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Este é o som do Bom, o Mau e o Vilão da Rádio Observador. Bom dia, Miguel Pinheiro. Bem-vindo.
Bom dia.
Olá, Miguel.
Muito obrigado.
Bem-vindo.
Meu Deus, que alegria fingida.
Miguel, o teu bom foi confrontado com o silêncio.
Foi a nossa Justiça. Ontem o tribunal que está a fazer o julgamento da Operação Marquês chamou a depor a atual companheira do José Sócrates, para usar a expressão da própria, mas Lígia Correia recusou-se a prestar depoimento, alegando que ambos têm uma relação em tudo semelhante à união de facto e que por isso poderia não responder a perguntas. E disse o seguinte: "A principal razão pela qual não presto depoimento é querer proteger a nossa relação e não participar na devassa pública da minha vida privada e muito menos da relação que tenho com o meu companheiro." A juíza explicou-lhe que a recusa poderia ser admissível, mas apenas para factos que tivessem acontecido depois de 2015, que foi o ano em que os dois começaram a viver juntos, mas que teria mesmo de responder sobre coisas que aconteceram em data anterior a 2015. Mas a recusa manteve-se. Eu admito que isto possa ser um problema para o tribunal, mas para mim ficou tudo muito claro. Eu até acho que há silêncios que são muito mais esclarecedores do que muitas palavras. Portanto, para mim ficou tudo claríssimo.
Pois é, ninguém aqui está a defender a relação com a Justiça. Enfim, essa é mais complicada.
Pois não, essa não. Eu acho que essa vai ter que ficar agora para o recurso, porque agora vai haver um novo processo por recusa em prestar esclarecimentos. Talvez se possa falar disso nessa altura, Paulo.
Vamos a isso, vamos esperar.
O teu mau é o Ministro da Educação.
É. O Fernando Alexandre tem sido um ótimo ministro, mas ele está a reagir de forma desastrosa aos problemas com os exames nacionais. Ele teve avanços e recuos quando precisou de decidir se mantinha ou adiava o calendário, teve falta de clareza ao falar sobre a única empresa privada envolvida no processo, quando pediu primeiro que o nome não fosse divulgado por razões de cibersegurança, uma confusão com aquela história. E depois de uma sucessão de declarações feitas de cabeça perdida, como aquela em que comentava a imprudência das famílias que tinham marcado férias para esta altura, agora o ministro está a dar entrevistas que são uma atrás da outra, pequenas desgraças. Ontem falou na Sic Notícias e, como acontece infelizmente com muitos políticos em apuros, não resistiu a uma pequena tese da cabala, porque à altura ele disse isto: "Quem faz mudanças como nós estamos a fazer, que são profundíssimas no Ministério da Educação, obviamente há um risco", disse o ministro. E eu pensei que Fernando Alexandre estava a falar do risco que há sempre de as coisas não correrem 100% bem, porque mudanças profundíssimas implicam novos procedimentos, novas formas de fazer as coisas e obviamente as coisas nem sempre correm todas bem. Mas não. Fernando Alexandre continuou a sua resposta na Sic Notícias da seguinte maneira. Ele está a relatar um diálogo com uma pessoa ou pessoas que não nomeou. Vou citá-lo: "Houve muitas pessoas que me aconselharam: 'Fernando, não faça as reformas tão profundas.' E eu: 'Por quê?' 'Porque és capaz de ter problemas.'" Ora, eu diria que Fernando, é preciso respirar fundo. O ministro tem que respirar fundo, porque quando ele fizer declarações sobre os exames, ele tem que ter uma mensagem para passar e ponto final. Não vale a pena pôr-se a inventar. Portanto, eu diria que o novo conselho é: "Fernando, não te ponhas a inventar, quer dizer, é responder." E está feito.
Sim, e sobretudo quando não se pode provar aquilo que se está a dizer, de uma forma empírica e imediata.
