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Campanha eleitoral legislativas 2022. Minudências das bem parvas em torno das eleições.

Bem-vindo, Tiago.

Boa tarde, Miguel. Muito obrigado.

Reparo que eu disse que tem algum humor.

Arriscaste. É arriscado, porque hoje como é o último dia, estava a pensar: "Vamos ter uma conversa séria". Afinal de contas, isto é uma coisa séria, votar.

Então, mas tens uma coisa séria?

Eu vou tentar improvisar qualquer coisa.

É isso. O que tens hoje para este último dia de campanha?

Sim, hoje é o último dia da campanha, mas convém não esquecer que o facto de este ser o último dia de campanha faz dele, em simultâneo, o dia de pré-reflexão. Amanhã é o dia de reflexão, hoje é o dia de pré-reflexão.

Nunca tinha ouvido falar.

Não?

Mas o que se faz neste dia de pré-reflexão? Pré-reflete-se, é isso?

Miguel, eu agradecia que mantivéssemos um nível de conversação consentâneo com a relevância democrática de que se reveste este ato eleitoral para o nosso país.

Desculpa, esqueci que eram coisas sérias hoje. Percebi.

Exatamente. Eu tive o cuidado de salientar isto de início.

Ok, Tiago. Podes então, por favor, explicar-nos o que devemos fazer enquanto cidadãos cumpridores dos deveres cívicos neste dia de pré-reflexão?

Basicamente, é pré-refletir, Miguel. Estás a perceber? Basicamente é isso.

Ok.

É muito isso.

E em que consiste a pré-reflexão?

No fundo, a pré-reflexão funciona com base no mesmo princípio da pré-fritura, que se usa, por exemplo, nas batatas fritas congeladas. Fazes uma reflexão prévia e depois quando fores refletir amanhã, a reflexão já é muito mais rápida e mais crocante. Além de que assim te sobra tempo para o que é realmente importante amanhã: ver enfiada na Netflix tudo o que é série Nordic Noir.

Certo.

Acertou.

Podemos, faz favor, voltar aqui ao ato eleitoral.

Por que é Nordic Noir se se está a falar de séries escandinavas? Se calhar não é Nordic Noir.

Pois, mas temos certamente tema para um outro programa.

Para outras eleições.

Para outras minudências. Mas eu queria voltar ao ato eleitoral, é isso que nos traz aqui.

Sim, vamos voltar. Mas vamos com calma, Miguel, noto-te um pouco tenso. Também não vale a pena, são só mais umas eleições. Temo-las tido com fartura e já deu para perceber que não é por isso que vamos a lado nenhum. Portanto, eu pedia alguma calma a ti, Miguel, e ao pessoal do Chega de Santarém.

O Chega exige a prisão perpétua para os homicidas, para os violadores, para os terroristas e para os pedófilos. Chega de impunidade em Portugal.

Não é preciso ouvir. Acho que vou ter que ir buscar um pouco de algodão, que estou a sangrar dos ouvidos. Desagradável isto. Se bem que este tempo de antena acaba por revelar uma vertente programática do Chega muito importante, que eu desconhecia, confesso, nomeadamente ao nível da inclusividade. Não te parece?

Da inclusividade?

Inclusividade, sim.

Não será dos temas que mais depressa associamos ao Chega, a inclusividade.

Pois não. Mas a verdade é que este género de tempo de antena é extremamente inclusivo, na medida em que é o garante de que nenhum português, por mais grave que seja a sua perda auditiva, deixa de ficar informado acerca das propostas do Chega.

Digamos que não é dos tempos de antena mais discretos.

Pois não. Discreto, Miguel, é Francisco Rodrigues dos Santos. E para confirmá-lo, basta atentar nas declarações perentórias do líder do CDS acerca do fato de vários líderes partidários terem exposto publicamente os seus animais de estimação.

O Francisco não aderiu às publicações nas redes sociais que os líderes partidários fizeram com os animais de estimação. Tem animais?

