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Olá, seja bem-vindo a mais um "Observadores Como Nós". Eu sou a Maria João Simões e esta tarde tenho o gosto de receber Eduardo Sá, psicólogo, psicanalista, professor, escritor, mas que é também pai de seis, irmão, amante de bossa nova e de choro fácil. Há tanto para conhecer nos próximos minutos. Olá, Eduardo, bem-vindo. Obrigada por ter aceitado o meu convite.

Olá, João. Adeus, João, porque depois dessa apresentação eu não sei se eu fui capaz de continuar.

Eduardo nasceu em Leiria.

Sim.

A 5 de Janeiro de 1962.

Não, aí está enganada, porque eu só tenho 36 anos, como sabe.

O que lhe vem à memória quando pensa na sua infância, Eduardo?

Penso numa cidade muito pequenina. Nunca me esqueço que o Miguel Torga, que foi fazer o internato geral pra Leiria, ter numa passagem do seu diário, uma observação que eu acho deliciosa, quando ele dizia que não entendia como é que Eça de Queiroz tinha conseguido arrancar de uma cidade como aquela, um texto tão magnífico como o "Crime do Padre Amaro". Era uma cidade pequenina. Eu nasci no centro da cidade. Naquela altura, as pessoas ainda nasciam em casa e eu tive esse privilégio e essa irresponsabilidade. E eu às vezes tentando fazer humor negro, como sabe, às vezes os bebês vêm com várias circulares à volta do pescoço e eu trazia um grande cordão umbilical a separar-me da vida. E a dona Palmira, nunca me esqueci do nome dela, que era a parteira, entendeu reanimar-me passando-me da água quente pra água fria. E eu digo que se não morri com aquele choque térmico, já nasce com uma capacidade e uma resiliência muito grande quando se trata de situações desse tipo. Era uma cidade bonita. Está muito mais bonita agora, sem dúvida nenhuma. Dantes era uma coisa muito restrita, muito resguardada. Tinha uma coisa boa, que era uma pessoa ir à rua, dependendo do ponto de vista. Mas quando não se tem muito a temer uma pessoa ir à rua e toda a gente nos conhecer e passarmos a vida a dizer bom dia e boa tarde. Fica-se com a sensação de se estar numa aldeia que vai olhando pra nós mais do que numa cidade. Sinto-me completamente leiriense, sem dúvida nenhuma.

E como é que era o Eduardo em miúdo? Era expansivo, era introvertido?

Não, eu era um rapaz calado. sobretudo calado. Os meus pais tinham um comércio no meio da cidade e eu passava a vida a estar com pessoas, claro. Mas havia um homem absolutamente fascinante, que era um louco, que ia para o pé de uma das montras da loja do meu pai. Era um senhor chamado Pais, nunca me esqueci dele, que falava sozinho e eu achava absolutamente fascinante aquele homem. Eu passei horas a olhar pra ele. E ele, porque talvez eu não o olhasse com a desconfiança com que outros olhavam, ele gostava imenso de mim. E sim, eu sempre gostei muito de andar a observar pessoas, a senti-las. Sempre adorei isso. E depois cheguei à adolescência e cresci de uma forma, aí sim, que eu acho verdadeiramente mais saudável, porque pus-me a jogar rugby e tudo que eram atividades desportivas e isso fez-me lindamente na relação com os meus amigos e na relação com o grupo, e deu-me um espaço de acolhimento. A minha família era uma família, sobretudo de mulheres. A minha avó, a minha mãe, as minhas irmãs, a minha prima. Tinha muitas mulheres. Eu tinha alguns homens muito significativos, meu pai à frente de todos, o meu primo Fernando, mas muitas mulheres, de facto. E eu acho que foi por causa disso que eu fiquei com a escola da sensibilidade feminina, porque eu acho que apesar de tudo, tem ali outro tipo de sensibilidade. E se calhar foi por causa disso que eu nunca me assustei nada, pelo contrário, com o mundo das mulheres, porque eu acho que eu conheço bem e porque fui crescendo com essa diversidade. E depois era uma diversidade de pessoas com uma amplitude de idades muito grande e traziam-me tantos pontos de vista tão diferentes, que me fez crescer de uma maneira que eu hoje fico grato por isso.

Cresceu em Leiria, como dizia, e começou a trabalhar muito cedo com os pais. Tinha uma mercearia e o Eduardo entregava as compras em casa das pessoas. O que guarda desses tempos?

