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Continuamos a falar da guerra na Ucrânia nas manhãs de 360. É pra lá que vamos agora, em direto ao encontro do enviado especial do Observador, o jornalista Pedro Jorge Castro, que está em Odessa. Pedro, bom dia.
Bom dia, Maria João.
Olá, Pedro. É sempre bom ouvir-te. Tu e o João Porfírio acompanharam esta noite uma patrulha que anda pela cidade durante o recolher obrigatório. O que nos podes descrever? O que viram?
O encontro entre estes polícias e voluntários da Força de Defesa Territorial que fazem este patrulhamento noturno em Odessa começa com um abraço entre todos. Ver dezenas de homens que chegam e que se abraçam effusivamente, sentindo que ambos fazem parte da mesma causa e que noite após noite estão ali para ajudar a defender a cidade onde vivem, onde têm os seus familiares. Há um encontro para um briefing com a polícia, cerca das 20h30, onde estas dezenas de homens recebem instruções sobre as zonas que devem patrulhar durante a noite, zonas que devem evitar por haver em curso alguma operação militar especial ou por haver alguma situação que recomende que não se devam aproximar dessa zona. Mas mais importante ainda, e isto é crucial, para saberem a password. Há uma password para toda a gente que está autorizada a circular em Odessa depois do recolher obrigatório. Essa password muda todas as noites e é nesse momento que é desvendada aos elementos que vão fazer o patrulhamento. Esta password é crítica, porque quem for apanhado a circular na rua e não tiver esta password, obviamente é revistado, tem de mostrar todos os documentos, mas mais ainda do que isso, sujeita-se a uma revista ao telemóvel. O que é que os polícias vão à procura no telemóvel das pessoas todas que circulam à noite, depois da hora do recolher obrigatório em Odessa? O que as pessoas vão à procura no telemóvel? De fotografias de Putin, grupos no Telegram de apoio a russos e à causa russa e contactos telefónicos com indicativo russo. Se alguma destas coisas for encontrada nos telemóveis das pessoas que circulam à noite em Odessa depois da hora do recolher obrigatório, que é às 22h, estas pessoas são encaminhadas para a esquadra e para os serviços secretos, onde serão interrogadas e será feita uma avaliação sobre o nível de apoio destas pessoas à causa russa e o nível de colaboração. Obviamente são vistas fotografias do telemóvel para ver se foram captadas imagens de objectivos militares, de eventuais alvos militares, do posicionamento das tropas, dos checkpoints. Logo na rua é feita esta primeira revista. Se calhar é aquilo que faz mais impressão de assistir, é ver as pessoas entregarem o telemóvel e sujeitarem-se a que o telemóvel seja revistado ali naquele momento. O recolher obrigatório começa às 22h e de facto é a hora em que tudo muda. Estas patrulhas, nós acompanhamos uma patrulha com três destes elementos da Defesa Territorial, mais um polícia. O polícia é que obviamente tem a última palavra em todas estas operações, em todas as pessoas que são paradas. Todos eles estão fortemente armados. Qualquer carro que esteja em movimento recebe ordem de paragem e isto aplica-se inclusive a carros militares, carros de polícia e carros dos serviços secretos. Daí a importância da password. Aconteceu muitas vezes de as pessoas pararem, o condutor dizer só a password a quem mandou parar o carro e seguir em frente, nem é preciso mais nada. Como a password muda todas as noites, presume-se que quem sabe a password desta noite, obviamente tem essa indicação das autoridades e pode seguir em frente. Obviamente são pessoas que também estão a fazer o seu trabalho e que estão autorizadas a isso. A única viatura que tem indicações para não mandar parar, e que já aconteceu, são as viaturas oficiais do primeiro-ministro ucraniano, que já esteve até aqui em Odessa recentemente. Essas têm umas luzes especiais e eles já estão preparados e está identificado para não mandar parar. De resto, todas as outras pessoas são mandadas parar. Obviamente, as primeiras pessoas que foram abordadas e que receberam ordem de paragem são ainda pessoas que se atrasaram, digamos assim. São o último estafeta do Berêts que tinha acabado de fazer a última entrega e não se fechou a tempo. Um táxi que tinha acabado de fazer ainda a última viagem da noite, entretanto começou o recolher obrigatório. Por exemplo, um casal que esteve numa bomba de combustível para tentar abastecer. É um gigantesco problema aqui na Ucrânia para as pessoas abastecerem o carro de combustível, porque não há combustível nas bombas. Depois de ter passado este tempo todo para tentar abastecer o carro, obviamente passou a hora do recolher obrigatório. Lá tiveram que parar, todo o carro foi revistado, toda a documentação foi vista. Também apanhei coisas até quase caricatas, como um residente que saiu de casa para ir ao carro, que está em frente à porta de casa, e confronta-se com este elemento desta patrulha, que obviamente lhe dizem logo para ele mostrar os documentos e o telemóvel. E ele fez logo aquela cara de "Eish!". E então o que ele tinha? Ele tinha acabado de sair de casa apenas porque a mulher lhe pediu uns chocolates e ele tinha chocolates no carro, portanto ia buscar os chocolates ao carro. Mas só o facto de ter posto o pé fora do prédio para ir ao carro, justificou que tivessem que revistar toda a viatura e ver o telemóvel e também os documentos. Curiosamente, a maior parte das pessoas também reage a isto positivamente. Ou seja, houve várias pessoas que agradeceram o trabalho que era feito, compreenderam que tem mesmo de ser assim, que é a única forma de vigiar se há ou não sapatadores russos na cidade. Há este reconhecimento. Não há uma reação tensa da parte das pessoas, apesar do desconfortável e do desagradável que é enfrentar situações destas. Os militares, estes elementos das Forças de Defesa Territorial, são voluntários, eles têm os seus trabalhos no dia a dia. Este grupo que acompanhámos é um grupo essencialmente de advogados, com mais alguns amigos. As armas são deles próprios, são compradas por eles. E um dos advogados que acompanhámos, que ia no meio da estrada, de uma das estradas principais aqui de Odessa, obviamente, não é suposto passar carro nenhum, portanto, ele pode ir no meio da estrada à vontade com a sua arma, dizia-me que nunca pensou que em 2022 ia estar com uma arma. Ele tem um doutoramento em Direito, é um advogado com tantos casos. Nunca pensou que ia estar em 2022 com uma arma a percorrer a rua e a patrulhar a rua, enquanto os seus clientes, que muitos deles são criminosos e mafiosos, saíram do país e já não estão cá para defender a pátria. Ficou ele com esta tarefa.
Pedro, obrigada pelo teu relato. Pedro Jorge Castro, um dos enviados especiais d'O Observador à Ucrânia, que está em Odessa com o fotojornalista João Porfírio. Pedro, fiquem bem, em segurança. Continuação de bom trabalho. Um bom dia para os dois.
Bom dia.