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Olá, seja bem-vindo ao Observadores Como Nós. Eu sou a Maria João Simões e esta tarde tenho o gosto de receber Helena Guerra e Silva, jornalista, economista, professora, colunista, autora e que é também irmã, uma amiga generosa e atenciosa, e uma apaixonada, além da profissão, pela leitura, viagens. Há muito para conhecer na próxima hora. Olá, Helena, bem-vinda e muito obrigada por ter aceitado este convite.

Muito obrigada, Maria João, pelo convite. É um gosto.

Helena, nasceu em Goa, Panjim, no dia 27 de outubro de 1959. Saiu de lá pequenina, depois andou entre Timor e Angola, mas quando pensa na sua infância, o que é que lhe vem à memória?

Eu saí de Goa muito nova. Era bebê, basicamente. Não tinha sequer um ano. Nós saímos de Goa em março de 61, se não me engano, e eu não tenho praticamente memórias nenhumas de Goa. Viemos depois pra Portugal, meu pai era militar. A minha mãe é mesmo goesa. Nós, como meu pai era militar, fomos pra Timor, onde as minhas duas irmãs nasceram. Viemos depois outra vez pra Portugal e só depois de Portugal é que fomos para Angola, onde meu pai deixou o serviço militar, e regressamos a Portugal na altura do 25 de abril, em dezembro de 74.

Portanto, chega cá com 15 anos, provavelmente, por volta disso.

Sim, 15 anos.

E desses tempos, do que é que tem mais saudades? E desse vai e vem, dessas viagens todas, o que é que fica?

As minhas memórias remontam basicamente à Angola. As memórias que tenho de Timor são muito esbatidas. Lembro-me que em Timor a minha mãe dava aulas e eu aprendi a ler com a minha mãe. E lembro-me de ter de ler um texto que era do livro que a minha mãe usava para ensinar os miúdos a ler. Era um texto que me comovia imenso, que era uma criança que não podia comprar um carrinho e eu nunca conseguia ler aquele texto até ao fim. Tenho essa imagem, tenho a imagem de ir brincar com os timorenses. Nós vivíamos mesmo na zona de Dili. Eu voltei a Dili em 2018 pra dar uma formação.

Como é que foi o reencontro com aquela terra?

Foi emocionante, como é óbvio. E lembro-me de algumas coisas. A minha irmã do meio, a primeira língua que aprendeu foi o tétum, que é o dialeto timorense, porque a minha mãe praticamente não estava em casa e ela estava a ser criada pela empregada e acabou por aprender o tétum. Depois esqueceu-se completamente. E quando cheguei a Dili, agora já em 2018, pra dar uma formação de jornalismo financeiro e de como ler contas públicas pra jornalistas timorenses, a única coisa que eu me relembrei era uma coisa que o meu pai nos dizia muito, e que se aplica, em geral, muito bem às finanças públicas, que é: "Não há dinheiro, que é ó sala ia". E isso permitiu-me conquistar os corações dos jornalistas timorenses, e foi uma experiência extraordinária. Agora, não tenho memória, eu saí de lá talvez com quatro anos e meio, só memórias muito esbatidas da praia, daquilo ser tipo o paraíso. Estas zonas correspondem à imagem que nós temos do paraíso. Muito verdejantes e com muito mar e muito pôr do sol.

Isso de Timor, não é? Em relação a Timor.

Timor.

E de Angola?

Angola já é completamente diferente. Angola foi quando acordei pra adolescência, e, portanto, existem muitas memórias de Angola, e lembro-me de não querer vir. Os meus pais, principalmente o meu pai, como tinha sido militar, percebeu que nós íamos ter de regressar, e os meus pais fizeram tudo para que nós viéssemos pra cá o mais depressa possível, até para iniciar o ano letivo cá, isto ainda em finais de 1974, e obviamente nós não queríamos vir pra cá.

Deixou lá muitos amigos, Helena?

Eles depois acabaram por vir todos.

Essencialmente portugueses também.

Nós depois espalhámo-nos um bocadinho por todo o país. E há até uma história engraçada, porque houve pessoas que nós perdemos o contato. Nós éramos miúdas, eu sou a mais velha.

