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Seja bem-vindo ao "Nota 20", programa da Rádio Observador em parceria com a Iniciativa Educação, programa onde a ciência fala com a educação. Olá, professor Nuno Crato.

Ora viva, bom dia.

Professor, no programa de hoje vamos abordar a questão da orientação vocacional. Estamos a entrar no último período, é a reta final do ano letivo e é para muitos jovens a época para começar a fazer escolhas, já a pensar no futuro. Vamos começar o programa pela pergunta que colocámos aos nossos ouvintes no Twitter: os testes psicotécnicos serão a melhor ferramenta para a orientação vocacional? 26% dos nossos ouvintes respondeu sim e 73% não. Professor Nuno Crato, que comentário faz a este resultado?

Acho que é uma resposta sensata. Eu diria que é uma resposta sensata, porque de facto houve um tempo, quando apareceram os testes de orientação profissional, que não eram muito bem vistos. Depois seguiu-se um período em que eram muito bem vistos e mais tarde a investigação psicológica começou a levantar alguns problemas e algumas limitações que existem nesses testes, que são uma ferramenta auxiliar e muitas vezes são um meio de começar uma discussão. Mas nós temos hoje um especialista aqui, que é professor na Universidade de Coimbra nesta área e que nos vai explicar, porque é um tema que é muito importante para todos hoje em dia, é muito importante para os jovens começarem a escolher uma profissão, começarem a pensar numa profissão.

Vamos lá. É nosso convidado Eduardo Santos, psicólogo e professor da Faculdade de Psicologia e de Ciências da Educação da Universidade de Coimbra. Professor, bem-vindo à Nota 20.

Muito obrigado, obrigado pelo convite.

Professor, começava exatamente pela pergunta que colocámos aos nossos ouvintes: os testes psicotécnicos serão a melhor forma de avaliar a vocação de um ou uma jovem?

É assim, não será a melhor nem a pior. Ou seja, também não é a única. Eu concordo com o professor Nuno Crato quando diz que é um meio auxiliar. Os psicotécnicos, é assim que nós lhes chamamos, são instrumentos de avaliação psicológica e têm uma função de diagnóstico. Fazer uma comparação com a medicina, uma radiografia não chega para fazer um diagnóstico completo, é preciso fazer análises ao sangue, etc. Portanto, é um bom meio para os nossos jovens começarem a descobrir-se, a trabalhar o seu conceito em termos de futura profissão ou de futuros profissionais, mas há mais coisas envolvidas. É sempre um processo, de qualquer modo, temos que dizer que os testes, as avaliações psicológicas, são um processo, uma ferramenta, como disse, confiáveis. Têm evoluído, mas há mais coisas para além de apenas um diagnóstico de aptidões, de interesses, de maturidade vocacional. Há todo um conjunto de outros fatores e variáveis que é necessário introduzir numa equação que é cada vez mais complexa, porque o mundo das profissões e das escolhas é cada vez mais complexo. Houve, de facto, um tempo em que houve um grande deslumbramento dos testes, quase uma bola mágica, uma bola de cristal, mas temos que, de facto, moderar esse entusiasmo e partir para outras metodologias de intervenção com os nossos jovens.

Já vamos falar disso. Gostava só de ter um bocadinho aqui nos testes psicotécnicos. Dizia-me que eles são um meio auxiliar de diagnóstico. De diagnóstico do quê? O que é que eles nos dizem sobre o jovem que a eles se submete?

Por exemplo, diagnósticos em várias áreas, começando por aquela que certamente será mais popular, saber quais as minhas aptidões em termos de raciocínios. Raciocínio melhor com palavras, com números, com figuras geométricas e nós temos uma capacidade intelectual que não é única e que se operacionaliza em cada um de nós de uma maneira mais forte ou menos forte, conforme as áreas de aplicação. Certamente um matemático precisará de ter um raciocínio numérico forte, um advogado necessitará certamente ter um raciocínio verbal forte e isso é o mais clássico. Também há os testes de interesses, que nos permitem ver que tipo de profissões é que motivam os jovens para as suas escolhas, nomeadamente se prefere trabalhar com pessoas, prefere trabalhar com animais, prefere trabalhar com maquinaria e isso são os testes de interesse. Depois também há os testes de maturidade vocacional, tentar perceber se o jovem, relativamente ao seu estado de desenvolvimento, já apresenta maturidade suficiente para fazer esse tipo de escolhas e se não tem, teremos que intervir de maneira a que isso aconteça.

