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Olá, seja bem-vindo a mais um "Observadores Como Nós". Eu sou a Maria João Simões e esta tarde é meu convidado Alberto Gonçalves, sociólogo, escritor, colunista, mas que é também um apaixonado pela América, excelente companheiro de viagens, um fã de French toasts e em tempos jogador de futebol. Olá, Alberto, bem-vindo.

Olá, Maria João.

Obrigada por ter aceitado o meu convite. Nasceu a 28 de julho de 1969, em Matosinhos. Qual é a sua primeira memória, Alberto? Como é que foi a sua infância?

A infância tinha muito a ver com a praia, que é coisa de que eu não gosto particularmente hoje em dia, por acaso, mas Matosinhos era praia. E eu nasci perto da praia e vivi quase sempre, e vivo, perto da praia. Hoje não a frequento, mas Matosinhos era muito ligado a isso.

E era de brincar na rua ou ficava mais por casa?

Sim, na rua. Jogávamos futebol na rua, eu e os meus amigos, incluindo de noite.

De noite?

Tinha cinco, seis anos. Sim, deixavam-nos estar ali à vontade. Passavam poucos carros, na altura.

Não é como hoje.

Não. Nós conseguíamos fazer um jogo no meio da rua e o primeiro carro demorava um quarto hora a passar.

E o gosto pela praia nunca surgiu, mesmo depois de tantos anos a viver aqui?

O gosto pela praia existia nessa altura. Depois, em idade adulta, que desinteressei-me. Provavelmente por excesso.

Exato. Por ser um bem adquirido, por estar sempre ali à disposição.

Ainda hoje.

Hoje vive em Leça, não é?

Sim, mas em frente à praia, também. Em várias casas, por várias coincidências. Nunca procurei ativamente isso, mas sempre vivi em frente à praia. E hoje acho a água gelada, coisa que não achava na infância.

Quem o conhece diz que é uma pessoa relativamente reservada. Já era assim criança?

Acho que não. Acho que até uma certa idade. Eu hoje também já sou menos reservado do que algum já fui. Na adolescência fiquei um bocado, a partir da adolescência, mas na infância não. Eu lembro-me de primos distantes, vizinhos, levavam-me pra praia e eu ia com toda a gente. Não sei o que é que os meus pais faziam comigo, mas não me ligava nenhuma, porque eu andava com toda a gente.

E o que é que o fez tornar-se mais reservado na adolescência?

Acho que são aquelas coisas da adolescência, aquelas mudanças hormonais ou qualquer coisa, não sei. Fiquei ali um período mais reservado, mas hoje acho que não sou muito.

Dizia que vivia em Leça, depois tem outra casa em Bragança. É o melhor de dois mundos?

Hoje gosto mais de estar lá em Trás-os-Montes. Sim, prefiro. Por questões de proximidade aos amigos, mantenho-me em Matosinhos.

Mas é o quê? É o seu refúgio?

É. Hoje em dia é o que eu sinto mais como a minha casa. Agora estou muito menos tempo lá do que estou em Matosinhos. Infelizmente, estou lá, sei lá, 20% do tempo.

E o que Bragança tem que não tem em Leça?

A casa fica a uns 30 km, é uma zona rural mesmo. Tem vista, tem espaço e tem sossego. Mas é o facto, sei lá, uma pessoa quer ir a qualquer lado, pega no carro e não tem problemas nenhuns, não tem dificuldades, estaciona onde quer, não tem aqueles problemas. Matosinhos nisso não é melhor que Lisboa, nem pior, depende da perspectiva. É impossível estacionar o carro, é insuportável.

Portanto, é o sossego, será?

Lá é o sossego.

E também gosta de Zamora, não é?

Fomo muito a Zamora, sim.

Por que Zamora?

Eu gosto de Espanha. E conheço relativamente bem Castela, zona até Madrid. Aquela zona toda, desde miúdo que ia com os meus pais para ali. E Zamora já é uma cidade, embora seja, à escala espanhola, mais ou menos o que Bragança é para Portugal, uma cidade pequena, pequenina para Espanha, tem uma animação, uma agitação, aquela coisa espanhola.

Aquela movida.

A movida que a própria Zamora tem. Nem são turistas, são os próprios zamoranos que estão sempre na rua e pode-se ir beber uma cerveja ou comer umas tapas até muito tarde.

E Alberto gosta disso?

Gosto, gosto da coisa notívaga. Nós em Portugal não temos isso, numa cidade média ou pequena do interior, então, tudo fecha cedo. Eu gosto muito dos Estados Unidos, a Maria João já falou nisso.

Sim, já lá vamos.

Nos Estados Unidos também uma pessoa está numa cidade do interior e as coisas fecham, temos que jantar até às 20:00, o mais tardar. E em Portugal não é assim, mas quase. Em Espanha, não.

E é mais de noite? É mais um homem da noite?

Gosto mais.

É quando escreve?

Por acaso, não. Por acaso, para trabalhar, gosto de acordar e trabalhar logo.

Despacha logo o que tem.

As obrigações gosto de fazê-las ao acordar. A noite é mais para diversão.

Para desfrutar. E o que é que faz durante a noite?

Muitas vezes é simplesmente em casa e faço como apetece, leio como apetece, vejo como apetece. Quando é para sair também é à noite. Mas isso não me parece ser um exclusivo meu, acho que ninguém combina com os amigos provavelmente uma saída às 10:00 da manhã, não é muito costume, a não ser para levar os miúdos aos filmes da Disney ou qualquer coisa.

O Alberto esteve sempre inclinado pra matemática. Como é que surge então a Sociologia? O seu pai era engenheiro, a sua mãe fez toda a carreira na função pública, na Câmara de Matosinhos, portanto, por aqui não foi.