Eu não percebi por que os partidos políticos nesta altura, os principais líderes, dedicaram à política um período a que eu chamo fungágá da bicharada, quando há tantos assuntos importantes para tratar na vida do país. Pelos vistos, o que é importante é dar uma justificação de estimação dos líderes partidários.

Ora finalmente! Finalmente, alguém com bom senso a denunciar esta parvoíce de se perder tempo precioso de campanha com conversetas parvas sobre cães e gatos. Nem mais. Mas eu quero lá saber se o Francisco Rodrigues dos Santos tem animais de estimação, pá.

Eu tenho dois gatos com a minha mulher, o Tico e o Piki, que foram dois gatos que nós tirámos da rua. E no início desta campanha eleitoral, logo na primeira ação de campanha na Feira de Santana, encontramos um outro gato que estava perdido debaixo de um carro e também já o adotámos. Portanto, agora temos um terceiro elemento também da família, a que chamámos Floki. Portanto, neste momento eu e a minha netemos três gatos.

Mas eu tinha dito explicitamente que queria lá saber se o Francisco Rodrigues dos Santos tem animais de estimação. E o próprio Francisco Rodrigues dos Santos tinha condenado este fungágá da bicharada. E, no entanto, já sei que o Tico e o Piki têm um novo companheiro de seu nome Floki, que estava perdido debaixo de um carro e foi recolhido pelo Chicão e pela esposa na primeira ação de campanha na Feira de Santana. Mas qual é a relevância disto, senhores?

Mas enfim, eu não acho que seja de grande relevância política pública estar a fazer como os outros líderes partidários, a enunciar os nomes dos meus gatos e a dizer que também tenho uns animais de estimação.

Mas foi exatamente o que acabaste de fazer, Chicão. São o Tico, o Piki e o Floki.

Calma, Tiago.

Desculpa, Miguel.

Tendo em conta que creio estarem esclarecidos os pontos-chaves desta campanha, acho que agora sim conseguimos chegar aos pontos-chaves.

Eu creio que sim também.

E agora que já te acalmaste também em relação a isto.

Um pouquinho, sim. Já me acalmei um pouco.

E ao fungágá. Eu queria agradecer-te, despedir-me até para uma próxima oportunidade.

Pronto, caro Miguel, foi um gosto. No entanto, tu não podes ir embora. Peço desculpa, mas não posso ir embora sem solicitar a tua ajuda. É só uma ajuda que eu preciso, que é o seguinte: eu tenho ouvido com atenção a rubrica A Última Chamada, em que vocês telefonam aos líderes partidários a perguntar como correu a campanha. O problema é que vocês ligaram à André Ventura, mas eu não recebi o áudio da chamada completo Está cortada a chamada que eu recebi. Repara, eu só tenho isto.

E de manhã, quando se levanta, qual é a primeira tarefa do dia?

De manhã, quando me levanto, a primeira tarefa do dia é tocar no-

Cá está, percebeste? De manhã, quando me levanto, a primeira tarefa do dia é tocar no... Fiquei sem saber qual é a primeira coisa em que André Ventura toca assim que se levanta. Será no despertador ou talvez no interruptor da casa de banho? Como dizer isto de forma elegante e aqui na rádio? Será que a primeira coisa em que André Ventura toca assim que se levanta é no...

Acho que estamos bem assim. Porque a verdade é que eu até tenho aqui a chamada telefónica completa.

Ai é? Podemos? Ok.

De manhã, quando me levanto, a primeira tarefa do dia é tocar no crucifixo.

Muito obrigada, André Ventura. Boa noite.

Obrigado, boa noite.

No crucifixo, era isso. Claro, tinha a palavra debaixo da língua, no crucifixo. Agora sim, que sabemos qual a primeira coisa em que André Ventura toca assim que acorda, temos toda a informação de que necessitamos para votar em consciência.

É verdade. E estas chamadas estão todas publicadas em observador.pt. Podem ouvir estas chamadas com os líderes partidários da nossa parte.

Para ver em que é que os líderes tocam. A primeira coisa em que tocam de manhã.

Mas fica aqui a faltar uma informação. Falta dizer que este espaço é da exclusiva responsabilidade da organização interveniente, Tiago Dores.

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