É a mais velha de três.

Exato. Tinha 15 anos, ia fazer 15 anos, ou fiz 15 anos quando viemos pra cá, e todas nós, obviamente, os nossos amigos não eram os amigos dos meus pais. E alguns da escola, ou outros, os vizinhos, e cada um espalhou-se pelo país inteiro. E eu lembro-me de uma vez, é uma das histórias mais engraçadas, estar no autocarro, eu estava na faculdade, estava no autocarro pra ir pra faculdade, e de repente ouço uma voz, que era como eu era conhecida na escola: "Maria Helena!" Eu olho pra trás, era a irmã de uma grande amiga minha que me viu e me reconheceu. Foi a forma que nós tivemos de nos reencontrarmos. Essa minha amiga agora ainda está em Macau, mas foi como nos reencontramos, porque senão nunca nos teríamos reencontrado. Depois, quando chegamos a Portugal, é um grande choque cultural.

Pois, era isso que eu ia perguntar, como é que foi a adaptação, porque tudo diferente.

Um enorme choque cultural, porque é sair de uma sociedade já, eu tinha 15, a minha irmã tinha 13, apesar de sermos Adolescentes na sua primeira fase, havia uma liberdade em Luanda que não havia aqui. Há pessoas que costumam dizer que o PIS era a preto e branco naquela altura. Mas África não era a preto e branco.

E muito de porta aberta, muito de convívio, muito de rua.

Exatamente. E tudo já fazíamos, éramos adolescentes, fazíamos as farras e fazíamos imensas coisas em conjunto no bairro, desde o Festival da Canção, imitávamos Portugal. Até aos concursos das misses, tínhamos 13, 14 anos. Eu como gostava muito de ler, tinha uma amiga minha que para me obrigar a sair de casa, entrava pela minha casa, roubava-me o livro e ia a correr. Cheguei a fazer o estatuto para fazermos um grupo dos sete, daqueles livros da Enid Blyton. E tudo isso faz com que quando chegamos a Portugal, é tudo muito mais apertado. E nós fomos para o Alentejo.

Por causa do seu pai, não é? É originário.

Exatamente. O meu pai era da área de Estremoz, da zona alentejana, e fomos para aquela zona. Nós fomos muito bem tratadas. Três meninas que vêm da África, na escola, fomos super bem tratadas, mas lembro-me de uma das coisas que me fazia impressão era deitar fumo pela boca, que era uma coisa divertida para uma miúda. Deitar fumo pela boca por causa do frio. Uma coisa que ninguém pensa.

As memórias sim, que ficam.

Mas foi integrarmo-nos completamente. Eu não me considero uma pessoa sofrida e olhei sempre para a frente. Obviamente, tivemos perdas.

Mas isso tem a ver com a sua maneira de ser, ser otimista, ir para a frente.

Eu não sou otimista, mas tenho muita tendência de: "Ficou para trás, agora vamos olhar para a frente". Mesmo na minha carreira profissional, não fico a remoer as coisas que se passaram bem ou mal. Passou, passou. E depois dessa fase de vivermos em Estremoz, a minha mãe trabalhava na Força Aérea e quis ser colocada na base aérea do Montijo e acabamos por ir viver para o Montijo. Essa é outra história engraçada. Fomos ver onde era o Montijo no mapa. E eu lembro-me de ter ficado entusiasmadíssima, porque fica ao pé do rio Tejo. E como é que eu imaginei uma terra ao pé de um rio, como é em África, cheia de árvores frondosas a cair em cima do rio, coisa que não é nada assim.

Ligeiramente diferente, mas somos muito simpáticas.

Muito diferente. E a partir daí, depois fui entrar para a faculdade.

Hoje licenciada, mestre, doutorada em Economia, foi o que sempre quis ser.

