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Este é o som de O Domínio da Guerra da Rádio Observador, sempre com o major general Arnaud Moreira. Bem-vindo!
Olá, muito bom dia a todos.
Bom dia. Esta foi uma semana de declarações contraditórias em relação ao estado das negociações sobre o cessar-fogo na Ucrânia. Washington mostrou-se razoavelmente otimista. Já o Kremlin falou sobretudo em obstáculos. General, é evidente que as negociações decorrem num ambiente de elevado secretismo, mas esta diferença de apreciações não nos deixam descansar.
Não nos deixam nada descansados. É evidente que, como disse, as negociações sobre o cessar-fogo na Ucrânia decorrem naquilo que poderíamos dizer o segredo dos deuses. Estes deuses são o deus Putin e deus Trump, são os dois deuses destas negociações. Mas isto parecem, sobretudo, negociações de natureza pessoal. Por quê? Porque não estão a envolver os departamentos de Estado como é normal neste tipo de negociações. Parecem duas pessoas sentadas que decidiram resolver um problema. E então têm dois enviados especiais, que não fazem parte da estrutura dos departamentos de Estado, e que funcionam como os mensageiros destas mensagens.
Vão dar recados.
É de natureza pessoal. Donald Trump tem uma confiança extraordinária em Whitkoff e o Putin mandou Kirill Dmitriev como o seu enviado especial. Isto foge um bocadinho aos cânones da diplomacia tradicional. Na verdade, parece que há duas pessoas que estão sentadas a uma mesa, uma mesa distante.
Sempre, não é como a nossa que estamos mais próximos.
Uma mesa distante em que vão enviando recados um ao outro. Mas tudo isto parece fugir um bocadinho àquilo que é a lógica da diplomacia tradicional, que é de envolver os departamentos de Estado, que os departamentos de Estado é que tratam dos interesses nacionais. Isto parecem interesses pessoais que estão em cima da mesa. Whitkoff esteve em São Petersburgo na sexta-feira da semana passada. Apareceu muito sorridente a cumprimentar um Vladimir Putin, também muito sorridente, em São Petersburgo, na biblioteca presidencial. E as negociações demoraram quatro horas. Há um detalhe nestas negociações: é que da última vez, Whitkoff fizeram-no esperar horas e horas. Desta vez não, desta vez tinha um cartão verde especial que lhe deu acesso imediato a Vladimir Putin. E nada transpareceu desta conversa, mas no regresso a Washington deu uma entrevista à Fox News e é importante reter aqui alguns elementos dessa entrevista. A primeira é de que nos veio dizer uma coisa que nós já sabíamos, mas é uma confirmação, de que Putin apenas está interessado numa paz permanente. Isto é, estas questões que Donald Trump tem levantado de procurar uma trégua, um cessar-fogo parcial, não é do interesse de Putin. Putin só quer parar as ações de natureza ofensiva quando tiver garantida a tal paz permanente. O que significa que há aqui dois objetivos que estão em contradição. O objetivo de Putin é o longo prazo, a paz permanente, o objetivo de Trump é o curto prazo, o cessar-fogo para mostrar resultados. E depois, numa espécie que eu considero ser um teste de reações, fez um conjunto de considerações sobre aquilo que são os desejos de Putin para esta negociação. E disse coisas absolutamente interessantes. Diz assim: as garantias de segurança que Putin pretende estão relacionadas com os cinco territórios. Os cinco territórios são aqueles territórios todos que nós conhecemos, mais a Crimeia. E além dos cinco territórios, há também aquilo que ele chamou protocolos de segurança, que nos deixou assim um bocadinho no ar e perante este deixar-nos no ar, ele entendeu que deveria dar mais detalhes sobre o que são estes protocolos de segurança. Quer dizer, não à NATO. Ficamos na dúvida este não à NATO, se o não à NATO é o desaparecimento da Aliança Atlântica em si, se é o não adesão da Ucrânia. O Whitkoff não esclareceu isso. Deixou esta dúvida no ar, mas ficou aqui o não à NATO é uma nota importante. E depois entendeu que talvez fosse interessante esclarecer um bocadinho mais. Quer dizer, NATO, quer dizer, não ao artigo quinto. Isto afinal já não parece ter a ver com a Ucrânia. Isto tem a ver com o fato dos Estados Unidos se desligarem das obrigações do artigo quinto, podendo manter a NATO. A NATO é uma espécie de um clube em Bruxelas, onde se reúnem as elites americanas e europeias pra tomar um café. A NATO sem artigo quinto, na verdade, não existe. É um clube de pensamento, é um think tank De pensamento político ou estratégico. Portanto, isto mostra que Putin não está apenas interessado em resolver a questão da Ucrânia, está interessado em aprofundar com os Estados Unidos a possibilidade de os Estados Unidos se desligarem da cláusula da NATO, do artigo quinto. Isto abre perspectivas muito preocupantes, naturalmente, do ponto de vista da segurança, e abre também enormes expectativas sobre o que é que se vai passar na cimeira da NATO, que é agora em junho. Depois daqueles problemas todos, deixou uma nota de esperança, que é: nós podemos estar à beira de algo que seria muito importante. O muito muito é importante aqui.
