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Olá, seja bem-vindo a mais um "Observadores Como Nós". Eu sou a Maria João Simões e hoje a minha convidada é Ana Garcia Martins, criadora de conteúdos digitais, autora, influenciadora, comentadora de televisão, mas que é também mãe, benfiquista ferrenha e considerada uma das mulheres mais influentes do país. Olá, Ana, bem-vinda.

Olá!

Obrigada por ter aceitado o convite.

Muito obrigada pelo convite.

Nasceste em Lisboa, a 6 de janeiro de 1981. O que é que guardas da tua infância no Príncipe Real?

Foi uma infância muito feliz, muito vivida na rua, que é uma coisa que infelizmente os meus filhos não vivem, e as melhores memórias que eu tenho são dessa altura. Acho que foi uma infância muito livre, muito despreocupada. Acho que os nossos pais ou não eram preocupados de todo, ou não havia tanta noção dos perigos reais. E eu senti sempre, tive muita liberdade. Desde miúda que ia sozinha pra escola, tinha chave de casa, passava o dia a brincar no jardim com os meus vizinhos. E é engraçado, isso tudo no centro da cidade, que de facto hoje em dia acho que é uma coisa absolutamente impensável.

Como dizes, cresceste a brincar na rua, a ver a "Rua Sésamo".

A ver a "Rua Sésamo".

O Tom Sawyer, o MacGyver, a ler revistas como a "Ragazza" e a "Bravo". Tens saudades dessa altura, sem telemóveis, sem redes sociais ocuparem o teu tempo?

Tenho. Eu reconheço, obviamente, as 1001 vantagens da tecnologia, das redes sociais, e evolução e todas essas coisas. Ao mesmo tempo, sou um bocadinho velha do restelo. Sou sempre a última a chegar, a aderir a tudo, porque fico sempre: "Mas pra que é que isso serve? Mas mais uma rede, mas mais uma tecnologia, mas mais uma tecnologia."

Outro dia falavas da inteligência artificial.

A inteligência artificial agora é a minha mais recente irritação e eu demoro sempre um bocadinho. Reconheço o valor, mas demoro a chegar. E gosto muito de ter uma vida antes disso tudo, de saber como é que foi. Lá está, mais uma coisa que os meus filhos não viverão, porque já nascem imersos nisto tudo. E eu sinto que fui muito feliz, que não me faltou nada. Sinto que fui muito feliz por só ter dois canais de televisão, por ter que esperar agarrada ao telefone fixo que chegasse uma chamada, de combinar coisas com os meus amigos e as coisas acontecerem. Efetivamente, nós aparecíamos nos sítios, mesmo combinando, sem telemóveis, sem nada disso. Hoje em dia olhas para trás e parece que-

Tudo acontecia, não é? Não tínhamos metade dos meios hoje.

Tudo acontecia.

E éramos felizes.

Tu explicas isto hoje a uma criança, eles acham completamente inimaginável. Mas a verdade é que tudo se fazia, e fazia-se com alegria, fazia-se com um desprendimento que eu acho que agora não temos. Acho que agora estamos sempre todos muito controlados pelo uso excessivo da tecnologia. E contra mim fale, porque trabalho essencialmente com isso. Sinto de alguma forma que fui uma privilegiada, eu e toda a gente que nasceu ali antes dos anos 90, por termos tido a oportunidade de ver como é que era o mundo antes de todas estas coisas chegarem às nossas vidas.

E és saudosista, tens saudades.

Sou.

O que é que tens mais saudade?

Eu tenho 42 anos, mas por dentro tenho 85. Sou aquela pessoa que vive-

És uma alma velha.

Sou uma alma velha. E saudade, eu acho que saudade é provavelmente a minha palavra preferida. E vivo muito com saudade de tudo que já passou e que não se volta a viver, as pessoas que já não estão, coisas simples como não ter acesso a um telemóvel. E vivo também muito atormentada pelo futuro e a passagem do tempo e esta coisa de quanto tempo estamos aqui, qual é a nossa missão. Eu sou uma pessoa muito atormentada.

Estudaste no Liceu Passos Manuel. Seis anos, entraste lá com 12 e saíste com 18.

Sim, sétimo ao 12º.

Há tempos dizias numa entrevista que sempre foste boa aluna, muito aplicada, mas que depois nas aulas eras superconversadora.

Era, é verdade.

Estabilizavas. Já era aquele um lado rebelde a revelar-se ou só gostavas muito de pôr a conversa em dia?

Eu acho que não era rebeldia, era vontade de conversar e era um bocadinho palhacinha. Tinha vontade de fazer os outros rir e dizer disparates, que eu acho que é uma coisa que permanece até hoje. Mas não era tanto com aquela intenção de vou gerar o caos, vou perturbar, vou ser expulsa. Só fui expulsa uma vez e foi por engano. Uma professora de francês que me expulsou da aula.

Como por engano?

E mesmo já no 12º. Porque de repente gerou-se uma confusão, já nem sei por quê, ela achava que tinha sido eu e uma amiga.

Ficaram sempre, provavelmente, a falar.

