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Olá, seja bem-vindo a mais um "Observadores Como Nós". Eu sou a Maria João Simões e esta tarde tenho o gosto de receber o Eduardo Madeira, humorista, ator, argumentista, mas que é também pai, marido, um apaixonado pelo mar, música de jazz, livros e pela arte de bem comer. Olá, Eduardo, bem-vindo. Obrigada por ter aceitado o convite.

Obrigado pelo convite.

Nasceste na Guiné-Bissau, a 25 de fevereiro de 72. Com um ano regressas a Portugal, vais viver para Coimbra, ficaste lá até aos 12. Foi uma infância boa? O que é que guardas na memória, Eduardo?

A infância foi fantástica, mas há uma coisa: eu fui sempre uma pessoa que nunca esteve muito tempo nos sítios. Ou seja, talvez essa casa que eu vivi em Coimbra tenha sido a casa onde eu vivi mais tempo. E então tenho, em relação a essa casa especificamente e esses momentos, algum saudosismo. Até por causa dessa coisa de nunca estar muito tempo no mesmo sítio.

Mas como é que isso acontecia? Pelos pais, pela vida que tinham?

Dos meus pais, da vida deles. Eram artistas de circo. Não.

Essa escapou-me.

Estou a brincar. Podiam ser, mas não é. Mudámos muitas vezes de casa e mesmo depois de ter saído de casa, eu creio que devo ter mudado de casa para aí 30 vezes.

Mas o que é que fica da infância? Não vamos já saltar à frente.

Sim.

Já eras assim bem disposto e divertido?

Sim, era. Era um miúdo que gostava de conquistar os outros, gostava muito de ter amigos, sentia-me muito bem quando estava acompanhado com amigos, dei sempre muito valor à amizade. E quais são as imagens que eu tenho na minha cabeça? O frio. Coimbra é uma cidade muito fria no inverno, porque depois no verão eu ia para fora, ou ia para a Figueira ou ia para o Algarve. Portanto, o inverno marca-me mais e um cheiro muito típico de castanheiros e até das castanhas. São recordações muito engraçadas, de ir para o colégio de manhã, ia a pé, sozinho.

Com que idade?

Com nove, 10 anos. Hoje em dia seria impossível, porque eu morava muito perto do colégio e ia por aí fora. Lembro-me muito bem, tenho essa memória.

Eduardo, e pelo que sei, esse teu jeito para o humor e para contar histórias vem muito do teu avô paterno. Das recordações da família à volta dele.

Sim. Talvez o meu avô paterno tenha sido uma influência forte, porque era um contador de histórias e uma pessoa muito bem-disposta e recebia muitos amigos em casa. E eu tenho muitas coisas, também do meu pai, mas do meu avô materno, tenho muitas coisas dele, que ele fazia uma coisa muito típica, que era: juntava os amigos todos em casa, contava-me as histórias, estavam ali a petiscar e a comer. E depois chegava uma altura ele dizia: "Estejam à vontade, que eu tenho que me deitar".

Vocês fiquem.

E as pessoas ficavam todas em casa. Às vezes pensavam que ele estava a brincar, mas ele ia-se mesmo deitar. E eu, curiosamente, herdei um bocado esse lado. Gosto muito de ter os meus amigos em casa e faço jantares com muita gente. E há sempre ali uma altura em que eu também digo: "Olhe, peço desculpa, mas tenho de me deitar". E as pessoas também não acreditam. Ou seja, essa parte passou para mim.

Olha, mas estamos a falar do avô, só que tu costumas dizer que o teu pai é que é o teu herói. Porquê?

Hoje em dia talvez isso aconteça um bocadinho menos, ou acontece e a gente não tem tanta noção, mas acho que há pessoas, por aquilo que fizeram durante a vida, que costuma-se dizer que são maiores que a vida. E não têm que ser só pessoas famosas ou conhecidas, isso é um disparate. Mas, por exemplo, quando tu olhas para o Hemingway, tudo o que ele fez, todas as vivências que teve, desde ser contador de ambulâncias na guerra, até ser caçador em África. Hoje em dia seria tudo obviamente hipercancelado, mas apostar nas lutas de galos em Cuba. Toda a vida dele fez dele, se calhar, um homem, para além do escritor, o enorme escritor que era, fez dele um homem maior que a vida, porque viveu coisas que o homem comum não vive. Isso não diminui o homem comum, mas torna-os realmente especiais de uma certa forma.

E o que é que o teu pai fez assim de especial para que o vejas como um herói?

