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Olá, seja bem-vindo a mais um "Observadores Como Nós". Eu sou a Maria João Simões e esta tarde tenho o gosto de receber João Marques de Almeida, consultor de política nacional, colunista, mas que é também pai de três, um ferrenho portista e bom garfo. Olá, João, bem-vindo.

Olá, Maria João.

Obrigada por ter aceitado o meu convite.

Tenho muito gosto.

Nasceu a 29 de maio de 1965, em Luanda, onde viveu até aos dois anos, depois foi para os Açores. Quando pensa na sua infância, quais são as principais memórias que lhe vêm à cabeça?

Já penso um pouco na minha infância. As principais memórias, gostava imenso de jogar a bola, adorava jogar a bola, gostava imenso de andar de bicicleta e depois mais tarde andar de skate. Foram as três coisas que eu acho que fiz mais durante a minha infância.

A sério?

Pelo meio, estudava um pouco. A minha infância foi crescer em Miraflores e Algés e depois no Restelo. Foi isso, sempre vivi em Lisboa.

Luanda era pequenininho, não é? Dois aninhos. E depois os Açores.

Não tenho muitas lembranças.

Muito pouco.

Não. E sobretudo, não tenho qualquer lembrança de ter que me adaptar. Nada.

Portanto, os tempos de miúdo foram então passados entre Algés, que dizia, Miraflores e Vila Seca, em Viseu, na casa do seu avô paterno.

A casa de família, sim.

E o que é que guarda dessas alturas?

É do meu avô paterno.

Como é que é?

Férias altas, nós íamos sempre para o Algarve em julho, nunca íamos em agosto. Íamos para a Balaia e depois passávamos o mês todo de agosto e a primeira quinzena de setembro em Vila Seca, em nossa casa. Era ótimo.

Ainda vai a Vila Seca? Ainda têm lá?

Temos a casa, claro. É uma casa de família.

E está passando.

Espero que sim. Os meus filhos, os meus sobrinhos gostam imenso da casa, acho que vai ficar, é de família. Herdamos, não vamos vender. Já faz parte da minha família há muitas gerações.

Portista ferrenho, como eu dizia no início, este ano correu mal. Mas um dos seus amigos arriscou a dizer que um dos dias mais felizes da sua vida, da vida do João, talvez tenha sido a primeira vez que o Porto ganhou a Liga dos Campeões em Munique, contra o Bayern.

Em Viena.

Que era o Artur Jorge treinador.

Era o Artur Jorge treinador.

Portanto, isto é 86, 87. Lembra-se?

Lembro-me perfeitamente. Houve amigos meus que viram o jogo em minha casa, alguns portistas, outros benfiquistas. E tenho que dizer, não sei como é que seria hoje, mas tenho que dizer, na altura os benfiquistas torceram completamente pelo Porto e estavam também muito contentes com a vitória do Porto. E depois fomos para a Avenida da Liberdade celebrar. Na altura não era Marques, foi na Avenida da Liberdade. E estava imensa gente, imensos portistas, obviamente. Na altura havia menos portistas em Lisboa do que agora, mas foi uma das maiores alegrias.

Por que é que diz que não sabe como é que seria hoje? Os benfiquistas a torcerem pelos portistas, acha?

Não, acho que o fanatismo no futebol em Portugal aumentou imenso. Não é só benfiquistas, não é só os portistas, é todos. É um fanatismo inacreditável. Não era assim.

Era o desporto.

Era o desporto. Claro que nós discutíamos com nossos amigos.

Unia os amigos, a família.

Eu habituei-me a andar na escola, ser o único portista nas turmas onde andava, no liceu. Na minha altura havia pouquíssimos portistas.

Por que é que é portista, sabe? Vem de família também?

Por que é que sou portista? Tem um bocado a ver com a minha família. A minha família é do norte, distrito de Viseu. O meu pai não liga nada a futebol, mas o meu avô e os meus tios não gostavam nada de Lisboa. Sempre ouvi dizer mal do poder de Lisboa, o poder da capital, e não gostavam nada do Benfica nem do Sporting. E eram todos Académica ou Porto. Aliás, eu comecei por ser da Académica. O meu primeiro clube, até aos sete, oito anos, era a Académica, depois é que passei para o Porto. Não vi hipótese nenhuma de ser do Benfica e do Sporting.

E é de sofrer. É de sofrer a velo.

É de sofrer um horror. Não vejo jogos do Porto com mais ninguém, só com o meu filho Gonçalo, que é tão portista como eu. As minhas filhas, coitadas, já não têm que ver futebol comigo e acho que é uma grande alegria que elas sentem.