Por acaso não tinha sido. Não sei o que é que se passou ali, uma espécie de rebelião e ela expulsou a mim e uma amiga, que não tínhamos rigorosamente nada a ver com aquilo, mas eu pensei: "Bom, de já agora também não acabo o secundário sem ser expulsa uma vez." E portanto, fui sem reclamar muito. Mas não, sempre fui boa aluna, porque gostava mesmo. Houve uma fase da minha vida em que isso aconteceu. Eu gostava efetivamente de estudar, depois passou. Mas sempre com essa necessidade muito urgente de falar. Tinha sempre coisas pra dizer. Tinha duas grandes amigas e éramos quase sempre separadas, mas eu arranjava outras pessoas com quem falar, independentemente disso.

Não era problema.

Eu queria falar, não interessava com quem, e conseguia sempre.

Tiraste o curso de Ciências de Comunicação. Não por fascínio pelo jornalismo, por teres que tirar essa carreira, mas porque era aquilo que te permitia estar mais perto da escrita. Quando é que percebeste que tinhas essa paixão?

Não sei, não consigo definir. Já pensei nisto várias vezes. Não consigo definir o momento exato no tempo em que isto aconteceu. Eu sempre gostei, desde miúda, sempre gostei de escrever. E sempre gostei da escola por isso, porque permitia-me escrever. Eu lembro-me ainda no infantário já pedir às educadoras pra me darem letras pra eu desenhar, pra começar a aprender antes de entrar na primeira. Sempre tive muito essa curiosidade pelo mundo das letras. E acho que decidi quando chegou ali a altura, fiz aqueles testes psicotécnicos, obviamente tudo me orientava pra área das letras, portanto isso ficou logo decidido. E jornalismo, porque entre tudo aquilo que me permitia escrever, que era o que eu gostava realmente de fazer, achei que talvez fosse o curso que me proporcionasse mais isso. Depois entrei pro curso, foi um balde de água fria.

Foi um flop.

Não correspondia em nada àquilo que eu imaginava.

Por quê? Muito teórico?

Muito teórico, muito pesado, com cadeiras que ainda hoje eu não consigo perceber a utilidade prática daquilo, se é que a têm, mas também com 18 anos acabas de sair do liceu, acho que não estamos de todo preparados pra aquilo que um curso superior pressupõe. Acho que se fosse hoje teria tirado outro partido do curso e lá está, se calhar conseguiria perceber melhor aquelas cadeiras que eu achava que não serviam pra nada. E lá na sua génese haverá alguma explicação pra elas fazerem parte ali do currículo. Mas sim, achei o curso muito aborrecido.

Depois estagiaste na Antena Um, Antena Três, passaste pela Capital, Time Out de Lisboa, foste colunista e colaboraste em várias revistas e jornais, e pelo meio lançaste o teu blog então.

É verdade.

A Pipoca Mais Doce. O primeiro post já tem 19 anos.

Sim.

Foi em janeiro de 2004. Alguma vez imaginaste que teria a dimensão, o impactoQue tem a importância e a visibilidade que tens.

Nunca. Isto vai fazer em janeiro do próximo ano 20 anos e na altura era só uma plataforma pra eu poder divagar sobre todas as patetices que me passavam pela cabeça, que eram muitas e de forma anônima, porque nos primeiros cinco, seis anos do blog ninguém sabia quem eu era, não havia um nome, não havia uma cara, não havia nada, portanto não havia filtro nenhum, era a louca a escrever. Porque eu cheguei a um jornal e percebi: "Ok, estou no jornal, escrevo, de facto, faço o que gosto."

Mas não podes escrever tudo.

Mas não posso escrever tudo, nem no tom que quero, nem sobre os temas que quero. Apesar de rapidamente terem percebido que eu tinha um bocadinho esta coisa do humor e ao fim de um ano o jornal deram-me um espaço e eu tinha uma crônica no jornal. Mas ainda assim não era suficiente. Portanto, os blogs estavam a aparecer, eu pensei: "Perfeito, é isto". Eu sempre tinha tido diários também, miúda. E pensei: "É isto". Obviamente, isto está aberto ao público, não é como um diário que escrevemos e tiramos pra uma gaveta e lá fica. Aqui não, era uma coisa assumidamente aberta, apesar de lá estar ninguém saber quem eu era. Mas era-me completamente impensável pensar-

Que farias vida disto, não é?

Sim, o caminho que isto viria a tomar, porque não só na altura ninguém vivia de um blog, lá está, toda a gente fazia isto por passatempo. Era-me completamente impensável pensar: "Eu vou pagar contas com isto e ao fim de 20 anos este projeto ainda vai existir." Obviamente, agora já não escrevo no blog, mas isto foi migrando pra outras redes, o Facebook, neste momento estou mais viva, por assim dizer, no Instagram, mas nunca me passou pela cabeça que isto duraria tanto tempo.

E qual é a principal diferença entre a Ana e a Pipoca?