Maria João, isso dava outro programa. Dava um programa só por si. Não sei, sabes, ele por circunstâncias da história, foi para África muito cedo. E em África viveu mil aventuras e depois quando regressou, por motivos de doença, curiosamente. Na verdade, isso salvou-o daquele processo um bocado traumático do que foi o 25 de Abril e a consequente descolonização e aquela atrapalhação toda que houve com muitos portugueses que estavam lá. E ele não passou por nada disso, porque ele um ano antes teve que se ir embora para ser tratado em Portugal. Mas sei lá, são coisas muito incríveis. Sim. Desde ser caçador de crocodilos e não sei quê, vender as peles aos franceses. Histórias que parecem do "Crocodilo Dundee" da época. Mas tudo isso que hoje em dia nós temos que contextualizar e pôr naquela época. Hoje em dia seriam coisas até um pouco estranhas, e são coisas até, se quiseres, condenáveis, mas na altura era o que era. Era assim, o mundo era outro.

Tu vens de Coimbra, vens para Lisboa, vais para a margem sul, onde ainda vivem os teus pais.

Eu passo a minha juventude na margem sul.

E depois então começas-

E é uma época muito boa também.

Por quê?

Porque é uma época muito marcante para qualquer pessoa. É onde tu tens as primeiras namoradas, é onde eu tenho as primeiras saídas à noite. É onde eu começo a frequentar também a faculdade. Aquela coisa de ter que vir para Lisboa, para a faculdade, é uma coisa que marca muito. Marca-te muito, porque vês a experiência das pessoas de Lisboa e vês a experiência das pessoas daquele lado. Sofrem um bocadinho mais para chegar aos sítios. É onde eu começo a ir ao surf, é onde eu sou trabalhador estudante para ganhar o meu próprio dinheiro e para ter a vida que eu queria. Portanto, eu sempre fui trabalhador estudante. A partir dos 16, 17 anos eu comecei a trabalhar.

Para ter as tuas coisas.

Para ter as minhas coisas. Vim a primeira prancha de surf com 16 anos. Meu pai disse: "Claro que podes fazer surf, estás à vontade. Podes fazer as ondas maiores, vais para Maverick, para onde tu quiseres, Havaí, estás à vontade. Agora tens é que comprar o teu material, que eu não pago nada".

Falaste aí no surf, que é uma das tuas paixões, e tu depois de muitos anos a viver em Cascais, mudas-te entretanto para Torres Vedras. Estás um bocadinho mais longe do mar.

Sim.

Por quê esta decisão?

Por uma questão muito simples. Eu vivi 20 e tal anos em Cascais. Eu tinha uma casa, deixei de ter essa casa. Houve várias peripécias, mudei de casa.

Umas quantas vezes.

Eu em Cascais vivi em todas as freguesias de Cascais. Acho que só não vivi na Carcavelos. E quando eu volto a começar a ter a ideia de comprar uma casa, vou-te já dizer que é uma coisa que me faz um bocado de confusão, porque se calhar, por causa do meu passado, é pôr uma estaca na terra, pôr uma raiz, ficar ali preso. E eu não sei se amanhã não quero viver para Itália, ou para Nova Iorque, ou para o Alentejo. Não sei. Sempre foi assim. E portanto, a partir do momento que compras a tua casa e é a tua casa, tem qualquer coisa da tua casa de sonho, ao mesmo tempo há ali um lado, uma coisinha minha que me mete medo. Mete medo, apesar de já não ser nenhum rapazinho.

Sim, mas a tua história, o teu percurso.

Mas mete um bocadinho medo, porque ter casa própria é uma coisa tão definitiva. É para sempre.

Assusta-te o para sempre? Tirando o teu casamento.

Assusta. Assusta-me um bocadinho o para sempre. O casamento, eu acho que quando as pessoas estão bem umas com as outras, nem é para sempre.

Já lá vão 10 anos.

Já lá vão 10 anos. Não interessa muito. Quando tu estás bem, não consegues sequer pôr a hipótese de mudar. Mas mudar para o quê? Não sei. Creio que será para sempre. Neste caso, será para sempre. Só que é uma coisa móvel, o casamento, a gente pode ir os dois para onde quiser. A casa, não. A casa só se tiver sombras.

Tu dizes muitas vezes.

Mas mudei para Torres Vedras, eu vou te explicar o motivo principal, porque quando pus a hipótese de voltar a comprar casa, os preços em Cascais eram exorbitantes. E portanto, uma casa com as características que eu queria, que era com um bocadinho de jardim e perto do mar e ao mesmo tempo calma e sossegada, foi ali que fomos descobrir uma. É uma maravilha.

