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Começa agora uma nova edição do Bom, o Mau e o Vilão. Edição terça-feira. Bom dia, Miguel Pinheiro.
Bom dia.
Miguel, o teu bom venceu o debate de ontem.
Foi João Cotrim Figueiredo. Tivemos ontem mais um debate presidencial. João Cotrim Figueiredo venceu e não foi preciso muito. Na realidade, parece-me que tudo ficou decidido logo quando se discutiu o SNS. Cotrim disse aquilo que devia ser uma evidência sem grande controvérsia. Disse que no SNS há casos daquilo a que ele chamou corrupção legal e deu o caso das funcionárias do Ministério da Saúde detidas por colocarem ilegalmente imigrantes no sistema a troco de dinheiro. Disse que há casos de corrupção moral e falou dos médicos que se aproveitam de incentivos como os das cirurgias adicionais pra ganharem umas centenas de milhares de euros em poucos dias. E falou daquilo a que chamou de casos de corrupção técnica e referiu o exemplo da médica que prescreveu milhares de receitas de Ozempic a pessoas que não eram diabéticas, ganhando dinheiro com isso e lesando o Estado. E depois de ouvir estas coisas, Jorge Pinto negou que haja um problema de corrupção no SNS e afirmou que qualquer organização tem alguns problemas. Há sempre aí alguns problemas. Claro, com certeza, qualquer organização tem alguns problemas, mas esse não era o ponto. E depois disto, Cotrim só precisou de dizer lugares comuns, como por exemplo, que os salários não se aumentam por decreto. Bastou dizer isto pra parecer um gênio da política. E realmente, quando basta dizer lugares comuns para, em comparação, se parecer um gênio da política, é fácil. Daí seguir também o reino de debates, mas realmente foi o que tivemos.
Pois, mas experiências também muito diferentes ali naquela mesa. Experiências de debates.
Sim. Não sei, achas que é isso?
Pode ser.
Acho que pode haver ali um problema maior de visão do mundo.
Diferente é seguramente.
Não, diferente é seguramente, com certeza. É diferente, claro, no sentido em que pessoas que acreditam em teorias da conspiração são pessoas diferentes. Claro, com certeza.
Claro.
Não estou a dizer que Jorge Pinto acredita em teorias da conspiração.
Não é o caso. Só um exemplo, claro.
Claro, como é óbvio.
Sim, são duas formas muito diferentes de olhar o país e o mundo.
São diferentes.
E Miguel, o teu mau, lá está, perdeu o debate de ontem.
Pois é, perdeu o debate de ontem, foi Jorge Pinto. À medida que o tempo passa, vamos ficando a conhecer melhor o candidato que veio do LIVRE e já deu pra perceber que a grande marca distintiva de Jorge Pinto, parece-me a mim ser uma certa aversão à democracia representativa. Sempre que há um problema político, ele diz que convoca o povo pra que o povo fale de forma direta. Uma das suas grandes causas é a regionalização, mas como a democracia representativa não impôs a regionalização, ele quer criar aquilo a que chama uma assembleia cidadã pra debater o assunto e fazer propostas que ultrapassem o Parlamento e o governo. Ele ontem não falou disto, mas tem falado em entrevistas. O que ele referiu no debate de ontem foi mais uma ideia sobre a saúde e sobre o SNS. Ele disse o seguinte: "Dou um prazo ao governo. Não resolve o problema. Convoco uns Estados Gerais pra que toda a sociedade civil, médicos, enfermeiros, utentes, partidos, possam discutir aprofundadamente o SNS." Portanto, assembleia cidadã, Estados Gerais. Ontem tornou-se claro pra mim que Jorge Pinto é a Maria de Lourdes Pintasilgo destas eleições. Nas presidenciais de 86, Pintasilgo candidatou-se com as suas ideias de uma democracia basista. Achava que o poder devia ouvir diretamente o povo, sem intermediações. Só por causa disto, estive a rever uma série de debates de Pintasilgo. Logo na abertura do debate com Mário Soares, nessa campanha, ela anunciou que era chegada a hora de passar a esta nova fase. Falou da democracia direta que estava prevista na Constituição. Já na altura isto correu mal. Pintasilgo ficou em último lugar, mas convém termos sempre isto na cabeça durante a campanha. As ideias novas de Jorge Pinto são ideias mesmo muito antigas.
E muito referendárias, não é?
Sim, ele diz que não gosta de referentes. Houve outra frase mesmo no fim que me deixou a pensar. E num dos debates perguntou à Maria de Lourdes Pintasilgo o que ela faria se perdesse as eleições. Ela fica ali um pouquinho atrapalhada, mas no fundo o que diz é: "Continuaria a pensar o mesmo. Quando o povo nos diz que estamos enganados, isso não quer dizer que estejamos enganados." Ela não usou estas palavras. E houve uma frase de Jorge Pinto que eu fiquei com ela na cabeça, que foi esta frase. Eu ouvi alguém dizer isto: "Muitos grandes líderes mundiais só singraram depois de várias eleições perdidas." Portanto, este novo grande líder mundial, que é Jorge Pinto, precisa só de perder umas quantas eleições pra singrar.
Profundo.
Não é? Eu sinto como no coração.
Ficaste entontecido.
Eu tenho um coração...
Mas se calhar não tanto quanto o amor de Jorge Pinto pelo SNS.
Não. Não consigo chegar a esse patamar poético.
Miguel, quem é o teu vilão?
Olha, é o Sindicato Nacional do Pessoal de Voo da Aviação Civil, o SNPVAC. Tem-me engano. SNP, não sei se se lê SNPVAC ou SNEPEVAC. Eu espero que seja SNEPEVAC, porque é muito melhor. Mas então, o SNPVAC, que reúne os tripulantes de cabine, nomeadamente da TAP, decidiu ontem aderir à greve geral decretada pela CGTP e pela UGT, o que obviamente porá em risco os voos, pelo menos do dia 11 de dezembro. Por vezes quando há greves, também se afetam as operações do dia anterior e algumas do dia seguinte, temos que esperar para perceber. Esta adesão do SNPVAC acontece bem a meio do processo de privatização da TAP, numa altura em que a Lufthansa, a Air France KLM e a empresa que tem a British Airways e a Iberia estão a avaliar se avançam para a compra de parte da empresa ou não. A decisão do SNPVAC de aderir à greve geral foi tomada numa reunião com 2802 trabalhadores e 2305 votaram a favor, o que é esmagador. Vamos ver, como é evidente, os tripulantes de cabine e o SNPVAC também têm todo o direito de aderir à greve geral. O SNPVAC tem todo o direito de fazer até greves só nos transportes ou greves só na TAP, com certeza, e o SNPVAC tem todo o direito para escolher ou aceitar os timings dessas greves, como é óbvio. Portanto, força nisso, acho que é um bom momento. Só pode correr bem isto tudo. Sim. Acho que sim. Está ali uma empresa sólida. Sim, sem dúvida. Nunca deu uma despedida a ninguém. Nada. Achas que o SNPVAC está a ver bem a coisa, Paulo? Só pode estar bem a ver a coisa. Com uma aprovação destas, aquilo é uma clarividência. Mas o SNPVAC? O SNPVAC. Boa.
Vamos ao resumo. O bom é João Cotrim Figueiredo, o mau é Jorge Pinto, o vilão é o Sindicato Nacional do Pessoal de Voo da Aviação Civil.
Não, é o SNPVAC.
Batizado por Miguel Pinheiro como SNPVAC. Vamos ficar com isto na cabeça, Miguel. Foram as escolhas do Miguel Pinheiro, que também pode ouvir em podcast.