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Está no ar mais um episódio do "O Bom, o Mau e o Vilão" da Rádio Observador e que também pode ouvir em podcast. Olá, Miguel Pinheiro, bom dia.

Bom dia.

Bom dia, Miguel. O teu bom é o Hospital de Santa Maria.

Sim, porque segundo o Público de ontem, o hospital já está a tomar os procedimentos legais necessários para poder reaver o dinheiro que foi pago indevidamente a vários funcionários que participaram em cirurgias adicionais. Quem nos está a ouvir lembra-se seguramente do caso da dermatologista Miguel Alpalhão, que ganhou mais de €700 mil em produção adicional em três anos. Quando esse caso foi conhecido, a Inspeção-Geral das Atividades em Saúde foi analisar uma amostra de 511 processos e descobriu pagamentos indevidos a 16 cirurgiões, a seis enfermeiras e a seis assistentes operacionais, mas essa era apenas uma amostra. Depois desse relatório da IGAS, o Santa Maria terá ido olhar para os casos todos, era o que era suposto fazer, e agora está a recorrer à Justiça. Acho muitíssimo bem, só há um problema nisto: é que o hospital recusa-se a explicar qual o valor total que está em causa, recusa-se a explicar quantas pessoas são visadas nestes processos e recusa-se a explicar se já foi devolvido algum do dinheiro. E os funcionários do Estado português têm muitas vezes este problema, eles esquecem-se que o dinheiro que estão a gerir não é deles. O dinheiro não é deles, o dinheiro é nosso, por isso eles têm de nos prestar contas a nós. Se os administradores do Santa Maria querem trabalhar sem responder a perguntas dos jornalistas, que é sempre uma chatice, eles podem sempre pegar em dinheiro deles e construir um hospital deles. Acho que era uma boa ideia, faziam isso. Pronto. Pegam em dinheiro e fazem uma coisa lá deles. Agora, enquanto estiverem a lidar com dinheiro público num hospital público, é suposto que nos expliquem o que andam a fazer. Só foi muito incómodo. Atenção, também não queremos estar aqui agora a incomodar as pessoas com estas coisas. Mas só foi muito incómodo, expliquem-nos.

Tenho um bocadinho de vergonha daquilo que se passou.

Ó Paulo, vergonha tenho eu.

Depois temos nós, não é? De facto, é mau, as pessoas não aprendem.

Nada.

Quem é o teu mau, Miguel?

Olha, é o Ministério da Educação. Continuamos nisto. O ministério ontem anunciou que os resultados das reapreciações dos exames nacionais da segunda fase do ensino secundário já não serão afixados a 28 de agosto, como estava previsto, mas apenas a 14 de setembro. E o governo pode dizer que isto é necessário para os professores descansarem neste período de verão. Pode argumentar que as candidaturas decorrem até 20 de setembro e que por isso há ali ainda mais uns dias para se poder fazer as candidaturas. Pode sempre dizer isso, se bem que também se poderia contra-argumentar que pais de alunos e alunos poderiam ter outras férias marcadas e estariam a contar com resolver o assunto agora. Mas enfim, nem vou entrar nisso. Mas o Estado pode dizer tudo isso. O que o governo não pode dizer é que está tudo na mesma para os alunos. De facto, não está. Esta é mais uma consequência das decisões precipitadas do Ministério da Educação, num momento que decide para onde é que as suas vidas vão. Os alunos deviam saber com o que contam em agosto e só vão saber em setembro. E isto junta-se a outra decisão recente, tomada também para permitir aos professores descansarem, que foi a decisão do adiamento numa semana do arranque do ano letivo para os alunos do ensino secundário. Como toda a gente sabe, a esmagadora maioria das escolas não consegue dar o programa todo no tempo de aulas que existe. Isto seria uma outra conversa, de programas que é impossível dar e que toda a gente sabe que é impossível dar, mas continuam a existir os programas com aquela dimensão. Mas enfim, as escolas já não conseguem dar os programas no tempo de aulas que existe. Com menos uma semana, como é evidente, pior. Mas aí os prejudicados já se sabe que são sempre os mesmos. Naturalmente.

Claro.

Serão os alunos que terão menos uma semana para aprender qualquer coisa.

Olha, mas isso é uma verdade absoluta em qualquer lado. Os prejudicados são sempre os mesmos.

Não há dúvida, Paulo.

Nenhuma.

Coitadas das criancinhas.

Miguel, o teu vilão está em silêncio.

Está em silêncio. Olha, isto liga-se um bocadinho com o bom. O governo continua sem falar sobre o negócio de compra de 13% da REN. O tempo passa. E nós, que enquanto contribuintes, convém lembrar, lá está mais uma vez, pagamos isto, nós que estamos a pagar este negócio, continuamos sem saber porque é que o nosso dinheiro foi usado para uma coisa destas. As três ou quatro frades de Luís Montenegro na festa do Pontal, onde, aliás, já agora, falou como líder do PSD e não como primeiro-ministro Não é a mesma coisa. Pode parecer, às vezes parece, é tudo igual, mas não, não é tudo igual. Mas o primeiro-ministro disse duas ou três coisas que estão muito longe de serem suficientes, até para nós formarmos uma opinião. Que opinião é que temos sobre isto? Não sei, eu estou disponível para ouvir. Agora, convinha saber, em primeiro lugar, qual o motivo para isto. O governo quis entrar na REN com que objetivo? Depois, era bom que nos explicassem qual foi o preço. Esse assunto menor. Olhando pra cotação bolsista da REN, a coisa deve ter andado pouco acima dos 300 milhões, mas foi isso? Foi mais do que isso? Porque a compra foi feita diretamente, portanto, quanto é que aquilo custou? A seguir, o governo quer comprar uma posição maior na REN ou esta é insuficiente? Qual é o plano, afinal? Também era bom sabermos. Outras dúvidas: o governo só quis uma participação na REN ou vai entrar em mais empresas que foram privatizadas? Porque o governo falou-nos de um fundo soberano. Ora, se for entrar em mais empresas, quais são elas? O que é que pretende fazer com as participações? E mais uma vez, quanto dinheiro nos vai custar isso? E quando o Luís Montenegro nos disse que este ano não ia tirar férias de verão, eu pensei, na minha inocência, que eu sou uma pessoa muito inocente, pensei que a ideia seria a de manter o governo a trabalhar em pleno, mas não, porque ontem o Observador fez perguntas aos ministérios das Finanças e do Ambiente e Energia, mas não teve resposta. E lá está, o governo não tem nenhuma pressa em explicar o que anda a fazer com o nosso dinheiro e convinha que tivesse pressa, porque o dinheiro custa muito a ganhar. Não sei como é que é com o Luís Montenegro, mas a mim o dinheiro custa muito a ganhar e por isso gostava de saber o que é que andam a fazer com ele.

O nosso dinheiro garanto que não custa aos governantes ganhá-lo. Entregamos nas repartições de finanças e está feito.

Se calhar aí está a parte da explicação.

É verdade.

Vamos ao resumo. O bom desta terça-feira é o Hospital de Santa Maria em Lisboa. O mau é o ministro da Educação e o vilão é o governo. Foram estas as escolhas do Miguel Pinheiro nas manhãs presente e sempre em podcast.