Mas por quê? Com medo que o pai se sinta mal, de ficar tão nervoso?

Fico, ferroca a cabeça, é horrível. É um momento de irracionalidade total e absoluta.

E é engraçado que tem consciência disso, mas não consegue mudar.

Tenho absoluta consciência. Não, não consigo.

E gosta?

Adoro futebol.

Preferia era não sofrer tanto.

Gostava de não sofrer tanto. Se pudesse, não sofria tanto, mas adoro futebol.

O João Marques de Almeida tem um irmão, o Pedro, que é três anos mais novo. Ele acompanhava-o nestas andanças?

Não, nunca ligou muito. E ele é benfiquista.

Lá está.

Mas não liga muito. Mas ele gosta do Porto. Por exemplo, ficou muito contente quando o Porto ganhou a final de Viena. Mas não liga, não tem nada a ver. Eu acho que ele não vê a maior parte dos jogos do Benfica.

E como é que é a vossa relação? São próximos?

Ótimos. É ótima.

Começou por estudar direito, depois mudou de ideias, mas antes de mudar, houve ali uma fase dos não estudos, palavras de um amigo seu. Houve tempo para um interrail. Passou por Paris e Londres.

Fomos trabalhar para Londres.

Algum apartamentinho?

Ficamos num apartamento onde estavam vários portugueses e tivemos vários trabalhos. Eu trabalhei num pub, na cozinha, a lavar copos.

Que idade tinha aqui, mais ou menos?

Tinha, não sei, 20, 21. Mas depois não gostei nada. Fiquei só uma semana para ser pago, porque éramos pagos à semana. Depois saí e fui trabalhar e estive a trabalhar com o Paulo durante 15 dias numa carrinha.

A distribuir revistas.

A distribuir revistas por bairros de Londres. Revistas, aquele tipo de revistas de lojas, de supermercados, de armazéns.

O Paulo dizia que vocês tinham de lá estar às 6h e percorriam Londres.

Começávamos muito cedo.

E conheciam todo o tipo de gente.

Todo o tipo de gente. Não, nós trabalhamos com um grupo engraçadíssimo Um tipo daqueles bairros das docas de Londres. Depois um tipo de Manchester, que guiava a carrinha, e um tipo muito mais velho, de 60 e tal anos, da África do Sul. E depois começávamos cedíssimo, às 6 da manhã.

E tomavam o pequeno-almoço com os operários, não é?

Mas só íamos tomar o pequeno-almoço tipo às 8:00, 8:30. Ainda entregávamos um-

E vocês jovens.

Às 8:30 estávamos mortos de fome. Mas pequenos-almoços a sério, à inglesa, ovos, bacon.

Bacon, feijão.

Nas maiores tascas que uma pessoa possa imaginar em Londres. Foi divertidíssimo, diverti-me imenso.

Eu dizia há pouco que começou por estudar Direito. O que é que o fez depois mudar para Ciência Política e Relações Internacionais?

A principal razão, acho que não gostei de Direito, mas também não me esforcei muito. Essa é que é a verdade. Foi uma altura da minha vida que queria me divertir. O estudar não era a minha prioridade, longe disso. Espero que os meus filhos não ouçam.

Não ouçam esta parte.

Eles conhecem o pai, eles sabem o pai que têm. Fazia tanta coisa. Adorava fazer surf. Adorava sair à noite. Quando entre fazer surf, sair à noite, não havia muito tempo para estudar Direito. E não me esforcei, não me esforcei minimamente. Porque se me tivesse esforçado, obviamente tinha tirado o curso de Direito. Depois fui para Relações Internacionais e Ciência Política, na Universidade Lusíada, e gostei muito mais do curso, achei muito mais interessante. Eu sempre gostei imenso de ler. Sempre. E sempre gostei muito de História. E o curso tinha muito mais a ver. Não tendo que fazer um grande esforço, era um curso muito mais interessante que o curso de Direito. Gostava das disciplinas, sempre gostei muito de acompanhar política e fazia sentido, o que estava a estudar fazia sentido e estava próximo dos meus interesses intelectuais. E era mais fácil do que Direito.

Tanto era que depois, ou era, ou pelo menos motivou de tal forma que fez o mestrado depois na Universidade de Kent.

Fiz o mestrado.

E a seguir o doutoramento na London School of Economics. Fez diferença que parte da sua formação tenha sido feita em Inglaterra?

