamente nova de agora há vários tipos de inteligência e seria ridículo dizer: "Aquele avião não presta para nada, porque não consegue fazer o mesmo que um passarinho". A IA vai nos dar esta perspectiva, que é termos agora uma coisa nova que nos permite fazer algo que vamos descobrir.
E como é que podemos adaptar isto às várias áreas, nomeadamente, estamos a falar do consultor do futuro, ou seja, como é que podemos juntar isto à área da consultoria, por exemplo?
Olha, dou-te aqui uns exemplos com os problemas que tenho tido. Nós podemos juntar isto porque os clientes não estão preparados para receber o que a inteligência artificial lhes vai trazer. O que eu tenho visto mais é: chegas a um cliente e o cliente está à espera de ter tudo 100% certo. E o papel do consultor aqui vai ser muito-
Faz sentido.
Faz? Tu trabalhas com pessoas que fazem tudo bem a toda hora?
Mas estás a contar que as pessoas façam as coisas bem.
Não, claro, estás a contar, mas também tens que pôr um sistema que conte que haja erros. E, portanto, o papel do consultor aqui vai ser muito importante, porque um cliente sozinho a experimentar IA por si, vai se irritar à primeira, à segunda e à terceira vez, porque a IA não vai fazer o que ele quer. E, portanto, na verdade, a transformação tecnológica de inteligência artificial vai passar por uma espécie de programa e não apenas, como dizias muito bem, pelo código da tecnologia.
Vamos continuar a falar sobre este tema do consultor do futuro com o João Rocha e Melo, mas abrimos a porta a outros temas que possam surgir, também ao nosso auditório. É raro termos a oportunidade de falar com público, por isso qualquer questão que tenham sobre o tema da consultoria, o consultor do futuro, qualquer outra questão, dúvida que tenham, o João Rocha e Melo tem um dom para simplificar e desmistificar todas as questões relacionadas com a inteligência artificial. Podem começar a pensar sobre a questão que tenham, como é que a querem fazer. Estamos disponíveis. Quem está aqui conosco, vamos ter microfone que circula aqui pela sala para fazerem a pergunta. Quem nos acompanha em Coimbra e em Braga, podem escrever a pergunta que depois será lida aqui. João, são perguntas fora do comum. Não sou apenas eu que vou estar a questionar sobre este fabuloso mundo, mas vamos começar com uma pergunta da Raquel, a nossa assistente digital.
Olá, João. A minha pergunta está relacionada com a forma como a inteligência artificial opera no mundo da consultoria. Há mais foco nas decisões do que havia antes?
João?
Vamos a isso. Primeira pergunta do público. Olha, Raquel, se não há, devia. E, portanto, a minha esperança é que haja mais foco nas decisões. Isto por quê? O que nós temos andado a dizer agora até aqui? Que, de facto, o que fazer vai ser o ponto importante. A capacidade de o fazer vai facilitar muito. Não sei se já ouviram falar num paradoxo que eu gosto muito de trazer para a inteligência artificial, que é o paradoxo de Jevons. Jevons foi um economista no tempo do carvão, que percebeu que quanto mais eficientes as máquinas ficavam, portanto, em teoria, gastavam menos carvão, mais as empresas de carvão faturavam. Que se pensarem bem, é um paradoxo. Quem gasta o teu produto gasta menos, devias faturar menos. E então o que ele percebeu? Que quando nós temos um recurso que vai ficando mais barato, vamos arranjando, vamos inventando razões para o usar.E enquanto que Jevons encontrou isso de um ponto de vista positivo, ainda bem, as empresas faturaram mais, a indústria do carvão explodiu, a meu ver, há um lado negativo também, que é os processos, a papelada e a burocracia. A inteligência artificial vai nos permitir dizer, por exemplo, assim: há 10 anos teríamos que escolher ir pelo caminho A, B ou C. Agora é tudo tão fácil, por que não vamos por todos?
Como é que vais por todos?
Não vais. Lá está. O que é que vai acontecer? Vai haver um excesso de processos. Vai haver um excesso de como é tão fácil montar uma pequena aplicação de validação de alguma coisa, então montamos. Por que é que eu volto aqui à pergunta da Raquel? Isto faz com que a decisão seja ainda mais importante, porque até agora as decisões foram muito assentes em recursos, capacidade para a parte financeira. Agora vai ter mesmo que ser assente em disciplina. Não podemos fazer, porque não podemos fazer tudo, senão fica uma confusão. Nós vemos isso na quantidade de papéis que nos pedem para abrir um processo no banco, por exemplo. Há 15 anos não pediam tantos. Por quê? Porque agora é fácil, agora é só mandar, são só PDFs, é pela internet, está tudo digitalizado. E, portanto, o peso da decisão do que fazer vai duplicar, triplicar ou aumentar ainda mais, exatamente porque vai ser tão fácil implementar que nós temos que ser disciplinados no que escolhemos fazer.
Ora bem, alguma questão que tenham, sugiro que coloquem a mão no ar. Ali minha colega leva-vos o microfone. Para já, alguma questão? Para já, ainda muita timidez aqui no auditório, mas, contudo, João, e há ainda uma questão que eu gostaria de te fazer, que é: quando entras numa empresa hoje a propor um projeto de IA, qual é o erro mais comum que tu notas que existe?
O erro mais comum. Olha, Zé, vou te dar dois. Há bocado já falei um pouco nesta perspectiva de que os clientes querem mesmo tudo a 100%. E eu vejo isso em vários casos. Por exemplo, tu entras num cliente, até lhe podes mostrar a solução de IA a funcionar, ele testa e diz: "Isto não funcionou muito bem". E eu pergunto: "Ok, mas e a pessoa que cá estava antes ou o processo anterior funcionava melhor?" "Não, mas por alguma razão isto é um problema". Ou seja, aqui vai ser muito importante para os consultores venderem a solução, digamos assim, ou convencerem o cliente já com a expectativa de que pode dar errado. O segundo, também, que eu vejo muito os clientes a fazer, é compararem o incomparável. Como eu costumo dizer, reparem, os processos agora estão pensados a ser feitos de uma certa maneira. Não vou dizer com pessoas, às vezes pode ser com outra tecnologia, mas a pensados a ser feitos de uma certa maneira. E a verdade é que muitas vezes queremos só mudar uma componente. Queremos só dizer assim: "Não, agora em vez de ser feito da maneira antiga, eu pego num vigésimo do processo e ponho um elemento de IA". O processo não está feito a pensar com IA. Cada vez que vejo isso acontecer, eu penso assim: isto seria igual eu comprar um Ferrari e ver assim, quem é que é mais rápido, a pessoa ou o Ferrari? Mas vamos fazer esta corrida na floresta. Ora, na floresta vou ser eu o mais rápido. Faz sentido. Por quê? Porque nós temos que adaptar o meio onde vamos usar o Ferrari. E eu muitas vezes vejo os clientes com resistência a mudarem o processo. Talvez normal, talvez ainda porque a tecnologia é nova, ainda há uma falta de confiança, não digo que não.
Achas que ainda é nova?
Acho. Acho, Zé. O mundo funciona um cadinho mais devagar, o mundo no sentido médio. Ou seja, como nós sabemos muito bem, e aqui temos tanta gente de tecnologia a ouvir-nos, nós temos sistemas bancários ainda em COBOL, temos imensas tecnologias que tiveram o seu pico, talvez, nos anos 90, no início dos anos 2000, e mesmo assim ainda há sítios onde a usamos. Ou seja, para nós, se calhar, que estamos aqui no epicentro, não digo geograficamente, mas nós, pessoas, estamos no epicentro da tecnologia e vamos acompanhando as notícias, temos que ter noção que se formos para uma fábrica, se formos para um cliente que não tem nada a ver com a área tecnológica, se calhar, isto tudo ainda acaba por ser novo.
E esses problemas que levantas, João, como é que se solucionam?