A Maria João está informada sobre essas coisas todas. Não, para a Sociologia, eu acho que foi por preguiça.

Então?

Eu ia seguir Matemática Aplicada, que era o que eu gostava. Gostava de Matemática, era a única disciplina que me dava gosto de estudar. Mas depois aquilo obrigava à Física e a Química, aquelas coisas, e aí já começou a complicar um bocado. Eu comecei a recear que o curso fosse demasiado trabalhoso e achei, para grande desgosto do meu pai, "vou mudar pra um curso que não pareça dar muito trabalho". E então as opções na altura, uma delas era Sociologia. Quando entrei na faculdade, acho que entrei em três coisas diferentes: Sociologia, Filosofia, talvez Geografia, coisa qualquer. E escolhi Sociologia. Parecia-me assim uma coisa meia vaga, e é, assim meia difusa, que não obrigaria a um trabalho intensivo. E não obrigou, não foi muito complicado o curso.

Mas até hoje nunca se arrependeu por ter deixado de lado a Matemática Aplicada?

Deixar de lado a Matemática, não. Mas se fosse hoje, talvez não tirasse o curso de Sociologia.

E tiraria qual?

Por estranho que pareça, provavelmente Medicina.

Medicina?

Medicina, porque entretanto descobri-me hipocondríaco.

Pois, já sei que sim.

E vi que posso ler sobre Medicina e percebo bem aquilo.

Mas depois tem aquela coisa de procurar no Doctor Google e já sabe que aí vai tudo, termina tudo em doença.

Ah, não pode ser a primeira informação.

Tem que pesquisar, tem que ir a fundo.

Eu leio quase sempre em inglês. Não sei alemão, mas eu já me via ler um estudo em alemão A tentar perceber alemão para perceber se eu tinha uma determinada doença ou não. Portanto, eu acho que para medicina até leria húngaro se fosse preciso. E acho que é relativamente fácil de compreender, pelo menos do ponto de vista de um leigo, se calhar estou a dizer um disparate, mas quer dizer, há muitos médicos, não são todos prémios Nobel da medicina. Suponho que alguns conseguiram estudar, acho que conseguia ir por aí.

O Alberto é filho único. O seu pai já faleceu. Como é a relação com a mãe?

É boa, com um conflito ou outro à mistura.

É, que faz parte de gerações, conflito geracional.

Não propriamente. A minha mãe não estranha nada das novas gerações. Por aí, não. Nem meu pai também.

É só ouvinte?

É, do "Ideias Feitas", sempre. Sim. Leitora mais ocasional.

É? E crítica?

Sim. Por acaso é uma pessoa a quem eu pergunto se a coisa correu bem, quando calha. Não é que não haja outras pessoas que também pudessem dar uma opinião, mas não vou estar a telefonar às pessoas a seguir ao "Ideias Feitas" a perguntar se correu bem. Se calhar, ao falar com a minha mãe, pergunto. Porque eu sei que ela diz a verdade, tem um entendimento. É uma pessoa com estudos médios, não é uma pessoa erudita, também não é uma pessoa que não saiba nada. Então, é uma opinião que eu acho que, se ela não gostou, é válida. Ou seja, se ela não gostou e ela diz-me isso, eu percebo que a mesma ideia pode ter passado por outras pessoas. Portanto, acho que tem algum peso nesse sentido.

Há pelo menos dois responsáveis pelo Alberto se ter apaixonado pela escrita e por se ter dedicado às crónicas, ter desperto quando era miúdo, o Miguel Esteves Cardoso, e depois o Vasco Pulido Valente, que diz o Alberto, foi ainda mais decisivo. Atualmente, quem é que o poderia despertar para uma outra paixão?

Não acho que haja alguém comparável ao Vasco Pulido Valente. Não. Eu descobri o Vasco Pulido Valente quando apareceu o Independente. Era um nome que eu conhecia, mas sabia que estava vagamente ligado. Tinha estado ligado à política ou qualquer coisa do gênero. Ou seja, quando apareceu o Independente, eu tinha 19 anos, 20 anos, por aí. Não estava muito metido nestas coisas ou nada metido nestas coisas. E quando comecei a ler, conhecia o Miguel Esteves Cardoso das crónicas de música pop, aquelas coisas, achava piada, aquilo desde os 14 anos, no "Sétimo", no "Expresso", aquelas coisas. Mas depois quando li o Vasco Pulido Valente, primeiro percebi que se podia escrever sobre política e eu gostar de ler. Alguém escrever sobre política e eu gostar de ler. E depois percebi que se podia escrever assim. E provavelmente quando comecei a escrever, sei lá, uma meia dúzia de anos depois, sete ou oito anos depois, quando comecei a escrever as crónicas, se calhar tentava imitar miseravelmente o Vasco Pulido Valente. Hoje espero que se note e que haja diferença. E há diferença de qualidade.

Hoje tem o seu cunho, hoje tem sua marca.

Espero que sim, que pelo menos o estilo. E o Vasco nisso era insuperável. Eu não acho o Vasco Pulido Valente apenas o melhor cronista português. O Vasco Graça Moura dizia isso, que era provavelmente o maior escritor português da segunda metade do século XX. E eu tendo a concordar com isso. Se calhar há melhor, mas eu não conheço.

E foi por isso que alguém como o Alberto diz que era apolítico, começou a escrever sobre política?

Sim, também foi por isso e foi por influência da faculdade. O meu curso era muito virado à esquerda. Eram aquelas pessoas, na altura ainda não havia o Bloco, mas havia o Política 21, talvez, o PSR, aquelas coisas do Francisco Louçã, e os meus professores eram um bocadinho inclinados para aí e aquilo começava-me a irritar. Então lá com uns amigos, três ou quatro amigos da turma, começamos a explorar as coisas e a perceber que havia outras opções. E então começamos a interessar-nos por alternativas políticas.