Tu e a Joana já têm duas meninas, a Leonor e a Carolina. A tua mulher é atriz, parece que a Leonor, a mais velha, nove anos, também já tem ali uma queda para a representação, estreou-se no outro fim de semana numa peça de teatro. Pela experiência que tu tens, se ela quiser seguir essa carreira, essa área, vai contar com todo o teu apoio ou a representação deixa de ser algo?

Vai contar com todo o meu apoio. Eu só quero é que eles sejam felizes. O meu pai, apesar de toda a sua vida, era um bocado conservador nessas coisas e queria que eu fizesse direito.

Tu chegaste a estudar direito e história.

Cheguei a estudar direito, um disparate. História foi paixão. Direito foi uma exigência do meu pai. E portanto, não se questionou a hipótese de eu ir por um lado mais artístico.

Mas depois com as produções fictícias em 97 acabaste por não concluir.

Não, porque comecei a ganhar dinheiro, e bastante dinheiro, e também enfrentei os meus pais, a certa altura tive que enfrentá-los mesmo. Não foi fácil explicar a eles que não era nada aquilo que eu queria. É sempre uma coisa muito difícil.

Sim, até porque é uma profissão na altura, então, provavelmente pouco reconhecida.

Sim, como é que tu dizes?

Como é que vais viver disto no humor?

Sim. Aliás, eu ainda disse pior: "Vou escrever humor".

Deves assustar-te mesmo.

Os meus pais: "Mas escrever humor, em que sentido?"

E em relação à Leonor? Se for ela a escrever humor, tu já sabes o quê?

A Leonor diz-me na cara que quer ser escritora e atriz, com nove anos. E eu vejo que está lá tudo. Agora, ela é muito pequenina, também já me disse há uns tempos atrás que queria ser veterinária.

E nós passamos todos por essa fase, não é? De veterinária, de advogada.

Ela adora os bichinhos. Portanto, é o que ela quiser. E o que ela quiser eu vou apoiar. Nunca farei o que os meus pais me fizeram, porque também é fruto das circunstâncias e da época deles. Nunca farei aos meus filhos nada disso, são aquilo que quiserem.

E quem não seguiu as tuas pegadas foi o teu filho mais velho, o Rodrigo, que é sushiman.

Sushiman, exatamente.

Em São Miguel. Gostas de sushi?

Se eu gosto? Adoro. Exato, meu top 10 de comidas favoritas. Sim, quando concluiu o ensino, o liceu, ele foi sempre um aluno que não tinha grandes notas. Só passava, era ou 10 ou 11 e não saía daí. E ele sempre me disse: "Quero ser jornalista desportivo ou então cozinheiro". E eu disse: "Olha, para ser jornalista, não podes ter um 10 ou um 11 a português, nem um 10 ou 11 a inglês. Tens que ter melhores notas, pelo menos essas duas". E quando chegou ao 12º, ele começou a ver para onde é que ia, as notas dele não eram magníficas. E ele falou-me da universidade em Évora, vi no Estoril, ao pé da casa dele, e em Peniche. E eu disse: "Então, mas dessas todas, qual é que tu preferes?" "Prefiro ir para Peniche". "Mas por que preferes ir para Peniche?" "Porque em Prial é 35 cêntimos."

Prioridades são prioridades.

Eu achei daquilo uma honestidade. Foi fantástico, porque ajudou-me logo a perceber: "Ok, eu sei o que ele me está a dizer. Não quer saber disto para nada, vai andar a passear os livros até desistir". Portanto, procurámos um curso que ele gostasse e ele fez o curso. Foi giro, porque ele fez um exame com dois cozinheiros japoneses. E eles nunca riram para ele. Ele levantou-se às 06:00 e esteve o dia todo com eles até à noite. Foi escolher o peixe, foi preparar várias coisas. Eles nunca riram. E ele diz: "Eu sou português, sou latino, eu falo, eu rio, eu brinco, eu quero dar uma palmada nas costas e nada". Ali a meio do dia, eu pensei: "Eu vou dizer a eles: olha, gostei muito de vos conhecer, vou-me embora, de certeza que eu vou chumar". Mas não, teve 19.

Eduardo Madeira, um humorista sente pressão para estar sempre bem-disposto e a contar piadas?

As pessoas esperam isso do humorista e é injusto. Eu vou-te explicar porque é que é injusto. Porque o dentista não está sempre apto, com vontade e com disposição para dar conselhos sobre dentes, assim como um mecânico também não está sempre apto e com disposição para falar sobre mecânica. Todos nós somos pessoas e tu também não estás sempre com vontade de estar a trabalhar. Portanto, todos nós temos que ter os nossos tempos livres em que somos só nós, sem profissão, sem nada. E o humorista é isso. Desconfio muito daqueles colegas, e há muitos que o fazem, que estão sempre a competir para dizerem a melhor piada e para terem muita graça entre eles.