Não sei, eu acho que já estivemos muito fundidas, já estivemos em diâmetros muito opostos, já passamos por várias fases, agora acho que somos cada vez mais a mesma pessoa. A Pipoca era uma espécie de personagem, quase um alter ego, que dizia tudo que pensava, lá está, sem filtro, muito descuidada pelo fato de estar atrás de um ecrã, protegida pelo anonimato. Mas eu acho que eu própria não ando muito longe disso, se calhar filtro-me na minha vida todos os dias, filtro-me um bocadinho mais, até porque as coisas evoluíram e as pessoas indignam-se com mais facilidade. E pela idade, se calhar também me protejo um bocadinho mais, aprendi a fazer esse trabalho. Mas acho que a idade também faz com que eu esteja a voltar um bocadinho à minha gênese e a sentir que estou a ficar um bocado louca outra vez e a dizer as coisas que me apetecem. Portanto, não sei. Mas acho que sim, acho que sou cada vez mais a Pipoca.

É a maturidade ou é a segurança? É o que isso da idade?

Eu acho que é aquela coisa, tipo, estou a tornar-me inimputável. Acho que a idade nos traz isso, das pessoas começarem a dar o desconto. "Coitada, está a ficar velha, já não diz coisa com coisa, já não está boa da cabeça. Vamos só dar-lhe esse desconto." Acho que é um bocadinho por aí.

Ana, dizes muitas vezes que não és de beijinhos e de andar sempre aos abraços, mas depois tens amigos como a Raquel, que dizem que a maior prova de amor que alguma vez teve, foi tua. As pessoas não conhecem esse teu lado. É uma forma de ser, de te protegeres ou é também uma forma de separares aquilo que é a tua vida privada, íntima e a profissional?

Não, eu sou zero de toque, é uma coisa que me deixa fisicamente constrangida, as pessoas darem-me abraços e eu achei que uma das coisas boas do Covid era termos acabado com isso de vez. A partir de agora já não há beijinhos.

Achaste que ia pegar.

Achei que ia pegar, achei que era uma ideia com imenso potencial. Infelizmente, não. Acho que nós portugueses somos muito de toque.

Mas por que és assim? Sabes por que és assim? É desde a infância?

Eu acho que sim, desde sempre. Mas depois não sou nada assim com os meus filhos. Com os meus filhos sou muito física, sou muito chata e estrafégos, sou mesmo muito de toque e beijinhos e abraços, essas coisas todas. Mas comigo, se as pessoas puderem evitar, eu agradeço bastante. As pessoas dão um abraço e eu não sinto bem como reagir, fico assim com os bracinhos pra baixo, à espera só, a contar mentalmente quando é que isto vai acabar. Mas depois acho que compenso com outras coisas. Não sou fisicamente afetuosa.

Com gestos e atitudes.

Depois com gestos e atitudes, gosto de surpreender as pessoas, sei lá, seja oferecendo uma coisa que eu sei que elas vão gostar, escrever um postal, mandar uma mensagem.

Ou às vezes só estando presente naquela altura.

Às vezes só estando presente, sim. E eu acho que às vezes peco muito por isso. Sou um bocadinho fria, sou um bocadinho distante, desligada, e isso depois é muitas vezes lido como: "Ela não quer saber, é fria, é bruta." E eu acho que não é necessariamente isso. Eu acho que quem gosta verdadeiramente de mim, quem me percebe, sabe que eu estou sempre ali. Mesmo que eu diga mais coisas, menos coisas, mas eu estou ali. Quando for preciso, eu não vou falhar. Mas não me cobrem muito, não andem atrás de mim a chatear-me. "E por que não te lembraste do aniversário do meu filho?" Eu não vou lembrar-me, é o tipo de coisa que eu não vou lembrar. Portanto, não cobrem essas coisas, não vai acontecer.

Sou igual a ti.

Mas eu estou lá pro que é preciso, eu não falho. Prometo.

Foste muitas vezes eleita a personalidade do ano, uma das mulheres mais influentes do país. Depois da primeira vez, como é que te sentes sempre que recebes uma nova distinção?

Olha, eu recebi agora pela sétima vez e eu tenho sempre esta coisa do síndrome do impostor, porque eu não sei. Pra já, eu termo influência, que eu acho que tem uma conotação, uma carga um bocadinho pejorativa. Eu associo sempre, e sobretudo nas redes sociais, acho que está muito ligado ao consumo. O termo do influencing, o apelo ao consumo, e também é uma parte do meu trabalho, obviamente, e vivo disso, não há como negá-lo. Mas se eu, a exercer algum tipo de influência, eu quero que seja mais abrangente e mais expositiva do que isso. Quero que possa fazer efetivamente a diferença na vida das pessoas e tento falar de temas da atualidade, tento alertar as pessoas desde causas sociais, voluntariado, a vacinação, a importância do voto, enfim, essas coisas. Mas acho que essa carga também está lá. E todos os anos, quando recebo esse prêmio, eu acabo sempre a dar por mim a fazer esse exercício. Por quê? Por que sou considerada uma das 25 mulheres mais influentes do país? É uma carga que eu não sei se quero ter. Obviamente que agradeço o reconhecimento e, lá está, sobretudo trabalhando nas redes sociais há 20 anos, deixa-me muito feliz. Ver que passados 20 anos o meu trabalho continua a ser reconhecido e que continuo a crescer nesta área, deixa-me contente. Mas, por outro lado, não sei.

Mas sentes responsabilidade?