Para ser do contra, não?

Sim, em parte também, sim.

Mas gosta de ser do contra?

Gosto.

Gosta?

Não gosto. É inerente a mim desde miúdo.

A sério?

Sim.

Por quê desde miúdo?

Sei lá, o meu avô era do Sporting e eu era do Benfica. O meu pai não gostava de futebol, eu forçava-me a gostar de futebol, sem ter assim uma paixão por ele. E por aí fora. Os meus pais eram do PPD, eu dizia que era de todos os partidos, praticamente.

Menos daquele.

Menos do PPD. Eu acho que com seis anos cheguei a oscilar entre o PPM e o PS. Atenção que foi com seis anos, depois com sete passou.

Com seis anos, já?

Logo a seguir ao 25 de Abril, eu não podia ser da mesma coisa que os meus pais ou qualquer coisa. Mas isso é inclinação, provavelmente irritante.

Falava aí de futebol. Eu acho que quando o ouvimos ou lemos, é fácil imaginar assim um intelectual daqueles que nunca deu um pontapé na bola, mas não é bem assim.

Sou melhor jogador do que intelectual.

Não só foi jogador de futebol, como vem de uma família onde houve mesmo um profissional. Um tio?

O meu tio é a grande figura da história do Leixões.

Jogador do Leixões, não é?

Ele não jogou, ele jogava no Leça, que é o clube rival, mas depois treinou o Leça, depois treinou o Leixões, e treinou a tal ponto que hoje tem uma estátua, um busto à porta lá do Estádio do Leixões. Eu nunca vi o busto.

Por isso é que fizeste uma cara estranha quando eu disse que era um jogador de futebol.

Sim, eu cheguei a treinar com meu tio lá no Leixões, sob as orientações do meu tio, mas depois alguns colegas, provavelmente invejosos do meu talento, acusavam-me de proteção do tio. Era sobrinho neto. E acusavam-me de alguma proteção e eu acabei por desistir daquilo. Aqui entre nós, também o meu jeito não me permitiria ir para o Real Madrid ou coisa assim.

Mas isso não vai ao encontro daquilo que dizia, de ser do contra. E devia ter forçado a coisa, não é?

Mas aí ouvir aquelas bocas nos balneários.

Não eram simpáticas, não era?

Não era, não. Ouvi duas ou três, mas quer dizer, o meu tio mandava marcar os penáltis e talvez uma vez falhei um penalti e uns tipos estavam lá criticando. Tínhamos 14 anos. O futebol perdeu um grande talento, é verdade.

Sei que adora cães pequenos.

Sim.

Cães pequeninos.

Como é que a senhora sabe isso?

Sei muita coisa sobre si, Alberto. Tive que investigar.

Cães pequeninos, as pessoas ficam sempre-

E tem o Zequinha.

Oh, pois tenho.

É um Zequinha, que foi um cão abandonado. Conte-me lá a história do Zequinha.

O Zequinha encontrei numa estrada lá em Trás-os-Montes, perdido, com uma coleirinha toda já estragada.

Pequenino. Do tamanho sim, mas de idade provavelmente também.

Sim, no Vinho. Ainda é, tem três anos, por aí. Acho que eu calculo pela dentição e aquelas coisas. E já os cães anteriores que eu tinha tido são sempre encontrados, rafeiros. Já salvei um cão do canil, esse tipo de coisas.

E consegue perceber de onde é que vem esse gosto?

Sempre tive cães e meu pai sempre teve cães, e qualquer tipo de cão. Não eram aquelas coisas dos cães de marca, como às vezes digo, os cães de raça, com pedigree. Sempre gostei, mas a partir de uma certa idade comecei a gostar mais. Em adulto, gosto muito mais.

Mas os seus amigos dizem que quando vê um é incapaz de não fazer uma festinha, é imediato.

Aliás, já fui mordido duas, três vezes por causa disso, ligeiramente. Mas vou logo, sim, são cães muito pequeninos. Há pouco, numa viagem, encontrei uma senhora com um cão que tinha até 10 centímetros. Que uma pessoa que estava no grupo que me acompanhava chamava: "Olha, Alberto, um rato daqueles que tu gostas".

E só tem um.

Neste momento só tenho um.

Consegue só ter um. Ou seja, tem que se controlar.

Tive muitos anos, tive quatro. Sim, mas tinha mais condições em termos de logística, de viagens, deslocações. Neste momento é mais difícil, então tenho só os equinos.

Como é que o Alberto passa o seu tempo? Grande parte do tempo entre Leça, agora diz que passa mais tempo em Leça, não é?

Em Leça, sim, e uma boa parte também em Trás-os-Montes. Dentro do possível, mais no verão. Trás-os-Montes é muito frio.

Pois. Depois do podcast do Comité Central, com o Tiago Dores e o Carlos Guimarães Pinto, tem agora no mesmo canal do YouTube, todas as terças, o "Alenga, Alenga do Costume". Conte-me lá o que é isto. Sobre a atualidade, o que é que vocês discutem?

É mais ou menos o Comité Central, só que sem o Carlos Guimarães Pinto.

Agora não pode, não é?

Começou a ter mais dificuldades em gerir os tempos. E depois também havia ali uma diferença, não é de opinião, isso era excelente, uma diferença de interesses, de matérias a cobrir.

Claro, sim.

Eu e o Tiago gostamos mais de falar de questões destas guerras culturais e sociais. E o Carlos não gosta muito disso. Ainda falei com o Carlos agora há poucos dias. O Carlos é brilhante nisso, é a economia. E o Tiago, embora economista de formação, por acaso.

É verdade.