Eu não sou doutorada em Economia. O que eu fiz foi um mestrado em Economia Aplicada. Acabei por nunca fazer a tese de mestrado e quando acabei a licenciatura, de facto, entrei para o doutoramento, mas é um erro, aliás, aproveito para dizer que é um erro entrares logo para o doutoramento, porque nós entramos para o doutoramento e pensamos: "Mas isto é o mesmo, mas mais difícil ainda, não quero". Não, eu fiz um mestrado, já estava no jornalismo, até com o objetivo de melhorar, até porque o jornalismo económico e para nós conseguirmos comunicar de forma eficiente e de forma que as pessoas nos percebam, nós temos que ser capazes de simplificar. Mas temos que ser capazes de simplificar com rigor. E para simplificarmos com rigor, na minha opinião, temos de ter um conhecimento, às vezes técnico, profundo e foi por esse desafio que fiz depois a parte curricular do mestrado em Economia Aplicada. Acabei por nunca fazer a tese porque o jornalismo é muito absorvente.

Por falar em rigor, quem trabalha ou trabalhou consigo, diz que a Helena é uma jornalista à moda antiga, no que isso tem de melhor. Informa-se antes de falar, lê antes de escrever, persegue fatos, números, dados e só depois recomenda.

Sim, porque eu tenho, talvez por defeito de profissão e até pela formação em Economia, foco-me muito mais no conteúdo do que na forma. Isso às vezes não é bom. Por exemplo, às vezes para fazer análise política, a forma é muito importante, até mais importante do que o conteúdo. Mas não consigo, de facto, partir para um comentário, para uma análise, para um texto, sem conseguir confirmar os fatos e às vezes até exageradamente alguns detalhes que são pouco importantes. Aprendi ultimamente, sobretudo porque faço hoje mais análise e comentário do que propriamente notícias, aprendi ou forço-me às vezes a não ir tanto ao detalhe, porque depois o detalhe pode nos impedir de fazer uma análise mais global das situações. Mas sim, é a minha preocupação, até porque nós, como jornalistas, temos de ter consciência, em termos gerais, de que mexemos na vida das pessoas. E no caso do jornalismo económico, mexemos às vezes na vida financeira, económica, laboral das pessoas. E isso exige de nós uma enorme responsabilidade, obviamente.

Os amigos são unânimes quando dizem que a Helena gosta muito da sua profissão, tanto que nunca quis sair dela, apesar de ao longo da sua carreira terem surgido boas oportunidades. Alguma vez se arrependeu de não ter aceitado algum desses convites ou como dizia há pouco, e para a frente o caminho?

Nunca me arrependi, e o caminho é mesmo para a frente. Nunca me arrependi. Embora, às vezes tenho pena, mas é verdade, eu gosto muito do que faço. Sou jornalista por acaso, podemos falar disso. Não era isso que eu tinha pensado ser. A minha irmã mais nova sempre quis ser jornalista.

A irmã do meio é advogada.

A minha irmã do meio é advogada e a mais nova é jornalista, é uma jornalista até conhecida, que é a Frísia Garrido, que está na TVI. A minha irmã do meio é advogada, é a Emanuela Garrido, e eu nunca quis ser jornalista.

Como é que aparece o jornalismo?

Por puro acaso. Eu fui para Economia também por acaso, porque eu era para ir para Medicina, tirei tudo para ir para Medicina e depois à última hora pensei: "Ai, não, que horror! Anatomia, mortos, eu não vou querer. Eu não vou conseguir fazer a cadeira de anatomia com mortos". E então pensei: "Eu gosto imenso de matemática, não quero ir para matemáticas. Qual é o curso que tem muita matemática? Economia. Vou para Economia". E fui para Economia e sou do primeiro curso da Universidade Nova de Lisboa, da Faculdade de Economia, que hoje se chama Nova SBE. Fiz o curso todo ali no Campo Grande e quando acabei o curso, acabei na crise de 1973. Não consegui arranjar logo emprego, andei a dar aulas no secundário e eu não queria dar aulas. Então voltei para a faculdade para tirar umas cadeiras de fiscalidade e contabilidade analítica, porque assim podia inscrever-me como ROC, revisora oficial de contas. E na faculdade encontrei um professor meu, que já morreu, que é o professor Orlando Abreu, que me perguntou se eu não queria escrever para um jornal de Economia. Eu disse: "Posso tentar". De quem era o jornal de Economia? Era também de um professor meu, que era o professor António Rebelo de Sousa, que ia lançar o Jornal de Comércio. Nós íamos entrar numa fase de liberalização da economia, em que fazia sentido existir jornalismo de economia, informação de economia para as pessoas tomarem decisões. As coisas deixavam de ser decididas pelo Estado, tinham de ser decididas pelo cidadão. E foi a partir daí que eu comecei no jornalismo, no Jornal de Comércio, que depois fechou, por puro acaso, e depois viciei-me.