Sinto que isto me traz um peso que eu não sei se quero ter. E depois é esta coisa que eu dizia, eu acho que mais cedo ou mais tarde vão descobrir que eu sou uma fraude, que é uma coisa que eu sinto permanentemente, que não tenho talento para nada em específico e que vou enganando as pessoas em várias coisas, com os livros, com o stand-up, com a televisão, com os podcasts. Vou fazendo o meu caminho e passando pelos pingos da chuva. É sempre esta a sensação que eu tenho.

O teu pai sei que já faleceu, mas e a tua mãe, como é que ela olha para a tua carreira? É muito crítica ou para ela está sempre tudo bem?

A minha mãe eu acho que vive um bocado à margem, até porque ela irrita-se um bocado com a parte da imprensa e sair em notícias, essas coisas. E então acho que ela, por uma questão de proteção, acompanha, eu sei que sim, mas nunca fala muito comigo sobre essas coisas.

Ana, vocês tiveram a infelicidade de perder o teu irmão de 22 anos num acidente de viação. Como é que se ultrapassa uma perda dessas? Há uma Ana antes e depois?

Eu acho que sim. Era aquilo que eu disse, sempre fui uma miúda, apesar de ser assim meio estouvada e tudo mais, mas eu sempre fui muito responsável. Acho que nunca dei chatice aos meus pais. Eu acho que fui mesmo a adolescente sonho, que eu espero que os meus filhos sejam assim. Sinto isso, que era de fato responsável. Nunca fui de sair à noite, nunca fui dessas coisas todas, muito. Mas sinto que passei a viver com uma responsabilidade acrescida depois disso ter acontecido. Não por mim, não era medo: "Ah, isto aconteceu ao meu irmão, pode me acontecer também a mim." Era mais pelos meus pais. De ver que é uma agressão tão grande, e eu na altura não tinha filhos e sentia só a dor como irmã, e que já era imensa. Mas hoje vendo, os tendo filhos, penso: não sei como é que se ultrapassa, não sei mesmo como é que se sobrevive a uma coisa destas. Mas tive desde logo essa consciência de eles não podem voltar a passar por isto novamente. Portanto, se eu já era consciente e responsável, passei a ser hiperconsciente e hiperresponsável. E sempre muito certinha e sempre a comunicar aos meus pais todos os passos que dava e onde é que estava e com quem estava. Ainda hoje sou um bocadinho assim com a minha mãe.

Ficou isso.

Sim, qualquer sítio onde eu vá, viagens, assim que chego, a primeira coisa que faço é pegar no telefone e dizer à minha mãe: "Já cheguei, está tudo bem." Mesmo que seja daqui para Setúbal, faço sempre isso.

Falavas há pouco da televisão. Nunca pensaste fazer televisão, mas é mais uma das tuas ocupações. A tua recente passagem da TV para a SIC foi muito comentada, mas só mostra que não te prendes e que muito menos te acomodas. Tu ainda ligas ao que escrevem sobre ti?

Não, não ligo nada. E acho que isto é um trabalho que também se vai fazendo. Leio muito pouca coisa sobre mim, então tudo que seja comentários das pessoas, ignoro o máximo, porque acho que ao final do dia não me acrescenta. Ouço as opiniões de quem me importa e que eu sei que sejam boas ou más, que são construtivas. Esta crescente exposição mediática, eu antes lia as coisas. Sempre adorei ler revistas cor-de-rosa e era uma espécie de passatempo, sobretudo no verão. E depois quando passei eu a ser visada, percebi que isto de fato é tudo um engodo e inventam notícias sobre nós e criam realidades que não existem em lado nenhum e faz-se tudo e de tudo e diz-se de tudo e escreve-se tudo para se vender. Portanto, deixei de consumir. Mas sim, não prendo, para já por contratualmente não havia nada que me prendesse e com a SIC também não há nenhum contrato, portanto sou uma cidadã do mundo, por assim dizer. As oportunidades vão surgindo e eu decido o que é que me...

O que te identificas mais.

Sim, o que é que me apetece fazer em cada momento. Um mês antes tinha estado a fazer o "Dança Comigo" na RTP. Tenho tido a sorte de, no meu percurso, poder escolher o que é que me apetece fazer a cada momento. Isso é que é mesmo sorte. Acho que um dia isto acaba e se calhar vou ter que correr mais atrás das coisas que quero fazer, mas tenho tido essa sorte de me serem proporcionadas coisas e eu poder escolher o que me apetece fazer a cada momento.

Estou à conversa com a Ana Garcia Martins. Vamos às notícias e já voltamos para a segunda parte do Observadores Como Nós. Até já. Segunda parte do Observadores Como Nós, hoje com a Ana Garcia Martins, comentadora de televisão, autora, influenciadora, mas que é também mãe. Mãe de dois, o Mateus e a Benedita. São muito pequenos para poderem opinar sobre a tua carreira, mas, Ana, alguma vez se queixaram do tempo que passas ao telemóvel ou ao computador?

