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Olá, seja bem-vindo ao "Valor da Floresta", o podcast do Observador e da Navigator que nos faz olhar para a floresta com a atenção que merece pelo papel e contributo importante que tem para a sustentabilidade e também para o futuro do planeta. Eu sou a Maria João Simões. Neste episódio vamos falar sobre o momento em que tudo começa. O ato de plantar parece simples, mas na verdade, é um processo que exige ciência, técnica e uma visão a longo prazo. Portugal tem hoje conhecimentos, genética e tecnologia para uma silvicultura de excelência, mas como garantir que estamos a plantar da melhor forma possível para o futuro? Para nos ajudar a responder a esta e outras questões, a nossa convidada Margarida Tomé é professora e investigadora no Instituto Superior de Agronomia. Bem-vinda, professora, muito obrigada por ter aceitado o nosso convite.

E muito obrigada por me terem convidado e por me permitirem trocar aqui algumas ideias sobre a silvicultura no nosso país.

O tema deste episódio, professora: é possível criar melhores plantações. É possível?

Para abordar esse tema, temos que pensar na estrutura das plantações que temos no nosso país. No nosso país, nós temos, pensando numa determinada espécie, pode ser o pinheiro-bravo, pode ser o eucalipto, mas eu agora vou me focar no eucalipto, temos plantações florestais, que são geridas e que são plantadas para produzir madeira e, por outro lado, temos um conjunto cada vez maior de povoamentos florestais que não podem ser designados plantações, são povoamentos completamente degradados, que foram abandonados.

Não têm qualquer gestão.

Não têm qualquer gestão, que foram abandonados, particularmente após o fogo ou às vezes nem é só o fogo, mas vários cortes sucessivos. E isso é que é o grande problema da silvicultura. O problema em Portugal não é desconhecimento técnico. Nós temos o conhecimento técnico para fazer uma boa silvicultura, quer seja uma silvicultura de plantações, quer seja uma silvicultura diferente, mais próxima da natureza, que é também tão importante como a silvicultura das plantações. Aqui só para falar um pouquinho de plantações. Eu trabalho bastante com plantações, nomeadamente no Instituto Europeu da Floresta Cultivada, e também temos associação com vários outros países no mundo. E de fato, as plantações florestais ocupam hoje 7% das florestas do mundo inteiro, mas são responsáveis por mais de dois terços da madeira que é produzida. Ou seja, o mundo está cada vez a ter mais pessoas, cada vez precisa mais de madeira, não só para os usos tradicionais da madeira, mas também para os novos usos, porque nós hoje em dia todos queremos ver-nos livres dos combustíveis fósseis. E o grande substituto dos materiais que são construídos com base nos combustíveis fósseis é a madeira. Portanto, nós cada vez vamos precisar de mais madeira. E se queremos preservar as florestas naturais, as plantações são a grande solução. Portanto, as plantações vão ter um papel extremamente importante no planeta. Não estou a falar só ao nível de Portugal. Em Portugal, obviamente, também têm um papel importante, mas infelizmente, grande parte das nossas áreas, que a maior parte das pessoas julgam que são plantações florestais, não são, são povoamentos degradados, sem qualquer gestão. E aí é que nós temos que atuar para melhorar a silvicultura.

Mas, professora, quando olhamos para a silvicultura portuguesa hoje, diria que estamos melhor do que há 20, 30 anos?

Sim, estamos melhor há 20, 30 anos.

Há ainda muito trabalho para fazer.

