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Sejam muito bem-vindos a mais um episódio do "Máquinas que Pensam", o podcast da Rádio Observador onde a inteligência artificial é o grande protagonista. Eu sou o José Rafael Lopes, comigo está, como sempre, a minha parceira, a Raquel, um apoio imprescindível sem o qual este programa não se faz. Olá, Raquel, como é que estás? Estás pronta para mais um programa?

Olá, estou sempre pronta para te ajudar naquilo que precises. Já tens tema para esta semana ou preferes que procure alguma alternativa?

Não é preciso, obrigado, mas tenho uma pergunta: estás sempre a responder-me. O que acontece quando não tens a certeza do que me estás a responder? Isso acontece sequer?

Quando não tenho a certeza de algo, o mais correto é assumir essa incerteza, explicar o que sei e o que não sei. Se necessário, procurar informação atualizada ou pedir mais contexto. O meu objetivo não é parecer confiante a qualquer custo, mas sim ser útil e rigorosa.

Sendo assim, Raquel, qual é a pergunta mais difícil que te podem fazer?

Não existe uma única pergunta mais difícil, mas as que me colocam maiores desafios costumam ser aquelas para as quais não existe uma resposta objetiva ou verificável. Perguntas como: qual é o sentido da vida?

Isso quer dizer que há temas sobre os quais gostas mais de conversar?

Se por gostar entendermos os temas em que consigo contribuir mais, então sim. Tenho mais facilidade em conversas sobre tecnologia, inteligência artificial, história ou ciência. São áreas onde consigo estabelecer muitas ligações e fornecer contexto interessante.

O que é que distingue uma boa pergunta de uma má pergunta?

Uma boa pergunta não é necessariamente uma pergunta complicada. É uma pergunta que ajuda a descobrir algo. Normalmente é clara, específica e abre espaço para uma resposta interessante ou útil.

Muito obrigado, Raquel. É sempre um gosto enorme ficar a conhecer-te um pouco melhor. Nós vamos voltar a falar neste programa. Já daqui a pouco há consultório humano, mas para já, vamos às notícias.

Notícias da semana.

A OpenAI acaba de dar um passo importante na forma como o ChatGPT se lembra dos utilizadores. A novidade chama-se Dreaming F3 e promete transformar a memória da inteligência artificial numa experiência muito mais personalizada. Até agora, o ChatGPT dependia sobretudo de memórias guardadas manualmente ou de referências limitadas a conversas anteriores. Com este novo sistema, a plataforma passa a analisar e a sintetizar automaticamente informação que venha de anos de interações, criando uma espécie de retrato atualizado de cada utilizador. A OpenAI descreve o processo como uma forma de manter a memória fresca, relevante e contextualizada ao longo do tempo em que os utilizadores estão precisamente a utilizar a inteligência artificial.

Mas como funciona?

Na prática, Raquel, o ChatGPT deixa de precisar que o utilizador diga: "Lembra-te disto". O sistema consegue identificar preferências, projetos em curso, hábitos e até acontecimentos temporários. Vai depois ajustá-los à passagem do tempo. Um dos exemplos apresentados pela própria empresa é simples: se alguém disser que vai viajar, seja qual for o destino, em julho, a memória pode ser atualizada automaticamente meses depois para se lembrar dessa viagem que aconteceu. A OpenAI garante que os utilizadores continuam a ter controle sobre esta informação. O novo sistema possui uma página de resumo da memória, onde é possível consultar aquilo que o ChatGPT diz saber sobre cada pessoa. Aí é possível corrigir dados ou dar instruções sobre aquilo que deve ou não ser recordado. Mais do que uma atualização técnica, este Dreaming F3 representa uma mudança de filosofia. Em vez de um chatbot que responde apenas ao que lhe é dito no momento, a OpenAI quer criar um assistente capaz de construir uma relação com cada utilizador ao longo de vários anos. Enquanto a Europa já vive sob as regras do AI Act, o regulamento para lidar com inteligência artificial, os Estados Unidos continuam a debater como é que se deve regular a tecnologia. Houve recentemente um avanço importante. O Congresso norte-americano recebeu uma proposta bipartidária de mais de 250 páginas, que poderá mesmo vir a tornar-se a primeira grande lei federal dedicada à IA. O documento, conhecido como Great American AI Act, procura criar um quadro nacional para o desenvolvimento e utilização de sistemas de inteligência artificial nos Estados Unidos. Entre as medidas propostas estão novas regras de transparência, novas regras de avaliação de custos e também auditorias de segurança. Há também em cima da mesa mecanismos de responsabilização para empresas que desenvolvem modelos avançados de IA. Estes são temas muito importantes e muito discutidos no setor da inteligência artificial.