Sim, eu já ouvi várias vezes aquela coisa: "A mãe está sempre a trabalhar." É normal, eles são pequenos, estão sempre a pedir atenção, estão sempre a pedir para brincar. E isso é verdade, que a coisa da isolação de horários é muito boa, permite-me gerir o meu tempo como me dá mais jeito. Depois também faz muitas vezes com que tenha de estar a trabalhar a horas que se calhar devia estar mais dedicada a eles. E eu tento separar isso. Sou divorciada, portanto tenho-os semana sim, semana não. Nas semanas em que os tenho, sei que o meu período para trabalhar é das 09:00 às 17:00, que é quando eles estão na escola, e depois tento que, a partir do momento em que eles chegam a casa, estar mais focada neles e nas rotinas deles. Mas de vez em quando lá acontece, que são muitas vezes, confesso, lá acontece ter que pegar no computador, ter que resolver alguma coisa, responder a um e-mail. Mas acho que eles percebem, acho que eles são bons miúdos.

Se um dia um dos teus filhos quiser seguir a tua carreira, vai ter o teu apoio?

Sempre que nem eu própria sei muito bem qual é a minha carreira. Eu agora estou a chegar àquela fase, eu não, eles, mais o Mateus, que vai fazer 10 anos, que lhe perguntam: "O que a tua mãe faz?" Eu acho que ele próprio não sabe muito bem o que a mãe faz. E eu própria também não sei muito bem explicar-lhe o que eu faço, porque acabo por mover em tantas áreas e fazer tantas coisas. Criadora de conteúdos talvez seja o melhor, mas não sei se é aceite nas finanças, por exemplo, criadora de conteúdos, porque eu efetivamente produzo conteúdos para a rádio, para a televisão, para as redes sociais.

Sim, mas tu és muito mais para além disso.

Para o stand up, para os livros, portanto, produzo conteúdos, mas não sei se isso já pode ser encarado como uma profissão. Não, mas vou dizer ao meu filho empresária. Acho que dá um ar chique. Ele na escola diz: "O que é que a tua mãe faz?" "Empresária." Parece que move milhões. Não, infelizmente não.

Ana, a Benedita nasceu prematura. Já disseste publicamente que foram os dias mais difíceis da tua vida. O que uma mãe sente ao ir para casa sem a filha que acabou de nascer?

A verdade é que nasceram os dois prematuros. O Mateus também nasceu, mas nasceu com uns quantos dias a mais do que ela e foi suficiente para estar ótimo. Ao fim de quatro dias estava em casa. Ela nasceu ali entre as 33 e as 34 semanas, não sei precisamente bem, e não estava bem. Portanto, assim que ela nasceu, levaram-na imediatamente para uma incubadora, ficou nos cuidados intensivos quase duas semanas e eu só pude pegar-lhe ao fim de uma semana. E pegar é aquela coisa de meter as mãozinhas por dentro da incubadora e pegar-lhe enquanto mudavam ali algumas coisas. É terrível essa coisa, sobretudo ir para casa. E não estava preparada, não estava toda preparada e tinha sonhos.

Tiveste medo?

Tive imenso medo, porque quando eu a vi, era uma coisa minúscula numa incubadora, com fios por todo lado, tudo a apitar. Eu não percebia nada daquilo, aquilo era um cenário dantesco, era absolutamente assustador. Não via grandes melhorias ali nos primeiros dias. Era tudo muito moroso. Eu passava o dia inteiro no hospital, mesmo depois de ir para casa, passava os dias inteiros. Chegava ao hospital às 08:00 da manhã, saía às 22:00 e só saía porque tinha já outro filho em casa e precisava de estar com ele, porque senão eu teria passado lá dia e noite, sem dúvida. E ver que as coisas não aconteciam à velocidade que eu queria é um processo muito difícil. Ao mesmo tempo, foi uma experiência muito dura, mas também foi enriquecedora no sentido de perceber as pequenas conquistas que se vivem numa unidade de cuidados intensivos de neonatologia, onde tudo é celebrado. E a minha filha só teve 15 dias, eu via bebês que estavam lá há cinco meses, porque tinham nascido com menos de um quilo. Portanto, sem dúvida, no meio daquilo tudo e olhando para trás, sem dúvida que acabei por ter imensa sorte. Ao fim de 15 dias ela já estava em casa, ótima e nunca teve qualquer sequela e sempre esteve muito bem.

Ana, como falavas há pouco, por dizeres quase sempre tudo o que pensas, passas muitas vezes uma imagem de durona, mas há alguma coisa que te deixe insegura? Como é que lidas com as tuas inseguranças?

É aquilo que eu falava há bocadinho da síndrome da impostora. Eu acho que se não estivesse rodeada de uma data de gente à minha volta que acredita em mim e que acredita muito mais no meu eventual potencial e que tem uma capacidade desmedida para me convencer disso, eu não fazia nada. E de facto são essas pessoas, desde família a amigos, que estão sempre lá e que me dizem: "Mas claro que tu consegues fazer isso, claro que vais fazer e vais fazer bem e vai ter sucesso e tudo mais." Porque eu acho sempre que sou incapaz, acho sempre que sou insuficiente, acho sempre que toda a gente faz melhor, toda a gente é mais capaz e eu vivo permanentemente perseguida com isto. Isto já foi falado muitas vezes na minha terapia.

É incrível que tu passes nada essa imagem.