Não sei muita coisa.

Mudou a sua juventude, Eduardo.

Guardo uma consciência social muito grande. Apesar de tudo, o filho de um merceeiro é só o filho de um merceeiro. E eu passei a vida a crescer com as pessoas de uma forma muito condescendente, a vaticinarem-me como projeto de vida, eu ser merceeiro. O meu pai tinha uma mercearia fina e de facto tinha uma clientela muito diferente, quer as pessoas daquelas aldeias ali à volta, quer as pessoas mais diferenciadas em termos sociais e económicos. E eu ia muitas vezes fazer esse tipo de trabalhos, na ânsia de ter uma corjeta, que de vez em quando surgia. Mas é muito engraçado sentir. E o olhar de uma criança, às vezes, uma pessoa desvaloriza-o e faz mal, porque eu sentia um olhar não tão afetuoso. Eu era só uma criança a fazer aquele tipo de trabalho, que não me incomodava nada, devo lhe dizer, porque implicava ir Sozinho de autocarro, era talvez até uma responsabilidade, aos olhos de hoje, muito acrescida para uma criança pequenina. Eu tinha sete, oito anos. Mas eu sempre notei muito esse olhar, um olhar de cima para baixo, um olhar demasiado oblíquo. E eu acho que aí ficou uma marca que eu não pude deixar de usar e de sentir e de alguma forma burilar dentro de mim, porque eu percebi que não somos todos iguais. E que para vencermos algumas barreiras precisamos de ter uma determinação muito grande. Mas eu tinha sempre um lado que não era lunático, mas eventualmente mais sensível e gostava de tentar traduzir isso por palavras. Acho que depois houve alguns professores que perceberam isso muito cedo e ajudaram-me muito a que eu crescesse. Em 1969, eu lembro-me que uma professora minha, que me estava a avaliar, que eu nem conhecia, ter falado nos astronautas que tinham pousado na Lua e eu lembro-me perfeitamente de ter dito que sim, eu sabia que eles tinham pousado na Lua e até sabia o nome deles, se podia dizer. E foi a primeira vez em público que eu ouvi um burburá atrás de mim e pensei assim: "Isto tem graça". Depois a escola ajudou-me a fazer as pazes com esta dimensão oblíqua que eu senti muito cedo na minha vida.

Eduardo sei que adora escrever quando está bom tempo à beira da piscina e no inverno no seu escritório junto à lareira acesa. Esta paixão não é recente. Poucos sabem que escreveu o primeiro livro quando tinha 17 anos. Que livro é este, Eduardo?

Eu tinha a mania que era poeta. Para ter manias para tudo, Joana. Eu tinha essa. Não sei porquê, eu guardo esses cadernos, devo lhe dizer, religiosamente, porque acho que eu sou uma ternura. Sim, e depois fui escrevendo, às vezes mais a sério, às vezes a brincar, e fui percebendo que conseguia brincar com as palavras. Isso foi uma coisa muito importante, porque uma coisa é nós sentirmos, outra é sermos capazes de formatar aquilo que estamos a sentir com palavras e de preferência o mais simples que for possível. E eu não fazia nada disso, claro. Eu lembro-me que os meus amigos, sabendo disso, às vezes me faziam pedidos indecentes. Eu lembro-me dos amigos meus, o Vladimir e a Fernanda, que se candidataram a um concurso da RTP 2, foi no Jurássico, Joana, que se chamava Ecrã Mágico e que se tinha de construir um texto a partir de umas imagens. Eu entendi que um texto, para ser uma coisa séria, tinha que ter palavras muito caras. E foi, claro, o júri foi implacável na avaliação, menos o Artur Semedo, o cineasta, um homem lindíssimo, de uma bondade fora do lugar, que foi muito condescendente para mim e que me poupou a um puxão de orelhas. E depois sim, escrevi aos 17 anos um texto, era um texto de poesia.

O pseudônimo Miguel Homem?

Exatamente. Meu Deus, eu fico intimidado com isto.

Está um livro aberto hoje.

Sim, completamente escancarado. Sim, que foi ilustrado por um amigo meu chamado Vitor Nino, era um homem de uma sensibilidade incrível, que desenhava de uma maneira esplendorosa e que tinha uma particularidade, aquilo era um stêncil, era tudo manufaturado de uma ponta à outra. E sim, foi aos 17.

Os seus pais já faleceram.

Sim.

E o Eduardo diz que a morte da sua mãe foi o fim da sua infância. Por quê, Eduardo?