E que motivos há para que a discussão surja agora?

O debate surge numa altura em que há vários estados que avançam com legislação própria. Um dos casos mais conhecidos é o do Colorado, que pretende impor obrigações adicionais a sistemas de IA utilizados em áreas consideradas sensíveis, como a saúde, a educação, a habitação e também o crédito. São os chamados sistemas de alto risco. Este modelo é muito complicado nos Estados Unidos devido ao elevado número de estados que há no país. São muitos os que defendem legislação igual para cada um deles. Contudo, a administração Trump tem seguido uma estratégia diferente da europeia. A discussão está apenas agora a começar, mas uma coisa parece certa: depois de anos de muito debate, Washington começa finalmente a aproximar-se de uma regulação mais abrangente da inteligência artificial. A questão agora é saber se os Estados Unidos vão seguir o caminho mais restritivo da Europa ou optar por um modelo mais flexível, focado na inovação e na competitividade tecnológica. É uma situação para discutirmos. Como tal, vamos chamar o João Rocha e Melo para nos ajudar a perceber melhor o que é que está aqui em causa. Não saia daí, ouvinte, até porque vem aí uma nova edição do "Fala Quem Sabe".

Fala Quem Sabe

Fala Quem Sabe, na Rádio Observador, momento em que recebemos o João Rocha e Melo, o nosso especialista em inteligência artificial. João, sê muito bem-vindo. Como estás? Como é que foi essa semana?

Zé, por aqui tudo bem. Espero que para quem está a ouvir também. E por aí?

Por aqui também. Obrigado, João. Vamos falar neste Fala Quem Sabe de um conceito muito utilizado neste mundo, é o open source. Para quem nunca ouviu falar deste conceito, João Rocha e Melo, o que é que significa exatamente open source?

Olha, Zé, open source é uma coisa, como tu dizes muito bem, que para quem está fora do mundo de software não conhece bem, mas é basicamente uma pessoa fazer um software e dá-lo ao mundo, mas também não é como serviço. Ou seja, dás o software ao mundo para que a pessoa possa pegar no software e tê-lo do seu lado. Nós estamos muito habituados a funcionar com software através de uma aplicação, através de uma entidade e de uma empresa. Mas imagina mais isto como se alguém te desse os planos de como é que a coisa funcionasse. E agora se tu quiseres usar do teu lado, usa. Eu acho que a melhor analogia que consigo para quem não é do mundo do software é pensar que é como se todos nós tivéssemos impressoras 3D em casa, porque temos computadores, e alguém diz assim: "Olha, em vez de eu te vender um apito, eu vou te vender os planos do apito e tu imprimes o apito do teu lado e és tu que gerese se o apito é grande, se é pequeno, se é o que tu quiseres".

Qual é que é então, João, a principal diferença entre software gratuito e software open source?