É viciante o jornalismo?

É muito viciante. Não sei se é também por causa da adrenalina, obviamente. De estarmos sempre atualizados e sempre a saber o que acontece. Eu costumo dizer que nós temos carteira profissional de fofoqueiros. Nós gostamos muito de saber as últimas novidades, mas é o desafio de todos os dias ser um dia diferente e há sempre coisas novas para aprender. Sempre, mesmo na economia, há inovação financeira. O que é hoje a economia não tem absolutamente nada a ver com a economia como ela era em finais da década de 80, nos anos 80 do século XX. E esta possibilidade de estar sempre a aprender, sempre perante coisas novas que nos desafiam, penso que será isso que faz com que eu goste tanto do jornalismo e nunca me arrependi. Quer dizer, tenho pena dizer: "Se calhar, se eu tivesse aceitado aquele desafio, era outro mundo em que eu iria". Mas depois tenho medo de não gostar desse mundo. Olha, é melhor ficar aqui.

Sei que, pelo que dizia e por essa paixão, passa grande parte do tempo a trabalhar e quando não está a trabalhar, como é que gosta de passar o seu tempo livre, quando tem?

Como é que eu gosto de passar o meu tempo livre? Eu neste momento imponho-me a ir ao ginásio pelo menos duas vezes por semana. Esse é um momento que eu gosto muito, com uma PT. Tinha de ser com uma PT, senão eu não ia.

Porque tem que ter ali alguém que cobre se não for.

Exatamente, que eu fico envergonhada.

Pois é.

E o que eu gosto mais de fazer, aquilo que de facto me dá um enorme prazer fazer ainda hoje, é estar ao pé do mar a ler. Eu tenho de me esforçar um bocadinho para ler romance. Eu lia muito, depois durante o jornalismo interrompi essas leituras, sobretudo de romances, e passei a ler basicamente livros técnicos. E estou a tentar reencontrar isso, porque isso de facto é dos poucos momentos em que eu consigo desligar completamente e que me gera um enorme nível de relaxamento, a leitura.

E o piano? Não esteve a tirar umas aulas de piano?

Está super bem informada. O que é que aconteceu no piano? Eu pensei: "Bom, eu agora devia aprender ou uma língua nova ou talvez aprender a tocar um instrumento". Piano, eu sempre gostei muito de piano.

Também eu, mas sei que não tenho jeito nenhum, nem vou tentar.

Não, mas eu também não tenho jeito. A filha de uma amiga minha, da minha amiga Céu, a Sara, estava a aprender piano e ela tinha muito jeito para ensinar, tinha um bom desempenho como pedagoga. E então combinei com ela: "Vais me ensinar a tocar piano". E ela ensinou-me. Só que depois o Arnaldo, que é o meu marido, ofereceu-me um piano e eu tenho-o massacrado com o piano, porque eu verdadeiramente sou dura de ouvido. É horrível, porque ele não sabe nada de música e eu ando a aprender as notas, super dedicada, tipo aluna bem comportada, a aprender notas e a ver como é que se escrevem e como é que se leem. E o Arnaldo chega lá, faz uns acordes e aquilo tem música e eu estou ali não sei quantas horas a tocar e aquilo não sai nada, é horrível. Mas não desisto. Ultimamente não tenho feito muito, porque tenho de facto tido algum trabalho, mas não desisto. E a Maria João, se quiser, aprenda também, porque não faz mal. Nós também não vamos ser grandes pianistas.

Pois não, mas ao menos aprendemos algo que gostamos.