Eu acho que somos todos pequeninos quando nós temos os nossos pais ao nosso lado. Temos sempre a ideia que eles são pais o tempo todo e que nós podemos fazer birras e ter melindres e amuar, aqueles prejuízos todos que os filhos fazem com a convicção de que os pais apanham a bola no ar e marcam um gol com toda a facilidade. E eu, sim, confrontei-me com isso. Eu percebi que a minha infância tinha terminado nesse dia. Acho que enquanto nós temos pais, somos pequeninos, independentemente da idade que temos.

E por que o seu pai foi o seu herói da vida real? Palavras suas.

Eu acho que não tenho heróis. Até me parece mal dizer isto. Não, mas eu tenho pessoas que foram muito fortes na minha vida. E que foram capazes de renascer ao longo da vida várias vezes. Com ele aconteceu isso de uma forma brutal. O meu pai já foi pai fora de tempo. Eu nasci quando o meu pai tinha 48 anos, veja bem. A minha filha mais nova tem cinco anos, portanto eu copiei. E nunca me inquietou muito relacionar-me com pessoas mais velhas por causa disso. Porque eu acho que nós somos tão estranhos, achando que só os jovens é que são sábios, quando eu acho que, de facto, são magníficos. Mas eu acho que muitas vezes, quando os pais me perguntam assim: "Quais são as melhores referências que nós podemos dar aos nossos filhos?" Eu acho que os nossos avós, como é evidente, porque Porque os nossos avós conseguiram fazer percursos absolutamente incríveis. O meu pai vem de uma família muito pobre.

Tem um tempo difícil e nem.

É horrível.

Falamos tanta coisa.

De uma família muito pobre. E eu olhava para alguns colegas meus e pensava assim: "Bestial", porque quando vejo as condições em que os meus avós viviam, eu digo para mim: "Meu Deus, se eu vivesse nestas condições e tivesse cinco filhos". E depois, está a ver, as pessoas morriam muito precocemente e não havia condições para nada. Eu acho que teria motivos para estar azedo o tempo todo. E a minha avó foi magnífica com o meu pai, portanto, é incrível perceber, por isso é que eu falo tanto das mães, como é que em condições tão perversas, tão adversas, tão violentas, há mães que conseguem ser tão mães. E portanto, eu acho que às vezes nós somos um bocadinho peneirentos, porque desprezamos a sabedoria dos mais velhos como se não fosse sabedoria, fosse uma coisa fora de moda. E portanto, eu às vezes digo aos pais: "Por favor, se querem dar um banho de humildade aos vossos filhos, ponham-nos a conhecer os avós, porque cuidar deles, dos filhos, os avós já teriam feito tremendas coisas". O meu pai começou a trabalhar com nove anos. E portanto, às vezes nós vivemos muito fechados sobre o nosso umbigo e eu tive esse privilégio de ter pessoas de uma diversidade de idades muito grande e ter uma casa cheia de gente, porque a casa estava sempre cheia de gente, com primos, etc., a entrar e a sair. E portanto, essa diversidade foi um privilégio. Pelo menos foi um factor de crescimento para mim. E eu acho que eu aproveitei como factor de crescimento, se calhar é isso.

O Eduardo tem seis filhos. Não falei com todos, mas disseram uma frase muito bonita que eu memorizei: "O pai tem um sorriso que abraça e um colo infinito." É o melhor da vida, não é? Dar colo.

Mais ou menos. Sabe por quê, Joana? Porque claro que é magnífico dar colo e é magnífico quando o nosso colo está certificado. Mas quer dizer, eu tenho a noção quando dou colo, ponho-me ao colo. Às vezes não fica muito claro quem é que está ao colo de quem.

Era isso que eu ia perguntar, quem é que lhe dá colo é você.