Um reforço. Não é só muito, é muito muito.
É muito muito importante para o mundo em geral. Só que ficamos na dúvida, mais uma vez, se este muito muito importante diz respeito às relações entre os Estados Unidos e a Federação Russa ou se isso tem alguma coisa a ver com a Ucrânia. Portanto, houve uma palavra que-
O general retira daí
... que eu retiro daqui, foi uma palavra que ele expressou e que resume um bocadinho esta semana e esta sua ida. É a palavra convincente. Ele utilizou a palavra convincente, isto é, as negociações com Putin foram convincentes e, do meu ponto de vista, ele saiu convencido.
Ele, sim.
Ele, sim. Ele é que saiu convencido.
Mas nós não estamos convencidos de nada.
Mas não era bem isto. Ele deveria ter ido lá para convencer, mas ele saiu de lá convencido. Ele parece absolutamente rendido à argumentação de Moscovo. Aliás, repete-a sem pestanejar. Ele quer dar uma vitória rápida a Trump. Ele sabe que a sua missão é essa, dar uma vitória rápida a Trump, nem que se tenha que ajoelhar perante o Kremlin. Bom, o que é que disse Zelensky? Zelensky ficou irritadíssimo com o conteúdo desta entrevista. E numa conferência de imprensa que deu, aliás, com Mark Rutte, que foi a Odessa, disse: "A Ucrânia é um Estado soberano e todos os territórios pertencem ao Estado unitário da Ucrânia. Isto é uma linha vermelha que nós não vamos ultrapassar". E portanto, Zelensky respondeu à letra que esta coisa dos cinco territórios, comecem, por favor, a tirar o cavalinho da chuva, porque a Ucrânia não vai ceder territórios. E o que diz Moscovo sobre isso? Moscovo também disse coisas sobre isso. O porta-voz do Kremlin, o Dmitry Peskov, veio dizer o seguinte: não há um esboço claro de um acordo entre os Estados Unidos e a Rússia. Isto é o contrário do convincente e do otimismo que reina em Washington. Diz que os contactos com os Estados Unidos foram positivos e úteis, mas não existe nenhum calendário relativamente àquilo que é o acordo de paz. E Lavrov veio também acrescentar: não é fácil concordar com os aspetos essenciais de um possível acordo de paz. E tornou a acrescentar que a única forma de resolver um conflito é o de eliminar as suas causas. Portanto, Moscovo está sempre a pôr tudo no ponto zero outra vez, enquanto Washington estão à beira de um grande acordo extraordinário. Isto é como dois cozinheiros que estão na cozinha.
Dois chefs.
Dois chefs que estão na cozinha. Um põe sempre o lume no máximo e depois vem e põe a água fria.
Isso.
Vem misturar a água fria. Portanto, é assim que estamos. Entretanto, Marco Rubio e Whitkoff estão desde quinta-feira em Paris. Vêm provavelmente dar conta daquilo que foi a conversa de Whitkoff com Putin, certamente, e quererão ouvir a opinião da Europa. Não sei se será muito mais do que ouvir a opinião da Europa, mas a Europa terá, pelo menos, a oportunidade de expressar a sua opinião. Ainda voltaremos a esta questão.
Com certeza. Entretanto, o que é certo, general, é que enquanto se mantém o impasse nas negociações sobre o cessar-fogo global na Ucrânia, a Federação Russa lançou um ataque com dois mísseis balísticos sobre a cidade de Sumy durante o Domingo de Ramos. O resultado foi trágico, com dezenas de mortos e uma centena de feridos. Que explicações é que encontra para este ataque?