É um desafio, mas sim. Também dá algum prazer, obviamente, e é um desafio interessante, porque saltar para um mundo que não é o meu, porque o meu mundo é um bocadinho tecnocrata. Portanto, é preciso saltar para outros mundos que não são os nossos para nos desafiarmos.

Helena, eu estou a gostar muito de conversar consigo. Vamos fazer aqui uma curta pausa e já voltamos. Até já. Segunda parte do Observadores Como Nós. Hoje é minha convidada a jornalista e economista Helena Garrido, que é também autora, professora e uma profissional muito discreta. Ao longo da sua carreira, conheceu todos os ministros das Finanças, todos os governadores do Banco de Portugal, os primeiros-ministros das últimas três décadas e apesar disto, sempre manteve uma enorme discrição. Helena, o mundo profissional nunca se mistura com o pessoal? É fácil fazer esta gestão?

Eu acho que é fácil e é sensato. Eu gosto muito de separar os dois mundos. Não sei por quê, mas acho que é sensato mantermos o mundo pessoal protegido, sobretudo de alguma exposição mediática. Eu sou jornalista, e há a famosa frase: "As pessoas que se constroem pelos mídia, são destruídas pelos mídia". Não é que eu tenha sido construída pelos mídia, na prática, eu faço parte desse ecossistema, mas acho que a discrição, e até mais do que isso, eu penso que é a privacidade. É uma pessoa manter alguma dose de privacidade para conseguir sentir-se mais livre. Eu hoje não tenho a privacidade que já tive no passado, porque tenho alguma notoriedade.

E como é que lida com essa notoriedade, Helena?

Lido bem, até porque as pessoas são, em regra, muito simpáticas comigo. Eu não tive, até hoje, um único caso em que as pessoas não tivessem sido muito simpáticas comigo e muito atenciosas. É uma recompensa, perceber que algumas pessoas, às vezes até bastante modestas, dizem que me percebem. E pra mim é o mais importante, porque nesta área do jornalismo econômico, é um desafio que pessoas que não têm formação de economia nos consigam perceber. E esse é sempre o meu objetivo, conseguir simplificar as coisas de tal maneira, porque são as pessoas que não percebem de economia que precisam dessa informação econômica.

De entender, sim.

Mais do que aquelas que sabem de economia. Mas eu penso que é, sobretudo, por causa de manter alguma privacidade e especialmente não correr o risco de alguma vez me perguntarem coisas que eu não gosto de responder. E assim, fico logo protegida.

Exatamente.

Se não souberem, não perguntam.

Não perguntam. A Helena é o polegar de direção, muito antes de ter de haver mulheres em direções, ou seja, foi por mérito e não por cotas. Mas onde quero chegar é que dirigiu sempre no mundo de homens, com administradores homens, líderes de empresas, economistas homens. Hoje já não é assim, mas foi durante décadas. Como é que era ser mulher entre homens?

No jornalismo econômico, durante muito tempo, sim. Eu diria, Maria João, que ainda hoje o peso dos homens, sobretudo entre os presidentes das empresas, é muito elevado, para além do que seria até já razoável e que se justifica com a formação que as mulheres hoje têm. Mas sim, eu sou jornalista desde 1986. O meu primeiro ministro das Finanças, como jornalista, foi Miguel Cadilhe. E o mundo e o setor financeiro era só homens. A minha área é mais a macroeconomia e, portanto, os interlocutores tinham muito a ver com a governação, com o Banco de Portugal, com a banca e com o Ministério das Finanças. Eu nunca tive grandes problemas com isso. Talvez na década de 80, 90, quando tínhamos o BCP, que era ultraconservador, tenha havido ali alguns desconfortos, mas nada de muito grave. O que eu notei, especialmente nos últimos anos, foi a mudança dos temas de conversa. Isso é que eu acho engraçado, que até há talvez 20 anos, os temas de conversa, mesmo em ambientes que só estavam homens e eu era provavelmente a única mulher. Eu só mais tarde é que comecei a reparar que eu era a única mulher. Os temas de conversa, eram os temas de conversa do assunto que nós íamos debater. Nos últimos anos, os temas de conversa são futebol, e futebol é uma coisa que eu não percebo nada.

Pois.