Isso pode ser muito cansativo.

É muito cansativo, é desgastante.

Estão sempre a impressionar.

E estás num túnel de falsidade, porque a vida não é isso. Há alturas em que nós não somos assim. Eu sou um tipo bem-disposto.

Já deu para perceber.

Sou genuinamente um tipo bem-disposto e até otimista e já tive todos os motivos e mais alguns para deixar essa disciplina do otimismo, mas não desisto. Acho que quando eu desistir vai ser muito mau sinal. Agora, nem sempre estou com vontade de brincar.

Como é que és quando não estás rodeado de pessoas, quando estás mais no teu ambiente, na tua casa?

Eu estou rodeado de pessoas. Gosto de ler, gosto de ouvir música. Não gosto muito de ver televisão, curiosamente. A televisão cansa-me imenso. Não gosto muito de ver as minhas coisas, mas gosto muito ainda de ver um bom filme, uma boa série. Gosto muito de ler.

De ouvir jazz?

Gosto muito do jazz. Eu ponho jazz para minha casa e a minha filha pergunta muitas vezes: "Mas porque é que eles não cantam?" "Não, mas é que esta música é só assim." E ela: "Mas ninguém canta nesta música. Como é que eu sei que esta música é diferente da outra, se ninguém está a cantar? Eu não tenho letra." E eu: "É assim, um dia vais perceber e vais gostar." Gosto da solidão. Não me conseguia ver, por exemplo, a viver sozinho. É muito estranho. Para mim é muito difícil viver sozinho e eu acho que nunca vivi sozinho. Chego à conclusão, olho para trás e nunca estive sozinho.

Uma coisa é ter momentos a sós, outra coisa é estar sozinho.

Uma coisa é teres momentos a sós, que nos fazem muita falta para organizar a cabeça.

Sim, com a vida que levas deves precisar disso.

Outra coisa que seria para mim muito difícil seria estar só, sentir-me só. Felizmente, nunca me aconteceu, mas é uma coisa muito atual, muito contemporânea, é uma das maiores epidemias dos Estados Unidos. Há pouco tempo vi uma coisa sobre isso, é precisamente a solidão. É uma epidemia de saúde, porque as pessoas sozinhas entram em depressão. Tendencialmente, não quer dizer que não haja aquele tipo que vive sozinho numa gruta, tem uma faca, vai cozinhar a sua comida e faz a sua roupa. Não, isso também pode existir. E não quer contactos com a sociedade. Mas isso é só uma piada, porque o homem é um animal social.

É verdade. Eu estou à conversa com o Eduardo Madeira. Vamos fazer um breve intervalo para as notícias e já voltamos com a segunda parte do Observadores Como Nós.

Em 1980, um avião da TAP com 83 passageiros a bordo é desviado para Madrid.

Entrou por ali dentro e apontou-nos a arma.

Mas o sequestrador, que tem uma arma carregada apontada aos pilotos, não é um pirata do ar comum. Chama-se Rui, vive no Feijó e só tem 16 anos.

Leve uma pistola, que o meu pai tem. Então, mais vale a pistola. De facto, mostramos a pistola.

Este é o Piratinha do Ar, uma série para ouvir em seis episódios, que faz parte dos Podcast Plus do Observador. É narrada por mim, Margarida Vila Nova, e a banda sonora original é de David Fonseca. Pode acompanhar todas as semanas no site do Observador, nas plataformas de podcast e no YouTube. Um novo episódio a cada terça-feira.

Os Podcast Plus do Observador têm o apoio da Honda Automóveis. Segunda parte do Observadores Como Nós. Hoje com Eduardo Madeira, humorista, ator, argumentista e um apaixonado por viver intensamente a vida. O ano passado assinalaste a chegada aos 50. Meio século.

Meio século. É uma instituição.

Juntaste dezenas de pessoas. Quem lá esteve diz que foi épica. Aliás, como todas as festas que fazes. O que as tuas festas têm, Eduardo?