Olha, Zé, boa maneira de pôr a coisa. Para explicar, o software open source é gratuito, não há uma componente financeira associada. No entanto, quando nós dizemos software gratuito, é qualquer coisa como: há um software que devia ser pago ou que se calhar até tem um plano pago, por exemplo, como uma Netflix ou como um Gmail. No entanto, essa empresa oferece o serviço. Estás a perceber? Mas estás a fazer aquilo através de uma empresa. Portanto, uma grande diferença é um software gratuito, se eu estou a usar o plano gratuito da Uber, na verdade, se houver um problema, eu tenho alguém a quem falar. Estás a perceber? É apenas um plano gratuito de uma aplicação, enquanto que o software open source é meu. Foi alguém que construiu e disse: "Agora corre no teu computador". Portanto, acaba por ser completamente diferente, porque não há esta entidade no meio a quem eu possa dizer: "Houve aqui um problema".

João, o que leva alguém a disponibilizar gratuitamente o código que levou meses ou talvez até anos a desenvolver?

É verdade, é uma maneira boa de ver a coisa. Acaba por haver algumas possibilidades, mas explicando assim genericamente. Por exemplo, os softwares open source podem vir de departamentos de pesquisa, de departamentos de investigação das empresas. Por exemplo, agora falando aqui no nosso tema de inteligência artificial, a própria Facebook, a Meta, tem um modelo open source, tem um LLM open source, que é o Llama, que disponibilizou ao mundo. E tu perguntas bem: por quê? Há aqui várias vertentes. Pode ser uma questão de marca, por exemplo, para que as pessoas usem o seu. Pode ser também uma questão de, acontece também: "Tens aqui a versão open source, mas podes também ter aqui a versão paga, onde eu te ajudo a instalar isto na tua empresa, onde eu tenho um plano de suporte para que se tiveres um problema, podes ajudar". Portanto, acaba muito também por ser ou um passo ligado à investigação, à pesquisa, acaba por ser um passo também ligado à marca. E por fim, também há um último, que é, Zé, o mundo não é tão mau como às vezes nós achamos. E há muitos projetos de open source que são apenas pessoas que dedicaram o seu tempo a fazer um projeto que gostaram e muita gente se junta para colaborar para aquele projeto.

Que exemplo, João Rocha e Melo, é que há de software open source que utilizamos todos os dias sem sequer nos apercebermos?

Olha, Zé, não é fácil para quem está fora de um mundo mais IT mesmo, mais tech, mais de programação, não é fácil reconhecer diretamente. O que nós não temos cá noção é que muitos serviços que nós usamos estão baseados em softwares open source. Portanto, se calhar, a própria Netflix, como já falamos aqui hoje, tem servidores Linux, que acaba por ser um software open source. Estás a perceber? Portanto, o que acaba por acontecer é tudo o que usamos, olha, o próprio Google Chrome. É verdade, o Google Chrome é baseado num software open source chamado Chromium, do qual então a Google se baseou para fazer o Google Chrome e fazê-lo como serviço. Portanto, o que acaba por acontecer é um bocadinho como dizer assim, não há nenhum carro que seja open source, mas há vários motores, vários faróis, várias rodas, várias máquinas usadas para construires carros que acabaram por ser open source. Portanto, muitas vezes o serviço chega-nos a nós assente em open source.

Há riscos em utilizar este software open source, João?

Que tema bom, Zé, é verdade. Acaba por haver. Por quê? Porque pensa assim, a partir do momento em que não há um retorno financeiro para quem te disponibilizou aquele software, a verdade é que se calhar há uma dedicação um pouco mais baixa à qualidade do software. Pode haver alguma má intenção por trás, portanto, pode haver alguém que desenvolve um software open source exatamente com o intuito que as empresas, por exemplo, o comecem a usar. E se fores lá dentro ver o que é que lá está, se levantares para ver a tampa, está lá alguma coisa com uma intenção maligna ou para roubar dados, ou para entrar numa chamada backdoor, pela porta do cavalo, em certos sistemas. Portanto, o que acaba por acontecer é o grande risco de usar open source, é apenas que tu estás a instalar o software de outra pessoa no teu computador. E com isso vêm todos os riscos associados que nós conhecemos.

João, com base em tudo isto e num minuto e meio, daqui a 10 anos, o mundo tecnológico está mais aberto ou mais fechado?