Depois embrulhou-se naquilo, depois o Bernardo Ferrão perguntou-lhe se tinha forças de bloqueio no ministério, depois andou ali para trás e para frente. Para quê? E sinceramente, também, o que é que isso interessa? O ponto não é esse. Ele está a querer dizer o quê? Que houve forças ocultas que provocaram estes problemas? Não é nada disso. E também não é nada disso que ele quer dizer. Simplesmente saiu-lhe aquilo no momento de aperto. Não pode ser. Estas coisas têm que ser feitas de outra maneira.
E quem é o teu vilão de hoje, Miguel?
O vilão é o SNS. Se bem se lembram, não foi assim há tanto tempo, lembram-se de certeza, mas a 15 de abril ficou completa a concentração de urgências de ginecologia e obstetrícia na Península de Setúbal, numa política que estava correta e está correta. Fecharam-se algumas urgências para se juntarem os poucos médicos que há numa unidade que poderia ficar sempre aberta, para não termos aquela coisa das pessoas terem de ir ver ao site se a urgência está aberta ou está fechada antes de saírem de casa. Isto era suposto ser o fim da instabilidade, segundo nos prometeu o diretor e subdiretor do SNS, e foi, repito, a 15 de abril. Pois bem, o que é que está a acontecer agora, desde 5 de julho? Está a acontecer que a nova urgência deixou de receber todas as grávidas E porque é que deixou de receber todas as grávidas? Por falta de médicos. Claro, só podia. E a ministra, que nos tinha dito que as coisas se iam resolver, veio agora informar-nos que nem pensar nisso. Ana Paula Martins disse-nos o seguinte, como se fosse a coisa mais natural do mundo, como quem bebe um copo d'água: "Nunca poderia garantir que o verão vai ser tranquilo. Nenhum verão na saúde se pode dizer tranquilo." Nenhum, atenção. De acordo com a ministra, o problema é que nós precisaríamos do dobro dos médicos que temos para as coisas funcionarem bem. E Ana Paula Martins concluiu desta forma: "Isso não existe e não vai acontecer." Pronto, não existe, não vai acontecer. Portanto, as pessoas já sabem, habituem-se. Não vai haver médicos, nem vai haver urgências a funcionar normalmente, nem hoje, nem na próxima semana, nem no próximo ano. Se vocês estão a contar com o Estado, esqueçam. Não há, não vai haver, não vai funcionar. Acabou. Pronto, não existe. Não voltem a fazer perguntas sobre este assunto, não vai haver. Isto realmente é difícil. Eu diria que se o problema é este, então se calhar o Estado devia estar a arranjar condições para duplicar a entrada de alunos nas faculdades de Medicina, por exemplo, para se certificar de que nós vamos ter estes médicos, pelo menos, daqui a uns anos. Se estamos a formar o mesmo número de médicos, se calhar estamos à espera que as pessoas morram todas. Se calhar quando as pessoas morrerem, já passa a haver médicos suficientes. Acho que é uma hipótese.
Também é uma forma de conseguir o equilíbrio. Miguel, chegados a este ponto, qualquer coisa serve.
Não.
O que achas, Miguel?
Não, eu pensei que o Paulo ia dizer uma coisa do gênero: "Eu visto uma bata e vou para lá."
Não.
Estava eu convencido. Pensei: "Eu ponho um estetoscópio ao pescoço, não se preocupem e eu resolvo o problema." Mas vocês imaginem. Almada, isto é também na zona da península de Setúbal, margem sul, o Hospital Garcia de Orta. Não há água, não há médicos, muitas vezes não há transportes.
Os problemas do interior do país, não é de Lisboa.
Isto a dada altura já parece que é brincar. Quer dizer, só pode ser a brincar, tanta incompetência em tanto lado.
É a brincar. Vamos deixar o Miguel com esta ideia. Ele só vai levar uma pausa. Depois contamos.
Depois contamos a verdade.
Deixa-me antes ficar com esta ideia de te ver com bata e um estetoscópio, Paulo.
Tu gostas mesmo de ver o circo arder, mas ok.
Vamos ao resumo. O bom desta quinta-feira é a justiça, o mau, o ministro da Educação e o vilão de hoje é o SNS. Foram as escolhas do Miguel Pinheiro nas manhãs 360 e sempre em podcast.