Tecnicamente, sou eu que sou dar colo. Na prática, fica ali alguma dúvida. Mas sim, foram uma escola absolutamente fantástica na minha vida, desde o princípio. Eu lembro-me que quando a Sofia nasceu, a minha filha mais velha, nunca me esqueço, porque eu andava a fazer o doutoramento. E há um dia que eu vou passear com a minha filha Sofia à noite e ela virou-se para mim e fez uma pergunta que eu achei que não se faz a um pai. Ela virou-se para mim e disse assim: "Olha lá, o que é que a lua está no céu a fazer?" E eu, por momentos, pensei: "Calma, recapitulando". Eu tinha um professor de Ciências de Educação, que era um homem que contava histórias, que eu acho que é a qualidade melhor de um professor. E que um dia, quando soube que eu ia ser assistente na universidade, virou-se para mim e disse assim: "Olha, vou te ensinar um truque". Eu disse: "Professor, por favor, porque nunca ninguém me ensinou truques nesta faculdade". E portanto, o truque é este: quando o aluno te fizer uma pergunta muito difícil, tu fazes o olhar mais sério que tu conseguires, olhas para o horizonte, levantas levemente uma sobrancelha, fazes um ligeiro silêncio para ele ficar expectante e depois dizes: "Ora aí está uma boa pergunta". E eu, na minha inocência, virei para ele e disse: "Isso funciona?" Ele disse: "Garantidamente". E eu, tentando ser cético, disse: "Mas vamos imaginar que ele insiste". E ele, com uma bonomia e uma bondade fora do lugar, virou-se para mim e disse assim: "Não há problema. Se ele insistir, fazes o mesmo olhar, perdes-te no horizonte, levantas a sobrancelha, fazes um novo silêncio e depois viras-te para ele, sem nunca te desfazeres e dizes: 'E você, o que é que acha?' Independentemente da resposta que ele te der, tu vais dizer: 'Está a ver, como você sabe, ficas lindamente na fotografia, não passas pela humilhação de não saber'". Eu achei uma delícia, Joana. E eu andava na rua com a Sofia, ela virou-se para mim e perguntou o que a lua estava a fazer no céu. Eu pensei assim: "Mas eu julgava que sabia a psicopatologia toda e que já trabalhava com imensas crianças, mas por que ela me está agora a pôr uma questão dessa?" E lembrei-me do meu professor e virei para ela e disse com ar solene, olhando para o infinito: "Ora aí está uma boa pergunta". E ela virou-se para mim com olhar de quem diz: "Uau, anda uma filha a criar um pai para isto." Insistiu e eu pensei: "Isto não se faz". E utilizei a fórmula desse professor e disse-lhe: "Olha, o que tu achas que ela está a fazer na lua?" E ela, como se fosse a coisa mais óbvia do mundo, disse-me que a lua estava no céu a fazer estrelas. Eu achei aquilo absolutamente esplendoroso, percebe? E percebi naquela altura que isto de nos armarmos em parvos nunca nos leva por bons caminhos. E, portanto, sim, os meus filhos todos têm sido uma escola imensa, porque de cada vez que eu corro o risco de me armar em parvo, eles trazem-me à Terra e explicam que estão ali para me educar e têm-me educado muito bem. Eu, se calhar, se não educaram melhor, é porque eu não fui capaz de aprender.

Estou à conversa com Eduardo Sá. Vamos fazer aqui uma pausa para as notícias e já voltamos com a segunda parte do Observadores Como Nós. Segunda parte do Observadores Como Nós, hoje com Eduardo Sá, o psicólogo que todos conhecem, escritor, pai de seis, que adora filmes policiais e de suspense e que é esquecido. São os filhos que dizem esquecido ou despistado, Eduardo?

Eu não sei com quem é que se confundiu.

O pai esquece sempre qualquer coisa nos hotéis. A frase é dele.

Sim, é verdade.

Mas não é só nos hotéis. Tem de me contar a história de andar a espalhar folhas de jornal.

Sim, do Expresso. É verdade. Fui comprar o Expresso, estava a pôr as coisas dentro do carro. Pus o Expresso em cima do carro, entrei no carro e fui pra casa.

Para casa, claro.

Quando cheguei a casa, fiquei perplexo, porque eu disse para comigo que eu jurava que tinha posto o Expresso no carro. Fiz o trajeto ao contrário e reparei que por uma avenida de Coimbra havia folhas e folhas de Expresso. Eu não devia dizer isto, mas é rigorosamente verdade, era uma extensão tão grande que eu não tive coragem de começar a apanhar.

Eduardo, não podemos deixar de falar do acidente que teve há dois anos, uma queda em casa que mudou completamente a sua vida, dos que o rodeiam. Como é que tem sido esta nova realidade?

Eu acho que do ponto de vista humano, tem sido uma experiência incrível. Sempre tive a ideia que era uma pessoa equilibrada, nunca pensei que fosse tão equilibrado. Que de um momento pro outro, em consequência de um acidente, eu era exposto a níveis de sofrimento exorbitantes. Ia estar seis meses num hospital, ia estar três meses num hospital de reabilitação física, que é um sítio que eu não recomendo a ninguém.

