Esta transcrição foi gerada automaticamente por Inteligência Artificial e pode conter erros ou imprecisões.

Abrimos agora o novo gabinete de guerra para olharmos para o conflito na Ucrânia e vamos fazê-lo com a ajuda dos enviados especiais do Observador. É para Mykolaiv que vamos agora, em direto, ao encontro do Pedro Jorge Castro. Pedro, bom dia.

Bom dia, Maria João.

Olá, Pedro. Bom dia.

Bom dia.

Sim, avança. Ia perguntar porque estavas-

Sim. Estamos em Mykolaiv, no sul da Ucrânia. Houve uma explosão aqui nesta madrugada, por volta das 6h. Foi uma bomba de fragmentação, aliás, foram duas, que caíram aqui com cerca de 500 m de diferença. Em termos de danos pessoais, houve um ferido, numa coxa, mas isto provoca uma grande destruição. As bombas de fragmentação são proibidas pela Convenção de Genebra, precisamente pelo grau de destruição que provocam, pela falta de precisão em relação a qualquer alvo. São bombas que se desfazem em pequenos estilhaços assim que atingem o solo e provocam grande destruição à volta. E de facto, veem-se depois as marcas das balas, as marcas destes estilhaços em redor. Tenho um carro completamente destruído à minha frente. Sei que estiveram aqui os bombeiros a apagar o incêndio também numa loja de móveis.

Pedro, estamos com algumas dificuldades em ouvir-te.

Nos apartamentos aqui nesta vizinhança. Sim.

Estás com alguns problemas de rede.

Sim. E agora conseguem ouvir-me melhor?

Sim, parece que sim, estabilizou.

Muito bem. Vamos tentar então. Vou tentar não me afastar deste local onde me encontro. Aqui a cerca de 500 m caiu outra destas bombas mesmo em frente a uma paragem de autocarro. Não provocou vítimas, precisamente por causa da hora a que caiu, isto tem um objetivo intimidatório e também sem grande precisão em termos de alvos, não se pode dizer que haja aqui qualquer espécie de alvo militar, pelo menos visível. Mas estamos aqui numa zona que fica mesmo colada a Kherson, também aqui no sul da Ucrânia, que é a primeira cidade e o primeiro distrito completamente ocupado pelos russos. Esta é uma das frentes de batalha mais importantes, estamos aqui a cerca de 20 km da linha da frente. Se os russos conseguirem avançar e derrubar esta resistência ucraniana, têm o caminho livre praticamente até chegar a Odessa, que fica aqui a cerca de duas horas de caminho, e impedem qualquer ligação dos ucranianos ao mar. Acabam por controlar completamente o sul da Ucrânia, depois até à Moldávia. Esta é uma das batalhas mais importantes, as posições estão estáveis. Aqui vai havendo um controle, uma libertação e ocupação de aldeias sucessivamente, mas sempre aqui na fronteira, respeitando esta fronteira entre os distritos de Mykolaiv e de Kherson. Os ucranianos também não conseguem avançar para recuperar Kherson, que é a maior cidade ocupada pelos russos, por falta de armamento. Dizem que estão à espera ainda que chegue armamento dos Estados Unidos e de outros países europeus para conseguirem ter condições para fazer esse avanço. Mas também não permitem que os russos avancem aqui em direção a Mykolaiv e a Odessa, pelo que continua esta frente de batalha muito intensa, com bombardeamentos todas as noites. Um funcionário aqui da câmara com quem falávamos, dizia-nos que talvez só haja dois dias por mês em que não haja bombardeamentos durante a noite. Isto facto é audível, tanto ataques do lado de Mykolaiv para Kherson, como do lado dos russos aqui em direção a Mykolaiv.

E portanto estamos a falar aqui de uma zona muito estratégica, como explicaste. Sendo, Pedro, que Mykolaiv é uma das cidades mais destruídas neste conflito, que cenário é que têm encontrado desde que aí chegaram?

