As sondagens da semana passada são, como é de bom tom notar, apenas sondagens. Mas mesmo assim, deixaram muita gente perplexa. Depois de tantos bodos aos pobres, como podem descer as intenções de voto nos partidos do governo? Não foi a favorecer pensionistas e funcionários que o PS triunfou durante anos? Os cinco euros a mais ao fim do mês já não chegam? O preço dos votos está a subir, como o das casas?

Talvez faça mais sentido admitir que políticos e comentadores perceberam mal esta história. Ao actual governo deu jeito concluir, em Maio de 2025, que os eleitores o tinham absolvido da Spinumviva. Mas depois de um ano de benesses, a aliança PSD-CDS ficou à frente com uma votação inferior à que tinha tido em 2015 após quatro anos de sacrifícios: Pedro Passos Coelho obteve 38,6% dos votos em 2015; Luís Montenegro 31,8% em 2025. A Spinumviva não teve nada a ver com isso? Desde então, os cidadãos têm passado meses a aturar as “informalidades”, “imprudências” e “empoderamentos” de Luís Neves, isto é, confrontados outra vez com um político que se julga acima de regras e conveniências. Talvez seja esse enfado que as sondagens registam. Afinal, foi a Operação Influencer que fez Costa sair, tal como foi a discussão sobre o lobby que afundou Marques Mendes.

Dá muito jeito pensar que esta é uma democracia assente num povo vil e mesquinho, indiferente a tudo o que não seja pão e circo. É uma ideia que conforta políticos sem mais nada para oferecer senão bónus aos pensionistas, e que dá jeito a comentadores, assim dispensados de puxar pela cabeça ou pelo ChatGTP. Mas será uma ideia certa? Dir-me-ão: mas não foi a prometer e a dar aumentos que António Costa ganhou eleições? Convém lembrar: Costa perdeu as eleições de 2015 para Passos Coelho. Depois, tratou efectivamente de clientelizar pensionistas e funcionários. Mas que teria acontecido nas eleições seguintes se Rui Rio não tivesse retirado ao PSD o estatuto de alternativa?

A maioria absoluta de Costa em 2022 foi conseguida com a mais pequena votação de todas as maiorias absolutas da história do regime: Costa teve apenas mais 244 017 votos do que Ferro Rodrigues em 2002, quando este perdeu as eleições (2 302 601 contra 2 058 584). Foi aliás a única vez, em três eleições, que Costa conseguiu mais votos do que Ferro Rodrigues. Montenegro ganhou em 2024 e em 2025 porque o PS, depois do caos migratório e do descalabro dos serviços públicos, já não é visto como alternativa, e o Chega, apesar de aumentar a votação, ainda não é. Mas os resultados de Montenegro são os piores com que alguma vez o PSD chegou ao governo desde 1985.

Nunca houve entusiasmo por António Costa, como agora não há por Luís Montenegro. Ilude-se quem pensa que os portugueses se deixaram iludir. A história dos últimos anos precisa de ser contada de outra maneira. O que houve não foi ilusão, mas uma dramática baixa de expectativas, depois da bancarrota de José Sócrates em 2011. Foi nesse ambiente que António Costa pôde apresentar pequenos aumentos como o “virar da página da austeridade”. De facto, essa página nunca foi virada, porque os governos nunca mais dispensaram a enorme carga de impostos. Sem reformas, o turismo e a imigração simularam uma animação económica de efeitos limitados: de 2019 a 2026, os preços das casas subiram cerca de três vezes mais do que os salários. As expectativas dos portugueses não aumentaram, mas aumentaram as suas preocupações, perante a revolução migratória e o choque inflacionista. Para um país transtornado e inseguro, a Influencer, a Spinumviva, Luís Neves e todas essas exibições de irregularidade e soberba oligárquica tornaram-se insuportáveis. Foi isso que comprometeu António Costa e está a comprometer Luís Montenegro.