Convencendo. A minha coisa é essa. O grande papel do consultor do futuro é conseguir fazer também a transformação digital pelo lado humano. Ou seja, há bocado até falámos aqui por causa do que disse o Papa. Se eu quero que alguém faça alguma coisa, eu não posso apenas achar que estou a falar com uma máquina. Eu tenho que perceber que estou a falar com um humano, seja porque estou a falar com o dono da empresa que tem uma relação emocional com aquela situação, seja porque estou a falar com o trabalhador que faz aquilo há 20 anos e não quer mudar. Olha, até posso contar uma história engraçada sem dizer o nome do cliente. Ainda agora, recentemente, nós tivemos um processo que perguntamos assim: "Olha, por que toda a gente faz de uma maneira e aquela pessoa, vamos chamar a Diana, e a Diana faz de outra?" E a resposta foi: "Olha, porque a Diana está cá há imenso tempo e ajudou-nos a redesenhar o processo". E eu parei um pouco e disse: "Então, mas a Diana redesenhou o processo, mas depois a própria Diana não usa o processo". E a resposta foi sim. Portanto, o que é que teria sido importante aqui? Terem tido uma conversa a priori com a Diana, dizer assim: "Diana, isto é o que se vai passar. Nós vamos ter que fazer uma transformação", porque de facto, no fim, incluir a tecnologia na empresa, mas sem garantir que segue um programa, que segue a expectativa de quem a vai usar, vai acabar por ter poucos frutos, porque fica lá. Eu costumo dizer, foi um CEO que lançou um cartão de crédito a uma subscrição, em vez de ter sido um programa de como é que vamos implementar esta tecnologia neste cliente.
João, temos o auditório aberto para perguntas que nos queiram fazer, também a partir de Braga e de Coimbra, basta escreverem-nas que depois serão lidas aqui. Temos uma primeira pergunta, vamos embora.
Obrigada. Eu vou começar aqui para ver se a plateia fica um bocadinho mais animada. Mas há pouco disse que um projeto típico, pelo menos em teoria, passa a ter dois project managers para um analista. Como sabe, as consultoras, de uma forma geral, eram piramidais e, portanto, as pessoas eram formadas da base para o topo. Como é que vamos responder a esse desafio, na sua opinião, decriar esses project managers que vão ser muito mais necessários do que os consultores tradicionais a começarem logo a sair da universidade. Penso que também é professor na universidade. Qual é a sua visão sobre isso?
Claro, ainda bem que faz essa pergunta, dá-me mais tempo para esclarecer esse ponto, que é: eu acho exatamente que uma das coisas que vai acabar por mudar é talvez essa premissa inicial de que um project manager é mais sênior do que um analista, do que um consultor, do que um engenheiro, do que quem produz. Porque de facto, o que acaba por acontecer agora é, até vou mudar a expressão de project manager. Vai haver uma espécie de profissão nova que é só o inventor. Por que isso abre imensas hipóteses? Porque se calhar então alguém pode estar a fazer esta parte de inventor técnico, de código, sem perceber de código, porque tem o engenheiro a de facto implementar. Portanto, a meu ver, o que acaba por acontecer é, vai mesmo haver, da mesma maneira em que há 20 anos não havia gestores de marketing em redes sociais, ou há 20 ou há 30 já se calhar, vai começar a haver esta profissão nova, que é o desembaralhador. Alguém que venha só ajudar a dizer o que é que os utilizadores estão a dizer, qual é o problema do cliente, quais são os dados financeiros. E esta pessoa, agora estou eu a pôr a minha opinião, a minha visão, que não vai precisar de ser uma pessoa assim tão sênior como achamos. Portanto, vão acabar por vir quase diretos da faculdade, com a capacidade apenas de pegar a informação e fazer esse trabalho.
Está lançado o repto e temos mais uma questão, agora ali. Força.
Olá. Eu recentemente vi um artigo, não sei se tiveram oportunidade alguma vez de ver, que era o "State of AI in Business", não me quero citar mal a fonte, mas se não me engano é o MIT que o faz, em que dizia que apenas 5% dos projetos com piloto de AI têm resultados em investimentos e produtividade. Como consultor do futuro, como é que nós conseguimos combater estes resultados, dado que segundo a análise, o problema não era a tecnologia, mas era a nossa abordagem? Temos de ser melhor a fazer perguntas? Que tipo de abordagem que tem de ser diferente como consultor do futuro?
Claro. Antes de falarmos da abordagem, vou só comentar duas coisas que eu acho que fazem com que esses dados, embora sejam verdade, sejam um bocadinho enviesados, que é: se calhar também estamos a fazer pilotos a mais. Estamos a fazer pilotos em todo lado sem ter experimentado. Portanto, os 5% não quer dizer que sejam a menos. Podem é ser os outros 95 é que acabam por ser a mais. E depois também, há o lado do tempo. Como eu falei aqui, eu percebo que seja uma coisa complicada, porque cada vez mais o mundo acelera, mas talvez as coisas demorem só tempo. Quando falamos neste ponto, eu relembro sempre uma talk que tenho dado inacreditável do Jeff Bezos, quando foi a crise do dotcom. Nós estamos a passar por uma coisa, não vou pôr a parte financeira, porque espero que não haja a crise como houve, mas o Jeff Bezos tem uma altura em que nos conta que as ações da Amazon chegaram a valer $108 no seu pico, antes da crise do dotcom, e depois reduziram pra seis. E ele depois conta assim: "Mas olhem, enquanto reduziram de 108 pra seis, a Amazon vendeu mais, cresceu mais, vendeu mais livros, teve mais receitas, teve mais lucros". Portanto, na verdade, o que é que estava só a acontecer? Era tudo uma questão de gestão de expectativas. E portanto, trazendo agora então para a abordagem. Os pilotos, se calhar, também têm a ver com isso. Esse estudo é muito grande, portanto acabamos por ter uma dificuldade em analisar casos individuais, mas uma abordagem que eu estou a gostar muito de ter, eu trago muita parte do código pra aqui, que não consegui apresentar a fundo, mas eu acabo por ser uma pessoa muito técnica. E uma coisa que eu tenho notado é: os pilotos que acabam por resultar bem, são os pilotos que começam por baixo. Dou-vos um exemplo. Eu quero agora pôr um agente de IA a ajudar a minha equipa de programação. Há quem comece por cima, que é vou pôr um orquestrador que faz tudo de uma vez. E há quem diga assim: "Não, eu vou construir uma skill de code review, uma skill de documentação, uma skill de geração de código". E à medida em que elas forem funcionando melhores, então temos um agente que usa as duas ao mesmo tempo e a coisa vai sendo progressiva. A meu ver, se calhar essa ainda é a melhor palavra, é a palavra progressão. Temos que aceitar que, embora muitas das transformações digitais que fizemos até agora, porque as tecnologias eram maduras, foi chegar lá e substituir o sistema, a IA agora se calhar vai ser um bocadinho mais: nós temos que progressivamente ir usando mais e transformando o processo passo a passo.
João, falavas de tempo. E há tempo para dar tempo à IA? É que uma das bandeiras, precisamente desta tecnologia, é que é velocidade, é quase imediato tudo.
É a velocidade. Zé, olha, tem que haver. Ou seja, a meu ver, o que vai acontecer é: tu vais é aumentar o gap entre as empresas menos tecnológicas e as empresas mais tecnológicas. Quando eu digo aumentar o gap é no sentido temporal. Repara, mesmo as empresas menos tecnológicas, hoje em dia já têm internet, já usam computadores, e-mails, pagamentos, pode não ser online, mas pelo menos pagamentos por transferências e por um sistema que não seja dinheiro vivo. E o que vai acontecer agora muito é vais aumentar o gap entre a empresa mais tecnológica de todas e a menos tecnológica. No entanto, eu acredito que estamos todos a andar pra frente, mesmo assim.
Temos mais uma pergunta que nos chega agora aqui do lado esquerdo. Força.
Sim, a minha pergunta está relacionada com que conselho darias a um jovem que esteja agora a entrar pra Accenture e também que conselho darias a alguém que já está cá há 20 anos e que já tem muita experiência?