Mas ele não gosta tanto de falar do assunto. E eu também prefiro dispensar isso e falarmos mais destas coisas que vão chegando a Portugal, mas estão a passar-se nos Estados Unidos, Inglaterra, e não só. Das guerras culturais, das políticas identitárias, essas coisas todas, gostamos disso. E o Carlos não gosta nada de falar sobre isso, assume. Assume, é sóbrio, sem problema nenhum. E interessante como deputado, ele ainda esteve uns tempos conosco já deputado, mas também os tempos dele também.

Claro, são outros. Mas todas as terças-feiras.

Sim, eu e o Tiago, sim.

E já alguma vez foi convidado para fazer parte de algum partido?

Não.

Nunca foi?

Nunca.

E se fosse, teria alguma desnudez?

Nenhuma. Nunca. Não, pelo amor de Deus.

Só falta dizer credo.

Credo, sem problema. Tenho pessoas, por exemplo, da Iniciativa Liberal, mas não foi por estar na Iniciativa Liberal. Conhecia uma série de gente antes de existir a Iniciativa Liberal. Pessoas que eram minhas amigas. Amigas, também não demasiado próximas, mas pessoas com quem às vezes havia um almoço, um jantar, uma coisa coletiva. Até cheguei a jantar com outras pessoas, com o atual líder, com o Rui Rocha, uma vez ou duas. Pessoa muito simpática. Mas entrar eu para um partido, não. Chamaram-me aqui há uns tempos para fazer uma intervençãozinha na ala conservadora da Iniciativa Liberal. Estes que se demitiram agora em bloco. Eu tinha feito uma semana antes do congresso, uma coisa assim, fui a um jantar deles e falei lá umas coisas, mas não falei a apoiar uma fação, mas são pessoas que eu conheço e me chamaram e eu, por amizade, fui. Mas entrar para o partido, não.

Estou à conversa com o Alberto Gonçalves. Vamos fazer uma pausa para as notícias e já voltamos com a segunda parte do Observadores Como Nós. Segunda parte do Observadores Como Nós, hoje com Alberto Gonçalves, sociólogo, colunista, autor e um apaixonado pela América. Apaixonou-se pelo continente a partir de Nova York e depois foi à descoberta. Todos os anos passa férias na América. Alberto, por que esta paixão? Como é que isto começa?

Há uma série de fatores de infância, depois de música, aliadas à música, ao cinema. No meu caso, mais à música, por acaso. Mas houve um momento que eu acho que é decisivo, que foi: estava uma vez num aeroporto qualquer mexicano e ia para Madri, ia regressar a Madri, e comecei a ver lá no painel das chegadas e das partidas, uma série de nomes de cidades americanas, mas daquelas cidades médias, Albuquerque, coisas assim, Oklahoma City, Tulsa, qualquer coisa. E comecei a pensar, estava a olhar para aquilo e estava assim: "Eu queria estar nestes sítios e não aqui onde estou, nem para onde vou. Eu gostava era de ir a estes sítios". Isto foi há 24 anos ou 23 anos. E percebi que as próximas viagens que eu fizer, vou ter que conhecer estes sítios. Ainda demorou a conhecer alguns desses sítios, porque comecei a ir pra América um ano ou dois depois disso, mas foi pra Nova York. E como gostei muito de Nova York, as primeiras viagens ficava sempre por ali, ia à Boston, cheguei a Washington, mas a costa leste, ali por ali, não muito longe. Depois, só para aí há 12 anos, 13, é que comecei ir pro interior da América e percebi que gostava mais daquilo ainda.

O que é que tem de fascinante?

No caso do sudoeste, foi os desertos, foi aquela imensidão e aquelas estradas e a bomba de gasolina perdida no meio da estrada e a sensação de que podemos ir pra qualquer lado, que é uma coisa que a praia me chateia, o mar me aborrece, que é uma sensação de clausura, que chega ali e termina. Eu sei que as pessoas normalmente não têm isso. A mim dá-me essa sensação. E ali sinto que é o contrário, não há mar nos 2000 km mais próximos, e sinto que posso ir pra qualquer lado e dá-me uma sensação que eu não antecipei. Tinha uma ideia vaga daquilo, talvez dos filmes. Mas depois de estar lá, percebi: este é o meu mundo Eu percebi que gostava daquilo. Antecipadamente não tinha suspeitado disso.

O Alberto escreve sobre a América: "Falta-me decidir se aquele é o meu mundo ou o seu inverso. Falta-me resolver se gosto da América graças à primeira hipótese ou graças à segunda".

É isso, porque há uma mistura de conforto em estar lá, mas também de estranheza. É de fato estranho. São paisagens muito bizarras e são fascinantes, sem dúvida, mas é um mundo que me é agradável de estar, isso sim. Agora, dizer que é o meu mundo ou que estou em casa, não. As minhas raízes são muito diferentes e não se parecem nada com aquilo. Nada se parece com aquilo.

E quando regressa, o que é que traz lá? Qual é o estado de espírito? O que é que traz na bagagem?

Quando regresso, normalmente venho cansado, porque são viagens de estrada.

E depois do cansaço?

Depois do cansaço, fico logo com saudades de voltar. Há ali um período de ressaca, digamos. Venho para casa, estou sossegado e gosto, mas depois fico a tentar planear a viagem seguinte e se vou aos mesmos sítios ou ali mudar alguma coisa.

E ainda sonha ser caminhonista de longo curso na América?

Isso é um sonho. Não é propriamente um sonho de infância, é um sonho desde que descobri essa América e pensei: "A minha profissão ideal teria sido ser caminhonista aqui".

Teria sido?