Sabes que eu já disse isto numa entrevista recente e eu só digo as coisas mais importantes quando eu gosto das pessoas com quem estou a falar. Eu sempre fiz festas de aniversário, foi sempre uma coisa que eu adorei. E sempre fiz festas, mesmo não sendo aniversário, festas. Mas à medida que o tempo vai passando, isso tornou-se cada vez mais importante para mim. Até porque é normalmente nas minhas festas que eu, sem nunca dizer a ninguém, vou contar isto aqui, espero que das pessoas todas que estão nas minhas festas, ninguém esteja a ouvir isto. Nas minhas festas eu vejo coisas e tomo decisões, e até mesmo em relação às pessoas que não vão. Tomo decisões e há pessoas que eu penso assim: "Se esta pessoa não aparecer este ano, outra vez, se calhar não vale a pena convidar mais". E o contrário também é válido. As pessoas que aparecem e que aparecem com entusiasmo. Sabes que eu tive uma amiga, que é a Inês Simões, que ofereceu uma atuação de uma banda de samba e de forró. Eu a princípio achei uma coisa absolutamente: "O quê? Uma banda?" Sim, uma banda. E depois aquilo foi incrível. E nesse sentido, nós acreditamos no valor da amizade. A amizade não é mais do que amor. E eu acho que o mais importante do mundo é o amor. O amor que nós temos uns pelos outros e pela vida, e o amor que pomos nas coisas e na maneira como falamos com as outras pessoas.

Já tiveste ilusões com amigos?

Ilusões, muitas ilusões com amigos, mas isso faz parte da vida. Posso-te dizer que já tive mais ilusões com amigos do que propriamente com relações amorosas. Aconteceu mais porque há amigos com quem tu não contavas com certas coisas e ficas muito admirado. E demoras algum tempo a encaixar o que se passou e a analisar o que se passou, e até mesmo onde é que tu podes ter falhado. Mas isso é secundário. Faz parte. Só não há solução pra morte. É isso que eu penso.

Para além das festas, quem te conhece diz que és de fazer promessas. Já correres nu à volta do Marquês, atravessaste o Tejo a nado. E há uma promessa que está por cumprir, que tem a ver com ires a Moçambique.

Tenho que ir a Moçambique, sim.

Isto foi por causa do Sporting ter sido campeão.

Essa foi a última aposta e foi por causa do Sporting.

E prometeste levar equipamento comprados com o teu dinheiro.

Comprei com o meu dinheiro os equipamentos. A minha mulher disse-me: "Tu faz apostas em que vais nu pra onde quiseres, atravessas os rios que quiseres, cheios de crocodilo. Não me voltes a fazer apostas onde gastes dinheiro". Porque gastei uma pipa de massa, mas tenho lá os equipamentos.

E porquê Moçambique? Essa ligação à África.

Talvez uma pequena ligação à África e na altura fiquei um bocadinho emocionado com as crianças e com os deslocados de Cabo Delgado. E portanto, é lá que eu vou entregar as camisolas, é àquelas crianças. Mas ao mesmo tempo começo a pensar se não me posso levar mais qualquer coisa. Olha, não sei. Acho que não vou complicar. Se calhar o melhor é pegar no que tenho pra levar e ir e fazer.

E porque falamos em promessa, este ano foste a Fátima. Uma promessa que fizeste pela saúde da tua mãe. Está melhor a tua mãe?

Está melhor. Sabes que a minha relação com a religião durante muitos anos foi de um agnóstico, que são aquelas pessoas que sentem que há alguma coisa, mas precisam ser convencidos, ou seja, não têm uma coisa que os convença de uma coisa. E depois foram momentos da vida, e também a minha mulher, que me puxaram. E eu digo que me reconverti ou converti-me ao catolicismo. Não sou um praticante. E mais, as minhas conversas com Deus prefiro-as a sós. Gosto de ir a uma igreja, mas é quando não tem ninguém.

E por que disseste que ir a Fátima fortaleceu a vossa relação, tua e da Joana?

Ir a Fátima foi uma insistência dela e foi das coisas mais bonitas que eu fiz na minha vida. E há ali um back to the basics, há ali um voltar à essência das coisas. Sabes o que é dormires num saco de cama, que é uma coisa que não fazia desde os meus 19 anos, com a tua mulher, num sítio qualquer, ermo, no meio de uma serra, faz com que tu não estejas neste mundo. Estás numa cena paralela, que não tens no resort das Maldivas. Mas ali há qualquer coisa de realmente muito forte e que não te consigo explicar, acho que só vivendo. E foi das melhores experiências da minha vida.

Eduardo, tu já fizeste 1001 coisas desde que começaste em 97 nas Produções Fictícias, nunca mais paraste. Argumentista, ator, humorista, autor de livros, até cantor com os Boa Bamba Mole. Mas como é que tu gostas de ser apresentado?

Olha, eu acho que eu sou acima de tudo um humorista. E esta palavra hoje em dia ferve na boca de algumas pessoas e nos ouvidos de outras, porque os humoristas ganharam um peso muito forte e porque o humor se tornou quase uma arma que fere às vezes e não muito bem aceita em certos casos. Como tu deves compreender, eu não vou dizer isto como forma de me estar a gabar Porque não é nada o meu género. Não é mesmo.