Claro. Começar pelo primeiro, se calhar um pouco mais fácil. O conselho que eu acho é: quando há uma maré muito grande, e o conselho que eu vou dar, dá trabalho, mas é o conselho que eu acredito mesmo, que é quando há uma maré muito grande, é claro, tentem acompanhar a maré, mas também tentem perceber onde é que houveOnde é que então agora está a ver lacunas? Porque a verdade é, quando estamos todos focados em IA, quer dizer que alguém não está focado noutra coisa. Dou aqui um exemplo mais concreto, Sérgio, para ser geral. Quando houve, entre as redes sociais, o Covid, o remote work e agora a inteligência artificial, estamos todos focados no quê? No trabalho muito isolado. O que é que se perdeu? Perdeu-se a ligação com os colegas de escritório, perdeu-se os almoços com os mais velhos. Nós costumávamos brincar no escritório a dizer que é o conhecimento que é ganho por osmose. Que é o conhecimento que é ganho só porque o outro estava ali a falar ao lado. E agora já cabe a cada um de vocês perceber como é que vai fazer isso. Passa muitas vezes por vir para o escritório, literalmente. Mas acima de tudo, o conselho seria: tenta perceber onde é que estão a haver lacunas. E a meu ver, nesse está a haver uma lacuna muito grande, está a haver um espaço aberto muito grande. Portanto, rapidamente um consultor que acabou de entrar agora para Accenture pode ser aquele típico consultor que conhece toda a gente no escritório, porque este espaço não está a ser ocupado por ninguém. Estou aqui a falar quase mais do Covid e da inteligência artificial, mas é um caso. Passando para os mais velhos, também tenho uma visão bastante clara. Que é: cada vez mais o aconselhamento vai ser muito importante. Ou seja, eu dou-vos um exemplo, eu já abri dois projetos, já tive duas startups. E muitas vezes quando falava com pessoas mais velhas, já mesmo a caminho dos seus 60, 70 anos, essas pessoas é que falavam comigo como se eles fossem os coitadinhos e diziam assim: "Ai, eu já perdi o comboio". E eu pensava assim: "Já perdeste o comboio?" Quem eu mais queria na minha startup era alguém com 60 anos, com 40 anos de indústria, mesmo que não fosse uma pessoa tecnológica, a dizer-me o que de fato está a passar. Porque como até já comentamos aqui, alguém com 20 e tal anos de Accenture, tem que perceber uma coisa. Pode estar a achar que está a haver uma revolução que já não acompanha, mas essa pessoa já viu três ou quatro revoluções. Portanto, tem uma experiência que se calhar nem nota, porque já lhe é inerente, já lhe é natural. Mas tem uma experiência enorme do que é que as verdadeiras transformações digitais podem fazer ao escritório. Quantos de nós, por muito novos que alguém pode dizer ou que acabaram de começar, quantos de nós é que muitas vezes não vemos pessoas mais novas a dizer umas afirmações muito assertivas. E nós todos com a nossa experiência dizemos: "Oh, homem, pronto, eu posso não saber nada do TikTok, mas te garanto que isso não vai acontecer". Por quê? Porque nós todos já vimos aqueles... Eu relembro-me sempre dos posts do LinkedIn, sabem, que dizem o "RIP Excel", "RIP SQL". E eu já vi tantos desses que já penso: "Não, o RIP Excel vai ser muito difícil haver agora uma plataforma nova que me venha tirar o Excel das mãos de todos". E eu acho que os consultores, alguém com 20 anos de Accenture, é a personificação humana disso. É: "Ai, eu agora já não consigo acompanhar". Não, é o contrário. Tu és uma pessoa que sabe o comportamento humano em projeto, que sabe muito bem o que implica ser um consultor júnior a entrar aquelas dinâmicas sociais, as dinâmicas interrelacionais entre os clientes e, portanto, tem toda uma fonte, se calhar, de soft skills. Verdade, se calhar, não de hard skills, mas tem toda uma fonte de soft skills para partilhar com os que aí estão a entrar.
João, temos duas perguntas que nos chegam à distância. Já lá vamos. Antes gostaria de pegar num dos temas que levantaste aqui sobre a questão da inteligência artificial. Minha pergunta é muito simples: a IA funciona melhor de uma forma individual ou inserida numa rede em que há mais humanos envolvidos?
Zé, a segunda. A segunda, se calhar por uma interpretação especial dessa pergunta, mas a meu ver, a segunda. Por quê? Porque, é verdade, a inteligência artificial vai potenciar cada um dos indivíduos. Mas repara o que falámos tanto até aqui. É na importância do saber o que fazer. E como é que esse saber o que fazer aparece? Eu não consigo saber o que o meu cliente quer se eu estiver fechado numa sala. Tudo bem, vocês sabem que há exceções ao que eu estou a dizer. Os grandes analistas financeiros agora estão fechados numa sala a analisar os mercados de uma forma aritmética. Mas a maior parte da consultoria não é assim que funciona. Nós precisamos de saber como é que os utilizadores usam as aplicações. Aquilo que eu falava dos consultores mais velhos, que é como é que, na verdade, aconteceu a venda de um projeto, o projeto ter corrido bem. Deixa-me dar um exemplo muito concreto que me ensinaram logo desde que entrei para o mercado de trabalho. Eu posso me atrasar um pouco num projeto. Todos nós já nos atrasamos, acontece. Mas vocês percebem tão bem como eu a diferença. Nós dizemos assim: eu disse que entregava isso daqui a um mês e avisei no dia que vou demorar mais 15 dias. Ou então eu disse que entregava daqui a um mês e ao fim de uma semana disse: "Olhe, o prazo pode borrar, se calhar estico mais uma semana". E ao fim de três semanas digo outra vez: "Desculpem, eu sei que era um mês, mas como eu tinha avisado, isto vai atrasar". E quem é que nos ensina isso? Essa rede de humanos que tu falaste. Portanto, a inteligência artificial como ferramenta, porque não nos podemos esquecer que não deixa de ser isso mesmo, é uma ferramenta, não é um fim, vai sempre ter mais valor estando inserida numa rede de comunicação entre pessoas.
Vamos então às perguntas que nos chegam a partir de Braga e de Coimbra.
Então, temos a primeira questão, que é do Igor. O Igor pergunta: será que com a inteligência artificial, o universo das consultorias vai ter mais dificuldade em angariar clientes? Hoje já é uma realidade conseguir criar aplicações com AI diretamente em websites, o que indica que o desenvolvimento de software poderá tornar-se muito mais democrático. Além disso, já existem empresas a desenvolver aplicações com equipas muito mais pequenas, recorrendo a agentes de AI para acelerar e automatizar grande parte do trabalho.
João?
Sem dúvida. É uma excelente pergunta, até é uma preocupação válida. Olha, eu até vou parafrasear outra palestra que eu ouvi um dia do Vasco Pedro, que foi um dos fundadores da UnbubblePara quem o conhece, em que o Vasco nos disse assim: "Está toda a gente a achar que o mundo vai passar de uma lagarta para uma borboleta, fazendo uma espécie de upgrade com um exoesqueleto, que lhe vão colar umas asas às costas. Mas a verdade é que uma larva transforma-se numa borboleta, não é bem assim. Uma larva dissolve-se num líquido, portanto, dissolve completamente o que já existe e reconstrói-se de outra maneira". Claro que uma empresa não pode fazer isso. Não podemos agora parar todos e pensar: vamos redesenhar a 100%. Mas este tema que o Igor trouxe para cima da mesa, que é válido, que é: neste momento, temos uma estrutura em que estamos habituados a dizer, piramidal, como falámos, em que estamos habituados a dizer: não, muito do nosso valor está na execução literal. Mas como eu até estava a falar aqui, na minha visão, o consultor do futuro vai ser exatamente a pessoa que diz assim: "Olha, tu podes ir fazer tua aplicação, mas eu trago-te aqui uma experiência que te vou ajudar a decidir o que é que tu vais fazer, como é que tu vais fazer. Para quê? Para que essa aplicação tenha um efeito". Porque repara, qual é o meu interesse de fazer um site que depois não dá em nada? Qual é o meu interesse de fazer uma aplicação que depois não converte os clientes? Vou até pegar na graça de sabe o que há dos posts do LinkedIn. Esta conversa de agora as pessoas vão poder fazer sozinhas. Quem é mais velho já viu isto centenas de vezes com o low-code, com aquelas plataformas que faziam sites arrastando os elementos, em vez de por HTML. Portanto, a frase "agora os clientes podem fazer sozinhos", tem sido dita nas últimas décadas várias vezes. Mas como vocês sabem, e eu também, vocês têm um departamento grande de outsystems cá dentro. Por quê? Em teoria, os clientes poderiam fazer eles outsystems. Não fazem, porque estão focados na indústria deles, querem continuar com as vendas do seu serviço, do seu produto. Só que, de facto, agora, o consultor é que se transforma um pouco. Não sei se já tiveram a oportunidade de falar com um programador, de origens mesmo, portanto, alguém que já tenha 60 anos e que tenha começado a programar nos anos 80 ou 90. Eles olham para Python, por exemplo, para quem conhece, e dizem: "Isso nem é bem programação, isso é meio falar inglês". Mas nós próprios sabemos que não foi porque o Python é muito mais fácil que o Assembly ou que o Cobol, que qualquer pessoa passou a fazer Python. Não! Foram na mesma à procura de quem os ajudasse a desenvolver a aplicação. Portanto, eu acho que a IA vai ser igual. Nós agora vamos ter pessoas que são especialistas em usar IA para construir apps e para construir sites. Eu pelo menos acredito que vamos ter essa realidade.