Mas os testes psicotécnicos não nos dizem tudo.

Exatamente, não nos dizem tudo.

Nem tão pouco são deterministas. Ou seja, se um aluno for muito forte, por exemplo, no raciocínio matemático, isso não quer dizer que inevitavelmente ele será contabilista ou irá trabalhar com números.

Exatamente. Não é determinista, são pistas que têm que ser integradas num diagnóstico mais completo e numa equação com mais variáveis. Ou seja, há histórias familiares, há histórias pessoais, há motivações, há culturas diferentes e ser rural, ser urbano, tudo isso acaba por ser um mosaico que é preciso articular muito bem para que as escolhas sejam o mais ajustadas possível. Agora, é preciso dizer que o mundo está em rápida evolução e o aconselhamento, que nós centramos muito na adolescência, terá de acompanhar o jovem, depois o adulto, ao longo da vida. Cada vez se mais fala em orientação ao longo da vida e isso é importante. Muitas escolhas que se fazem agora podem ter algum grau de determinismo, mas elas podem evoluir. E cada vez nós vemos mais profissionais que começam numa área e acabam noutra, e com resultados de sucesso e bem ajustados do ponto de vista pessoal e do ponto de vista social.

Quando tipicamente é que são feitos os testes vocacionais aos alunos? Qual é a idade, mais ou menos? Eu lembro que fiz testes vocacionais quando tinha talvez 12 anos.

Sim.

Para mim foi uma coisa interessante, porque primeira vez que um jovem de 10, 12 anos, não me lembro exatamente quando, é confrontado com isto, com uma escolha. "Vou escolher, vou ver, vou pensar, nunca tinha pensado nisso". Eu lembro-me de duas ou três características que foram dadas nos testes, umas que estavam completamente erradas ou que se vieram mais tarde a revelar erradas e outras muito certas. Por exemplo, a intuição geométrica é uma coisa que eu tenho muito, julgo eu, e que na altura me apareceu com uma pontuação altíssima. Mas outras coisas, por exemplo, que eu não gostava de falar com pessoas, são coisas próprias da idade. Eu hoje considero-me uma pessoa sociável. Ou seja, onde é que eu quero chegar? As pessoas também evoluem. É muito cedo pensar que um teste psicotécnico ou o que quer que seja, ou mesmo uma conversa. Imagine, é isso que eu queria perguntar ao professor, que é especialista nesta área. É muito cedo para dizer exatamente quais são as aptidões e absolutamente desenvolvem as suas estratégias. Muitas vezes não têm aptidões para uma coisa e desenvolvem estratégias que lhes permitem enfrentar esse problema.

Sim. Falando de testes psicotécnicos em si, eu penso que 14, 15 anos é a altura ideal para se começar a fazer isso. Pode-se antecipar um pouco e fazer uma aproximação gradual ao problema da opção, que no nosso sistema educativo, por volta dos 14, 15 anos, começam a aparecer as opções que já têm algum grau de importância em futuras escolhas para o jovem. Mas cada vez mais, a orientação vocacional insere-se naquilo que nós chamamos de educação de carreiras e quanto mais precoce, tanto o jovem como a criança começar a aproximar-se do mundo do trabalho, mais maturidade vocacional ela terá quando tiver que fazer efetivamente essas opções.

Deixe-me só fazer-lhe uma pergunta, um parêntesis, porque esse tema que está a falar é muito interessante. Julga que a opção que é feita essencialmente entre áreas de Letras e áreas de Ciências e que é feita no nono ano, é muito cedo para um jovem de 14, 15 anos? É muito cedo?

Eu penso que sim.

Ou não? A sua opinião como psicólogo.