A tragédia de Sumy é a repetição de um padrão que já aconteceu várias vezes, em que um conjunto muito significativo de alvos de natureza civil são bombardeados por mísseis de precisão da Federação Russa, sem que seja possível encontrar uma boa explicação que levou a essa decisão. Ainda mais, esta foi no Domingo de Ramos, numa altura especialmente crítica, em que as pessoas estavam umas na rua, outras nos serviços religiosos relacionados com o Domingo de Ramos. Os Estados Unidos, do ponto de vista oficial, reagiram de uma forma descuidada, que foi: os Estados Unidos não apoiam a declaração que o G7 queria fazer, portanto, bloquearam a decisão do G7 de condenar o ataque no Sumy. Esta é a posição oficial dos Estados Unidos. Mas depois houve diferentes reações de acordo com as personagens. Marco Rubio, logo no domingo, expressou as suas profundas condolências pelo ataque e a forma como o fez parecia um diplomata ocidental europeu a fazê-lo. Isto é Ele tem uma atitude bastante mais polida nesta administração, que o aproxima em muitos pontos daquilo que são as posições ou europeias ou o modo de se expressar sobre a política internacional que a Europa faz. Marco Rubio, eu não diria que ele está à margem do resto da administração, mas ele parece bastante mais alinhado e sensível à defesa das questões da Ucrânia e das posições europeias. Já do ponto de vista de Trump, a sua primeira reação foi extraordinária. Foi dizer que os russos tinham cometido um erro, mas nunca disse se este erro foi um erro porque eles devem ser condenados, isto é, não deveriam ter feito isto, ou se foi um erro que aconteceu do ponto de vista técnico e que não deveria ter acontecido. Portanto, não houve nenhuma elaboração de natureza moral sobre a natureza desse erro. E além disso, aproveitaram imediatamente dizer que a culpa é de Joe Biden.
Joe Biden, sim, voltou outra vez a falar de Joe Biden.
E de Zelensky, eles é que são os culpados pela guerra. Bom, também estive a ver a TV russa. Como é que a TV russa relatou os acontecimentos? Solovyov, que é o grande astro da televisão russa e da propaganda do Kremlin, veio a público dizer: "O que se está a preparar no Ocidente é preparar uma nova encenação do tipo Bucha 2". Isto é, foi tudo encenado. O Ocidente o que está a preparar é para transformar aquilo que aconteceu em Sumy.
Mantém esta narrativa.
Exato, mantém a narrativa de que o Ocidente está a exagerar relativamente a tudo isto, está a procurar construir uma nova Bucha 2. E, portanto, o que interessa reter finalmente disto? A Rússia não vai ganhar militarmente nenhuma guerra fazendo este tipo de operações contra civis. A Rússia veio dizer, aliás, Lavrov já o veio dizer, que havia uma reunião de militares na cidade. Não está provado em lado nenhum que essa reunião existisse. E essa reunião não era uma reunião qualquer, era uma reunião entre dirigentes da Ucrânia e pessoal da NATO. Ora, como é que nós escondemos no Ocidente os mortos da NATO? Não é fácil de esconder. Portanto, ele veio acrescentar que estavam todos à civil. Pronto, e portanto, isso poderia mostrar que no meio daquelas imagens todas, alguns seriam os tais mercenários ou os oficiais da NATO que estariam nesta reunião. Enfim, para a narrativa russa, o Ocidente o que está a fazer é procurar construir aqui um cenário tremendo de encenação para culpar a Rússia, quando a Rússia não foi nada responsável por ter mandado dois mísseis Iskander contra o centro de uma cidade ucraniana no Domingo de Ramos.
A nossa cortina de fumo regressa hoje à Bielorrússia, onde inesperadamente o presidente Lukashenko anunciou a disponibilidade para receber 150 mil trabalhadores do Paquistão. Djaló, o que se está a passar com a Lukashenko na Bielorrússia?
Lukashenko tem vindo muitas vezes aqui ao nosso programa, Ao Domínio da Guerra. É uma figura que tem tido muito destaque no nosso programa. Pois ele recebeu, no dia 10 de abril, em Minsk, a visita oficial do primeiro-ministro do Paquistão, Shehbaz Sharif, e disse coisas absolutamente extraordinárias. Disse, por exemplo: "O Paquistão tem muitas pessoas que estão dispostas, disponíveis e querem muito vir trabalhar na Bielorrússia". Isto é uma declaração absolutamente extraordinária, pensar que a juventude do Paquistão não anseia com outra coisa que não seja ir trabalhar para a Bielorrússia. E depois que a Bielorrússia iria criar as condições necessárias para o seu emprego. Isto é, bom, mas então os empregos não existem já.
Se é que são tão atrativos.