Quer dizer, eu sou do Benfica, porque meu pai é do Benfica, mas pouco mais. Depois já é difícil eu conhecer nomes de jogadores, só se a gritaria falar.

Time que fixa.

Exatamente. Aí tinha de fazer grandes fintas pra não ser apanhada pela realidade. Isso foi uma das coisas que eu notei. Depois, noto que é muito lenta a ascensão das mulheres nos cargos de topo das empresas. Nós mesmo hoje, se olharmos pras empresas cotadas, temos muito poucas mulheres. O que me parece em relação a Portugal é que enquanto há países em que este, eu vou dizer mesmo o nome, este machismo é frontal, digamos assim, em Portugal é muito disfarçado, e não se consegue perceber por que as mulheres não conseguem ascender a cargos de chefia. Eu, durante muito tempo, até fui contra as cotas e mudei de opinião E mudei de opinião, porque eu penso que a partir de onde nós começamos a notar as mulheres discriminação, que não é uma discriminação ativa, é uma discriminação quase sonsa, é a partir de determinados patamares de extensão na carreira. Aí é que se começa a notar. E porque os homens têm muito, digo eu, se calhar erradamente, não sou uma especialista nesta área, mas é porque os homens têm muitas cumplicidades que as mulheres ainda não conseguiram ter nesta gestão da sua carreira quando se chega a cargos de topo. Melhores do que no passado. Hoje há muito mais mulheres com cargos de topo que são capazes de falar disso e têm a coragem de falar disso. Eu lembro-me sempre para nós portuguesas, uma das referências de combate nesta área, sem dúvida, a doutora Leonor Beleza, e que dá bem o exemplo de que sim, as quotas é um problema, mas tomara nós, as mulheres, que o problema das quotas fosse fazer subir a cargos de chefia mulheres incompetentes. Estamos ainda muito longe de ter a quota de mulheres incompetentes que existe na quota de homens incompetentes.

Foi um amigo seu que o disse: "Se procuras frases bombásticas, não a leias. Se procuras decifração, entendimento e crueza na análise, lê-a". É assim que se vê também, Helena?

Sim, eu gosto muito de analisar. Aliás, a minha maneira de pensar é muito lógico-dedutiva. Sou muito pouco intuitiva. Não tenho aquela coisa que dizem que as mulheres têm, intuitivas. Não sou nada intuitiva. Gostava muito de desenvolver essa parte mais holística, mas eu preciso muito fazer raciocínios lógico-dedutivos e preciso muito de perceber a lógica das coisas e tento sempre, quando escrevo, encontrar um racional, porque parto do princípio que as pessoas são racionais e tem de existir uma racionalidade. Às vezes não existe. Aliás, como nós sabemos, há até estudos que mostram que não há, às vezes as coisas acontecem mesmo por acaso. O cérebro humano é que não é capaz de viver com o acaso e conta histórias, a posteriori, constrói narrativas para entender a realidade. Mas sim, eu prefiro sempre uma análise a frases bombásticas, mas também gosto de uma boa frase bombástica.

Falávamos há pouco sobre a leitura. Sei que gosta muito, como disse, de ler. É também autora de livros como "A vida e a morte dos nossos bancos", "Quem meteu a mão na caixa". Há planos para um próximo, Helena?

Há planos. Estou super em falta.

Com quem?

Com os editores. Sim, há um livro que nem comecei. Portanto, na prática, é só uma ideia, mas que a falta de tempo tem impedido que eu faça. Mas a escrita dos livros, por exemplo, foi um outro evento da minha vida que estava completamente fora de alguma vez pensar, porque uma pessoa quando lê livros, diz: "As pessoas que escrevem livros devem ser pessoas muito importantes". Eu sempre tive uma imagem de pessoas que escrevem livros, pessoas que estão acima, e os romances, então.

Foi um desafio que lhe lançaram para escrever o primeiro livro?

Foi o Francisco José Viegas, que quando eu deixei a direção dos Negócios. O Francisco José Viegas desafiou-me e eu disse: "Mas eu vou ser capaz de escrever um livro?"

Eu vou ser aquela pessoa assim?

