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Está no ar o "Domínio da Guerra" com o Major-General José Arno Moreira. Bom dia!
Bom dia. Bom dia a todos.
Já sabe que também nos pode acompanhar com imagem através das redes sociais ou pelo site do Observador General. Nos últimos 15 dias tivemos tudo e o seu contrário. Primeiro havia Tomahawks pra Ucrânia, depois passaram a ser necessários para os Estados Unidos. Foi marcada uma reunião entre Trump e Putin na Hungria e pouco tempo depois foi cancelada ou adiada, ainda vamos ver. Entretanto, terão voado papéis e palavras impróprias na reunião entre Trump e Zelensky, e a semana termina com Trump a impor sanções ao setor energético russo. O que se passa com tanta irritação de Donald Trump?
Esta irritação tem um nome, chama-se imediatismo. Trump não tem paciência pra estudar dossiês, nem que lhe apresentem planos, nem relatórios completos.
E pra esperar, não é? Não tem paciência pra esperar.
Não tem paciência pra esperar. Portanto, esta irritação resulta desta filosofia de Trump dos resultados imediatos. Ele quer obter resultados imediatos. E ele sempre se convenceu, foi alimentando um pouco esta ilusão, de que em todos os assuntos em que se metesse, o resultado era visível ao fim de pouco tempo. Ora, a questão da Ucrânia é uma questão muito complicada.
É que do outro lado tem Putin.
Está muito complicada e o imediatismo não está a resultar neste caso. Daí a sua irritação. Bom, esta foi uma semana, estes 15 dias foram riquíssimos em acontecimentos. E eu vou começar por seriar e depois vou procurar estabelecer uma conexão entre eles. Durante duas ou três semanas houve a telenovela dos Tomahawks. Ia haver Tomahawks, tinham de ser entregues Tomahawks, Tomahawks eram fundamentais como forma de pressão sobre a Ucrânia. Depois, foi marcado um encontro com Zelensky para ocorrer na Casa Branca na semana passada. Entretanto, esse encontro foi antecedido por um telefonema com Putin no dia anterior. E na sequência desse telefonema, ficou marcada até uma reunião em Budapeste entre Putin e Trump. Depois ocorreu a tal reunião com Zelensky, em que de acordo com algumas notícias, terão voado papéis e palavras mais impróprias, e saiu a ideia de Trump, que era o fim dos combates nas atuais posições, manter a linha da frente como linha de contacto entre as posições, mas cessavam as hostilidades. Depois foi acordado um telefonema entre Rubio e Lavrov, o telefonema não correu bem e Trump anunciou que não ia fazer nada pra Budapeste nestas condições e, portanto, ou cancelou ou adiou, isto ficou ainda por definir. Entretanto, avançou com as sanções ao setor energético e a União Europeia reuniu o Conselho Europeu e aplicou o 19º pacote de sanções. Isto parece uma lista de um ano inteiro, mas na verdade, isto ocorreu em 15 dias. Vamos lá ver se eu consigo ligar. A forma como eu vejo isto, pode parecer um pouco teoria da conspiração, já ficam avisados os nossos ouvintes, é a maneira como eu estou a ver isto.
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Vamos lá, vamos a isto. Tomahawks, nunca houve intenção dos Estados Unidos de dar Tomahawks à Ucrânia. Nunca houve. Isto era a forma de trazer a Federação Russa para a mesa das negociações, era ameaçar com os Tomahawks. A Rússia achava que a probabilidade era pequena dos Tomahawks acabarem na Ucrânia, mas a verdade é que os ATACMS também a probabilidade era pequena e acabaram na Ucrânia. Portanto, não era impossível, mas era bastante improvável que isso acontecesse. Como a probabilidade era baixa, Trump necessitava de uma narrativa forte. Isto é, precisava demonstrar que apesar da Rússia sentir que a probabilidade era baixa, ele tinha que arranjar uma narrativa forte que convencesse os russos de que havia uma certa possibilidade dos Tomahawks irem parar à Ucrânia.
E daí a reunião.
E daí a reunião com Zelensky. Isto é, ele foi fazendo crescer na opinião pública e publicada a noção dos Tomahawks, para isso precisava de um momento crucial: a reunião com Zelensky. Isto é maquiavélico, a minha teoria é maquiavélica.
Mas muito possível de acontecer.
Zelensky foi iludido com a possibilidade de haver Tomahawks e foi trazido a Washington com o intuito de fazer pressão sobre Moscovo. Arranjar-se aqui um momento em que Trump convence Putin de que, na realidade, está prestes a entregar os Tomahawks à Ucrânia. Para quê? Para forçar flexibilidade da Federação Russa e obter o tal telefonema no dia anterior. Portanto, isto é um pouco maquiavélico.