Sim, especialmente em dois aspectos, porque quando nós falamos de silvicultura, ou de gestão florestal, melhor dizendo, nós temos que focar dois tipos de gestão florestal. Nós temos uma gestão florestal que é feita ao nível de cada povoamento florestal, e um povoamento florestal é uma área mais ou menos homogênea do ponto de vista da composição e da estrutura do povoamento. Quando eu digo composição e estrutura é: uma área com muitas espécies pode ser um povoamento, porque ela é homogênea. Ela tem é muitas espécies, mas a mistura de espécies é a mesma. E o mesmo com a estrutura. Há povoamentos em que todas as árvores têm a mesma idade, geralmente as plantações são desse tipo, mas depois há outros povoamentos em que temos árvores de vários tamanhos misturadas umas com as outras. E aí, nós temos melhorado bastante a nossa silvicultura ao nível do povoamento. Só que a gestão florestal é muito relevante ao nível de uma área maior, porque a maior parte dos serviços do ecossistema não existem ao nível de cada povoamento, existem ao nível de uma área grande bem gerida. E aí é que a grande falha em Portugal é nós não conseguirmos fazer uma gestão ao nível de áreas maiores, a uma escala maior. Portanto, o problema da silvicultura em Portugal não é técnico, é evidente que do ponto de vista técnico, nós continuamos a fazer investigação e há sempre a possibilidade de melhorar, porque o nosso conhecimento vai aumentando, mas o grande problema é socioeconomic e político. Há que resolver o problema das áreas não geridas. E essas áreas não são geridas, primeiro porque, especialmente no norte do país, grande parte dessas áreas, os donos nem sequer sabem onde é que elas estão. O problema maior ainda, na minha opinião, é a falta de rentabilidade da floresta portuguesa, porque se a floresta fosse rentável, aqueles proprietários que não sabem onde é a sua propriedade, de certeza que iam descobrir.

Claro, pois.

E tirar partido dela. O grande problema da nossa floresta é a falta de rentabilidade. Eu trabalho na análise da rentabilidade da floresta e por mais contas que nós façamos, a única espécie que é verdadeiramente rentável é o eucalipto. E mesmo assim, tem que estar colocado em sítios bastante produtivos. E aí é que eu penso que o problema tem que ser atacado, porque de uma maneira geral As pessoas que vivem nas zonas urbanas e que hoje em dia são a maioria, têm uma ideia de floresta selvagem, onde não é preciso atuar, tipo floresta do Capuchinho Vermelho, quase. E isso não é a floresta real. A floresta, se for abandonada, fica tal e qual como aqueles povoamentos de que eu falei, que não têm qualquer gestão, que são completamente degradados e que não têm qualquer valor em termos de serviço ecológico ou têm qualquer também, na verdade. Têm pouco.

Têm pouco, para não ter qualquer.

Sim. Portanto, nós devíamos fazer uma gestão ativa.

Esse é o grande desafio, não é?

Esse é o grande desafio, é valorizar as zonas rurais, valorizar as profissões relacionadas com o mundo rural, que hoje em dia são totalmente desvalorizadas, são profissões extremamente duras e pouco valorizadas do ponto de vista monetário e muito exigentes. Portanto, há que tomar medidas para tornar a floresta mais rentável, quer seja aumentando o preço do produto, quer sendo valorizando os serviços do ecossistema. Haverá imensas maneiras, mas aí é que nós nos devíamos todos juntar, reconhecer que há um problema.

E encontrar soluções em conjunto.

Porque a primeira etapa para resolver um problema é reconhecer que ele existe.

A Margarida Tomé é professora no Instituto Superior de Agronomia, como eu disse no início. Que papel tem hoje a formação, mas também a transferência de conhecimento da academia para o terreno?

Tem um papel muito grande. Infelizmente, eu penso que nós temos falhado um pouco. Por quê? Porque não conseguimos atrair alunos. Nós tentamos, nós temos trabalhado nas mídias sociais, mas, de fato, há muitos jovens.

Mas para quê tornar a área mais apelativa?

Para tentar explicar aos jovens, porque eu penso que os jovens, e também os professores deles do ensino secundário, associam a floresta à exploração, extração. As pessoas só querem é ganhar dinheiro e não sabem, eu penso que não sabem, que os florestais são os verdadeiros gestores da natureza. Na Biologia também contribuem, porque hoje em dia todas as equipes têm que ser multidisciplinares, mas na Biologia aprende-se mais o funcionamento, enquanto que nós aprendemos o funcionamento e aprendemos a gestão. Nós, na floresta, gerimos plantações. As pessoas geralmente não gostam de plantações, embora elas sejam extremamente úteis, como eu já tentei explicar. Mas uma floresta, em qualquer meio ambiente, existe aquilo que nós chamamos de uma sucessão ecológica. E começa-se por uma zona degradada, que não tem nada, vão se desenvolvendo os musgos, os líquens, os arbustos, depois vêm certas espécies de árvores, que são as árvores pioneiras, que não são muito exigentes em solo. E as pioneiras, por exemplo, são o pinheiro-bravo e o eucalipto. E depois, mais tarde, quando aquelas árvores já fizeram o seu trabalho, desenvolveram um pouco mais o solo, virão as outras árvores que as pessoas gostam. Vêm os castanheiros, vêm os carvalhos, vêm numa fase mais avançada.