"Eu tenho um livro". E graças ao Francisco fui capaz.

E gostou de o fazer?

Gostei. Aquilo é difícil, é uma coisa de retorno muito baixo. Quem escreve livros sabe bem isso. Mas gostei muito de fazer. Até porque já é um contributo que todos nós de alguma forma devíamos dar, porque nós no jornalismo, muitas vezes fazemos peças de puzzles e nunca construímos o puzzle na sua totalidade. E um livro, como temos mais tempo para refletir, até para falar com mais pessoas, podemos ir construindo o puzzle, juntando as peças que foram sendo lançadas ao longo de vários anos. Eu gostei bastante, quer do livro sobre a banca, sobre a crise financeira na banca, quer depois o livro que foi só sobre a Caixa Geral de Depósitos.

Já sabe qual será o tema do próximo?

O tema é muito relacionado com finanças públicas, que eu tenho acompanhado há muitos anos, desde há muitos anos, mas ainda nem pensei nele.

Além de jornalista, é também professora de jornalismo económico.

De jornalismo económico.

Na Universidade Lusófona.

Exatamente.

E gosta de dar aulas?

Gosto muito. Eu sou de jornalismo económico e agora também de jornalismo digital. Eu gosto muito de dar aulas por uma razão, porque é uma oportunidade de nós percebermos como é que pensam as novas gerações. E elas são sempre diferentes. Nota-se sempre uma grande diferença e sobretudo, como é que elas olham para o mundo. E depois também gosto muito desta parte mais pedagógica. Que, na minha opinião, também me ajuda como jornalista. Eu dou aulas há muitos anos na Lusófona. Já dei também jornalismo em instituições europeias, mas neste momento dou jornalismo económico e jornalismo digital. O que se percebe, à medida que as gerações vão passando, é um distanciamento cada vez maior da realidade E a viverem numa realidade que eu, por vezes, nem sei bem qual é. A minha batalha com os alunos, de dois, três anos a esta parte, talvez até cinco, é como é que eles querem ser jornalistas, não sabem o que se está a passar em Portugal e no mundo. E às vezes fico impressionada como é que está tudo a gritar sobre um tema, eu fico impressionada como é que eles conseguem. Já tentei perceber qual é o mundo em que eles vivem, que conseguiram passar ao lado de um acontecimento que não há ninguém que não esteja a falar, na minha opinião, mas no mundo em que eles vivem, não estão a falar disso. O problema de se viver nas redes sociais, e este é um desafio enorme para nós jornalistas, porque as pessoas vivem nas redes sociais e se nós não estivermos nas redes sociais, não chegamos até eles. Não vão a um site de um jornal. Se o jornal for até eles na rede social, sim.

Sim, assim já consomem.

Daí veem e até ali. Mas se não estiver nesse universo em que eles se encontram, ninguém lhes toca. É um problema de cidadania. É um problema que se coloca de cidadania, é este distanciamento enorme. Eu admito que não sejam todos os jovens. Há alguns jovens, porque o que nós vemos é que há, de facto, uma minoria de jovens que se preocupam e são bem informados. Eu estou, se calhar, a generalizar de forma abusiva. Alguns que se preocupam, mas a maioria vive num mundo que não é, pelo menos o meu. E pelo menos aquele que seria importante para eles, para exercerem os seus deveres e direitos de cidadania. E a desconsideração que têm pela classe política é enorme, mas a classe política tem uma enorme responsabilidade, porque quando nós levamos os alunos a visitar o Parlamento, é muito difícil explicar aos alunos porque é que os deputados estão a ver as fotografias das férias. Os deputados têm de se lembrar que as pessoas estão lá em cima e estão a ver o que eles estão a escrever no ecrã, estão a visitar no ecrã dos computadores, e isso é muito difícil de explicar.

Helena, no Observador é colunista há já vários anos. Ainda se lembra de como é que surgiu o convite?