Em plena pandemia, não é Eduardo?

Em plena pandemia. E foi uma experiência muito importante na minha vida, porque eu tive que escolher, na noite em que eu tive o acidente. Eu fui muitas vezes solicitado para dar opiniões sobre eutanásia, suicídio medicamente assistido, e sempre foi um território escorregadio. Eu sou um cristão que não acredita em Deus. Até em consequência da minha profissão, eu acho que são territórios um bocadinho escorregadios e que nós temos que mexer com muita delicadeza e com muita cautela. E eu tive a noção, porque eu sabia exatamente o que é que eu tinha em mãos, de fazer um balanço de vida. Naquele momento, naquela noite, passou-me tudo pela cabeça, mas passou-me uma questão fundamental: eu quero estar vivo ou não quero estar vivo? Porque eu acho que, no limite, as pessoas têm que ter a liberdade de dizer: "Não, não me apetece, não quero". É um sofrimento insuportável e são situações tão humilhantes que eu acho que tenho toda a legitimidade do mundo para dizer "não quero", e eu percebo que tenho essa legitimidade. Mas eu disse exatamente o contrário. Não por questões religiosas, coisa nenhuma, por questões de convicção pessoal, eu sou um bocado determinado.

Desistir não é opção, não é Eduardo?

Por mais que eu não fizesse ideia do que é que significava uma experiência daquelas. Mas mudou. Devo dizer que mudou. Não mudou assim tanto, porque eu tive o grande privilégio de ter muitas pessoas nos dois hospitais por onde eu passei, muito condescendentes para mim, as equipes médicas de enfermagem, sobretudo, e os auxiliares da ação médica, que são pessoas que às vezes ninguém fala, e que são pessoas que ganham o ordenado mínimo e que são sujeitas a trabalhos tremendos e que mereciam outro tipo de cuidado e de atenção, que de fato não têm, mas permitiram-me tudo. Eu no hospital fiz tudo. Ao fim de dois dias estava a escrever um texto pro Observador, um texto importante chamado "Um azar do diabo", que se passava com todo o acidente que eu estava a viver, com aquele tempo. Estava a fazer tudo, até programas de rádio. Continuei a fazer tudo, consultas, conferências, até porque eu sempre achei que aquilo que se fazia às pessoas que lá estavam, roçava alguma indignidade. Eu lembro-me que naquela enfermaria do Hospital da Universidade de Coimbra, estava um conjunto de plasmas para serem aplicados na parede há muito tempo e estavam encastados. As pessoas tinham como opção estar a olhar pro ar e quase como se tivessem que estar ali a sofrer com a sua doença e mais nada que isso. E foi uma experiência muito bonita, devo dizer, porque depois nesse hospital de reabilitação era um privilégio ser um bocadinho a voz de alguma resistência. Eu acho que no nível da reabilitação há tudo por fazer. Um dia eu gostava muito de se fazer uma campanha pública, de maneira que se pudesse na entrada de Lisboa, proibida a entrada a deficientes, na entrada de Coimbra, de Aveiro, das cidades portuguesas.

Para abanar, não é?

Para abanar, para as pessoas terem a noção de que são muito hipócritas quando dizem que os direitos são iguais. Não são. Eu acho que sim, que nós temos que ser muito mais interventivos em termos sociais, e vai lá chegar. Mas mudou. Não deixei de fazer tudo o que eu faço, e mais ainda, devo lhe dizer. Mas tenha noção que nós vivemos muito longe de um país amigo das pessoas, porque eu acho que do governo às autarquias, está tudo por fazer e não custava nada, porque se parte sempre do pressuposto que os deficientes são um bocadinho apoucados. Esquecem-se estas pessoas que, se calhar, há outros tipos de deficiências que não se traduzem a olho nu e que, se calhar, são muito mais graves e mais incapacitantes do que às vezes aquelas que nos chocam quando olhamos pra elas.

A frase é sua: "O segundo grande desafio de toda a vida é encontrar um grande amor. O primeiro, nunca o perder". Quem é o seu grande amor, Eduardo? Podemos ter mais do que um?