Sim, como psicólogo, não lhe consigo dizer um sim ou não. É se depois o seguimento, ou seja, a estrutura curricular que vem a seguir, continuar muito fechada. Ou seja, 14, 15, 16 anos, depende um pouco da maturidade do jovem, é uma idade em que o jovem ainda está a explorar o mundo dos possíveis. Só aí é que ele consegue aceder àquilo que nós chamamos raciocínio hipotético-dedutivo, consegue fazer se, então, se eu for por aqui, então vou fazer isto. E portanto, depende muito dos jovens. Agora, se o sistema de ensino for sempre afunilando muito precocemente as escolhas, isso pode ser demais. Agora, se a própria entrada na universidade, quando nós agora estamos a falar já de jovens que escolhem a vida universitária ou o ensino superior para continuarem os seus estudos, eu acho que as próprias universidades deviam ter uma abertura maior em termos de exploração. E para Direito, certamente quando se chega à universidade, o modelo "longa successio" não funciona assim, as pessoas não entram logo em Direito. As pessoas fazem o major e depois a partir do major vão experimentando, vão explorando e é através dessa aprendizagem experiencial e da reflexão e do acompanhamento com técnicos especializados que se pode fazer então uma escolha mais determinista e, portanto, com o prolongamento dos estudos. Não querendo dizer sim ou não, eu digo sim, se o sistema se adaptar. Terá algum risco se o sistema continuar a afunilar muito, e nós temos muitos alunos que chegam ao primeiro ano, muitas vezes quando passam para o segundo ou durante o primeiro ano, vêm pedir a reorientação para mudar de curso. Portanto, é algo muito frequente.

Desculpe, mas eu estou com bastante curiosidade aqui por mais um tema, que é: eu noto muitos jovens que fazem escolhas chegando ao nono ano de escolaridade, portanto, chegam aos 15, 14, 16, por volta dessa altura já fazem essas escolhas, e são condicionados não por aquilo que gostarão de fazer, mas por limitações que tiveram no estudo anterior ou por tendências. "Eu não gosto de Matemática", "Eu não gosto de Letras", "Eu não gosto de Inglês". Isso parece-me que é um problema. Na sua opinião e pelo que sabe, isso é um problema grande ou é uma coisa que acontece raramente?

Não. Todo o percurso escolar acaba e as experiências escolares, as experiências acadêmicas de sucesso e insucesso, as próprias atitudes que os alunos vão tendo relativamente às diferentes disciplinas, é um fator determinante nas suas escolhas. Portanto, muitas vezes a pessoa até tem competências a nível do raciocínio numérico, mas poderá ter uma atitude negativa relativamente à Matemática, ao estereótipo. Na família nunca ninguém gostou da Matemática. Há ali toda uma conjugação de variáveis que podem bloquear essa via. E é por isso que é muito importante esta ideia da educação de carreiras, que as próprias disciplinas que o jovem vai frequentando possam ter essa vertente de educação de carreiras. A Matemática serve para quê? Onde é que se aplica a Geografia, etc.? E tudo isso vai fazendo criar aquilo que se designa por maturidade vocacional e facilitar o processo de tomada de decisão.

O que está a dizer é que há uma grande escolha baseada na exclusão, ou seja, os jovens decidem muito: "Eu não quero não ir para ali".

Sim.

Depois também não sabem para onde é que iam ir. E nesse caso, e segundo percebi, é necessário fazer muita pedagogia sobre as áreas do saber, no sentido de o jovem perceber qual é o alcance do conhecimento que está a adquirir, é isso?

Para manter as opções abertas, não é?

Exatamente. Sim.

Muito bem

E que o venha explorando o mais precocemente possível e ao longo da vida.

Era essa a pergunta que ia fazer: a partir de que idade é que se deve começar a fazer esse trabalho, professor Eduardo Santos?

Desde a primária, dos primeiros anos de banco de escola, com coisas muito simples, aí não há necessidade de fazer testes. Embora já haja algumas coisas adaptadas pra crianças, mas não têm, de facto, o peso daquilo que nós chamamos os psicotécnicos. Mas a aproximação, visitar uma empresa, visitar um determinado local de trabalho. Os norte-americanos têm o Dia das Profissões em alguns estados, em algumas escolas, em que os pais vão à escola falar um bocadinho do que fazem. E tudo isso é extremamente importante, porque mostrar o que fazem, onde fazem, como fazem, isso é cada vez mais importante. Os psicotécnicos têm um determinado conteúdo em termos psicológicos, mas trabalhar não é só fazer coisas, é saber relacionar-se com os outros, ser capaz de liderar, se for esse o caso, ser capaz de trabalhar em grupo, definir uma boa harmonia entre os vários papéis que o jovem, futuro adulto, vai ter. Nós sabemos que um dos grandes fatores de estresse e burnout no mundo dos adultos, muitas vezes é a incompatibilidade entre a vida profissional e a vida familiar. E portanto, escolher uma opção de carreira é também escolher uma opção de vida. É preciso ver que há um perfil. Ser um médico que tem horários complicados, tem as urgências, é uma pessoa que tem que ter alguma flexibilidade em termos de gestão do tempo. Certamente há profissões que é das nove às cinco, portanto, são muito mais rotineiras. Há pessoas que têm um estilo mais de rotina, outros são pessoas mais criativas, mais adaptadas ao imprevisto e à surpresa que as coisas podem trazer em termos do dia a dia profissional.