Não sei, mas é uma coisa que eu vivo desde sempre, esta sensação permanente de não ser suficiente, de estar sempre aquém. E isto em todas as áreas em que eu me movo. Não há nada que eu ache que eu seja espetacular a fazer. Não acho nada, mesmo. E isto leva a que eu acabe por meter em muitas áreas, em muitas coisas, porque gosto do desafio e de sair ali um bocadinho da minha zona de conforto, mas isto depois também é uma sofrência, porque eu estou sempre a: "Mas porque é que eu aceitei? Eu não devia ter aceito isto, eu vou falhar, vão descobrir que eu não tenho talento nenhum para isto, lá está, que há alguém melhor, vão buscar outra pessoa." Eu vivo nesta luta desde sempre e acho que viverei sempre. Acho que isto é uma coisa que já não muda. A sério, acho mesmo que não.

E os livros, Ana, já são seis.

Já são seis, sim.

Alguns para os mais novos, outros sobre relações, o último com o David Cristina.

Sim.

Separados de fresco. Há ideias para um próximo ou são projetos que surgem conforme a ocasião?

Tenho a editora sempre a chatear: "Vamos escrever". E eu, de facto, gosto muito de escrever. Detesto a obrigação. Gosto de escrever quando me apetece escrever, mas também sei que se não for obrigação, nunca acontecesse nada e eu nunca escrevo. E eu gostava muito de escrever um romance, lá está, outra vez. Eu quero escrever um romance, mas eu não quero que seja só mais um livro. E então como eu sinto que ainda não tenho maturidade suficiente para escrever uma coisa com qualidade, penso: "Não vou estar a gastar árvores, não vale a pena. Já há suficientes maus livros nas livrarias, não vou acrescentar mais um, então deixe-me só estar sossegada." Mas gostava muito. Vou lendo muito e tentando inspirar-me e pode ser que um dia isso aconteça.

Tirando férias com o teu grupo de amigos, sei que muitas vezes gostas de passar o teu tempo livre sozinha. O que fazes nessas alturas? Como gostas de ocupar o tempo que não estás a trabalhar? Que também não deve ser muito. Para além de estares com os teus filhos, quando há acima deles.

Eu gosto mesmo de estar em casa sozinha. Obviamente que o divórcio é sempre uma chatice e sobretudo quando há miúdos e custa muito não os ter sempre comigo, mas também dou muito valor àquele tempo que eu tenho sem eles e tento aproveitá-lo ao máximo. E eu gosto cada vez mais de estar em casa. Arrancarem-me de casa é uma coisa cada vez mais difícil, portanto sinto-me muito agradecida por estar.

Sinto mesmo.

Estou a brincar. Mas eu gosto mesmo. Vou cada vez menos a festas, a eventos, a essas coisas, porque acho que não tenho muita aptidão social para isso. É uma coisa que eu vou em esforço, o ter de estar a fazer conversa é uma coisa que me custa. E sinto-me cada vez mais confortável em casa, no meu espaço, a ler e a ver séries. É o que eu faço mais. O meu tempo é ou em arrumações, evito, mas às vezes tem de ser. Mas o que eu gosto mesmo é de estar em casa no sofá com livro ou a ver uma série ou um filme.

E a Pipoca Mais Doce tem prazo de validade? Vês-te a fazer isto para sempre?

Não sei, lá está. Se me perguntasse há 20 anos, eu diria: "Não, isto não vai durar nem três." Portanto, eu já deixei de impor. Eu acho que nunca o fiz, na verdade, nunca impus um prazo a mim mesma. Acho que enquanto, um, me pagar as contas e dois, me divertir, acho que estará para continuar. Acho que me vou adaptando, se calhar não necessariamente, já não sou a mesma pessoa que era há 20 anos. Já não escrevo as mesmas coisas, se calhar já não me exponho da mesma forma, vou-me adaptando à passagem do meu tempo, da minha idade. Mas é uma coisa que eu me questiono. Lá está, mais uma coisa que eu vivo angustiada, que é: quanto tempo é que isto vai durar? Eu vou fazer isto, será que aos 60 anos vou ser influenciadora? Porque eu fui uma das primeiras e não há muitos exemplos à minha frente, pessoas mais velhas que estejam a fazer isto. Portanto, eu estou um bocadinho aqui na frente do pelotão, a caminhar desenfreadamente, a ver para onde é que isto vai, um bocadinho às apalpadelas.

Tens muitas vezes vontade de fazer um detox das redes sociais?

Posso dizer que se eu ganhasse o Euromilhões, era a primeira coisa que eu fazia. Não, não era a primeira coisa, eu ficava só uma semana só nas redes a esfregar a minha opulência e a riqueza nos outros e depois então abandonaria. Mas sim, acho que não me custava rigorosamente nada desaparecer das redes sociais, mas assim na hora. Eu acho que neste momento, o que mantém mais é porque virou o meu trabalho, e como a grande maioria das pessoas, não posso simplesmente despedir-me disto e agora não vou fazer nada, vou reformar-me aos 42 anos. Adorava, é uma ideia espetacular, mas ainda não juntei riqueza suficiente para isso, portanto vou permanecendo por aqui.

E a exposição pública, cansa?

Cansa. Eu acho que isso é o lado menos bonito de tudo isto. E lá está, da mesma forma que eu não achei que criar um blog há 20 anos me permitisse viver dele, também não achei que isso me viesse a dar exposição pública. Nunca na vida isso me passou pela cabeça. E de facto, esse é o lado que eu gosto menos, é o lado um bocadinho mais perverso de tudo isto, que é sobretudo o de repente treslerem as coisas que eu escrevo, inventarem notícias em torno disso. Coisas que eu escrevo 99% das vezes num tom humorístico, claramente a brincar com as coisas e transforma-se aquilo naquilo que não é, isso é muito chato e muito cansativo.