Mykolaiv tinha, antes da guerra, cerca de 500 mil habitantes. Neste momento, restam 300 mil, ou seja, 200 mil pessoas já fugiram. Refugiaram-se, foram procurar outros locais mais seguros, porque aqui, de facto, além destes bombardeamentos constantes e completamente aleatórios, com grande risco para as pessoas que aqui vivem no centro da cidade, desde o início da guerra, morreram 950 pessoas aqui em Mykolaiv. É um número bastante impressionante, mesmo até tendo em conta a totalidade do país, a proporção da totalidade do país. Além disso, há este perigo permanente, nunca se saber quando é que pode haver um avanço russo em direção a Mykolaiv, o que obviamente teria outro tipo de consequências. As pessoas não querem viver sob a ocupação russa, mas também não se querem ir embora, querem resistir aqui. A destruição começa desde logo pelo edifício da administração regional, o edifício da representação do governo aqui em Mykolaiv, que está ainda mais destruído do que aquele edifício que vimos em Kharkiv. Sendo que o ataque teve características muito semelhantes. Foi à mesma hora, 8h30 da manhã, quando a maioria das pessoas está a chegar ao trabalho. Foi no fim de março, 29 de março, que ocorreu este ataque. E a destruição é impressionante, porque é aquele edifício, quem já viu alguma fotografia recordar-se-á, mas quem não viu vou tentar descrever. É um edifício de nove andares, bastante imponente, mas que tem um retângulo gigante no meio, para aí seis andares, numa parte do edifício, que foi completamente destruído. Mantém-se apenas uma parte Do piso superior e, portanto, há um retângulo de céu no meio do edifício. O que é impressionante em termos da imponência da destruição que foi aqui atingida. Neste ataque, com um míssil, o funcionário que nos acompanhou até para mostrar a destruição do edifício, diz que o míssil foi direcionado especificamente ao quarto andar onde ficava o gabinete do administrador, o representante do governo aqui em Mykolaiv, Vitaliy Kim, e provocou 36 mortos. Morreram 36 pessoas neste ataque. Ele ia mostrando: "Olha, aqui estava um segurança", por exemplo, logo à entrada, que sobreviveu porque veio beber um café neste momento, a uma parte que não ruiu e mesmo ao lado tudo desabou. Depois mais em cima, uma situação inversa. Um guarda-costas que estava no corredor, estava a beber um chá e foi atingido e morreu, estão lá as marcas de sangue ainda na parede. De resto, toda a destruição do interior do edifício é bem visível, é um edifício sem vidros, com vento permanente, tudo destruído no chão, tem ainda os restos de papéis de escritório, molduras, enfim, todos os sinais de vida do que seria um edifício onde trabalhariam habitualmente 700 pessoas, naquele momento já só trabalhariam 200. Mesmo assim, 36 mortos, 40 feridos, é o caso mais impressionante. Mas há muitas outras zonas destruídas pela cidade e muitos outros edifícios destruídos pela cidade, em zonas residenciais, em zonas comerciais e muitas marcas destas cluster bombs, destas bombas de fragmentação, que são pequenos buracos no chão, que é o local onde incidem as bombas, e depois à volta, num raio em redor, as marcas dos telhaços por todas as paredes. Estivemos num local onde morreram oito pessoas com a queda destas bombas, que estavam na rua, que não se conseguiram esconder. Mesmo as pessoas que tentaram esconder-se atrás de prédios foram atingidas pelos telhaços destas bombas de fragmentação, num raio de 50 metros, subitamente a caírem várias destas bombas. Ainda recentemente, há três dias, uma destas bombas voltou a cair nesse local, enviada com um paraquedas. Caiu um paraquedas mesmo em cima de um quiosque, outra vez com vários telhaços a circularem em redor e outra vez a matarem pessoas e a ferirem pessoas.

Pedro, temos um minuto, mas no meio de tanta destruição há aqui uma, podemos dizer, uma boa notícia, que é o regresso da água à cidade. Há um mês que não havia. Não é água potável, não é?

Esta cidade não tinha água de todo a correr nas torneiras desde 12 de abril. Imaginem o que é as pessoas, não só não tinham água potável, como não tinham água corrente para lavar a roupa, para o autoclimo e obviamente para a sua higiene. Entretanto, encontrou-se uma solução graças ao apoio de Odessa. Odessa apoia muito esta luta de Mykolaiv, porque também sentem que são eles que estão a resistir ao avanço dos russos e tudo aquilo que as pessoas de Odessa podem fazer para apoiar Mykolaiv, fazem. Mobilizaram-se empresas e a sociedade civil para doar água aqui em Mykolaiv. Veio através de camiões, há camiões-cisterna ainda hoje espalhados por toda a cidade para as pessoas irem buscar água em garrafões e em garrafas. Voltou a haver água nas torneiras há dois ou três dias e não imaginam a reação das pessoas no meio desta tragédia, desta guerra, deste horror que se vive aqui em permanência. A felicidade com que as pessoas descrevem o momento em que voltaram a ter água, em que puderam voltar a tomar um banho depois de estarem três semanas a fazer a sua higiene com toalhetes ou com guardanapos, sem condições absolutamente nenhumas. Houve uma senhora que me disse mesmo: "Parecia um milagre, fiz uma festa quando voltei a ter água e quando voltei a poder tomar um duche".

Dá para imaginar. Pedro Jorge Castro, um dos enviados especiais d'O Observador à Ucrânia, está em Mykolaiv com o fotojornalista João Porfírio. Pedro, continuação de bom trabalho, mantenham-se em segurança. Até amanhã.