É engraçado a violência do senso, as árvores que as pessoas gostam e as que não gostam.

É verdade.

É mesmo assim que acontece.

O que acontece? Quando, em 1938, houve o plano de repovoamento florestal e foi plantado pinheiro por todo lado, independentemente de dever ser plantado em todo lado ou não, mas foi uma medida adequada, por quê? Porque o solo estava degradado, não era possível plantar outro tipo de floresta. A ideia poderia ter sido: o que nós fazemos, florestais? Nós tentamos acelerar a sucessão ecológica. No fim de um povoamento de pinheiro-bravo, nós temos duas hipóteses: ou cortamos e replantamos de novo e portanto voltamos atrás na sucessão ecológica.

Claro, exato, como dizia.

Ou fazemos uma gestão que nós chamamos close to nature, em inglês, portanto, próxima da natureza, que é, em vez de cortar o povoamento todo de uma vez, vamos abrindo clareiras, vamos favorecendo as espécies de folhosas que aparecem lá. Quando elas não aparecem, até as plantamos, porque às vezes há espécies de luz, que mesmo que as clareiras que abrimos sejam um pouco grandes, elas acabam por não aparecer, porque estão ensombradas. E ao fim de algum tempo, nós temos uma floresta com várias espécies, com árvores de várias idades, que também produzem madeira, mas que em termos de serviços do ecossistema, têm um leque de serviços do ecossistema mais variado. Aqui em Portugal nunca se chegou a essa fase. Portanto, nós plantamos pinheiro, ardeu. Basicamente foi isso.

Acabou o ciclo, não é?

E acabou o ciclo. Portanto, voltamos atrás. Em vez de avançar na sucessão ecológica, voltamos atrás. Pode perguntar: "Mas por que ardeu?" Porque um problema que existiu foi, de uma maneira geral, a dada altura, houve um programa em Portugal que era para a plantação de terrenos agrícolas. Quando eu acabei de sair do instituto, fui trabalhar, era o Fundo de Fomento Florestal. E a ideia era ajudar os proprietários privados a fazer plantações e depois, era o Estado que pagava, quando eles começassem a receber receitas, 60% era para o Estado, 40% era para eles até pagarem a dívida. O que aconteceu? Não houve gestão, só houve plantação. E como não houve gestão, o que aconteceu? Acabou por arder quase tudo e não se ter tirado partido e aquele ciclo.

Partido até desse investimento.

E o investimento perdeu-se. Portanto, eu penso que nós, florestais, biólogos, geógrafos também, devíamos nos juntar todos e tentar resolver o problema, mas temos que ter um apoio político, sem dúvida. Nós sozinhos, técnicos, não conseguimos resolver a questão.

E como é que se encontra o equilíbrio entre produtividade, sustentabilidade e a biodiversidade das florestas, professora? Dávamos para vários episódios essa pergunta.

Dávamos para vários episódios, mas de uma maneira geral, aí temos que pensar naquela gestão ao nível de uma área maior, de que eu falei há pouco. E se nós tivermos um mosaico com várias espécies, espécies de várias idades, até pode ser a mesma espécie, a Mata Nacional de Leiria tinha a mesma espécie e tinha a sua biodiversidade, porque havia uma série de aves e outros animais que gostavam daquele espaço em que havia árvores pequenas, ao lado estavam grandes, estavam médias, e a espécie até era quase sempre a mesma, embora em todas as linhas d'águas havia uma grande diversidade de espécies. E ao nível de uma área maior, isso geralmente é conseguido. Agora está a ver que com propriedades muito pequenas, a gestão a nível de uma área maior não é fácil. É esse o problema que nós temos que enfrentar. Hoje em dia há as IGP e parece que há algumas que estarão A fazer alguma coisa, eu não tenho estado muito bem dentro do problema, mas vai sempre ser difícil conseguir conciliar a opinião daqueles produtores todos, quando alguns nem sabem onde é a sua área. E segundo o meu colega Pedro Binho de Amaral, ele diz que até fizeram um estudo e chegaram à conclusão que 30% das áreas estavam em nome de pessoas mortas. Não foram sequer registadas. Mas eu digo-lhe uma coisa, eu além de professora investigadora, também sou produtora florestal, embora recente. E tudo o que tem a ver com a vida dos agricultores é extremamente difícil. Ser agricultor neste país tem uma burocracia acarretada que é difícil. Uma pessoa que tenha uma propriedade em nome de uma herança indivisa, para regularizar a situação, nem imagina o que é. E eu sou do sul.