Adepta do Benfica, ferranha, és de ir ao estádio sofrer com a equipa e vibrar com as conquistas. Como é que estás depois dos últimos jogos?

Quarta-feira o Benfica foi eliminado das

Liga dos Campeões.

Das competições europeias, que era uma coisa que eu já estava à espera. Eu sofro muito com o Benfica, muito mesmo. Eu sou aquela pessoa, por favor, não me digam nada nas horas a seguir ao Benfica ter perdido ou empatado ou ter algum deslize. No dia a seguir, eu já relativizei, já pensei sobre o assunto. Agora, naqueles momentos a seguir, eu desligo, não vou às redes sociais, não me mandem mensagens. Ainda há pouco, não foi neste jogo agora, mas foi num antes que o Benfica perdeu.

Que também não correu bem.

Quando perdeu em Chaves. E um amigo, que é mais um conhecido, nem sequer temos uma relação assim de tanta confiança, quando tudo isso mandou uma mensagem só a dizer: "Já estavam a encomendar as faixas?" E eu só lhe respondi: "Olha, há uma coisa que tens que saber sobre mim. Quando o Benfica perde, não me digas nada, mesmo." Pronto, ele não respondeu mais, não sei se a nossa potencial amizade ficou por ali, mas eu sofro mesmo. Mas lá está, sofro ali um período de horas e depois racionalizo.

Depois vens racionalizar.

Isto não é a minha vida, eu não vivo disto, eu não ganho nada com o Benfica, também não perco nada por ser do Benfica, a não ser anos de vida e de juventude. É por isso que eu depois tenho que fazer tratamentos à pele, é porque o Benfica já me fez envelhecer em duas semanas mais do que nos últimos 40 anos. E às vezes eu penso: eu gostava que esta paixão não fosse tão exaltada, não viver isto de uma forma tão intensa. Mas, por outro lado, também já tive tantas e tão boas alegrias com o Benfica que acho que isto compensa. Isto é sem dúvida de família. Os meus pais sempre foram, eu já nasci numa família benfiquista, o meu pai era doente pelo Benfica, as memórias mais antigas que eu tenho era de facto ir ao estádio.

Igual, ir ao estádio com o meu pai.

Ao estádio, era pequenina. Ao antigo Estádio da Luz, quando os jogos eram muitas vezes aos domingos, às 3 p.m.

Íamos mais cedo, íamos ver as outras modalidades.

É verdade, ia ser as outras modalidades. Eu própria andei, fiz algumas modalidades no Benfica, portanto, isto é uma coisa que vem desde sempre. Eu sou sócia há 37 anos, acho eu. Portanto, é uma coisa que está assim muito Muito enraizada.

Manténs-te confiante agora?

Não. Se calhar não devia dizer isto, tenho medo que a classe associativa fique chateada comigo.

Mas como há muita gente.

Mas estive comigo. Eu era a pessoa que quando já estava toda a gente superentusiasmada e “Isto está ganho”, eu dizia: “Calma.” Sempre. Porque eu já vivi muito com o Benfica, já vivi situações parecidas, portanto sei que isto pode acontecer.

Estavas até à última.

Sempre. Estava sempre: “Calma, não ganhámos nada.” E toda a gente: “Achas que sim? É 10 pontos, já ganhámos nada.” Pronto, neste momento estamos a quatro a tentar sobreviver e estimo que este final de campeonato vai ser muito duro.

Então e o stand up comedy, Ana, começou completamente por acaso, mas depois ganhaste o gosto. Os roasts então são muito a tua cara, pelo menos é a ideia que eu tenho. Mas deve haver limites para o humor, Ana? É aquela pergunta.

Eu defendo que não. Eu sei que esta é uma discussão muito polêmica, e mais do polêmico, eu acho que é uma discussão que não há resposta para ela, não há uma resposta estanque que nem um lado é altamente válido, nem o outro é altamente válido. Os que defendem uma coisa e outra. Eu acho que não, provavelmente porque me movo na área, então dá-me jeito achar que não para poder brincar com tudo, mas mais do que isso, porque eu sinto que não há nada que possam dizer-me em registo de humor, que me melindre. Sobre o que for. Podem gozar com a morte do meu irmão, podem gozar com o que quiserem. Eu acho que a partir de um momento vou rir mesmo.

Porque tu consegues distinguir, não é?