É difícil. A energia já não é a mesma e provavelmente não me aceitavam. Mas para além dos benefícios salariais, que eu acho que se ganha muito bem como caminhonista, mas não é por aí, é coisa da estrada. Eu, por exemplo, nunca na minha vida peguei no meu carro para ir dar uma volta de carro. Aquela coisa, ir dar uma volta de carro. Nunca fiz isto, nem 5 km. Ir sem destino nenhum. Aqui em Portugal, estou a falar. Na América, não é que não vá sem destino nenhum, tenho mais ou menos um itinerário na cabeça, às vezes sofre ligeiras mudanças no momento, mas a coisa de andar de carro lá e conduzir lá é uma coisa que me dá um prazer imenso. Aquelas estradas sem fim. Às vezes aborrece. Há dias que uma pessoa pensa: "Epá, hoje não devia ter feito 600 km e tal. Hoje o troço da estrada não era particularmente fascinante".

Mas custa-lhe depois quando regressa a Portugal? Ou consegue encontrar algum conforto em Leça, em Bragança?

Encontro esse conforto, sobretudo nos primeiros dias. Venho cansado, como estava a dizer, mas depois sinto a falta.

Há muito pouco tempo organizou uma viagem de 10 dias com amigos. Quem teve a sorte de ir diz que é um excelente companheiro de viagem, descontraído e um excelente anfitrião. Sabe de tudo: cultura, cinema, livros, música country.

Isso não vou comentar. Não, sei umas coisas. E também eu tinha a vantagem, fui para os sítios que eu conhecia bem e que as pessoas em causa nunca tinham passado por lá. Havia uma pessoa ou duas que conhecia alguns daqueles sítios. Uma pessoa lá tinha ido ao Grand Canyon, por exemplo.

Portanto, pararam em vários locais.

Sim.

Começaram em Phoenix?

Em Phoenix e acabamos em Phoenix. Demos ali a volta.

Utah, Route 66, Grand Canyon, Los Angeles, San Diego.

Estivemos em Los Angeles um dia e meio. Já estive em Los Angeles muitas vezes e não conheço nada da cidade. Nós temos aqui Lisboa, é a grande cidade portuguesa e que não é fácil de conhecer em poucos dias. Agora imagine Los Angeles, que é 20 vezes isto.

Pararam nos sítios, se calhar, menos prováveis ou mais improváveis. No hotel onde todos os atores que fizeram filmes de cowboys dormiram, estiveram onde se come a melhor tarte de noz, não é a Popeye, a tarte de noz.

É a noz pecan. Eu gosto muito da tarte de noz.

Uma terra que tem burros à solta. Fecharam a mina e ficaram os burros. Portanto, estiveram em sítios que só o Alberto, conhecedor, pode levar as pessoas.

Haverá outras pessoas que conhecem, com certeza, mas são sítios muito pequenos. Por exemplo, essa terra dos burros, são burros selvagens, que ficaram selvagens quando os garimpeiros da corrida ao ouro, no século XIX, os abandonaram.

Portanto, o Alberto já tinha estado nestes sítios.

Já, fui três ou quatro vezes. É Oatman, é uma cidadezinha. A gente em Portugal chama cidade a outras coisas. É uma rua com 32 casas, por aí. E tem burrinhos, são uns burros diferentes dos nossos, mais pequeninos, que andam por ali, têm a vida deles.

E quando planeou esta viagem, como é que foi escolher os sítios para onde levar os seus amigos?

Primeiro, como não era responsabilidade propriamente, mas queria que a coisa corresse bem, fiz por ir a sítios que eu conhecia bem. Fui a um sítio ou outro que eu não tinha passado ou conhecia muito mal, mas de resto, fui a sítios que eu conhecia bem para não dar pau ali perdido. Eu tenho uma coisa, não tenho sentido de orientação absolutamente nenhum. Se a Maria João puser ali a porta, já não sei onde é a saída. Portanto, é tudo com base no GPS e nos mapas. Eu sei olhar para mapas, aí tudo bem. Agora eu colocar-me nos sítios e eu perceber onde estou, eu juro, se estiver na Boavista, no Porto, não faço ideia para que lado é Santas. Não tenho a mínima noção, e o Porto é uma cidade pequena. Não tenho a mínima noção de nada.

Então no deserto isso fica difícil sem GPS.

No deserto não é esse o problema, é tudo deserto, é igual para todo lado. Estou bem. Tirando mesmo ali os sítios que conheço muito bem por rotina, eu não tenho noção nenhuma, as pessoas riem-se muito de mim por causa disso. Uma vez eu fiz uns testes psicotécnicos, tinha aí 18 ou 19 anos, com uma psicóloga amiga, e ela chamou-me para dizer que estava tudo muito bem, mas que tinha uma parte que parecia ter um atraso mental, vamos dizer assim.

Um bloqueio?

Podemos dizer atraso mesmo, que era a parte da dimensão espacial, que eu não tinha noção nenhuma. E não tenho. Não tenho noção nenhuma onde é que é a saída aqui do estúdio para a rua, não faço a mínima ideia. Estou sempre perdido. Eu quando vou a um shopping, estaciono o carro num sítio. Tem que ser aquele shopping, naquele sítio. Se eu for a outros sítios, tenho que fotografar para saber os códigos e essas coisas. Já aconteceu de pedir a funcionários para me ajudarem. Não tenho noção nenhuma. Na América, como aquilo é tão vasto e tão grande, também se eu não for para um lado, vou para o outro. Desta vez tive mais cuidado, porque havia mais pessoas com expectativas. Então, com o GPS, tudo bem.

É por todas essas viagens e por esse fascínio pela América que está agora a lançar o seu sexto livro, "Nenhum turista vai a Tucson". E engane-se quem pensa que isto é um guia, é um livro de viagens.

É um apanhado de instantes de viagem, de episódios. Há até algum comentário, isso é vício profissional, comentário político, de atualidade. Lá está, sobre esta coisa das guerras culturais que nos Estados Unidos hoje em dia são. Não fala muito do Trump, nem do Biden. Não, não fala quase nada, que me lembre. Praticamente nada. Realmente são impressões de viagens, de uma série de viagens que fiz aos Estados Unidos. Há um comentário ou outro sobre a questão racial nos Estados Unidos, atual e antiga, etc.

