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Está no ar mais um episódio do "O Bom, o Mau e o Vilão" da Rádio Observador, que também pode ouvir em podcast. Olá, Miguel Pinheiro, bom dia.

Bom dia.

Bom dia, Miguel. O teu bom é o SNS.

É.

Mas?

Mas do norte do país. Só mesmo do norte do país, porque o Observador foi ver como é que funciona no Porto. Uma coisa incrível, uma coisa extraordinária, uma coisa milagrosa. Então não é que no norte havia falta de médicos para se manter cinco ou seis urgências de pediatria a funcionar e perante isso decidiram que o melhor era juntarem os médicos todos numa só urgência para que ela pudesse funcionar 24 horas por dia e sete dias por semana? Não é que se lembraram desta coisa incrível? E atenção, isto foi nos anos 90 do século passado. Ainda havia dinossauros pela Terra e lembraram-se disto. E então desde essa altura, na Urgência Pediátrica Integrada do Porto, que fica no Hospital de São João, trabalham equipas de quatro hospitais. Em certos dias da semana vão para lá médicos de Matosinhos, Espinho e Gaia. Atenção, Gaia fica do outro lado do rio. Lá também há rios e há pontes, imagine-se. Eu sou do Porto, eu posso confirmar. Há uma ponte, é preciso atravessar uma ponte. Toda a gente acha isto normal, mas a 300 km de distância, na zona de Lisboa, os médicos acham que fazer a mesma coisa é um atentado à medicina, é um atentado aos direitos laborais. E por causa disso, Portugal funciona como a China. Nós temos um país e dois sistemas e achamos que está tudo bem. Mas está tudo bem. No norte está tudo bem, com certeza. Está tudo ótimo. Um dia desses ainda pedem. Em Lisboa é que não. Um dia desses ainda vão pedir a independência no norte. Paulo, eu? Para não estarem a pagar as ineficiências de Sul. Se fosse eu pedia, claro. Arranjava uma bandeirinha, estava feito.

Miguel, o teu mau anda muito irritado.

Irritadíssimo. Eu até tive que beber aqui um pouquinho de água. As pessoas acham que esta voz incrível não surge do nada.

Precisas de cuidado.

Mas então hidratar sempre. É preciso hidratar. Tudo começou com uma notícia do fim de semana, divulgada pela Agência Lusa e feita com base num livro biográfico de entrevistas ao almirante, que vai sair esta semana. E o título dessa notícia era o seguinte: "Presidenciais: Gouveia e Melo revela que foi tentativa de Marcelo pró travar que o levou a candidatar-se." O almirante ficou furibundo com isto. Primeiro fez declarações públicas a dizer que os jornalistas tinham percebido mal o que estava no livro, porque segundo ele houve muitas outras razões para ele avançar. Mas percebe-se agora que aquilo foi fervendo. E ontem a candidatura do almirante emitiu uma nota à comunicação social onde diz coisas como isto: "A notícia é falsa e enferma de uma falta de rigor inaceitável, razão pela qual se exige a reposição na verdade dos factos." E perante isto, a Agência Lusa afirmou que mantinha a notícia e foi neste ambiente, claramente irritado, que Gouveia e Melo foi ontem para uma entrevista na RTP Notícias. Falou do caso, claro, voltou a reagir ao artigo de Cavaco Silva publicado no Observador há vários dias, a apoiar Marques Mendes. Referiu-se a Cavaco como protetor do seu adversário, disse que Campos tem uma fixação nele. Vamos ver. Como é evidente, Gouveia e Melo pode criticar os adversários, como é óbvio, pode criticar os apoiantes dos adversários, especialmente se o criticam a ele primeiro, e pode criticar jornalistas. Força. Mas um presidente da República não deve ser alguém que passa a imagem de que se irrita com a primeira dificuldade. Um presidente, tal como um militar, tem de passar a imagem de alguém com uma autoridade tranquila. E não é nada disso que estamos a ver nestes dias. Enfim, eu acho que alguém deve dizer a Gouveia e Melo que ele não pode perder a cabeça assim. Sobretudo perdendo a cabeça por causa de declarações do próprio, que no mínimo foram equívocas. Sim, nós aliás temos as páginas do livro no artigo que faz manchete no Observador. E sim, é equívoco, refere uma notícia onde fala o governo, mas onde há também referências ao presidente da República. Ele próprio refere o presidente da República. Mas acima de tudo, nada disto se justifica. Este assunto não mudaria o voto de ninguém e, portanto, Gouveia e Melo o que tem é de explicar porque quer ser presidente da República. Se as pessoas ficam a achar que ele explode quando tem dificuldades, aí sim é que pode haver um problema. As pessoas podem pensar: "Alto lá, nós queremos alguém assim na presidência da República?"

E quem é o teu vilão, Miguel?

Olha, é o Hospital de Santa Maria. Nós temos falado sobre isto nos noticiários. Ontem, através de uma notícia da TVI e da CNN Portugal, ficámos a conhecer as conclusões da Inspeção-Geral da Saúde ao caso de Miguel Palhão, o dermatologista que ganhou €400 mil em 10 sábados. E imaginem lá a surpresa. Parece que neste caso correu tudo mal E de fato, quando olhamos para esta notícia e para o relatório da IGAS, o grande problema é, até mais do que com o médico, é com o Hospital de Santa Maria, porque o hospital pagava o que lhe pediam e não controlava nada. O médico propunha a realização das cirurgias, atribuía um valor às cirurgias, marcava as cirurgias, realizava as cirurgias, apresentava a conta, recebia o pagamento, sem que houvesse alguém a fazer perguntas. Parece que houve uma vez uma pessoa que disse que talvez houvesse ali um problema qualquer, mas seguiu-se em frente. De acordo com a IGAS, foram violadas inúmeras regras do manual do sistema que gera as cirurgias adicionais, pois com certeza. Há uns meses, só para nos lembrarmos destas coisas, ao falar sobre o caso, o diretor executivo do SNS disse que é perfeitamente possível, estou a citá-lo, "um médico ganhar €400 mil por cirurgias extra". E agora percebemos que realmente, desta forma, tudo é possível. Um hospital que funciona assim, é possível fazer tudo ali. Pois, e assim também se entendem os apelos à racionalização da despesa no SNS. Claro. Certo, sim, claro. Agora, vê-se. Claro. Acusam o Luís Montenegro de querer fazer cortes. Bem, se os cortes forem estes, faz sentido.

Vamos ao resumo. O bom desta terça-feira é o SNS no norte do país, o mau é o VMEL e o vilão de hoje é o Hospital de Santa Maria, em Lisboa.