Agora parece tudo possível de acontecer.
Mas se calhar não ando muito longe disto. Portanto, a reunião com Zelensky não era pra entregar os Tomahawks. Era para ameaçar dar consistência à tese dos Tomahawks junto de Putin. E sai daí aquilo que Putin queria. "Eu, pelo menos durante 15 dias, tenho que adiar esta cena dos Tomahawks. Pra isso, preciso de uma reunião". Com Trump, e vem daí esta questão da reunião de Budapeste. Ganhar 15 dias aqui para não haver, para já, a decisão dos Tomahawks e Zelensky voltar para casa sem ter esta questão absolutamente resolvida, convencido que, como tinha acontecido em Anchorage, nestas reuniões entre Vladimir Putin e Donald Trump, Putin tem um certo ascendente sobre Donald Trump, e que desse ascendente resultará que os Estados Unidos irão rever definitivamente a sua posição sobre os Tomahawks. Portanto, esta é a maneira como eu olho para o desenvolvimento desta questão dos Tomahawks. A União Europeia ficou assustada com duas coisas. Primeiro, com uma reunião entre Putin e Trump, porque já tínhamos visto o que tinha acontecido no Alasca, em que Trump tinha deixado cair a opção fundamental que era a do cessar-fogo imediato e se tinha deixado enredar pela novela da Federação Russa de que o que é preciso é resolver as causas de longo prazo. E as conhecidas a consequência de Anchorage, que agora a Federação Russa vem lembrar de vez em quando a dizer: "Atenção que não foi isso que tínhamos combinado em Anchorage". A União Europeia ficou preocupadíssima com esta questão. Mais preocupada ficou com o ênfase que era dado a Budapeste e a Viktor Orbán. As duas partes, ao escolherem Budapeste como local de reunião na Europa, queriam provocar uma enorme humilhação à União Europeia, ao Conselho Europeu, ao Parlamento Europeu, enfim, a tudo aquilo que são as instituições criadas para o desenvolvimento da União Europeia. Estas duas questões estavam complicadas e isto obrigou a União Europeia a reagir a isto. E reagiu como? Conseguindo a aprovação do 19º pacote de sanções. Eventualmente, alguns fundos terão avançado para os mais reticentes. Terá havido aqui o desvio de alguns fundos para lá, mas aprovou-se. Isto é importante. E é importante se também articulado com uma mudança de posição substancial dos Estados Unidos, que é a de impor sanções à Federação Russa. Isto é absolutamente novo, isto ainda não tinha acontecido.
Tinha havido a ameaça, mas ainda não tinha sido colocado em prática.
Ainda não tinha acontecido desde que Donald Trump é presidente neste seu segundo mandato. E há aqui uma alteração política que também é relevante, que é os Estados Unidos mostram que estão disponíveis para, afinal, avançar com sanções sobre a Federação Russa. Putin já veio reagir, dizer que isto é muito grave o que se está a passar, que a Federação Russa vai conseguir ultrapassar estes problemas todos, mas, na verdade, há aqui um acumular de pressão que provavelmente Putin, com o seu telefonema de quinta-feira, não estaria a antecipar. O plano que Putin tinha era manter tudo isto calmo agora durante 15 dias, à espera da reunião e da preparação, que se não fossem 15 dias, fossem três semanas ou quatro semanas, ainda melhor, mas pôr aqui alguma água na fervura. Os acontecimentos tomaram uma outra direção, um outro ímpeto. Vamos ver agora, no final, há uma coisa que ainda está no ar. A Índia vai continuar a importar o petróleo da Federação Russa. É que há já muitos analistas a dizer que a Índia está a preparar-se para alterar esta sua posição, o que deixaria a China bastante isolada neste contexto. Temos aqui muita matéria para acompanhar nos próximos dias, mas estes 15 dias foram muito ricos em acontecimentos.
Vamos até ao Médio Oriente, General. Todos sabíamos como eram frágeis as condições para a manutenção de um cessar-fogo em Gaza. A verdade é que, em termos globais, ela se tem mantido, mas para relembrar as partes que Trump pretende que o cessar-fogo continue, enviou esta semana o número dois, o seu vice-presidente J.D. Vance, ao Médio Oriente. Que balanço podemos fazer de tudo o que se passou por lá?