Eu costumo dizer que o coração tem quatro cavidades, mas cabe lá muita gente. Portanto, eu acho que nós podemos ter muitos amores. Acho que mal seria se não tivéssemos muitos amores. Mas no sentido de um amor maduro, eu tenho dificuldade em imaginar essa diversidade toda. Acho que o amor maduro é uma coisa seríssima. Devo lhe dizer, João, que é uma coisa que me preocupa muito, porque eu acho que se fala pouco de amor. E nós criamos esta ideia de que amar é fácil, é uma coisa que todos nós sabemos com mais ou menos jeito. E eu não acho nada disso. Acho que nós fomos tremendamente amados pelos nossos pais, uns mais, outros menos, mas é um amor muito egocêntrico. Nós estamos habituados a sermos amados e não nos ensinaram tanto quanto deviam a amar. E portanto, somos um bocadinho atrapalhados. Somos atrapalhados com as palavras, colocamo-nos pouco no lugar do outro. Eu acho que nós precisamos de nos magoar, contra a nossa vontade muitas vezes, de passarmos por desilusões, por decepções. E eu acho que leva muito tempo a descobrirmos a pessoa da nossa vida e eu tenho a noção que, para além dos meus filhos, eu tenho o meu grande amor e eu prezo muito. Mas tenho a noção de que uma pessoa demora tempo a descobrir aquilo que nós queremos de um amor.

Temos muita coisa em comum, Eduardo. Além do Benfica, adoramos pão, pataniscas com arroz de tomate.

Ai, meu Deus!

Vais à zobelhão pato. Eu não tenho nenhum dos seus dotes para a culinária. Dizem que faz um bacalhau que é uma delícia, receita sua. É segredo ou depois aqui em off pode dar uma receita, Eduardo?

Há sempre um ingrediente secreto, não é?

Gosta de cozinhar?

Gosto. Esse bacalhau dá-me imenso trabalho, leva imenso tempo. Foi uma descoberta muito tardia na minha vida, mas eu percebo muito bem o gosto imenso que lá em casa existe, nomeadamente por parte da Raquel. Sabe que é um mimo absolutamente fantástico quando nós estamos ali a ter aquele trabalho todo e depois sabemos que aquilo corresponde exatamente a uma manifestação de carinho inimitável. E portanto, sim, por esse lado eu gosto. Claro que às vezes eu tenho a mania de dar um toque tão mais pessoal e tão mais inovador, que estrago a versão antiga. E quando estou à espera que todos digam: "Uau!", dizem: "O outro estava melhor". E eu tento, depois, voltar a ele. Mas sim, gosto.

Eduardo, são também os que privam consigo, dizem que é genuinamente boa pessoa.

Eu acho que sou bom. Eu acho que sou boa pessoa, porque se me disser assim: eu sou capaz de magoar alguém com o gosto de estar a magoar? Sou incapaz. Incomoda-me. Até porque eu pergunto-me o que é que se calha com isso. Acho que é tão estúpido. E a vida sempre me ensinou, mesmo com as pessoas que às vezes magoaram. E às vezes houve pessoas que me magoaram de uma forma muito traiçoeira. E como todos os animais de sangue quente, claro que eu naquele momento fico com uma fúria tal, porque eu sou capaz de ter fúrias. Mas depois, eu já perdi a conta, João, é mesmo verdade, de algumas pessoas que não foram leais para comigo e que a determinada altura me pediram ajuda. E eu sempre reservei isso para mim, devo dizer. Mas uma vez ou outra, isso chegou aos ouvidos dos meus filhos e eles de uma forma muito acalorada, sempre me dissuadiram de o fazer. E eu nunca deixei de o fazer. Nunca. Porque eu tenho uma ideia. As pessoas más quando nos magoam, o grande mal que nos fazem não é no momento em que nos magoam, é na forma como de certo modo pretendem deixar-nos inquinados com o malado que nos fazem. É como se nos quisessem roubar a luz, roubar a esperança, roubar as nossas convicções, quase como se nos quisessem tornar um bocadinho maus. Porque é engraçado, eu sou a atitude do bonzinho, irritam-me pessoas bonzinhas. São aquelas pessoas falsamente bondosas. Eu prefiro mil vezes uma pessoa de sangue quente que diz: "Eu estou furioso, capaz disto e daquilo", e que depois são capazes de cair nelas e refletir e de fazer de toda aquela dureza uma experiência diferente. E a vida ensinou-me que era um exercício de uma absoluta estupidez ficar inquinado por essas coisas e mesmo as pessoas que me fazem mal, acredito que eu não faço rigorosamente nada para ir à procura de me vingar. Acho que é uma coisa tão absurda. E sim, já perdi a conta as vezes em que ajudei essas pessoas e senti-me muito bem quando fiz. E senti-me ainda mais quando senti gratas depois do que eu fiz, quase como quem diz, se calhar em vez de eu ter ficado inquinado, se calhar ajudei a ser bondosas como se calhar elas talvez não imaginassem que eram capazes.

