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O Miguel Pinheiro já está connosco. Começa agora um novo episódio do "O Bom, o Mau e o Vilão". Olá, Miguel, bom dia.

Bom dia, estou muito orgulhoso de mim mesmo.

Conseguiste fazer as duas coisas ao mesmo tempo?

Não. Se eu ando a tentar fazer ao mesmo tempo, isso é que eu me baralho. Consegui primeiro ligar o microfone e só depois falar.

Deixaste o microfone ligado de ontem.

Acho que está retomada a normalidade democrática.

Vamos lá. O teu bom é o Ministério Público, aquilo que eles fizeram bem.

Não, o nosso Ministério Público não fez nada, não se mexeu. O ponto não é esse. Mas o que aconteceu foi que ontem o New York Times, que é o maior jornal norte-americano, publicou uma notícia. Eu vou fazer uma tradução livre do título para adaptar à realidade portuguesa, mas basicamente era isto: "Presidente da Câmara de Nova Iorque acusa Procuradoria de ter violado o segredo de justiça." Não vale a pena aqui entrar em detalhes sobre o caso, mas basicamente o atual autarca Eric Adams é acusado de corrupção. Aconteceu ali qualquer coisa, pelos vistos, e ele é acusado de corrupção e agora pediu ao juiz do processo que abra uma investigação àquilo que diz serem as sucessivas violações do segredo de justiça. Ele alega que só um reduzido número de pessoas tinha acesso à informação e há ali três grupos possíveis de pessoas e então lança suspeitas sobre o Ministério Público de Nova Iorque. O jornal também acrescenta que é muito raro os juízes aceitarem abrir investigações sobre violações do segredo de justiça. E isto, que se passa lá longe, é interessante para nós, porque mostra que não somos diferentes dos outros. Há processos que estão em segredo de justiça, há jornalistas que descobrem o que está em causa, há advogados de defesa que acusam o Ministério Público de estar por trás das fugas de informação e, portanto, o que se passa aqui, passa-se em todo lado. Não é culpa do Lucília Gago, não é culpa de uma conspiração de procuradores, é uma coisa natural em países com imprensa livre que procura informação sobre processos importantes.

Vamos ver se os resultados depois são diferentes, das investigações.

Ainda é cedo.

Ainda é cedo.

Ainda é cedo para saber. Mas lá também houve apreensão de telemóveis do presidente da Câmara. Se não estivesse escrito em inglês...

Tu até te enganavas e pensavas que era cá, claro.

É verdade.

Miguel, e quem é o teu mau?

O mau é aquele manifestante que ontem interrompeu uma intervenção de Carlos Moedas numa conferência sobre habitação. O que aconteceu foi que enquanto o presidente da Câmara Municipal de Lisboa falava, um elemento da assistência, que claramente não estava lá para ouvir, gritou sem se levantar isto: "Mentiroso, estás a matar a cidade, só ajudas os especuladores, só vais ao TikTok e fazer cocktails, cala-te!" Foi isto. E aqui há uns tempos, Carlos Moedas fez uma cena escusada quando se levantou e saiu de uma reunião autárquica ao ser chamado de mentiroso por uma deputada municipal do Bloco de Esquerda. Mas isso, obviamente, não serve de motivo nem de desculpa para agora haver pessoas plantadas em cada sítio a que ele vai para o interromper e chamar de mentiroso. E vamos ver se a esquerda se indigna, e com toda a razão, com a interrupção, por exemplo, de lançamentos de livros. Também se deveria indignar quando alguém interrompe um presidente de câmara eleito democraticamente, porque Carlos Moedas não foi lá posto nem por Deus, nem por um ditador. Foi eleito pelo voto e, portanto, se não gostam de Carlos Moedas, daqui a nada, está mesmo quase, vão poder votar nas eleições autárquicas e vão ter a oportunidade de o tentar despedir, porque um político pode ser vencido pelo voto, mas não pode ser calado pelo grito.

E a isso só falta um ano, não é?

Exato. Aguentem um bocadinho e depois votem.

Miguel, o teu vilão é o LIVRE.

É o LIVRE, porque ontem, precisamente no momento em que o Irão lançava cerca de duas centenas de mísseis contra Israel, o partido de Rui Tavares emitia um comunicado onde dizia várias coisas interessantes. Afirmava, por exemplo, que a ofensiva israelita, e agora vou citar, resultou na morte de mais de 700 civis no Líbano. Da última vez que eu confirmei, o próprio Hezbollah reconheceu que esta ofensiva resultou na morte de muitos dirigentes desta organização terrorista, dirigentes, militantes e membros desta organização terrorista. Eu penso que membros da organização terrorista são terroristas, acho eu, acho que uma coisa não vai sem a outra. E portanto, contar todos os membros do Hezbollah como civis é pelo menos de um enorme atrevimento. Aliás, o próprio Ministério da Saúde do Líbano, que tem sido a fonte destes números, não fala em 700 civis mortos, fala em 700 pessoas mortas, porque eu não diria que os elementos do Hezbollah são propriamente civis. O LIVRE também assinala que houve mais de meio milhão de pessoas do sul do Líbano a serem forçadas a abandonar as suas casas por causa da ação de Israel. E aqui também é curioso que o LIVRE não tenha emitido um comunicado, até agora, preocupado com os 60 mil israelitas que foram forçados a abandonar as suas casas no norte por causa do envio de rockets do Hezbollah, nomeadamente desde o ataque do Hamas a 7 de outubro, por o que tem acontecido. O Líbano está a norte de Israel, Israel está a sul do Líbano e o Hezbollah, que está ali entrincheirado no Líbano, mandava rockets todos os dias e 60 mil israelitas tiveram que sair das suas casas. E por causa disto, o LIVRE acusa Israel de optar por fazer da população libanesa um dano colateral. Mas lá está, não refere no seu comunicado o facto de o Hezbollah sempre ter optado por fazer da população israelita um dano colateral dos seus ataques. Aliás, nem é bem um dano colateral, ali até é mesmo um alvo. Eles querem mesmo apanhar os civis israelitas. Mas enfim, não vale a pena perdermos mais tempo com isto, porque para alguma esquerda Israel nunca tem razão. E aliás, quando foi o Congresso do LIVRE, viu-se a dificuldade em criticar o Hamas num documento escrito e, portanto, não vale a pena.

Vamos então ao resumo. O bom desta quarta-feira é o Ministério Público, o mau é o manifestante que ontem interrompeu uma intervenção de Carlos Moedas e o vilão de hoje é o LIVRE. Foram estas as escolhas do Miguel Pinheiro, escolhas que também pode ouvir em podcast.