Já deu para perceber que não é.

Mas eu sou humorista completo. Não no sentido que me considero uma pessoa completa, não, tenho imensas falhas, mas no sentido que eu só quero fazer humor e chegar às pessoas através do humor. Seja a escrever, seja a cantar, seja a fazer BD, seja num palco, seja na televisão, no cinema, é isso que eu quero fazer, principalmente.

E é isso que te faz feliz de tudo o que já fizeste?

Eu acho que sou muito feliz com aquilo que faço. Gosto muito.

E as redes sociais, Eduardo, têm impacto? Hoje em dia, as redes sociais no tipo de humor que se faz.

Tem.

Há mais limites, mais restrições, porque estão sujeitos mais ainda, mais à crítica?

Eu não deixo que as redes sociais me afetem muito. Na maior parte das vezes, eu gosto das redes sociais. Atenção, são redes sociais, não são redes de trabalho. 70% do que eu ponho são coisas de trabalho, ou piadas, ou sítios onde eu vou estar a trabalhar, ou projetos novos que eu tenho, para que as pessoas saibam.

É a tua forma de comunicar o teu trabalho.

E depois também meto ali 20 a 30%. Meto muito pouca coisa em biquíni na piscina, porque se calhar não vale a pena. Há pessoas que têm corpos mais bonitos para pôr à beira da piscina, mas também meto a minha foto na piscina e no mar. Também meto, mas menos, muito menos do que muita gente que utiliza essencialmente para dar a conhecer: "Estive nesta ilha, estive naquele sítio, dei uma volta assim." Eu não tenho nada contra. Sinceramente, nada contra. Cada um está na sua, as pessoas têm é que ser felizes.

Eduardo, por que é que ainda hoje dizes que não sentes pressão nenhuma em nenhuma faceta da tua vida, mas quando estás ao pé do Herman sentes ligeiramente acanhado?

Sinto.

É por quê? Pelo peso que ele teve na tua carreira?

Ainda tenho. Eu acho que é a pessoa que mais me inspira e mais me inspirou. Eu percebi que queria ser humorista a olhar para o Herman primeiro, e depois é que veio os Monty Python, e depois é que veio o Eddie Allan, e depois é que vieram todos os outros. Quando eu olhei para o Herman, eu pensei: "Eu adorava ser como este senhor". E mais tarde tive a oportunidade de estar à frente, a trabalhar com ele. Primeiro a escrever para ele, que já foi uma coisa que eu acho que me engasguei todo. Engasguei todo. De repente, tinha à minha frente o-

O teu ídolo naquela altura

Sim, o Paul McCartney, o John Lennon estava ali e eu: "Uau, ele existe!" A vontade é beliscar a pessoa, mas não sabes, não podes fazer. Ele existe. Mas depois, na verdade, se tiveres a tua própria voz, tu inspiras-te e roubas coisinhas. Eu roubo coisinhas ao Herman, mas depois tens que ter a tua voz e tens que seguir o teu rumo. Agora, com ele eu sinto-me acanhado ainda. É curioso. É um bocado, se calhar, como o meu pai, também. Apesar de estarmos muito bem os dois, há sempre ali uma altura em que há aquele respeitinho da figura. E não tem nada aquela coisa da psicologia de matar o pai. Que há uma altura em que o homem precisa matar o pai. Para quê? Para se afirmar também como homem.

Sim.

Eu acho que isso é uma coisa da adolescência. Eu não consegui ainda matar nem um, nem outro. Nem o pai verdadeiro, nem o pai artístico. E tenho a minha mãe artística, que é a Anabela também. O que deixa a minha mãe muito ciumenta.

Neste momento andas pelo país, e não só pelo país, com o teu novo espetáculo, Eduardo Madeira Tour Mundial. São 50 datas no total. Não sei como é que tens tempo para isto tudo. Ontem estiveste em Penacova. Que espetáculo é este, Eduardo?

Olha, é assim, eu apesar de fazer stand-up comedy há muitos anos, o meu espetáculo não é um stand-up comedy puro.

Quando se pesquisa na internet pelo teu nome, aparece "um dos pioneiros do stand-up comedy". Gostas de ler isso? Identificas-te com isso?

Pioneiro, não sei se direi pioneiro. Não sei, eu não faço ideia. Nem sequer tanto.

Não digas isso. Mas dizia-se.