Todas as semanas escreve a sua crónica no Observador e na rádio está de segunda a sexta no Porque Se Não É Resposta. Lembra-se de como surgiu o convite, Eduardo?

Olha só, eu estou na rádio, embora só tenha 30 e não sei quantos anos, como sabe. Estou na rádio há mais de 20 anos, todos os dias. Começou tudo na Antena Um, com a Sónia Morais Santos, e foi uma experiência muito engraçada, devo lhe dizer, porque era muito pouco espontânea. Eu escrevia os programas. Era uma coisa tão engraçada. Depois passei a estar com a Isabel Stilwell durante muitos anos e depois surgiu a ideia de passar para aqui. Logo no início do Observador. Houve uma reportagem quando o Observador começou E fizeram entrevistas a várias pessoas e eu na altura disse: "Por aquilo que eu conheço das redações, dos jornais, das televisões, há aqui uma atmosfera no ar que eu acredito que a Rádio Observador pode ter uma importância tão grande como teve a TSF na altura em que foi criada." E eu hoje acho que isso deve ser. Eu voltei a gostar muito de ouvir rádio, ouço a sua voz horrível todas as manhãs e gosto muito. E devo dizer que, seja qual for a linha editorial do jornal e da rádio, eu sempre tive uma liberdade completa para estar aqui. E esta atmosfera desta redação não é uma atmosfera qualquer. Ou seja, eu sinto que isso depois transpassa para o produto final, não tem como. Porque às vezes, nas redações de jornais, há ali um narcisismo às vezes insuportável. As pessoas são muito distantes, constroem uma imagem muito para lá daquilo que elas são e eu acho que não ganham nada com isso. E aqui há uma transparência que eu acho bonita, sente-se quando se entra aqui, é um sítio desarrumado, às vezes faz lembrar uma escola de artes, é uma coisa gira. E portanto, o Pedro e o Ricardo sentaram-se ali comigo e sim, perguntaram se eu estava disponível para vir para cá. O Pedro a certa altura disse que tinha muito gosto que eu viesse e eu aceitei. Não conhecia o Ricardo de lado nenhum. Fomos aqui almoçar perto, todos um bocadinho a medo. "O que é que é isto?" Experimentámos uma, duas vezes e eu comecei com a Ana Filipa e com o Ricardo, e o Ricardo foi uma surpresa absolutamente inacreditável para mim. O Ricardo assina alguns dos programas mais bonitos desta rádio. E portanto, foi uma experiência incrível.

Estamos a falar do Ricardo Conceição.

Do Ricardo Conceição. E depois, a certa altura, o Ricardo passou a ter outras funções e disse-me: "Eu agora vou ter que te deixar com a Judite e com o Bruno Vieira Amaral." E eu disse: "Isso não se faz". E disse ao Ricardo: "Olhe, eu não sei se vamos conseguir. Portanto, vamos combinar assim, vamos estar aqui um mês à experiência e ao fim do mês eu digo-lhe se isto tem pernas para andar, se não". E foi uma surpresa muito grande. O Bruno e a Judite são pessoas muito diferentes uma da outra, mas muito rapidamente fizemos uma equipa incrível, percebe? E tanto mais incrível quanto nestes dois últimos anos, nós temos funcionado à distância. Portanto, de repente foi uma sorte o Pedro achar que eu podia-

Sorte a nossa

...ter aqui um lugar e portanto, cá estou.

"O melhor do mundo é o futuro." Palavras suas.

Sim.

O que é que se veio a fazer no futuro, Eduardo?