Claro. E este pode ser o primeiro de uma série de livros sobre as suas viagens?

Se a minha caríssima editora, Zita Seabra, não me tivesse pressionado a fechar o livro, eu andaria mais três ou quatro anos a aumentar o livro. Mas fui pressionado, então tive que acabá-lo. Eu, por mim, continuaria a escrever. Depois vou me lembrando de coisas que eu não incluí no livro e tenho pena. Mas pode haver uma segunda edição, um segundo volume, não faço ideia. Neste momento não está nada escrito. Está! Tenho uma série de blocos de notas com coisas que não usei no livro.

Sobre este, o Ricardo Araújo Pereira disse: "É admirável por dois motivos. Primeiro, explora uma América desconhecida e surpreendente, fora dos percursos turísticos habituais", como falávamos há pouco, "e depois, enquanto se entretém com isto, o Alberto Gonçalves não está a escrever sobre política".

Essa é uma frase espetacular do Ricardo. Ele não concordará. Pode haver um elogio nisso. Ele pode achar que o que eu escrevo sobre política é prejudicial às ideias que ele defende. Mas acho que, no geral, ele não gosta do que eu escrevo sobre política. É natural, também não gosto das opiniões políticas dele. Embora, quando nós falamos com o Ricardo, em particular, as opiniões políticas dele também não são tão extravagantes, a meu ver, quanto isso.

Também é um apaixonado por fotografia. Todas as fotografias deste livro são suas, não é?

Não é por paixão nenhuma, Maria João.

Não?

Não, são fotografias que eu tirei. Há ali um período de transição entre a desistência da matemática e a opção por Sociologia, que eu pensei em ser fotógrafo. E uma pessoa amiga, o pai de uma namorada da altura, emprestou-me uma câmera com as objetivas todas, tinha lá o equipamento todo. Andei quase um ano, aquele ano da Prova Geral de Acesso, que ninguém fazia nada.

PGA.

PGA. Andei a vagabundear, a tirar fotografias. E percebi que não tinha talento nenhum para aquilo. Especialmente depois que conheci um colega meu que fazia o mesmo de forma amadora e tirava fotografias que eu achava maravilhosas. E as minhas não eram. Portanto, como fotógrafo não dava. Com o telemóvel, uma pessoa aponta pra um sítio, aquilo sai, fez alguma coisa de jeito, e pra ilustrar o livro eu acho que chega. Gosto de ver fotografia, sim, mas não acho que tenha jeito nenhum.

Alberto, nesta entrevista já disse aí uma, duas ou três vezes que não tem talento para. Para que tem talento?

Acho que as crônicas não saem assim muito mal. Eu espero que não.

Então vamos às crônicas. É colunista do Observador há vários anos e na rádio é autor de Ideias Feitas, de segunda a sexta. Lembra-se de como é que surgiu o convite pra fazer parte da equipa?

Foi em conversa com o Miguel Pinheiro, quando na altura eu tinha sido enxotado do Diário de Notícias.

Do DN, sim.

Do DN, e entretanto eu conhecia o Miguel Pinheiro da "Sábado" e conhecemo-nos aí, estivemos muitos anos juntos. Eu vinha a Lisboa, na altura, muitas vezes almoçávamos constantemente.

Ficou magoado pela forma como saiu do DN?

Não fiquei surpreendido. Não me surpreendeu nada, magoado.

Ou chocado?

Fiquei assim ligeiramente incomodado, mas estava à espera daquilo. Eu não sabia quem era o sujeito em causa, era o Paulo Baldaia. Tinha perguntado quem ele era. Algumas pessoas tinham dito bem, outras nem por isso. As pessoas que tinham dito bem não eram pessoas que eu tivesse a opinião em grande consideração. E tinha visto uma fotografia, no pouco tempo em que eu estive escrevendo o DN e Paulo Baldaia já era diretor, vi uma fotografia do senhor Paulo Baldaia com o António Costa num estádio de futebol, mais umas duas, três pessoas com os cachecóis da seleção, em grande galhofa. Eu pensei: "Não vou durar muito aqui". E de fato, três semanas depois ou quatro.

O corte de Lisboa, não é?

O corte de Lisboa. Ele nega que tenha dito isso, mas ele disse isso, eu não ia inventar a expressão. Quer dizer, eu podia mentir, mas não estou mentindo.

Então vamos ao Miguel Pinheiro, ao convite. Foi assim que surgiu o convite?

Sim, em conversa com o Miguel Pinheiro. Convidou-me pra ter aqui um encontro com ele e com o José Manuel Fernandes. Não era aqui, nas instalações iniciais.

Sim, no Bairro Alto.

No Bairro Alto, sim, e tivemos uma conversa e comecei a escrever no Observador. Presumo que o Miguel gostasse das minhas crônicas da "Sábado", não lhe vou perguntar isso, mas presumo que sim. Eu tinha ali a última página da "Sábado", tive aquilo por aí, sei lá, 12 anos ou 10 anos, não sei, a última página e vim pra cá.

E depois a rádio.

E depois a rádio, sim. Isso foi uma vez o Pedro Jorge Castro que me ligou, eu fiquei muito na dúvida. A minha confiança na escrita é alguma, a minha confiança na oralidade não é assim tanta. E na altura ainda muito menos.

Não parece nada. Olhe que no ar parece muito seguro, sempre.