Sim, na altura que começaram os outros, eu também já andava por ali a fazer coisas. Só que o meu espetáculo não é um stand-up comedy puro no sentido um homem e um microfone. Não, eu meto uma viola, faço umas vozes. E agora este espetáculo é um espetáculo que começa precisamente, porque as pessoas pediam-me muito, um bocadinho de dois personagens, não quero estar aqui a ser spoiler, mas dois personagens que as pessoas gostam muito. Faço ali um bocadinho e depois arranco um espetáculo mais próximo do que eu costumo fazer. É um espetáculo que vai muito aos anos, ao passado, apesar de não ser nostálgico, e se calhar por não ser nostálgico, vou ao passado gozar precisamente com o que nós éramos. E nós, na verdade, éramos uns animais. E quando às vezes as pessoas dizem: "É pá, agora as pessoas parece que são coisas". Bom, está bem, também pode ser verdade, mas na verdade, nós éramos uns trogloditas nos anos 80, 90. E também há muita coisa que evoluiu para melhor.

Para além de Portugal, como eu dizia, há também Macau, Espanha, França, Moçambique. O público muda? Ou seja, o público muda, seguramente, mas tens de adaptar, ajustar o teu guião, o espetáculo?

Eu vou a Macau, já estive lá em 2017, no Teatro Dom Pedro, e é onde eu espero voltar. Está a ser falado. Mas atenção, esses espetáculos pelo mundo que eu faço, não se pode dizer que na verdade seja uma tour mundial. Por quê? Porque só é no sentido que estás noutro sítio, mas na verdade estás a fazer para portugueses. Sim. Portanto, não é uma verdadeira tour mundial. Não estás a fazer uma coisa para o público do mundo, estás a fazer para o público português espalhado pelo mundo Se for a Macau, farei para portugueses que estão em Macau, como já fiz. Se for ao Brasil, eu já estive no Rio de Janeiro, na Cidade das Artes, e em São Paulo, também em 2017 ou 2018. Se lá voltar, como eu espero, também farei para portugueses, porque fazer pro público brasileiro é muito difícil. Porque eu, quando fiz nessa altura, vou te explicar: eu cheguei a São Paulo, vinha dois espetáculos, e no primeiro espetáculo falei em português e ninguém riu.

Pois.

Depois, chegou o fim e fui perguntar: "O que vocês acharam do espetáculo?" E eles disseram: "Parece que estamos ouvindo um italiano a falar. A gente não percebe a maior parte, a gente ri só das pessoas"-

Se não puseres ali o sotaquezinho.

E no segundo espetáculo que eu faço em São Paulo, isto se calhar vai chocar muita gente, eu aí já comecei falando um pouco, adociquei um pouco.

Ficou melhor, né?

É. Aí a galera já começou rindo um pouco mais. Quando chega ao Rio de Janeiro, Cidade das Artes, 3 mil pessoas. Aquilo era o Festival Luso-Brasileiro.

3 mil pessoas.

3 mil pessoas. Aquilo é gigante, a Cidade das Artes. E chego lá, e eu era o único português do grupo deste Festival Luso-Brasileiro. Creio que era eu e o Pedro Miguel Ribeiro. Sim. E eu chego e vejo 3 mil pessoas. Espera aí que eu já te digo. E eu entrei com meu "Gaal! Tudo bem?" O pessoal teve que olhar pra mim como quem diz: "Eu sei que agora vou levar com o meu espetáculo". E tive que trocar as referências todas do meu humor e da minha comédia por referências que eles conhecessem. Estás a perceber?

Estou.

Foi um trabalho tremendo, que eu fiz naqueles aviões pra cá e pra lá. E então a piada que tu fazes cá a uma certa pessoa, lá tem que ser a outra pessoa equivalente.

Adaptável, claro.

E pronto, e no Rio já consegui triunfar. Mas tive que me adaptar.

Então o filme que estás a fazer é com sotaque ou sem sotaque?

Não, este filme é sem sotaque. Este filme é um filme em que perceberam e foram buscar aquilo que o Eduardo sabe fazer. Ou seja, eu vou fazer um personagem, que é um ator de filmes pra adultos, que vai substituir um sósia, que é um ator sério do conservatório, muito sério. E então eu vou buscar porque eles são parecidos um com o outro e porque o outro tem uma birra e não quer continuar lá um filme. E portanto, eu vou fazer vários personagens, na verdade, esses dois, mas também os personagens que esses fazem no cinema.

Então, por falar em vários personagens, este mês estreades aqui na Rádio Observador, com a triangulação do paralelepípedo. Como é que foi receber o convite?

Foi muito giro. Na verdade, não era esta a minha ideia, como eu já te expliquei. Nós já falámos os dois, no próprio dia da estreia. A ideia que eu vim cá falar e que quando tivemos a reunião, era uma ideia, e depois de repente desafiaram pra uma coisa mais ambiciosa. Eu fiquei de boca aberta e pensei: "Bem, vou tentar". Porque é um debate entre uma-

Duas personagens, uma de direita, outra de esquerda. Qual é mais desafiante construir? Qual é que foi?