Olhe, Joana, sabe que quando nós olhamos para trás na história, eu acho que a vaidade não é uma característica que seja nossa. Século XXI, todas as civilizações humanas tiveram esta peneirice, que eu acho tremenda, de considerar que depois delas é sempre o abismo. E quando nós olhamos para trás e observamos a forma paçorraenta como a humanidade tem vindo a crescer. A humanidade tem vindo a crescer sempre para melhor. Há pouco estávamos a falar das mães e é verdade. É inacreditável perceber como é que com condições tão degradadas em tantos países do mundo, no século XXI, hoje, há miúdos com um olhar de uma vivacidade absolutamente incrível. E portanto, eu tenho a noção que as mães são pessoas de quem se fala muito pouco. Às vezes têm suas coisas, às vezes também desarrumam os filhos, mas se não fosse a saúde mental das mães e o amor que colocam numa relação, meu Deus, o que seria da humanidade? E portanto, eu acho que a humanidade tem vindo a crescer muito bem. Às vezes fico muito triste, porque no século XXI eu tinha a ideia de que com uma parafernália de instrumentos técnicos à nossa disposição, já não havia necessidade de os países se invadirem por causa de um palmo de terreno. E a hipocrisia humana que me choca absolutamente, porque eu às vezes costumo dizer: "Mas o que nós estamos a fazer na escola?" Porque nós temos a humanidade mais escolarizada que alguma vez a humanidade teve, e que continua a eleger líderes populistas à esquerda e à direita, um pouco por todo o mundo. Com a invasão da Ucrânia, nós vimos protagonistas em Portugal assumir perspectivas tão inacreditavelmente obscuras. E meu Deus, tão estúpidas, que eu pergunto-me: "Mas onde é que estão as pessoas?" E todavia, eu acho que nós hoje somos muito melhores pais do que os nossos pais foram. Os nossos filhos têm hoje condições que nós não tivemos. A escola hoje é muito diferente. Meu Deus, é muito mais elevador social, apesar de tudo, porque eu sei o que era que um erro significasse uma reguada e que ao fim de um primeiro ano de escolaridade houvesse crianças postas de lado. Eram postas naturalmente de lado, como se o naturalmente fosse uma coisa razoável e não obscena. E, portanto, nós temos vindo a crescer muito bem. Acho que podemos crescer muito mais e crescemos muito mais se nós tivermos a humildade de crescermos uns com os outros. A pandemia trouxe isso. Nós percebemos todos que éramos muito mais fortes juntos do que separados. Percebemos a importância das pessoas na pandemia, veja bem, como se fosse preciso uma coisa dessas. E os países perceberam que juntos podiam galgar degraus. Depois, às vezes perdem-se por maus caminhos Mas eu acho sinceramente que o melhor do mundo é o futuro. Agora preocupa-me, porque eu acho que nós estamos a deixar aos nossos filhos um mundo doente, um mundo em termos climáticos completamente constipado, com uma crise energética, uma crise financeira mundial. E nós temos sido um bocadinho irresponsáveis, porque não estamos a pensar nos nossos filhos e devíamos pensar neles.

Sei que acredita que a vida é o caminho que escolhemos e que vamos sempre a tempo de criar mais sonhos para nós. Que sonhos tem neste momento?

Há uns dias estava com uma pessoa que me dizia assim: "Olhe, eu tenho para mim que se posso faço, se não posso sonho". É uma pessoa por quem eu tenho um respeito muito grande e foi uma grande interpelação para mim, porque eu tenho para mim que se posso sonho e se sonho posso. E eu não consigo dizer que sonhos é que eu tenho, mas para mim isto faz sentido. Se posso sonho, se sonho posso. E enquanto eu sentir que posso e enquanto sentir que sonho, eu tenho dificuldade de selecionar sonhos e aquilo que eu quero, porque de repente a vida surpreende-nos com coisas que às vezes nos magoam muito, mas também nos surpreende às vezes com coisas tão desconcertantes que eu acho incrível. Por isso é que eu percebo o lado omnipotente dos apaixonados, porque qual é a probabilidade de nos encontrarmos com aquela pessoa e de repente dizermos que é aquela, não é outra. É uma improbabilidade total, porque como é que os apaixonados não hão de ser omnipotentes e ter a ideia de que só porque pensam acontece e fazem telepatia e outras coisas do gênero. E eu acho que quando nós pensamos no futuro e pensamos nos sonhos, estamos a falar de improbabilidades que depois a vida faz o favor de as tornar palpáveis e esse é o lado fascinante. E por isso é que eu acho que é absolutamente fascinante estar vivo, porque quando não andamos muito distraídos, a vida enche-nos de improbabilidades mais do que parece.

Eduardo, muito obrigada por me ter dado a oportunidade de conhecê-lo melhor, saber mais sobre si.

Obrigada.

Foi um gosto.

Obrigado.

Eu sou a Maria João Simões. Obrigada pela companhia. Até ao próximo "Observadores Como Nós".