Nós temos consciência, naturalmente, que as condições do cessar-fogo são todas elas muito frágeis. Elas não se resolveram nem com declarações de um dia, nem com a assinatura do plano Trump e a congregação de um conjunto de esforços entre atores importantes ali no Médio Oriente. Não. Isto precisa de ser acompanhado, porque é frágil. Os Estados Unidos não se podem desligar do assunto do cessar-fogo, porque se se desligarem, as partes vão recomeçar outra vez as hostilidades. Há consciência nos Estados Unidos, o envio de Witkoff, outra vez, de Jared Kushner, do vice-presidente Vance e de Marco Rubio, todos numa semana, constituem o fundamento da nossa avaliação de que, na verdade, os Estados Unidos levam muito a sério esta questão e os riscos também que o cessar-fogo está a ocorrer, sobretudo depois daqueles incidentes de domingo, em que houve morte de soldados israelitas e uma resposta de Israel sobre a Faixa de Gaza. E os Estados Unidos sentiram que o cessar-fogo, não vamos falar em paz, paz é um conceito muito mais abrangente, que o cessar-fogo estaria em risco e tinha que investir os seus pesos pesados. Na verdade, só faltou Trump voltar lá. Mandou todos os pesos pesados que havia na administração para procurar uma coisa E é este talvez o ponto mais importante. Este cessar-fogo não é um cessar-fogo normal. Este é um cessar-fogo imposto às partes. Este cessar-fogo não era desejado por nenhuma das partes. Isto faz toda a diferença.
Por ser qualquer coisinha.
É que quando um cessar-fogo resulta de um processo natural de esgotamento de recursos, de incapacidade de continuar a combater, as duas partes têm a tendência de querer chegar a um acordo e querem suspender as hostilidades. Mas quando ele é imposto, e ele foi imposto às partes pelos Estados Unidos e pelos parceiros dos Estados Unidos no Médio Oriente, portanto, diretamente a Israel, por imposição dos Estados Unidos, e imposto ao Hamas, indiretamente, também pelos Estados Unidos, mas indiretamente, através dos Estados árabes e muçulmanos que apoiam o Hamas. Portanto, as duas partes foram compelidas a aceitar o cessar-fogo. Conclusão: o que é que resulta daqui? Resulta daqui um processo que é muito comum, é o processo das queixinhas. Quer dizer, qualquer coisa, as partes utilizam como: "Estão a violar o cessar-fogo e eu, portanto, agora já estou desligado dos compromissos". O que é que fizeram os Estados Unidos? Têm estado a fazer desde a última semana, é a desvalorização desses incidentes. Não é dizer que eles não aconteceram, eles não têm a importância nem a relevância que leva que agora vamos cancelar o cessar-fogo só porque aconteceu isto. Portanto, façam o favor de ter calma e de acomodar, na medida do possível, este incidente. É isto que os Estados Unidos estão a fazer neste momento, e estão a fazê-lo investindo todos os pesos pesados da administração Trump. Conseguir desvalorizar os incidentes para que o cessar-fogo não seja rompido e haja condições para aquilo que está a ser feito, ainda um bocadinho na sombra, mas que nós, aqui e ali, já nos vamos apercebendo, que é o contacto com os vários países que podem estar eventualmente disponíveis para a tal força de estabilização, o levantamento daquilo que podem ser algumas personalidades palestinianas que possam vir a integrar, de um ponto de vista tecnocrático, uma futura administração em Gaza, o estabelecimento de um quartel-general que estará situado em Israel, mas com os olhos postos em Gaza para acompanhamento e monitorização de toda esta situação. Isto não é muito público, mas isto está a ser feito. Mas para acontecer, é preciso que o cessar-fogo se mantenha. E por isso, para conseguirmos avançar para a segunda fase do plano Trump, temos que manter a primeira fase, pelo menos, sem hostilidades de grande monta. E é isso que a administração Trump fez durante esta semana.
No início desta semana, na terça-feira, houve uma reação russa à decisão do Trump de cancelar, pelo menos para já, a reunião de Budapeste com Vladimir Putin. Dmitri Medvedev saltou imediatamente para as redes sociais, acusou Washington de estar em rota de guerra com Moscovo. General, não sendo de novo este estilo do antigo presidente russo, que cortina de fumo é esta que ele nos traz?
