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Começa agora uma nova edição do "O Bom, o Mau e o Vilão". Olá, Miguel Tinheiro, bom dia.
Bom dia.
Bom dia, Miguel. O teu bom é Luís Montenegro.
Sim, porque o governo apresentou ontem várias medidas do chamado PTRR. Não quero estar agora a avaliar o pacote todo, prefiro concentrar-me numa mensagem importante do primeiro-ministro, importante tendo em conta o PTRR, mas não só, porque a dada altura Luís Montenegro anunciou a criação de um seguro obrigatório para habitações e empresas e disse isto: "Não podemos transmitir à sociedade a ideia de que existe uma capacidade do Estado de pagar tudo a todos." E depois acrescentou: "Isso pura e simplesmente não existe, não é sustentável e coloca em causa a estrutura de organização social e económica do país." Obviamente, perante isto, André Ventura veio logo dizer, com a demagogia de sempre, que o Estado tem é de pagar tudo. Só nos últimos dias e semanas nós percebemos que para o líder do Chega, o Estado pode pagar um aumento gigantesco de pensões, o Estado pode pagar uma redução da idade da reforma e o Estado também pode pagar qualquer prejuízo que seja provocado por uma, duas, 10 ou 20 catástrofes naturais. André Ventura acha que o dinheiro do Estado nasce de forma espontânea, algures na Casa da Moeda, por magia. E isso só mostra mais uma vez que não é possível governar, não é possível tomar decisões difíceis com André Ventura, porque a magia do dinheiro fácil só existe mesmo na cabeça do líder do Chega, porque no mundo real é preciso tomar medidas para que as pessoas tenham acesso a dinheiro real quando as coisas correm mal. E sim, isso só se consegue, por exemplo, com uma rede de seguros a sério, em que é possível que as pessoas e as empresas tenham seguros antes dos problemas acontecerem e as empresas de seguros não desaparecem quando as coisas correm mal. Pois, é para isso que eles servem, os seguros. Para prevenir riscos que podem acontecer a qualquer altura. For as pessoas a pagar seguros. Claro, mas de facto há uma árvore ali onde vamos colher as notas. A árvore das batatas.
Quem é o teu mau, Miguel?
O mau é José Pedro Aguiar. Olha, lá está. É sério isto, parece de propósito. Por amor de Deus, já vou no terceiro frasco de xarope. Depois do discurso que fez no Parlamento, na cerimónia do 25 de Abril, onde denunciou aquilo que diz ser um reality show à volta da exigência de transparência dos políticos. Depois disso, ontem, Aguiar Branco entrou em modo Calimero. O presidente do Parlamento queixou-se de estar a ser alvo daquilo que diz serem observações populistas e fáceis que impedem e limitam o debate. E ainda afirmou que a rotulagem é um cancelamento para o debate. É a queixa da moda. Aguiar Branco acha que o querem cancelar. Eu não percebo bem de que ele estava à espera, porque Aguiar Branco decidiu, e no seu direito, com certeza, caricaturar o atual sistema de escrutínio dos políticos. Decidiu insurgir-se contra os mecanismos de controlo do enriquecimento ilícito dos políticos e decidiu defender que tudo isso tem de mudar. E está muito bem, com certeza, mas tem de estar preparado para ouvir a resposta daqueles que entendem que nós já estamos atrás daquilo que é feito na União Europeia, daqueles que entendem que nos últimos anos até houve retrocessos nesta área, retrocessos graves, e daqueles que entendem que as ideias de Aguiar Branco só nos fariam recuar ainda mais. É assim o debate. Agora, se de cada vez que alguém ouve críticas, começa a dizer que está a ser cancelado, então assim é difícil debater. Pois, mesmo para quem concorda com ele, essa autolamentação não faz sentido nenhum. Acho que não. Sim, senhor. Vamos então discutir isso e Aguiar Branco tem que estar pronto para ouvir os argumentos contrários.
Não resisti. Este é o teu vilão.
Sim.
Anda a assobiar para o lado.
Muito bom. É verdade, anda a assobiar pro lado, mas sem metade do talento da Maria João. O presidente do Tribunal Constitucional é a figura que está a tentar fazer o que a Maria João fez ainda agora. Como se sabe, havia um impasse entre PSD, PS e Chega na eleição dos juízes em falta. Não estava a ser possível chegar a um acordo para a substituição dos três juízes, mas a solução foi encontrada com a hipótese de saída de José João Abrantes, que terminou o seu mandato como presidenteContinua a estar dentro do mandato enquanto juiz, mas não enquanto presidente. E, portanto, a expectativa seria de que deixando de ser presidente, não voltaria a ser um mero juiz e portanto abandonaria o tribunal. E assim sendo, passaria a haver quatro vagas. E ficou então combinado que o processo seria fechado no início de maio, quando houvesse quatro vagas e não três. Ora, maio começa já sexta-feira, já depois de amanhã. Mas o presidente do Tribunal Constitucional continua a fazer de conta que isto não é nada com ele e continua a não confirmar se sai ou não sai. Ontem o Observador fez várias perguntas ao tribunal e a resposta foi: "O senhor presidente, sua excelência, não vai comentar nada.". Ou seja, quer manter o mistério. E por coincidência, hoje José João Abrantes dá uma entrevista à Renascença, onde também se faz de desentendido, porque ele refere a existência de apenas três vagas e não quatro, e diz genericamente que é desejável ter os juízes o mais breve possível. E esta atitude só vem mostrar que os partidos têm que pensar muito bem em quem escolhem para o Tribunal Constitucional. Vai haver agora escolhas, há seguramente muitos critérios para essas escolhas, e eu acho que os partidos devem acrescentar um novo critério, que é ao avaliarem os nomes pensarem: no momento em que houver uma dificuldade, como é que esta minha escolha se vai comportar? Vai comportar-se como José João Abrantes? Se sim, então é melhor arranjar outra pessoa. É o que se chama pôr o pau na roda da bicicleta aqui, não é? É, mas quem parte os dentes somos nós. Esse é que é o problema.
Miguel, regressas depois do meio-dia com o Sérgio Sousa Pinto. Do que vão falar esta semana no Realpolitik?
Vamos inevitavelmente falar sobre este mais recente atentado contra Trump, sobre a violência política e sobre a possibilidade de corrermos o risco desta violência política eventualmente chegar cá. E como é que está o ambiente por cá também. Também precisamos de falar do escrutínio dos políticos, a propósito do discurso do José Pedro Aguiar Branco, claro. E também sobre a notícia de ontem da saída dos Emirados da OPEP, se isto é um sinal do que aí vem depois da guerra do Irão.
Realpolitik para ouvir depois do jornal do meio-dia. Quanto ao bom, mau e o vilão desta quarta-feira, o bom é Luís Montenegro, o mau é José Pedro Aguiar Branco e o vilão é o presidente do Tribunal Constitucional.
[cerca de 12 segundos de música eletrónica suave]