E há mais alguma preocupação que te venha à cabeça?
A grande. Eu trago sempre o paradoxo de Jevons outra vez para cima da mesa, Zé, que é: foquem-se em tentar perceber que processos é que são inúteis. O que é que nós não precisamos? Porque, de facto, num mundo como era há 10 ou 15 anos, num mundo onde é difícil construir uma coisa, nós temos uma barreira natural. Só construímos uma coisa se for mesmo preciso, porque custa dinheiro, porque custa recursos, porque se custa dinheiro é preciso decidir. E isso fazia uma barreira natural para que as coisas que chegavam à produção, as coisas que nós acabávamos de facto a construir, tínhamos quase a certeza que tinham valor, porque tinham passado por vários filtros. A minha grande preocupação agora é esta: estes filtros caíram. Eu agora consigo em casa à noite construir uma coisa que no dia seguinte de manhã mostro ao meu chefe. Mas se eu mostrar ao meu chefe uma coisa já feita, aí ele vai dizer: "Bem, bora, vamos, se já está feito". Então não há aquele típico custo inicial de não, agora temos que ir arranjar uma série de requisitos, agora já está feito. Portanto, a minha grande preocupação ainda é essa, é que a quantidade de cogumelos, como às vezes chamamos no mundo da tecnologia, a quantidade de cogumelos que possam surgir, porque é tão mais fácil construir algo, que caiu a barreira natural do que é que devemos ou não devemos construir.
Vamos a mais perguntas que nos chegam de Braga e de Coimbra. Força.
Temos aqui a segunda pergunta que vem do Jorge. O Jorge pergunta: neste momento, aproximadamente 30% dos artigos publicados na internet são já gerados por inteligência artificial. Qual será o impacto de esse número vir a atingir valores como 50% a 70%?
Esta é difícil. Vou vos admitir. Eu tento sempre fazer um paralelismo neste tema, como quando os designers passaram a ser digitais. Se nós pensarmos bem, eu não sou designer, portanto estou um bocadinho a assumir, mas eu creio que há 20 anos os designers passaram por uma transformação muito parecida com a nossa. Há 20, se calhar há mais. Que foi, tudo era em papel, tudo era feito à mão. E de repente, a um designer de 60 anos, apareceu alguém que disse assim: "Não, eu agora faço à máquina". E eu acredito que o designer tenha pensado: isto não é válido. Porque perdeu-se aqui uma técnica. Perdeu-se a técnica literal, perdeu-se a capacidade de desenhar com a mão e passou-se a fazer no computador. E nós agora, no que toca à inteligência artificial, estamos a passar por uma coisa parecida, incluindo no texto, na parte gráfica, então 100%, mas incluindo no texto, que é o conteúdo ser 50% feito da inteligência artificial. Eu estou um passo atrás, lanço-vos o desafio: isso é um problema? Ou seja, da mesma maneira que o designer mais velho questionou o designer mais novo se era válido uma coisa feita no Photoshop, será que um texto feito por IA é necessariamente menos válido? Claro que tem que estar certo. Isso depois é outro tema, que é: mas e as alucinações? Tudo bem, um humano também podia ter escrito algo completamente fictício. Todos nós crescemos a ter esse cuidado. Cuidado com as fontes que vais à internet, cuidado com a Wikipédia e o Google não são fontes fidedignas. Claro que ao ser escrito por humanos, havia um filtro um bocadinho mais natural de os humanos por que escreveriam mentiras? Agora, em inteligência artificial, não. Mas eu também quero acreditar que vai melhorar ao ponto de que se pode rever a si própria e não vai para sempre alucinar tanto como alucina hoje em dia. No entanto, eu em vez de responder com uma resposta, respondo com uma pergunta, que é: qual é necessariamente o problemaDe 50% do conteúdo da internet ser escrito por IA. Esse é que fica no ar, porque o que eu vejo, como já falei aqui hoje, é ser uma quantidade a mais. De repente, cada vez que acontece alguma coisa, em meia hora existem 130 notícias sobre isso, porque é escrito por IA. Ok, isto pode ser um problema, que é termos conteúdo a mais. Mas fora o conteúdo a mais, será que é assim tão grave que o conteúdo seja escrito por IA?
Não tem de haver uma curadoria então, João?
Zé, tem, mas pode não ter nada a ver com o facto de ter sido por IA. Aliás, agora até lanço a pergunta para ti, se há alguém aqui que escreve na internet, é mais do teu lado, que é quando alguém júnior escreve um artigo para a internet, também há uma curadoria, se calhar, e alguém mais sênior não. Portanto, estamos a falar um pouco da mesma coisa. Desde que o resultado esteja certo, que convém estar certo, ter escrito por IA, para mim, não é necessariamente um problema.
Ou seja, é mais a questão da responsabilização.
Exatamente. É a questão da responsabilização. Aliás, até deixa-me pegar no designer e trazer para texto, que eu acho que esta analogia é boa. Qual é a diferença de eu ter escrito um texto à mão ou a computador? Eu não posso responsabilizar o computador. Dizer assim: "Mas é que eu carreguei numa tecla e ele escreveu outra". Está bem, mas a culpa não deixa de ser minha. E portanto, a coisa também acaba por ser essa, tem que haver uma responsabilização.
A IA é responsável pelo que faz?
Não. A meu ver, não. A IA não é responsável pelo que faz. A IA é uma ferramenta que nos ajuda a fazer alguma coisa. A pessoa responsável pelo que a IA faz, foi a pessoa que montou o processo. Eu até vou mais longe. Eu sou da equipa, não sei se vocês são também, eu sou da equipa que eu nem sequer culpo quem construiu a IA. Eu nem sequer ponho a responsabilidade em quem trouxe a IA ao mundo. Acabo a atribuir a responsabilidade, que é: montaste um processo onde tens um agente de IA a fazer post no LinkedIn todos os dias. Montaste um processo onde tens um agente de IA a rever leis. A responsabilidade é de quem montou o processo. Da mesma maneira em que eu pus o meu computador a fazer isso, a responsabilidade acaba por ser minha.
Vamos a mais perguntas que nos chegam. Aqui alguém no auditório quer para já? Temos uma pergunta ali ao fundo, vamos lá seguir. Chegou-nos primeiro uma vinda de Braga ou de Coimbra, não consigo precisar neste momento. Vamos escutá-la.
Temos aqui uma terceira pergunta que vem da Isabel, que é: relativamente ao consultor do futuro, será que um consultor ótimo ou experiente, sem inteligência artificial, vai conseguir competir com um consultor médio ou com pouca experiência em AI?