Eu acho que sim, mas lá está. Não sei. Estava aqui a pensar se alguma coisa ligada aos meus filhos me melindraria, provavelmente. Não sei. Eu gosto de acreditar que não e que conseguirei sempre fazer isso. Eu acho que sendo uma boa piada, acaba sempre por ser válido, mas tem que ser boa. Se for só uma ofensa, uma coisa gratuita, aí acho que não. Mas a questão é que o humor mexe com sensibilidades, que serão sempre diferentes de pessoa para pessoa. Portanto, se te fores impor essa censura, “eu não posso fazer piadas com isto porque vai melindrar não sei quem”, haverá sempre alguém a melindrar-se com o que quer que seja. Pode ser a cor de um tapete, que pra ti é uma coisa absolutamente inócua, e alguém que se vai chatear com aquilo. Portanto, eu acho que se fores atender a isso, em última instância não fazes humor com nada, porque haverá sempre alguém em algum sítio que vai ficar magoado com a piada que tu estás a fazer. Eu acho que é só isso. Eu acho que a nossa liberdade é rirmos ou não rirmos de uma piada. Não é impor ao outro sobre o que é que pode fazer piadas. Eu gosto de acreditar nisto, mas é uma ideia que eu estou a trabalhar ainda.

Aqui na rádio fazes o “O Que É Que Sucede?” à quarta e ao sábado. Lembras-te como é que surgiu o convite?

Surgiu na praia. O convite não foi bem aí. Foi uma primeira abordagem por parte da Catarina Miranda. Encontrámo-nos no Algarve, casualmente na praia, e a Catarina disse: “Olha, vou pra Rádio Observador, vou ter um programa aos fins de semana e gostávamos de ter alguém mais ligado ao humor que pudesse ter um podcast sobre redes sociais, o que é que está a passar nas redes sociais. Eu lembrei-me imediatamente de ti e estava a pensar sugerir o teu nome, mas não queria fazê-lo sem falar contigo primeiro.” Eu disse: “Vamos embora, claro que sim.” Por isso é que foi uma conversa de praia.

Portanto aceitaste logo.

Sim, mas achei que era aquilo. Isto é uma coisa que estamos aqui a falar, as duas em biquíni, isso provavelmente acaba por cair em esquecimento e não dá em nada. E a verdade é que um ou dois meses depois acabei mesmo por ser contactada. Acho que a primeira abordagem até foi novamente a Catarina, depois acabei por falar com o resto das entidades do Observador e a coisa avançou. É aquela coisa de me tirar da minha zona. Para já eu adoro rádio. Quando eu acabei o curso, o que eu queria mesmo, apesar de adorar escrever, eu queria mesmo ir pra rádio e estagiei em rádio.

E foste na Antena Um, na Antena Três.

Na Antena Um, na Antena Três. Depois como não fiquei no estágio e acabaram por me oferecer emprego no outro estágio que eu estava a fazer, que era no jornal, na Capital, acabei por aceitar. Mas a coisa da rádio ficou sempre lá e entretanto ter feito alguns podcasts antes de chegar aqui ao Observador, reavivou um pouquinho essa coisa da rádio. E depois gosto, porque me obriga a estar muito atenta a tudo que se passa em todas as áreas. Eu gosto disso, porque acho que no Instagram e nas minhas redes sociais, apesar de obviamente eu ter toda a liberdade pra falar sobre o que quero, percebo que às vezes, se calhar também não é bem isso que as pessoas vão procurar, temas de política ou desporto ou o que seja. E aqui posso fazê-lo, e posso fazê-lo sem deixar de lado a parte do humor, e obriga-me de facto a estar muito atenta a tudo o que se está a passar. Eu gosto disso.

Portanto, rádio, televisão, a Pipoca Mais Doce, os teus negócios, o que é que falta fazer? Além do romance, escrever o romance.

Já tenho o livro, já tenho a árvore, já tenho filhos. Não faço ideia. Eu devia ser, e sobretudo agora tendo 42 anos e vivendo aterrorizada com esta coisa da passagem do tempo, como eu te dizia, e de não saber como é que vai ser o meu futuro e se esta coisa das redes sociais ainda vai durar muito tempo ou não. Provavelmente eu deveria ser muito mais organizada a nível de estabelecer objetivos.

Ou ter um plano B.

Não tenho nada. Isto se calhar é uma grande irresponsabilidade, mas eu também não sei viver assim. Eu não sei traçar objetivos, não sei fazer planos a cinco anos. “ Cinco anos quero estar não sei onde, quero ter não sei quanto dinheiro na conta, quero ser proprietária de uma casa no Alentejo.” Não, era aquilo que eu dizia. Vão surgindo uma data de oportunidades, às vezes em áreas completamente inóspitas, que nunca me passaria pela cabeça, e eu vou aceitando e não me tenho dado mal com isto. Se isto vai acabar? Provavelmente sim. Mas eu ainda vivo um pouquinho naquele “vou me enganando a mim mesma” e vou protelando esse momento em que vou ter que decidir o que é que quero fazer da vida, tendo em conta que ainda tenho mais 20 anos de vida ativa até à reforma, e vou ter que preenchê-los de alguma maneira, não sei bem com o quê. É muito tempo. Olhando pra trás, 20 anos passaram muito rápido, mas olhando pra frente, 20 anos é muito tempo. E eu não sei exatamente o que é que vai acontecer na minha vida. Portanto, se calhar sim, vou ter que começar a fazer planos. Não me apetecia nada, mas se calhar vai ter que acontecer.

Ana, obrigada por esta conversa. Gostei muito de conhecer.

Também passou muito rápido. Pode convidar-me outra vez que eu venho. Tenho mais coisas pra dizer.

Eu sou a Maria João Simões, obrigada pela companhia. Até o próximo “Observadores Como Nós”.