Foi o José Manuel Fernandes que um dia me desafiou. Eu penso que foi até no princípio do Observador. Foi mais uma vez quando eu deixei a direção do Jornal de Negócios, que o José Manuel Fernandes me convidou e é um gosto enorme ser colunista do Observador. Além disso, anualmente, também por um desafio do Miguel Pinheiro, faço uma coisa que eu também gosto de fazer muito e fico sempre à espera: "Ai, será que este ano não vão convidar?" Que é a análise ao Orçamento de Estado. Aquilo dá-me imenso sofrimento, mas eu adoro fazer.

A Helena fez e faz tanta coisa. Consegue eleger aquilo que mais a realiza, que mais a faz feliz?

É difícil. É muito difícil. Eu também gosto de fazer um bocadinho de jardinagem, não tenho tempo nem muito jeito. Mas sim, eu gosto da profissão em termos gerais. Gosto mesmo. E talvez até seja um bocadinho viciada demais na profissão. Houve uma vez que estava de folga e resolvi ir à Assembleia da República, porque como tinha cargos de chefia, há muito tempo não ia lá ver um debate. Eu sou um bocadinho viciada, talvez.

E o seu marido queixa-se desse vício?

Não, eu acho que também posso ser assim porque tenho o marido que tenho. É muito generoso e é a pessoa que trata, por exemplo, da comida.

A Helena não gosta de cozinhar.

Eu gosto de cozinhar, mas eu gosto muito mais do que ele. Ele adora cozinhar.

Portanto, é deixá-lo, claro.

Sim, aquilo que eu faço tem imensos defeitos, logo, é melhor eu ficar à espera. E como ele adora cozinhar e cozinha muito bem, e cozinha coisas sofisticadas. Eu às vezes chegava do jornal às 18h e tinha magret de pato com puré de batata doce, umas coisas complicadíssimas e era bom, obviamente.

Helena, tem uma wishlist do que ainda quer fazer?

O que eu ainda quero fazer? Gostava muito de viajar mais, que tenho viajado pouco. A última viagem que fiz, adorei, que foi à China, e gostava muito de ir fazer uma grande viagem nos Estados Unidos, não sei se vou conseguir. E ir à Austrália e ir à Argentina, que nunca fui, à Patagónia, ir lá mais pra baixo. E gostava de escrever mais livros, isso gostava, porque embora seja um processo muito doloroso, que uma pessoa: "Ai, meu Deus, não vou conseguir".

Mas quando chega ao fim deve ser muito prazeroso.

É, dá um enorme prazer e acho que podia dar algum contributo com a experiência que tenho para a história económica de Portugal. Uma visão. E gostava de ter tempo pra fazer as tais coisas como aprender o piano, que há muito tempo não faço nada. Também gosto de fazer tricô e crochê, mas sou também um bocadinho obsessiva em relação a isso, porque quando começo a fazer um tricô.

Não consegue parar.

Só paro quando aquilo termina e é melhor até às 02:00 da manhã fazer tricô. Essas coisas não faço quando tenho de trabalhar. Jogos de computador também adoro. Cheguei a fazer diretas a fazer o Sim City, mas é péssimo.

É viciante.

Não, estou proibida. No tempo de trabalho, não posso sequer chegar-me ao pé de um jogo de computador. Gosto muito de jogos de computador. Também gosto muito de teatro e já fiz um workshop de teatro e gostava de ter tempo pra fazer mais um workshop de teatro, que gosto muito. Eu gostava de fazer muitas coisas. Eu gostava de pintar também, já fiz um workshop de pintura.

E está sempre a tempo, como disse a Helena, como ao piano.

Estou mesmo. Eu penso que todos nós estamos sempre a tempo. Nós não queremos ser um Picasso. Mas aquilo são pequenas coisas que se nos dão prazer.

Se há curiosidade, sim, prazer.

E se ativam o nosso cérebro em determinadas áreas, devemos fazer. Sim, eu gostava de fazer muitas coisas e penso que não me aborrecia nada se tivesse mais tempo, mas neste momento eu gosto muito. Não sei se algum dia me conseguiria reformar sem escrever. Eu gosto muito de escrever.

Helena Garrido, gostei muito de saber mais sobre si. Obrigada por ter aceitado o convite.

Obrigada.

Eu sou a Maria João Simões. Obrigada pela companhia. Até ao próximo "Observadores Como Nós".