Claro. Obrigado, Isabel, pela pergunta. Essa pergunta faz-me lembrar a frase do Garry Kasparov, não sei se conhecem o jogador de xadrez, que dizia: "A guerra não é o homem contra a máquina, é o homem com a máquina versus o homem sem a máquina". Que é uma frase ótima. O que eu acho disso? Acho que é possível. Essa pergunta é feita genericamente e depois tinha de ser analisado caso a caso. Mas se nós acreditarmos que a IA é de facto algo impulsionador, vamos pôr em extremos, também temos que acreditar que uma pessoa de pouca qualidade, um pouco mais incompetente, desculpem lá a maneira tão fria de dizer, vai apenas impulsionar essa incompetência. Portanto, o que acaba por acontecer é: será que alguém mais competente, mais experiente, como dissemos, que trabalha mais devagar, a um ritmo completamente diferente, vai conseguir competir com alguém médio, mas com IA? Potencialmente, sim, porque o importante é como se fosse a semente. A qualidade está na semente. Depois, quem é que consegue mesmo competir é, sem dúvida, o consultor mais qualificado com inteligência artificial. Isso então acaba por ser a combinação perfeita. Mas se os pusermos em extremos mais opostos, não pode ser alguém parecido, em extremos mais opostos, o que eu acredito é que um consultor com menos competência, com menos experiência num tema, não é por ter inteligência artificial que vai assim tanto conseguir saltar por cima daquilo tudo. A inteligência artificial vai fazer alguns erros, vai dizer algumas coisas que não são válidas e aquele consultor não vai ter a capacidade de conseguir identificar isso. Portanto, aqui também fica como conselho, que é: não perca o tato a conseguir perceber o que é que, na verdade, vocês querem fazer. Zé, deixa-me só completar, que eu até uma vez recebi num fórum como este, um conselho até de uma pessoa que eu gostei muito. Dizia assim: "Dêem à IA tudo o que vocês também fariam. Tudo o que vocês não fariam, façam vocês e daí a duas ou três vezes, então dão à IA". Uma espécie de assistente. Pensem na IA como um assistente estagiário. Tudo o que vocês teriam a capacidade de fazer, para a inteligência artificial. Tudo o que vocês sentem: "Eu não teria o conhecimento para isto", então vai adquirir o conhecimento primeiro e depois atribui à IA. Esta é uma regra muito simples, mas que eu até gostei da maneira como foi posta.
Vamos a mais uma pergunta que nos chega ali do lado direito.
Boa tarde. Eu queria fugir um bocadinho às perguntas técnicas e corporativas, que são bastante interessantes e eu, sendo consultor nesta empresa, são bastante interessantes. Mas uma preocupação que desde que se começou a ver a evolução da IA, na minha mente, é as consequências do AI a nível social. Ou seja, que riscos é que se antevê na sociedade, a médio, não quero fazer futurologia, ninguém sabe. Mas na sua opinião, quais são os riscos que a AI vai trazer a nível pessoal e social? E como é que empresas como a nossa podem ajudar a colmatar os riscos ou ajudar a melhorar o que a AI pode melhorar também a nível social? Obrigado.
Respondo com gosto, mas antes tenho que fazer uma ressalva, que é para ser muito claro. Vamos falar dos riscos.
Antes da tua ressalva, faço eu uma. Este tipo de perguntas são todas bem-vindas. Obviamente, temos auditório aberto para qualquer dúvida, qualquer questão que tenham sobre inteligência artificial, não só questões técnicas. Força, João.
O que eu ia dizer é: vamos mesmo falar sobre riscos. Eu gostei dessa palavra, porque não é certezasÉ riscos. O problema que vos vou trazer acredito que vai ser colmatado, mas que é um grande risco. Fazem muito esta pergunta no contexto de educação: que impacto é que isto vai ter nos alunos? Eu acho que a inteligência artificial acaba por ser um facilitismo em muitas coisas. Eu costumo lhe chamar de a calculadora do futuro. Houve uma certa geração que fez as contas todas à mão. Muitos de nós aqui que já fizemos com calculadoras e até tínhamos a grande graça que é professoras que nos diziam assim: "Achas que vais andar com uma calculadora no bolso?" Olhem, andamos. O que isso nos mostrou?
Faz muito mais do que apenas contas.
Muito mais, mas isto é uma graça que eu acho que de facto aconteceu, que é: "Vais andar com uma calculadora no bolso". "Olhem, pelos vistos vou". No entanto, os prédios não caem, as pontes não caem. Ou seja, nós de alguma maneira, mesmo tendo algo que teve um impacto cognitivo, que foi deixarmos de fazer contas, a sociedade continuou a funcionar. E, portanto, eu acho que a IA vai trazer este risco, que é: vai ser muito apelativo usar a IA e não pensar. Isso vai ter um impacto também para vocês aqui dentro da Accenture. No entanto, reparem, o que nós fizemos, por exemplo, com o desporto? Não é por existirem empilhadoras para levantar pesos, que as pessoas deixaram de ir para o ginásio levantar pesos. O que aconteceu? Nós dividimos isto em dois.
São objetivos diferentes.
São objetivos diferentes, claro que sim. Mas o que eu quero dizer é: repara, até há pouco tempo, todo o esforço mental tinha que ser literalmente feito pelos nossos cérebros. E nós agora temos uma espécie de empilhadora para o cérebro, que é, se nós quisermos levantar este peso, nós não precisamos de fazer nós. Podemos ir buscar uma empilhadora e a empilhadora levanta. No entanto, temos outro momento no nosso dia em que vamos levantar pesos porque isso nos faz bem. E aqui é capaz de entrar um risco grande da inteligência artificial, que é: nós vamos ter que passar a ter momentos em que usamos o nosso cérebro, ligamo-nos uns aos outros, criamos relação humana com o objetivo de o fazer, sem objetivo nenhum. Apenas com o objetivo de manter a relação humana ativa. Qual é o risco? Será que toda a gente vai fazer isso? Não. Apareceram as empilhadoras, o nível de obesidade no mundo também aumentou. Mas eu acredito que vamos dar a volta e que vamos criar algo que ainda não existe bem, que é uma espécie de ginásio mental, ginásio social, que é: "Por que estás a fazer isto? Podias fazer isto com IA". Podia, tal como os pesos do ginásio. Eu também podia levar uma empilhadora para o ginásio. Riam-se de mim. Olha a empilhadora a levantar o peso 20 vezes. No entanto, por que estás no ginásio? Porque isto faz bem. E a inteligência artificial poderá trazer-nos isto, que é termos que ter essa atenção a: "Ok, eu agora ativamente não vou usar inteligência artificial, porque me faz bem". Quando eu digo a mim, vou trazer o corporativismo para cima. A mim pode ser a relação com o cliente, está aqui um interesse por trás. Mas é eu ativamente vou fazer isto sem a máquina, porque me faz bem, mesmo sabendo que a máquina fazia melhor. Para mim, esse é o maior risco social.
Meus caros, vamos manter porta aberta para quaisquer perguntas que tenham, quer aqui presencialmente, quer também a partir de Coimbra e de Braga. Já vamos voltar a falar sobre questões, mas eu e o João preparamos aqui um desafio para quem está conosco e também para quem nos acompanha à distância e quem nos escuta na Rádio Observador. Trata-se de um regresso no "Máquinas que Pensam", é o Real ou Artificial.
Real ou Artificial?
Eu já tinha este separador aqui guardado há algum tempo. Já ganhou algum pó, estava reservado talvez para momentos como estes. O que eu vos proponho é o seguinte: é um desafio muito simples. Nós vamos passar aqui dois clipes de som. Um é humano, uma voz 100% humana, o outro é um som feito por IA. O objetivo é descobrir qual é qual, qual é o real, qual é o artificial. Os sons que vamos ouvir são a voz de David Attenborough. É uma voz mítica, tranquila, que tantas vezes e tantas coisas nos ensinou sobre o reino, o mundo dos animais, o mundo das plantas. Uma voz, recordo, é verdadeira, a outra é feita por IA. Vamos ouvir a primeira e depois já explico como é que fazemos aqui a contagem, mas talvez seja mais fácil com palmas. Mas vamos ouvir a primeira versão da voz de David Attenborough.
"In the shelter of the residential neighborhood is where we find our next creature. Here you see he is resting for the big hunt that is soon to come. He'll rest here for a few hours. Then suddenly a sound of a door opening signifies that the hunt is on."
"The hunt is on." Esta foi a primeira voz. Vamos ouvir a segunda.
"Nature will continue to be a benign and regular provider of the conditions we need to thrive. Regular seasons, dependable fresh water, endless fish, pollinators, minerals, soil."
Dois clipes. Um deles é feito por IA, o outro é a voz verdadeira de David Attenborough. Quem está a escutar em podcast, é o momento de escolher. Quem está aqui conosco, quem acha que a primeira voz que ouvimos é feita por IA, bata palmas. Quem acha que foi a segunda voz que ouvimos que foi feita por IA, bata palmas agora. João, qual é que parece que tenha sido para já vencedor? Eu não consegui escolher aqui.
Eu achei que está muito 50-50. Talvez a primeira tenha um bocadinho mais de pessoas, mas está muito 50 e 50.