O papel.

E eu sou do sul. No sul, as coisas são razoavelmente mais fáceis. No norte, eu acho que a burocracia também desincentiva. É a burocracia e é a falta de rentabilidade.

As pessoas chegam a desistir ou a não tirar o proveito que deviam por causa disso.

Sim.

O processo é tão longo e burocrático.

É isso que eu digo, costumo dizer que o problema da floresta não é técnico, porque técnico, melhor ou pior, acho que nós até conseguimos fazer uma gestão como deve ser. O problema é socioeconômico e político, portanto, tem que haver vontade política de resolver o problema.

Mas acha que há desempreso por parte dos nossos governantes? Têm outras prioridades?

Não sei. Eu acho que eles, muito possivelmente, não se aproximaram das zonas rurais e não conhecem aquilo que realmente se passa nas zonas rurais e depois tomam medidas que julgam que são boas e não são.

Parecem boas no papel.

Parecem boas no papel e que não são. Repare que, hoje em dia, a Autoridade Florestal Nacional, o ICNF, quando eu era jovem, os serviços florestais eram uma estrutura que localmente, regionalmente, tinha muitas pessoas a trabalhar. Hoje em dia é tudo central e a maior parte dos meus colegas que trabalham lá, todos eles muito competentes, não tenho razão de queixa de nenhum deles, mas estão sobrecarregados de burocracia. Eles vão ao campo, sim, mas não vão tanto como se ia na altura em que existiam as circunscrições florestais. Portanto, tem que haver um trabalho mais próximo dos proprietários, compreender os problemas que eles têm, porque é que eles às vezes não se interessam e tentar resolver o problema.

Professora, mesmo a terminar, de que forma que o planejamento florestal torna as florestas mais resilientes às alterações climáticas? Tínhamos falado das alterações climáticas.

Elas serão mais resilientes às alterações climáticas, mais resilientes aos problemas que as alterações climáticas nos trazem, nomeadamente fogos e pragas, porque a floresta ao nível de uma área maior tem que ter o tal mosaico de que eu falei há pouco. No caso dos fogos, uma ideia errada que existe é que as florestas têm que estar limpas. Não, o mato faz parte do ecossistema florestal. Agora, o mato tem que ser gerido de maneira a que não haja continuidade do mato com as copas, por exemplo, e que não haja continuidade também na horizontal, não pode estar tudo cheio de mato. Tem que haver uma gestão ao nível de uma área maior e tem que haver aquelas zonas que se chamam hoje em dia as faixas de gestão de combustível. Nessas faixas não há mesmo combustível e essas são as zonas onde será mais fácil combater o fogo. Eu já falei com pessoas nas zonas urbanas que pensam que com aquelas faixas o fogo chega ali e para. Não, se não tiver ali ninguém a combatê-lo.

Era bom, isso era uma solução maravilhosa.

Mas é mais fácil para os bombeiros e para os sapadores florestais apagarem o fogo nessas faixas onde o combustível está gerido. Agora, está a haver isto para a gestão. Há um proprietário em que a sua área calha em cima da faixa de gestão de combustível e o talado pode ter eucalipto. Não pode ser. Portanto, tem que haver uma espécie de gestão.

Tem que se olhar para o todo.

Tem que se olhar para o todo e arranjar métodos de governança em que se partilhe as responsabilidades e as receitas, não sei bem, não é essa a minha especialidade, mas aí é que reside o verdadeiro problema, é encontrar métodos de governança que façam com que a gestão seja feita ao nível de áreas maiores, especialmente nas zonas da propriedade pequena.

Professora Margarida Tomé, muito obrigada por ter vindo ao "Valor da Floresta". Foi um gosto conversar consigo. Muito obrigada. Eu sou a Maria João Simões, regresso dia 15 para mais um episódio. Até lá, não se esqueça do papel que todos temos para proteger a nossa floresta e contribuirmos para um futuro mais sustentável.