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Abrimos um novo gabinete de guerra na tarde, em direto, desta vez com ligação à Ucrânia, ao encontro dos enviados especiais do Observador, João Porfírio e Pedro Jorge Castro. Hoje é o Pedro que está conosco a partir de Mykolaiv. Vanessa Cruz.
É uma cidade no sul da Ucrânia e é das mais fustigadas por este conflito. Este dia, em particular, fica marcado por um bombardeamento em Mykolaiv. Foi durante a manhã. O Pedro Jorge Castro esteve, de resto, em direto pouco depois de ele acontecer. Mykolaiv, Pedro, boa tarde, tinha 520 mil habitantes antes da guerra. Nesta altura continuam 300 mil pessoas na cidade e sei que tens falado com alguns dos residentes sobre aquilo que os mantém aí.
Boa tarde, Vanessa. Sim. Precisamente, a proprietária de uma pastelaria que foi atingida pelo bombardeamento de hoje, o edifício ficou completamente estilhaçado. Ela mora num segundo andar mesmo em frente, portanto sentiu todo o impacto da explosão. Ela diz que todos os dias tem amigos de fora do país e de fora de Mykolaiv a insistir com ela para ela sair. Ela já tem a família dela na Bulgária, arranjou um apartamento para eles na Bulgária, considera que obviamente é um local mais seguro, mas ela tem resistido todos os dias a sair, porque tem cinco empregados nesta pastelaria, a quem tem de pagar um salário, pessoas que também resistiram e também ficaram. Ela sente essa dívida de gratidão para com essas pessoas e também para com a própria cidade, mas todos os dias tem tido este dilema. E ela diz que hoje, depois do susto que apanhou, está de facto ainda mais hesitante se deve sair ou não deve. E fiquei com a ideia de que ainda não tinha ponderado de forma tão séria como vai fazer depois deste susto de hoje, que obviamente são bombas de fragmentação que caíram mesmo em frente à pastelaria dela e que podia bastar ter sido um pouco mais tarde, provocam o estrago em todo o redor, porque os estilhaços espalham-se de forma muito violenta. Outras pessoas com quem tenho falado ficam em Mykolaiv por terem pessoas muito idosas ou doentes a cargo e por isso dificultar qualquer deslocação. É o caso de uma senhora que apanhámos nas filas gigantes que tem havido aqui em Mykolaiv para ir buscar água aos camiões que são doados. A acrescentar às bombas e ao risco permanente de uma ocupação russa. Mykolaiv ainda enfrentou este problema, teve um mês sem água potável e portanto as pessoas para terem água tinham que ir buscar garrafões a camiões espalhados pela cidade. Uma das senhoras com quem falei dizia-me que nem sequer tinha pensado nisso, precisamente porque a mãe era muito idosa. A mãe morreu, entretanto, também por causa de todo este estresse da guerra, teve um acidente vascular cerebral, e ela diz que agora já não tem uma razão forte para continuar aqui e está a começar a pensar se há de ir para a Polónia e se consegue organizar as coisas para sair daqui muito em breve. Outras pessoas com quem tenho falado. Hoje falei com um casal que acaba de fugir de uma aldeia aqui a cerca de 40 km de Mykolaiv, que foi uma aldeia fortemente fustigada por bombardeamentos russos. Eles hesitaram sempre se ficavam ou se saíam, mas estavam presos à terra e aos animais. São agricultores, tinham os animais todos, tinham aqui o seu trabalho, o seu sustento e não tinham uma grande alternativa de outro sítio para ir. Entretanto, as forças militares ucranianas ocuparam posições nesta aldeia.
Sim, estamos com alguns cortes na ligação, Pedro, foi mesmo agora, mas creio que estás conosco. Ainda não. Vamos tentar retomar o contato com o Pedro Jorge Castro, que estava aqui a contar-nos aquilo que falou com vários residentes de Mykolaiv, várias histórias desta guerra e desta cidade em particular, que tinha 520 mil habitantes antes da guerra. Nesta altura ainda continuam na cidade 300 mil pessoas, uma cidade do sul da Ucrânia que foi bombardeada esta manhã. O Pedro Jorge Castro e o João Porfírio estão os dois nesta cidade de Mykolaiv e têm relatado tudo também. Sim, Pedro, força.
Desculpa, perdemos aqui a ligação, mas creio que agora, também tem sido muito difícil comunicar. Estava a contar a história deste casal que acabou por fugir depois de violentos bombardeamentos da aldeia em que fugiam e mesmo durante o caminho vieram a fugir destas tentativas de bombardeamento da artilharia russa e chegaram completamente traumatizados a Bastanka, uma localidade aqui a cerca de 40 km de Mykolaiv, e perguntei-lhes o que é que vão fazer. Eles não sabem. Eles querem é voltar pra terra, mas obviamente têm medo enquanto a situação estiver assim e vão ter de viver de ajudas aqui perto enquanto esta situação se mantiver. Tem sido um bocadinho isto que tenho encontrado. Depois, obviamente, há pessoas que não se querem ir embora também por não sentirem essa necessidade. Ou seja, têm medo, obviamente, das bombas, têm medo que os russos possam ocupar a cidade. Eu recordo que Mykolaiv faz fronteira com Kherson, que é a maior cidade ocupada pelos russos, e portanto esta é uma batalha É uma batalha com posições praticamente fixas, há recuperação de aldeias e nova conquista de aldeias, mas basicamente as fronteiras estão fixas e nem os russos têm conseguido avançar com força para derrubar a resistência que tem sido feita aqui em Mykolayiv e que obviamente, se essa resistência fosse derrubada, depois seria um passo até Odessa e controlariam todo o sul, toda a costa, deixando a Ucrânia sem acesso ao mar. Mas os ucranianos também não têm conseguido avançar e recuperar Kherson, apesar de todos os ucranianos que lá vivem, porque dizem faltar armas. Falta a chegada das armas dos Estados Unidos e de outros países europeus. E além da chegada das armas, é preciso tempo para os militares ucranianos aprenderem a utilizar este tipo de armamento mais sofisticado. É preciso tempo para conseguirem operá-lo de forma eficaz, para então lançar uma grande ofensiva. Isto é uma coisa que pode demorar, prevê-se aqui cerca de dois meses. Claro que na guerra tudo muda muito rapidamente, mas se as circunstâncias se mantiverem assim, estamos perante uma guerra que está para durar ainda bastante tempo.
E muda muito rapidamente, mas a verdade é que em Mykolayiv, 300 mil pessoas ainda continuam na cidade, apesar de estar a ser bombardeada. Pedro, queria só perguntar-te rapidamente se vão continuar por aí, qual é que é o próximo ponto de reportagem?
Sim, ainda temos algumas histórias que estamos a seguir em Mykolayiv antes de voltarmos a Odessa e depois a Kiev. Mas neste momento, este é um dos pontos mais quentes deste conflito e vamos continuar por aqui mais algum tempo, precisamente para continuar a acompanhar aquilo que está a acontecer e também para falar com mais pessoas com quem temos entrevistas e reportagens agendadas.
São histórias que vamos poder também ouvir aqui na Rádio Observador e claro, ler também as reportagens que o Pedro Jorge Castro e o João Porfírio têm feito, são os nossos enviados especiais à Ucrânia. Rádio Observador