Pronto, quem está a acompanhar-nos no chat pode também ir dizendo. Pelo que eu estou aqui a ver, para já dizem que a primeira terá sido feita por IA. Vamos escutar de novo, só para tirar aqui todas as dúvidas. O primeiro som foi este. Será este o real ou será este o artificial?
In the shelter of the residential neighborhood is where we find our next creature. Here you see he is resting for the big hunt that is soon to come. He'll rest here for a few hours. Then suddenly a sound of a door opening signifies that the hunt is on.
Vamos então ouvir de novo o segundo.
Nature will continue to be a benign and regular provider of the conditions we need to thrive. Regular seasons, dependable fresh water, endless fish, pollinators, minerals, soil.
São os dois sons. Alguém gostava de mudar ideias? Estão confiantes? Ninguém muda. João, pergunto a ti, no teu entender, o João não sabe qual é que é. O João não sabe, eu não partilhei com ele. Qual é que é a verdadeira ou a artificial? Qual é que te parece?
Zé, eu sou obrigado a responder, portanto eu vou dizer que eu acho que a verdadeira é a primeira, mas eu estou tão 50-50 como a sala.
A verdade é que, João, falhaste redondamente.
Falhei redondamente.
O primeiro clipe que ouvimos foi feito por IA, é uma transcrição de um texto da voz de David Attenborough, que depois foi gravada com a voz dele, clonada através de inteligência artificial. A segunda, sim, foi a voz do Sir David Attenborough, uma voz mítica, extremamente tranquilizante, que já tanto nos falou sobre o mundo dos animais, das plantas e tudo mais. O segundo era som real, a voz 100% verdadeira de David Attenborough. Espero que tenha acertado. Se não acertou, também não se preocupe, isto não passa de um pequeno desafio que nós trouxemos para este evento. Posto isto, vamos abrir de novo o auditório, mais questões que tenham, nem que seja como é que isto é feito ou como é que é feita a Raquel, é tema livre. Penso que temos perguntas que nos chegam à distância. Vamos talvez começar por aí.
Temos aqui uma pergunta da Teresa. A Teresa pergunta: que hábitos ou práticas é que recomendam aos consultores para manter o pensamento crítico afiado no mundo em que é tão fácil pedir a resposta à inteligência artificial?
Essa pergunta é interessante. A minha visão é sempre: quando nós temos esta dúvida, deem um passo atrás. Ou seja, será que conseguimos usar a inteligência artificial para ter pensamento crítico? Dou-vos um exemplo. Eu não sei o que fazer, quero perguntar à inteligência artificial o que fazer. Por quê? Por que não perguntar à inteligência artificial assim: quais são os prós e contras? Faz-me uma SWOT analysis. Ou seja, o meu conselho é sempre: quando em dúvida, venham para trás e peçam informação. Todas as aplicações que nós temos disponíveis são uma fonte boa de informação. E explicar exatamente isso: "Explica-me os prós e contras, ajuda-me a decidir", em vez de "dá-me a resposta". Seria o meu conselho assim mais direto.
Qual é a melhor forma de fazer perguntas à IA então, João?
Posso-vos dar um truque literal. Não sei se alguém usa este truque, mas há um truque literal, que é: como vocês sabem, aqui estamos a falar sempre de IA, falamos de chatbots, que é um tipo de aplicação que temos usado muito, mas muito passa pela prompt, quase tudo passa pela prompt. Nós não temos o poder de mudar os dados que estão por trás, podemos lhe dar algum contexto, podemos dar alguns documentos, mas passa pela prompt. E vocês não imaginam o quanto melhor a qualidade fica se as prompts forem feitas por IA. Muitas vezes, eu até confesso que eu próprio tenho uma coisa já pré-gravada no ChatGPT, os GPTs, mas nos Copilot, os agentes, o que vocês quiserem, chamado voice to prompt, que é o quê? Que é eu mando um voice e ele não me responde. Ele não responde ao meu pedido, ele dá-me uma prompt impecável para o que eu estou a fazer e eu pego naquela prompt e vou lá outra vez. E isto funciona, seja para usar de chatbots ou seja-
Estou a perceber. Tu estás a perguntar a um ChatGPT ou a um chatbot em geral, estás a perguntar o que é que tens de perguntar?
Exatamente. Eu pergunto-lhe assim: isto é o que eu vou querer perguntar. Dá-me a prompt perfeita para isso. E ele dá-me a prompt muito mais estruturada. Isto por quê? Porque eu acho que nós todos temos um lado humano que, desculpem a expressão, puxa para a preguiça. Eu nunca vou escrever tanto, nem vou detalhar tanto o que está naquela prompt como aquela aplicação. E então eu vou pedir ao LLM, seja em interações chatbots, seja a construir sistemas de agentes que têm system prompts lá no meio, eu vou pedir sempre ao LLM: revê esta prompt, melhora esta prompt, na perspectiva que vocês quiserem, aumenta, reduz, troca de língua. Isso já deixo para vocês. Mas o meu maior truque em como fazer perguntas à IA é, em caso de dúvida, peçam à IA a pergunta primeiro. Depois, revejam-na, claro, como em tudo o que fazemos com a IA, revejam-na, copy paste noutra janela e vão ver que as respostas tipicamente acabam por ser melhores.
Por quê? Consegues explicar-nos o que é que está por trás disso?
Temos sempre que nos lembrar que a resposta de um LLM é um processo estatístico. O que uma prompt faz é influenciar a resposta, na prática. Pensem, é como se, se tu não lhe disseres nada, ele não diz nada. E portanto, tu agora vais dar uma prompt e influenciar a resposta. Portanto, quanto mais elementos que influenciem a resposta do ponto de vista positivo tiverem nessa prompt, melhor. Tu conheces-me já há uns anos, sabes que eu sou uma pessoa disciplinada, mas mesmo assim, como deves imaginar, se eu puder escrever uma prompt em dois minutos ou em sete, eu vou tentar fazê-lo em dois. Mas o próprio do LLM permite-me escrever uma prompt em dois minutos, pedir-lheDá-me uma prompt melhor e é como se a tivesse escrito em sete. E então vão lá estar muito mais detalhes de como eu quero o formato da resposta, ou que tool eu quero usar, se for um agente, que MCP server eu quero que ele chame, do que se for feito por mim.
Qual é o teto da IA, se é que existe?
Neste momento existe. Claramente há um teto, há coisas que nós tentamos fazer e não conseguimos. Mas sempre que falamos de tetos de IA, eu gosto mais de pensar nisso de outra maneira, que é: neste momento, a meu ver, é um bocadinho ridículo nós dizermos que há um teto dos próximos anos. Ou seja, ainda estamos numa fase tão em construção, tão impressionante, até eu que estando na área, e muitos do que estamos aqui, tenho a certeza que por muito que acompanhem a indústria, se impressionam todos os dias com a nova funcionalidade do Cloud Design que a Anthropic lançou, ou o novo Deep Thinking ou Deep Research do Gemini. Todos nós nos acabamos a impressionar todos os dias. Portanto, eu quando penso em tetos, penso ao contrário. Se alguém me vier dizer assim: "Eu tenho a certeza que a isto nós não vamos chegar". Eu não consigo concordar com esta frase. Para mim, o teto ainda está sempre a crescer à medida que nós crescemos também.
Alguma questão aqui por parte da plateia? Temos pelo menos duas. Vou pedir à Mônica, talvez começando pela senhora que levantou o braço primeiro.
Eu tenho visto que existe muita polêmica em relação aos fatores ambientais, porque as ferramentas de AI consomem muita água. Era só para saber se existe alguma opinião em relação a isso.
Claro.
João, e aqui não vale usar a ideia do Elon Musk de construir centros de data no espaço.