Temos que considerar também as opções profissionalizantes, não é assim? Que hoje em dia também já se pode, a partir de 2014, já se tem o ambiente universitário dentro de uma carreira própria, não é?

Exatamente.

E também podem ser importantes para os jovens. Há muitos jovens que gostam de trabalhar com as mãos ou gostam de atirar para baixo do trato.

Exatamente. Alguns até por razões muito práticas. Eu gosto de uma frase que li já há alguns anos, que diz assim: "Enquanto não consegues fazer o que amas, ama o que fazes". Porque a vida é um percurso de evolução e muitas vezes há jovens que fazem essas opções por questões de natureza prática, porque lhes interessa começar a entrar no mundo do trabalho o mais precocemente possível e então depois refazer os seus planos, fazer estudos superiores, que é possível a partir dessa via continuar os seus estudos e portanto, são perfis diferentes. Mas há jovens que com 14, 15 anos têm maturidade suficiente pra fazer esse tipo de aposta.

Professor Eduardo Santos, estamos mesmo na reta final do nosso programa. Temos um minuto. Que conselho é que pode dar em um minuto aos pais, neste processo de orientação vocacional? Eles devem ser meros espectadores ou devem ser participantes ativos?

Participantes ativos.

Membros ativos da causa chamada filho ou filha.

Sim, e é cada vez mais frequente. Nós apreciamos muito quando os pais vêm à consulta com os filhos. Não digo a todas as consultas, mas pelo menos à primeira consulta, à última consulta em que a gente apresenta todo o trabalho que fez com o jovem, é muito o suporte emocional e sobretudo, não ter a tentação de projetar no filho ou na filha aquilo que nós gostávamos de ter feito e por qualquer motivo da nossa vida não fizemos.

E portanto, nesse sentido, não devem impor sua agenda.

Sim, exato. Suporte emocional é uma coisa, projetar no outro coisas que eu não concretizei é outra.

Muito bem. Professor Eduardo Santos, foi um gosto tê-lo no Nota 20 esta semana.

Um gosto.

Muito obrigado.

Muito obrigado, professor. Muito obrigado. Adeus.

Muito obrigado.

Obrigado. Até uma próxima. Obrigado.

Professor Nuno Crato, do que ouvimos aqui sobre os testes e o processo de orientação vocacional, o que é que sublinharia para final de programa?

Olha, eu sublinharia primeiro a necessidade de manter as opções abertas. Ou seja, um jovem pensar que indo por um caminho, depois poderá talvez ir por outro. E portanto, não dizer logo que tem 10 anos, "eu não gosto de matemática, eu não gosto de português". Não, continuar a adquirir a maior formação possível. Segundo, desde cedo começar a pensar o que eu quero fazer, pra que eu me inclino, ir conhecendo as profissões. Eu acho esta ideia do professor Eduardo Santos muito interessante, a ideia de ir conhecendo as profissões. E é isto. Acho que foi um programa muito interessante e agradeço muito os conselhos todos que o nosso especialista partilhou conosco. E que são baseados na ciência mais recente, ou seja, na investigação científica mais recente, que também dá algum papel aos testes e a questões numéricas e a questões muito específicas, mas é muito mais abrangente e revela o papel que têm as escolhas em geral da pessoa. O que está em causa, muitas vezes, é o futuro de uma pessoa e temos que pensar nisso e quanto mais pudermos ajudar nesse sentido, melhor.

Exatamente. Tenho a certeza que os nossos ouvintes tomaram boa nota dos conselhos do professor Eduardo Santos. Professor Nuno Crato, estamos de regresso na próxima semana. Até das oito dias.

Até lá.