Eu acho que os dois são um desafio, mas eu como tenho amigos de direita e de esquerda-

Fica mais fácil

É, porque eles não sabem, mas alguns deles estão sendo-

Estão inspirados

São inspiração pra estes momentos. Eu acho que, por exemplo, no caso do Januário Canotilho, eu tive uns livros quando estudei direito, de direito constitucional, não tem nada a ver, mas era de um professor, o Gomes Canotilho, penso eu, constitucionalista. E aquilo ficou-me na cabeça esse nome. E aí aproveitei o apelido do senhor, que não sei se é de direita, se é de esquerda, mas aproveitei. Pareceu-me institucional. E do caso do Arménio, Arménio Paulo, que é um nome bastante proletário.

Completamente.

E pronto, eu acho que foram essas as inspirações. E as vozes, eu acho que fui buscar, no caso do Januário, fui buscar um bocadinho ao Vasco Pulido Valente, um bocadinho também ao Herman, talvez, de um sketch que eu escrevi pra ele, que era o Artista Bastos, Batista Bastos.

Batista.

Sim, inspirei-me aí um bocadinho nisso, assumidamente, não tenho problema nenhum com isso. E no caso do Arménio, fiz um amigo meu, que é um homem de esquerda do Porto. Espero que ele não me venha dizer mais dia menos dia: "Olha lá, este por acaso não sou eu, não".

Estou a suar.

Mas pronto, faz parte.

Entre rádio, cinema, espetáculos, quando é que tu tens tempo pra ti?

Eu tenho tempo pra mim. Tento sempre ter tempo pra minha família. Sempre. É muito importante pra mim. Os miúdos, gosto de crianças e sempre quis ter muitos filhos.

Há planos pra um terceiro, não pra um quarto?

Eu acho que isso vai acabar por acontecer. Há um amigo meu que diz: "O Eduardo Madeira é o povoador". Eu acho que ainda estou aí na luta, digamos assim. Gosto muito, acho que é importante. E compreendo muito as pessoas que não querem ter filhos. Tenho também muitos amigos que não querem, ou por opção não querem ter filhos, e eu compreendo-os perfeitamente, porque é preciso um sentimento de missão e não desliga. Não há pausas, não há nenhum momento em que tu, de facto, possas dizer: "Agora vou desligar aqui um bocado isto".

A preocupação é desde o dia zero, não é?

A preocupação e está sempre lá na tua cabeça pra toda a vida. Mas eu gosto e só aconselho a quem goste muito, a quem não tenha dúvidas. Ninguém pode ir para a cena da paternidade ou da maternidade Eu não sei. Não sinto.

Não há volta a dar depois, não há como andar para trás.

Porque depois já não há volta a dar. E é isso. Mas eu gosto e estou bem assim.

Eduardo, 51 anos, o que é que ainda te falta fazer? Presumo que muita coisa.

Maria João, eu considero-me um principiante. Eu tenho a vida pela frente. Não tenho temporalmente, mas há uma criancice aqui nesta cabeça que eu acho que só vai acabar lá para os 89. E eu vou dizer: "Finalmente sou adulto, agora vamos começar a comportar como adultos".

Mas é saudável isso.

Eu acho que sim. Eu tenho claramente noção de que sendo um homem, sou também uma criança. Eu tenho uma grande diferença em relação, por exemplo, à minha mulher. Às vezes a ideia é: "O Madeira é um bocado maluco ou faz certas coisas que parece que é um bocado maluco". Não sou. Tudo isso é falso. Eu sou uma pessoa absolutamente normal, com ataques, com acessos de loucura. Que é bastante diferente. Ou seja, eu posso estar a comportar-me como uma pessoa normal e de um momento para o outro tu dizes: "O que é que ele está a fazer agora? O que é que ele agora se lembrou de fazer?" Que é diferente da minha mulher, que é completamente maluca o tempo todo.

Por isso é que são tão bem.

Somos bastante diferentes nesse sentido, mas o que ela tem de bom é que ela nunca se nega a acompanhar a minha loucura e eu também não a travo na maneira dela ser, que também é uma maneira um bocadinho fora do comum. E se calhar por isso é que as coisas correm bem.

Eduardo, gostei muito de te conhecer.

Eu também.

Obrigada por este convite.

Eu também gostei muito de te conhecer.

Eu sou a Maria João Simões. Obrigada pela companhia. Até ao próximo "Observadores Como Nós".