Exato. Os data centers no espaço deixe para o Elon Musk. Mas tenho. Não querendo parecer que sou só um defensor, a IA pode não ter só coisas boas. E se calhar, essa é uma delas. No entanto, eu gosto sempre de trazer o potencial lado positivo a isso, que é: nós também não estamos a ver onde é que a IA está a poupar energia. Certo? Ou seja, imaginem: eu agora, até às 18h, faço o logotipo da festa de Natal da Accenture com IA, porque vai haver festa de Natal e acaba por ser mais rápido. Versus eu fiquei aqui a noite inteira. Eu fiquei aqui a noite inteira, implica um ar-condicionado, que ficou com o escritório ligado, que pessoas que se tiveram que deslocar. E eu vejo isso um bocadinho como dizermos, as reuniões online também gastaram imensa energia. Sim, mas também pouparam, se calhar, deslocações das pessoas. Ou seja, qual é o lado oposto à poupança de energia da IA? Eu tento ver isso como um ponto positivo. O segundo ponto positivo também é aprendermos um bocadinho pela história tecnológica, que é os computadores de antes também ocupavam esta sala inteira. E hoje em dia são 1500 vezes mais potentes e consomem 3000 vezes menos energia. Portanto, pode ser uma questão de tempo. Mas sim, percebo que é um ponto grave, só para já estarmos todos na mesma sala. Acho que foi em 2024, porque 2025 ainda não saiu, a OpenAI com o ChatGPT consumiu tanta energia como a Argentina, o que é uma coisa um bocadinho assustadora. No entanto, temos é que pensar nisso. E quanto é que poupou? Quantos processos, quantas deslocações, quantas noites em ares condicionados e escritórios é que acabaram por ser poupados, porque alguém usou o ChatGPT para acelerar, ou a IA, GPUs e IA para acelerar alguma coisa.
A Argentina não deixa de ser um facto curioso.
Sim, o mesmo que a Argentina.
Temos ali mais uma questão. Vamos escutá-la.
Olá, eu achei curioso tu falares da gestão da mudança e qual é que também é o impacto da AI. Ou seja, o ritmo que nós mudamos, ser humano, e eu acho que o bottleneck das soluções da AI vai estar a nossa capacidade para gerir a mudança. Como é que nós, consultoria, podemos ajudar os nossos clientes a ser mais ágeis a mudar? E será que vai existir um KPI chamado fator da mudança, ou a que velocidade eu consigo mudar? Qual é a tua visão sobre isso?
É verdade. Só para ser claro, a minha visão sobre isso é: temos todos muito que aprender, porque como falaste e muito bem, embora a dificuldade de gestão da mudança tem vindo a aumentar, por ser mais rápida. Tem havido uma necessidade maior nos últimos 10, 15 anos, por causa das tecnologias que apareceram, de facto, agora quase que virou bottleneck. Portanto, a meu ver, vamos aprender muito com isso. No entanto, neste momento, foi um bocadinho as ideias que já trouxemos aqui, que é a relação humana com o cliente. Repara, é muito mais fácil tu convenceres uma pessoa a tentar algo que já confia em ti, com quem já tentaste alguma coisa, com quem já fizeste algum projeto que correu bem, se calhar, do que alguém novo que recebe um e-mail, um cold e-mail teu a dizer assim: "Vai ser assim". Isto provavelmente não vai acontecer. Portanto, acima de tudo, há uma quote que eu gosto muito que diz: "O primeiro passo a resolver um problema é reconhecer que ele existe". E portanto, aí o que pode acontecer é pegarmos no cliente e dizermos assim: "Temos que reconhecer que isto vai ser uma dificuldade". Portanto, vamos começar por aí. Estão dispostos à mudança? Não estão? Um conselho que eu trago por experiência, porque já me aconteceu várias vezes, e acreditem que para uma mente de engenheiro, quem aqui também o é, vai perceber, às vezes é muito difícil fazer coisas não lógicas. Dizer assim: "Mas isso não é lógico. Era muito mais eficiente se nós fizéssemos as coisas de uma certa maneira". Mas há muitas coisas na vida que nós não fazemos só por ser lógico. E então, ter, se calhar, esta preocupação de ok, eu quero ir de A para B. Sabemos da matemática que a maneira mais rápida de ir de A para B é uma linha reta. Mas e se por irmos numa linha reta, houver um muro no meio? Então temos que ir à volta do muro. E isto às vezes pode acontecer a lidar com o cliente, que é nós dizermos assim: "Olha, eu já vi isto, eu já vi isto acontecer quatro vezes em clientes iguais a vocês na vossa indústria, e o que vocês deviam fazer era assim. Só que eu sei que se vocês começarem por estes quatro passosVai haver uma resistência e os vossos colaboradores não vão adotar o sistema ou o que for. Portanto, se calhar temos que começar de outra maneira, que é para depois dessa outra maneira passarmos para o passo C e do passo C para o D e depois voltarmos ao B. Só para generalizar e para acabar, o conselho acaba por ser: há um lado humano na transformação digital e cada vez vai ter mais importância, porque se não houver um efeito, um impacto, um retorno do investimento na transformação digital, não a vamos querer fazer.
João, portanto, nisso estás a dizer que a IA está a afastar os humanos ou acaba por aproximá-los?
José, infelizmente, eu acho que está a afastar um bocadinho. Ou pelo menos tem a capacidade de afastar. Estamos aqui sempre a falar do lado positivo, mas também falemos, como eu disse, das partes negativas, que é: a IA conseguiu capacitar uma única pessoa a fazer muita coisa, de facto. Até há uma espécie agora de busca de um tesouro, não sei se têm acompanhado essa teoria da conspiração da internet, que é quando é que vamos ter o primeiro unicórnio de uma única pessoa. Uma única pessoa consegue ter uma empresa avaliada num bilhão de dólares. E qual é o papel da IA aqui? Eu agora posso não precisar do designer, faço com IA. E então o que é que isto fez? Eu falei com uma pessoa a menos. Agora, alguém mais sênior, se calhar, não precisa de ir aos dois ou três juniores para pedir ajuda, porque faz aquilo rápido. Além de vários downsides disto, mas qual é o grande lado negativo disto? É falou com menos pessoas. Portanto, eu acho que a partir do momento em que a IA capacita um humano desta forma, sim, vai ter um papel em afastar os humanos, infelizmente.
Temos mais questões que nos chegam à distância. Se alguém quiser, depois basta fazerem sinal aqui no auditório. Vamos escutar.
Temos aqui a questão do Paulo: como evitar que a geração de código em escala massiva, sem entendimento real do significado, contexto ou intenção, não provoque uma degradação progressiva da qualidade da informação e do trabalho humano, como já começa a ocorrer em alguns projetos de software livre que enfrentam sobrecarga de pull requests gerados por inteligência artificial e aumento do esforço de revisão. Como endereçar esse tema a nível epistemológico?
O Paulo não vai adorar a minha resposta. Vou ser muito positivo, Paulo, eu sei o que eu estou a dizer, eu sei que esquio estou a ser, porque se calhar a inteligência artificial ainda não está aí para isso. Mas a meu ver, cada vez mais nós vamos ter que olhar para o código como algo quase descartável. Por quê? Porque ninguém tem interesse em ter código. Nós temos interesse em ter resultados. Ninguém tem interesse em que o código seja de certa maneira, eu quero é que o código execute uma certa operação. E portanto, eu acredito muito que as equipes de software vão caminhar para uma perspectiva de input/output. Ou seja, eu tenho, por exemplo, uma bateria de testes e aquela bateria de testes tem que ser cumprida. O que é que está lá por trás vai cada vez mais passar a não importar muito. E claro que isto muda muito, como o Paulo falou, então e pull requests? Então e code reviews? Todos nós quando fazemos código, em code review não estamos só a fazer o review ao resultado. Estamos, por exemplo, a dizer: "Olha, estás a usar más identações, estás a usar imports no meio do código, estás a fazer coisas que são más práticas de código". E eu aqui arriscando, o Paulo não está aqui, não me vai conseguir bater, mas eu aqui arriscando um bocadinho e fazendo a futurologia, eu acho que cada vez mais o código vai passar a ser descartável com o aumento da qualidade da IA, que é indiferente o que é que está lá por trás. Se calhar aquele pedaço de código é muito pouco explicativo, é difícil de entender, mas a verdade é: nós temos uma bateria de testes, o input que entra gera o resultado que nós queremos, isso é que interessa.
Temos mais uma questão.
Temos aqui a questão do Alessandro: face aos custos envolvidos ao uso da inteligência artificial, já nos é possível ver casos de empresas que não consideraram corretamente estes custos, resultando no insucesso das suas estratégias em inteligência artificial. Existe algum método ou modelo que sirva de apoio às empresas para construir as suas estratégias de investimento em inteligência artificial e consequentemente nos seus projetos?