Se é atrativo, os empregos não existem já na Bielorrússia, vai criar condições para o seu emprego. Isto é tudo muito estranho. E isto só tem uma explicação, e é por isso que isto é uma enorme cortina de fumo. Em 2021, 2022, houve uma enorme crise nas fronteiras da Bielorrússia com os países da União Europeia que fazem fronteira. Polônia, Letônia, Lituânia, que fazem fronteira com a Bielorrússia, que foram migrantes que vieram de todo o mundo através de voos comerciais para a Bielorrússia, cujo destino era entrar nas fronteiras da Europa. E o que se está aqui a preparar é um bocadinho isto: estas pessoas não querem sair do Paquistão para ir trabalhar na Bielorrússia. Estas pessoas querem sair do Paquistão para ficar a 20 metros de saltarem as barreiras que lhes permitem entrar na Europa, onde elas querem ir trabalhar em Berlim, não querem ir trabalhar em Minsk. Ninguém quer ir trabalhar em Minsk. E portanto, o escândalo é tão grande que à custa desta imagem de que estes trabalhadores vêm trabalhar para a Bielorrússia, se vai abrir uma linha comercial de aviação que liga o Paquistão à Bielorrússia e que vai passar a ser utilizada por todos os imigrantes da Ásia que querem vir para a Europa. A Bielorrússia prepara-se para colocar dezenas de milhares De pessoas, de um ponto de vista oficial na Bielorrússia, mas que provavelmente vão se sentir muito atraídas para saltar as barreiras e entrar na Europa. Portanto, a Bielorrússia está a transformar-se num Estado que está a ficar refém de redes de tráfico de pessoas que vão utilizar estes acordos para, através das ligações aéreas comerciais, enviarem pessoas que querem entrar na Europa e colocá-las a 20 metros dessa Europa. É a isto que nós estamos a assistir aqui. Enfim, era bom que estivéssemos atentos a esta situação.
Muito atentos, é mesmo. O nosso ponto de mira de hoje incide sobre o general Kellogg e a entrevista ao The Times. O artigo com o título: "Enviado de Trump: a Ucrânia pode ser dividida como Berlim no pós-guerra", lançou a confusão entre os aliados ocidentais. Kellogg que depois veio, entretanto, dizer que foi mal interpretado, mas, general Arno Moreira, a confusão já estava lançada.
Já estava lançada. Vamos lá ver, se Kellogg tinha algo de muito importante a dizer, não o ia fazer ao The Times, que é um jornal, uma espécie de um tabloide inglês. Tem certamente outros meios de mídia para poder fazer isso, o que significa que foi mal escolhido. Depois foi mal escolhido e houve dois enormes problemas. Primeiro problema é que Kellogg já não faz parte deste núcleo das negociações. Portanto, nós não sabemos se aquilo é uma posição sequer de natureza institucional ou se é a sua opinião pessoal sobre o assunto. Depois, segundo aspecto da confusão, o The Times fez um gráfico que pintou com cores diferentes, utilizando um exemplo histórico desadequado para a realidade ucraniana, que nos levou a pensar que afinal a Ucrânia ia ser repartida e que esse era o plano norte-americano, entregando uma área às forças britânicas e francesas, outra área aos russos e outra área aos ucranianos, uma espécie de uma repartição da Ucrânia. O mapa também não ajudou. Ajudou, sim, à enorme confusão.
O problema é que depois há quem veja esse gráfico e não faz mais sentido.
Exatamente, não faz mais nada, porque o gráfico não foi feito por Kellogg, o gráfico foi feito com base nas declarações e nos exemplos de natureza histórica, foi feita pelo The Times. Mas se olharmos para o mapa, reparemos duas coisas importantes. O que ele diz basicamente é isto: a Ucrânia é um país suficientemente grande para poder acolher vários exércitos de vários países sem que eles entrem necessariamente em confronto uns com os outros. Este é um aspecto que é interessante. E depois, que as tropas americanas definitivamente não vão estar presentes e que a linha de contacto seria a linha do cessar-fogo e que haveria uma zona desmilitarizada, ainda com dimensões apreciáveis, 15 quilómetros para cada um desses lados. Isto ficou tudo afetado pela polêmica, mas há aqui assunto, certamente, para reflexão com base naquilo que foi esta proposta. Se ela é uma proposta de natureza pessoal ou se é institucional no sentido de testar as águas, é uma coisa que ainda vamos ter que ver.
Nos próximos tempos. General Arno Moreira, muito obrigada por mais um "Menino da Guerra". Até para a semana. Boa Páscoa para si também. Obrigada.
Muito obrigado.