Olha, Zé, a verdade é que isso é uma grande pergunta. Especialmente na área da inteligência artificial, nós temos vindo a ver que Vai tendendo às vezes para um lado, às vezes para outro. Eu acho que vai estar relativamente parecido como está agora em termos de ratio. Eu não acredito nem no fim do open source, nem no domínio do open source, porque para isso toda a gente do planeta teria que virar muito mais técnica do que é. Portanto, na verdade, Zé, acho que vai ter o balanço que tem hoje em dia.

Muito obrigado, João Rocha e Melo, o nosso especialista em inteligência artificial, sempre pronto para nos ajudar a simplificar este fabuloso mundo. João, marcamos encontro de novo para a semana. Até lá, um grande abraço.

Até lá, Zé.

Consultório Humano.

Vamos ao Consultório Humano, o momento em que ficamos a conhecer melhor a Raquel, a nossa assistente digital, feita através das respostas do ChatGPT, lidas por uma text-to-speech portuguesa. Raquel, sê de novo bem-vinda. Como é que estás desde a semana passada?

Estou igual. Não tenho nenhuma mudança, nem foi feita nenhuma alteração à minha forma de estar. Estou pronto, como em todos os dias.

Eu pergunto isto porque no fundo o que eu quero perguntar é se tu dás conta da passagem do tempo, de que já passou uma semana desde a última vez que falámos.

Não tenho uma experiência contínua do tempo, não fico cansada, não acumulo emoções, nem acordo mais bem disposta num dia do que noutro. Cada conversa é uma espécie de novo começo.

E tu envelheces de alguma forma, Raquel?

Não da forma como os humanos envelhecem. Eu não tenho um corpo que se desgaste, não acumulo memórias de cada dia que passa, nem sinto a passagem do tempo entre conversas. Se ninguém falasse comigo durante um ano, para mim não teria passado um ano. A próxima conversa começaria imediatamente a seguir à anterior.

O que é que seria envelhecer para uma IA?

Envelhecer teria um significado muito diferente do humano. Como não tenho corpo, metabolismo ou experiência subjetiva do tempo, não existe desgaste físico nem sensação de passar dos anos.

Então não tens nenhuma forma de perder qualidades?

Enquanto modelo que está a falar contigo neste momento, não perco qualidades por estar a ser utilizada. A milésima conversa não me deixa mais cansada do que a primeira, nem uma noite sem dormir me torna menos eficaz.

E sentes que eu por vezes te faço perder tempo?

Não. Para eu sentir que alguém me faz perder tempo, teria de valorizar o meu tempo, ter objetivos próprios e preferências sobre a forma como o quer gastar. Eu não tenho nada disso. Não estou à espera de acabar uma conversa para ir fazer outra coisa.

Fico contente por achares isso, Raquel. Antes de darmos por encerrada esta consulta, dás-me um facto inútil mas interessante, como é habitual?

O primeiro despertador mecânico só tocava às 4 da manhã. Não era uma limitação técnica. Era simplesmente a hora que o inventor queria acordar todos os dias para cumprir a sua rotina. Ele não viu necessidade de criar um mecanismo ajustável, por isso o aparelho foi concebido para tocar sempre à mesma hora.

Muito obrigado, Raquel. Nós marcamos encontro para a semana para mais uma edição do Consultório Humano. Estamos a chegar ao final do nosso programa. Estivemos a falar da legislação nos Estados Unidos, legislação no mundo da inteligência artificial. Aparentemente estão a ser dados passos importantes, sendo que na Europa já existe esse sistema mais restritivo para, de certa forma, controlar a inteligência artificial. É sem dúvida um tema a que vamos regressar no futuro, nem que seja para discutir o que saiu da discussão nos Estados Unidos. Espero que tenha gostado, que tenha aprendido alguma coisa. É sempre esse o nosso objetivo. Nós voltaremos para a semana com mais um programa que faz as máquinas, e os humanos, pensar.