Infelizmente, ao nível que a pergunta está feita, a resposta tem que ser não. Por uma questão simples, que é: até se acompanhar os preços dos tokens desde o início, eles mudam a cada seis meses, para o bem e para o mal. Eu lembro-me no primeiro ano do ChatGPT, desculpem, no primeiro ano do GPT, só a OpenAI reduziu o preço em 10 vezes, duas vezes dentro do mesmo ano. Ou seja, nós em janeiro fizemos um budget e a verdade é que em dezembro os tokens custavam 20 vezes menos. Só que por que estes orçamentos acabam a estourar, como a pergunta foi tão bem feita? Porque embora o preço dos tokens tenha reduzido em 20 vezes, o uso dos tokens se calhar aumentou em 40 do que nós estávamos à espera. Eu deduzo que esta pergunta venha de uma notícia muito conhecida que saiu aí, que foi a Uber atingiu o orçamento para inteligência artificial de 2026 em abril. Mas por quê? Porque foi mal dimensionado? Não, porque isto é difícil de dimensionar. E depois fazemos um contrato com a Antropic, mas depois a Antropic muda o modelo de pricing e alguns tokens já não estão incluídos na subscrição e passam a ser pay per usage, que é o modelo em que pagamos à medida que os vamos utilizando. E portanto, infelizmente, a resposta a esta pergunta tem que ser não, porque ainda estamos numa indústria tão fluida, em que tudo muda. Em janeiro prevemos uma coisa, em dezembro, afinal, estamos a usar 20 vezes mais um serviço que é 10 vezes mais barato, que acaba por ficar bastante difícil medir o preço e o custo que a inteligência artificial vai ter, por exemplo, nos próximos três anos.
Estamos a aproximar-nos do final do nosso tempo. Temos ainda, pelo que eu percebi, pelo menos mais uma pergunta. Se alguém aqui no auditório quiser fazê-la, o momento é agora. Entretanto, vamos ouvir então essa última questão que nos chega à distância.
O João pergunta: "À medida que as inteligências artificiais começam a ser treinadas com dados gerados por outras inteligências artificiais, corremos o risco de criar um eco digital que estagna o conhecimento humano em vez de o expandir?"
João, máquinas a ensinar máquinas.
Exatamente, máquinas a ensinar máquinas. Sim. Deixa-me dar uma visão visual a isto, que é: o conhecimento humano é como se fosse um queijo suíço sempre a aumentar. O que isto quer dizer? O queijo em si está a aumentar, mas também há buracos lá no queijo. E o que eu vejo muito é a inteligência artificial é ótima a preencher os buracos, mas não consegue ir para além do queijo. Aí, de facto, têm que ser os humanos, ainda, a ir para além do queijo. Não é que não consiga preencher buracos no queijo. E esta pergunta está bem feita exatamente por causa disso, porque foca os nossos esforços no conhecimento interpolado. Ou seja, interpolação de conhecimento vamos conseguir fazer, extrapolação de conhecimento vai ser cada vez mais difícil pela quantidade de recursos que está a ser usado noutras coisas. E, portanto, sim, eu acho que a inteligência artificial nos vai ajudar muito, se calhar, a clarificar muitas áreas onde os humanos já são bastante experientes, mas a verdadeira expansão do conhecimento humano para lá do que nós imaginamos pode estar um pouco em perigo por causa da inteligência artificial.
Vamos agora ali à direta.
Boa tarde.
Viva.
Pegando naquela parte do código, em que o objetivo era: "OK, funciona agora, no momento, o output é aquilo que nós queremos". Eu pergunto acerca da manutenção da escalabilidade das aplicações, qual vai ser o impacto disso no futuro? Porque se nós pensarmos num processo, numa aplicação só para o presente, o código se calhar não é assim tão obsoleto para o futuro. É mais por aí. Se é a UI a fazer esse management.
Claro que sim. Atenção, eu sou um embaixador de usarmos inteligência artificial em código, mas ponho aqui um 60/40, sem dúvida alguma, que é: para isto resultar, o que tem que acompanhar este código que é feito por IA? Uma bateria de testes. Ou seja, todos os testes, todas as validações, todos os edge cases, todos os cenários, também tem que ser usada a mesma quantidade de recursos. Nós não podemos querer que um analista júnior, duas horas por semana, teste um sistema que foi 100% feito por IA. Não, nós temos que ter cuidado com isso, que é se estamos a entregar de mão beijada, digamos assim, a geração do código à IA, temos que ter a certeza que está tudo muito bem testado. E atenção, só para ir mais longe neste ponto, eu acredito que vá ser natural que nós comecemos por coisas mais simples. Portanto, o primeiro código que vai ser gerado por inteligência artificial, espero que não seja o código dos robôs cirúrgicos que me vão operar o coração. Claro que vamos começar por pequenas coisas, não sei se são websites, aplicações, indiferente, as coisas mais simples que vamos fazendo, funções também muito modulares. Eu vou pegar aqui nesta função modular que eu sei muito bem o que é que faz e ela vai ser feita por IA. Mas ao fim de 10 anos, se calhar vamos ter todo o sistema cheio de funções feitas por IA. E a manutenção do código, para isso, tem que ser feita por IA também. Vamos ver, estamos cá para ver.
Estamos é a ficar sem tempo, João. Antes de terminarmos este episódio ao vivo do "Máquinas que Pensam", tenho aqui também uma série de perguntas rápidas para te ir fazendo. Tens 30 segundos para responder a cada uma delas, para percebermos se as questões que eu vou fazer são ou não são válidas para termos em conta. 30 segundos, João, sendo que a primeira é: uma IA pode ser verdadeiramente criativa?
Zé, válido. Para mim, precisávamos de discutir o que é criatividade, mas até como eu falei do queijo suíço. Repara, da mesma maneira que tu juntas azul e amarelo, vira uma cor nova. Certo? Eu acho que a IA é igual. A IA pega num conhecimento e noutro e, a meu ver, tem a capacidade de ser criativa e gerar uma coisa nova.
Os dados que damos hoje à IA vão assombrar-nos no futuro?
Vão, sem dúvida, mas vou aqui trazer um lado cômico, se calhar, à coisa. Vão, mas repara, vão a todos, a nós todos. E, portanto, vai haver uma altura, daqui a 50 anos, em que todos os grandes líderes de todos os países têm fotografias ridículas no Facebook. Portanto, a IA vai nos assombrar, mas como vai assombrar igualmente a todos, não vai ser um problema onde nos podemos chantagear, por exemplo, uns aos outros.
É ético, João, usar a inteligência artificial para aumentar a produtividade se isso aumentar também o burnout?
Não. E infelizmente isso vai acontecer, mas saber parar e saber fazer as coisas com calma e tomar decisões com calma, como falámos aqui, também vai ser uma soft skill muito importante no futuro.
Devemos ensinar crianças a usar IA já na escola?
Devemos. Repara, vou voltar a trazer o exemplo do ginásio. Os miúdos vão para a escola de carro, mas correm na educação física, certo? Portanto, não precisamos de mandar os miúdos a correr para eles se exercitarem. Vai ter é que haver um momento na escola em que nós ensinamos as crianças ou os jovens adultos, ou até na faculdade, quando é que se usa máquinas e quando é que não se usa máquinas. E se calhar vai aparecer um momento em que nós não usamos máquinas só para exercitar.
A IA pode ser verdadeiramente imparcial?
Não, mas pode ser mais que os humanos. Portanto, a IA é feita com base em dados e esses dados vão sempre enviesar a inteligência artificial. Mas o que a inteligência artificial consegue não ter, que nós humanos não conseguimos, é preferências.
Queremos mesmo, João, uma IA que pareça humana?
Queremos uma IA que pareça humana? Não, mas vamos precisar dela. Por quê? Porque nós precisamos de uma IA que saiba falar com humanos. E como falámos aqui tanto de transformação digital, os humanos ainda estão à espera de uma ligação humana.
A IA vai destruir o mundo?
Não. Se a IA destruir o mundo, os humanos destruíram o mundo. Mas não, a IA não vai destruir o mundo.
E é com essa nota que fechamos este especial do "Máquinas que Pensam" ao vivo. Eu sou o José Rafael Lopes, João Rocha e Melo comigo aqui, o nosso especialista em IA. Este foi o "Máquinas que Pensam" ao vivo. Muito obrigado a todos.