Há aqui duas linhas discursivas, e isto é muito interessante de analisar. Vamos deixar Medvedev para a segunda parte. Vamos ver o que foi a resposta do Ministério dos Negócios Estrangeiros através de Maria Zakharova. Foi uma reação muito contida. O que ela basicamente disse? Disse que o adiamento desta reunião e que as sanções dos Estados Unidos do ponto de vista econômico, são contraprodutivas para o processo de paz na Ucrânia. Portanto, vejam só a subtileza destas palavras, de uma reação muito soft. Putin também veio falar, entretanto. Putin também veio dar a sua opinião. Está convencido que a reunião não está cancelada, que está apenas adiada, que se irá encontrar uma nova oportunidade para isso. Fala que a Federação Russa não ficou nada satisfeita com a questão das sanções, mas que acha que vai conseguir, do ponto de vista econômico, acomodar tudo isto. E nesta primeira linha discursiva, há um aspecto que é o aspecto sobre o qual eu quero chamar a atenção. Não aparece Trump nestas declarações oficiais, nunca aparece Trump. Aparece os Estados Unidos. Os Estados Unidos fizeram isto. Há uma maldade aqui, de acordo com a Federação Russa, há uma maldade, o autor dessa maldade são os Estados Unidos da América.
E não é só o Trump.
E é aqui que está a cortina de fumo, são os Estados Unidos. Trump nunca é hostilizado do ponto de vista oficial. Trump é o maior ativo que a Federação Russa alguma vez teve nos Estados Unidos. Não há outro, nem é substituível. E portanto, todo o cuidado que é colocado nas declarações é sempre: se houver uma maldade, são os Estados Unidos. Se houver compreensão no processo, é Trump. Trump é a personalidade que compreendeu todo este processo. Isto é muito interessante, é interessante esta leitura. Há um culpado, são os Estados Unidos, mas não é Trump, porque Trump é o melhor ativo que a Federação Russa alguma vez descobriu ou teve na presidência dos Estados Unidos. Medvédev é o contrário. Medvédev é aquilo que nós lemos. Quando nós lemos a imprensa russa, Medvédev é a voz dessa insatisfação, que acha que não, que Trump é que é mesmo o culpado disto e que Trump mudou de posição e passou a ser um inimigo da Federação. Medvédev nunca poupou nas palavras, mas já não fala nos Estados Unidos. Medvédev põe um nome em vez dos Estados Unidos, diz Trump. Isto é interessante porque estamos a ver aqui uma linha discursiva distinta, que é, do ponto de vista oficial, preservar a figura de Trump, do ponto de vista do sentimento popular, é chamar os bois pelos nomes.
Falou de perspectivas. O nosso Ponto Mira foca-se hoje numa sondagem realizada este mês sobre o que pensam os cidadãos europeus relativamente à Federação Russa, à Ucrânia e também os respetivos líderes. Que conclusões podem tirar desta sondagem?
Muito interessante, sobretudo que esta sondagem surge numa altura muito interessante, porque estamos no mês que se segue àquele mês de setembro, que foi o mês das violações do espaço aéreo, dos drones a entrar no espaço da União Europeia, dos drones a sobrevoarem e a deixarem em terra milhares de passageiros que viram os aeroportos encerrados, etc. Esta sondagem também nos mostra como é que nós, europeus, reagimos a todos estes acontecimentos de setembro. E os resultados são contrários à Federação Russa. É isto que é importante e que me parece importante salientar. É que houve um aumento significativo na perceção dos europeus, sobretudo dos franceses, porque a França é um dos países consultados, sobre aquilo que é a ameaça que a Federação Russa coloca aos países da União Europeia. Em setembro era de 72%. Havia 72% dos franceses que consideravam que a Federação Russa era uma ameaça à União Europeia e à sua soberania. Passou de 72 para 80%. Houve um salto brutal. Aquilo que foram aquelas todas tentativas de desestabilização provocadas pela Federação Russa, tiveram nos europeus uma resposta diferente. Quer dizer, passamos a considerar que, na verdade, a Federação Russa está hoje em dia mais agressiva e que constitui uma ameaça à soberania dos países da União Europeia. Isto não foi feito só em França. Também houve outros países onde isto foi feito: a Alemanha, a Itália, o Reino Unido.
São muito diferentes, ou não?
Não, e o resultado é muito semelhante. 78,9, portanto 79% dos cidadãos destes países da União Europeia consideram a Federação Russa como uma ameaça à soberania dos países da União Europeia. E portanto, todas estas tentativas de nos assustar tiveram também como efeito, por um lado, aumentou a opinião favorável a Zelensky, aumentou o apoio popular à Ucrânia e passamos todos a considerar que a Federação Russa é, na verdade, uma ameaça à soberania dos países da União Europeia.
General Arnaut Marão, muito obrigada por mais um Domínio da Guerra. Até para a semana.
Bom fim de semana para todos.