Sei que agora estou mais habituado. Fui me habituando, mas eu nunca ouvi um Ideias Feitas. Nunca, juro, Maria João, nunca ouvi um Ideias Feitas. Também não costumo reler as crônicas propriamente, mas às vezes pego numa crônica antiga e releio, e gosto do que releio. O Ideias Feitas nunca arrisquei. Eu tenho a impressão que se eu ouvisse os primeiros Ideias Feitas, nunca mais fazia nenhum. É melhor não ouvir mesmo. Em termos de sentir à vontade, agora sinto. Senti que domino aquele meio de comunicação. Como a escrita, não sinto da mesma maneira. É diferente. Até porque eu optei, tentei no início escrever o que dizia, essas coisas, e não funciona comigo. É tudo improviso. Prefiro que o discurso vá pra frente e recua um bocadinho, que a coisa não seja tão fluida quanto poderia ser, mas ao menos é natural. No meu caso, prefiro isso.

A ideia que temos é que o Alberto é capaz de falar de tudo. Sobre que matéria é que não está de todo confortável ou não gosta de opinar? Ou seja, do que nunca o vamos ouvir falar? Há assim algum tema?

Direito, matérias legislativas, não me meto nisso. Acho aquele português horroroso e aquilo enerva-me tanto. A forma como se redige o direito em português é uma coisa que me irrita tanto e que eu não consigo ter curiosidade nenhuma por aquilo. Aquilo deve ser feito pra tornar as leis vagas e permitir depois adaptações convenientes. Eu sei que é por isso. Agora, a mim aquilo repele-me, por exemplo, é uma área em que não. Alguma fiscalidade assim mais densa também não é minha especialidade. Infelizmente, são muito mais as matérias que eu não domino do que aquelas que eu domino.

Alberto, são muitos anos a escrever. Ainda é uma paixão?

Depende de como ocorre para escrever para cada crônica. Tenho a noção do privilégio que é poder viver da escrita. E consigo fazê-lo exclusivamente da escrita desde há 17 anos, que só escrevo. Agora e a rádio. Até aí acumulava com outras coisas. Agora, depende do tema e da forma de abordar cada tema, que eu o tenho a cada semana. Às vezes há aquelas crônicas que são feitas com base na técnica, no hábito. A pessoa ganhou ali uma certa tarimba, quando falo no doutor Costa, no professor Marcelo, aquelas coisas normalmente é por aí. Às vezes eu lembro de uma maneira de pegar nisso de forma diferente e dá muito gosto de fazer. E isso continua a dar. Claro que de início, há 20 anos, as possibilidades estavam muito mais abertas. O leque de possibilidades era maior, ocorriam muito mais coisas diferentes. Sei lá, fazer um jogo da Glória com um caso político português, fazer um inquérito, um falso inquérito, uma coisa assim, são coisas que se vão esgotando, mas de vez em quando aparece a ideia e dá muito gosto de escrever.

Alberto é provocador, polêmico, é feitio, é opção, é personagem, é o seu jeito?

Eu não gosto nada de polêmicas. Eu, às vezes, quando me vi envolvido em polêmicas, não respondendo a ninguém. Uma vez escrevi uma coisa no "Diário de Notícias" sobre o hip-hop. Houve um rapaz português que era rapper e foi morto pela polícia porque fugiu a uma barreira policial. E eu falei daquele gangster rap, daquele hip-hop mais violento. E caiu-me tudo em cima, andei 15 dias, todos os jornais tinham colunas de opinião a chamar-me de racista. E eu não respondi nada a ninguém, não reagi. Não gostei especialmente de me ver envolvido. Primeiro, partia de má-fé, muitos casos partiam de má-fé. Eu só estava a dizer que havia ali um culto da violência em certos meios do hip-hop, que podia colocar as pessoas que estavam ligadas àquilo em situações que não eram as mais seguras. Não estava a defender que o polícia devia ter morto o pobre do rapaz, com certeza, mas as pessoas resolveram dizer que sim, que eu estava a pedir que se matassem os rappers. Quer dizer, praticamente isso. A má-fé permite dizer-nos muita coisa. E então eu percebi que não gostava nada de estar metido em polêmicas. Agora, nunca deixo de escrever nada por causa disso. Eu só meço às vezes uma coisa. Uma coisa que pode ter piada, e que eu acho que pode ter bastante graça, e pode ser excessivamente ofensiva. Cometi esse erro na "Sábado" uma vez, eu acho que posso chamar um erro. Ainda por cima a história era verdadeira, que a frase não era exatamente minha. Eu estava em conversa com um amigo e estávamos a falar da morte do Victor Jara, que era um cantor de protesto chileno, que tinha sido assassinado pelos militares do Pinochet quando reuniram as pessoas no estádio Santiago do Chile, no início do golpe. Cortaram-lhe as mãos, ao que parece, ou esmagaram-lhe as mãos, uma coisa horrível. Eu não gosto particularmente das músicas de Victor Jara, mas também há coisas muito piores no mundo, com certeza. Estava a falar com um amigo uma vez num jantar, e um de nós, acho que foi até o meu amigo, foi assim que eu contei a história, que sugeriu que depois que o Bach desenvolveu o contraponto na música, que o maior momento da evolução musical foi quando mataram o pobre do Victor Jara. E eu achei que a piada era boa e escrevi na "Sábado". Na altura, era o meu opinheiro diretor, ele lembrar-se-á disso. E houve uma série de figuras, aquele José Niza, que era um músico que já faleceu, acho eu, escreveram para lá, cancelar a assinatura da "Sábado", aquelas coisas todas, porque aquilo ultrapassava os limites. Ganhou uma proporção que eu não queria, e a piada era de mau gosto, é óbvio. Deu uma vontade de rir, mas estamos a rir da morte de um pobre coitado às mãos de uns jagunços. Mas não resisti à piada. Hoje controlo bastante mais isso. Às vezes ocorre uma coisa que pode ter graça, mas acho que a graça não se pode sobrepor. Agora, isto é uma luta muito mais pra humoristas profissionais, que não é o meu caso, mas pro Ricardo, o Luís Pereira e pra outras pessoas. Hoje em dia também querem cercear tanto o humor, que o humor quase desapareceu. Nós vemos, sei lá, comediantes americanos e coisas do gênero que já não fazem humor. Estão ali numas preleções.

Há tantos limites.

É, tantos limites que eles já não tentam fazer piadas, estão a falar dos assuntos, só. E até mesmo os que são contra o movimento woke, como por exemplo o Dave Chappelle, os especiais dele da Netflix não têm piadas. É ele a queixar-se um bocado da situação em que está.

Exatamente.

Mas não tem muita graça. Portanto, também não vamos cair no outro lado. Agora, esse caso do Victor Jara foi nitidamente mau gosto e eu evito-o.

Alberto, há pouco falávamos do Ricardo Araújo Pereira. Costuma ler as críticas?

Leio, às vezes passo os olhos, mas não leio muito.

Não faz caso disso.

Não, porque há umas pessoas que elogiam, porque gostam. E outras pessoas que quando não gostam, é muito raro apontar o que não gostam ou discordar com argumentos. Normalmente insultam de tudo.

Portanto, é desvalorizar.

São insultos e calúnias pra ali. Antes do Observador ter fechado mais os comentários só aos assinantes, por exemplo, que é o que acontece agora, não sei se é exatamente assim. Havia alguém que assinava, Maria não sei o quê, que todas as semanas no Observador, dizia que me conhecia muito bem, que trabalhamos juntos na fábrica de conservas, não sei onde, porque eu trabalhei em fábrica de conservas. Tinha uma historinha que repetia todas as semanas. O que eu vou colher dali? Não há grande coisa. Então no Twitter são muitos insultos, as pessoas insultam com muita violência.

Isto é uma pena, que não sejam construtivas.

Eu digo: A aconteceu porque B. Ninguém vai dizer: não, A aconteceu porque C, ou talvez não. Não. Quando concordam, concordam cegamente. Se eu tiver razão, as pessoas também terão razão, e o contrário também se aplica. Quando não concordam, insultam. Insultam pra lá e fora. Não argumentam com coisa nenhuma, é raríssimo. Aí, sim, esse tipo de críticas eu leio com atenção e nessas eu penso e até às vezes percebo que me enganei. Só que são raras essas. Mas eu percebo que não vem da má-fé. A pessoa discorda de mim e tem razão.

E tem uma opinião e formula.

E às vezes eu acho que a pessoa não tem razão, outras vezes acho que a pessoa tem mesmo razão, e que eu é que me diagua. E nessas eu penso. Agora, os insultos, vou pensar em quê? Uma vez estava até num almoço aqui em Lisboa com um jornalista da velha guarda, muito experimentado. Perguntaram-me como eu lidava com os insultos, que eu não conseguia lidar Ele sentia-se mal com aquilo. Um nome conhecidíssimo aqui no país. Ele não lidava bem com aquilo. Sentia apetência de responder a toda a gente, esclarecer e reagir. Absolutamente nada, no meu caso. Nada, não ligo mesmo nada.

Alberto, além das viagens, o que ainda tem por fazer?

Eu não tenho filhos. Apesar de plantar uma árvore em criança, eu escolhi os livritos.

Tem o Zequinha.

Tenho o Zequinha, tenho que cuidar do Zequinha. E agora tenho duas espécies, eles vão gostar de ouvir isto, denteados, que estou a tentar ilustrar do ponto de vista musical. Literário não consigo.

Musicais?

Sim, fazê-los gostar menos de hip-hop e mais de rock, música pop, blues e essas coisas.

É isso que ouve?

É música americana, sim, de tradição. Alguns jazz, mas de jazz eu percebo pouco, sou um bocado leigo, mas gosto muito de blues. Blues é muito antigo, aqueles blues de há 100 anos, aqueles do Delta do Mississippi, gosto muito dessas coisas. E depois gosto da tradição pop, só que eu uso pop não. Para mim pop não é Britney Spears, pop é mais ou menos a música popular que se faz. E gosto da tradição até hoje, há muitas coisas que eu gosto. Não gosto muito da coisa mainstream de hoje. Hoje não gosto nada da coisa mainstream, mas há muita coisa que eu gosto. Agora, convencer as novas gerações, convertê-las aos livros é difícil. Elas estão, por muito inteligentes que sejam, e por acaso as duas pessoas em questão são, mas lerem, a disciplina da leitura. Eu próprio já tive mais, a gente perde-se muito nos Googles. Havia um artigo da Atlântica que há uns 20 anos que perguntava se o Google nos está a tornar mais estúpidos. Era o artigo de capa. E acho que sim. Nós passámos a ter muito menos concentração e menos disciplina para as coisas. A perder menos tempo nas coisas, estamos sempre a saltar. Já me aconteceu estar a ler um livro no Kindle e depois salto para um livro em papel e já me aconteceu dar por mim a carregar no papel para ver se faz o hipertexto. Eu ali a carregar no papel. As pessoas acham-me muito estúpido. Portanto, já tive mais concentração para isso. Há 20 anos eu lia muito mais e de forma muito mais consequente do que hoje, mas as novas gerações não sei como é que vai ser, porque eles não leem muito.

Pois não.

Não, não os vemos.

E querem tudo muito no imediato, não é?

No imediato, é. E o que eu compreendo, se nós tivéssemos crescido com esta coisa toda tecnológica, provavelmente também teríamos embarcado nela, com certeza. É difícil resistir.

Alberto Gonçalves, gostei muito. Obrigada pela oportunidade. Foi um gosto.

Obrigado.

Eu sou a Maria João Simões, obrigada pela companhia. Até ao próximo "Observadores Como Nós".