Fez muita diferença. Aliás, Inglaterra faz parte da minha vida. Há bocado quando falou de quando estivemos a trabalhar em Londres, quem diria, e foi a primeira vez que eu estive em Londres, acho eu.

Que quando estava a lavar copos .

Que Londres ia ser tão importante na minha vida. O mestrado foi em Canterbury, na Universidade de Kent, mas depois fui para Londres fazer o doutoramento na London School of Economics, onde vivi cerca de quatro anos durante o doutoramento. E mais tarde, em janeiro de 2013, voltei para Londres para trabalhar onde ainda estou hoje. Eu trabalho em Londres, eu trabalho numa empresa em Londres, estou lá há 10 anos. Eu já tenho 15 anos de vida no Reino Unido, dos quais 14 em Londres. Foi uma alteração completa. Foi uma alteração, fazer o doutoramento em termos de método de trabalho. Pode parecer incrível, mas eu só comecei a estudar a sério quando fui fazer o mestrado em Inglaterra. Eu fiz a licenciatura a ler livros interessantes e estudar à última da hora. Eu comecei a estudar a sério com métodos de trabalho durante o mestrado e depois no doutoramento, obviamente. O doutoramento pretenede trabalhar e de estudar. E isso foi muito importante, pôs-me uns métodos de trabalho. E também foi muito importante em termos de formação intelectual. Eu sou muito influenciado pelo pensamento anglo-saxónico, sobretudo britânico, na filosofia política, no pensamento político. Eu sou um conservador liberal, tem muito a ver com o facto de eu estudar no Reino Unido. Portanto, eu não me revejo nada nesta ideia em Portugal que uma pessoa de direita tem que ser simpatizante do Estado Novo ou não é verdadeiramente um democrata liberal. Isso para mim não faz sentido nenhum, porque eu sou influenciado por uma tradição intelectual onde ser de direita é uma pessoa que valoriza, sobretudo, as liberdades e as liberdades individuais. Isso é a direita na tradição anglo-saxónica.

Isso define muito o que é o João também, não é?

Completamente. O valor mais importante para mim é a liberdade individual. Não há nada sem liberdade. Obviamente, o bem-estar material é fundamental, tem que haver justiça social, tudo isso é muito importante, mas sem liberdade individual não há mais nada. E a liberdade individual em todos os aspectos, não é só a liberdade para podermos escrever artigos a criticar o governo e o governo não nos chatear. São muitas liberdades que em Portugal não existem plenamente. Liberdade económica absoluta. Ainda hoje em Portugal há muitas atividades em que as pessoas começam a querer ter iniciativa, a querer fazer coisas, e se começam a ter lucro ou a ter sucesso, são imediatamente abafadas por impostos, por novas regras, por novas leis, e o Estado não dá liberdade às pessoas. O Estado devia deixar as pessoas viverem. Sejam livres, façam as vossas coisas, desde que não se viole a lei. As pessoas devem ser livres para fazer o que querem. E é isso que eu acho que faz muita falta em Portugal. E essa tradição marcou-me profundamente, marcou-me e faz parte do que eu sou hoje.

Nesta altura em que estava no Reino Unido, hoje continua, mas nesta altura, que era mais jovem, mestrado, doutoramento, como é que foi para os seus pais? Acredito que tenham sempre apoiado, mas gerir as saudades, ter o João lá fora.

Sempre apoiaram, apoiaram sempre muito. Eu sempre habituei viver com saudades, porque eu estou sempre fora de Portugal. Toda a vida, primeiro, mais novo, tinha saudades dos meus pais, e eles tinham minhas. Depois tinha saudades dos meus filhos, também houve muitas alturas que vivi longe deles. Portanto eu sempre tive-

Habituado a lidar com saudades.

A lidar com saudades. Agora, os meus pais sempre me apoiaram imenso. Aliás, se eu fiz o mestrado e o doutoramento, foi por causa do apoio deles, senão não tinha feito. Eu tive uma bolsa de estudo para o doutoramento, para o mestrado não. Foram os meus pais que me ajudaram. Para o doutoramento eu tive uma bolsa de estudo, mas a bolsa de estudo só não era suficiente.

Claro.

Tive ajuda dos meus pais. Se eles não me tivessem ajudado, não tinha feito o mestrado e o doutoramento.

Nessa altura, como dizia o João há pouco, já o fazia e ainda hoje é assim, vive entre Portugal e o Reino Unido, mas passa cada vez mais tempo cá.

Agora, sobretudo com a pandemia, o nosso escritório esteve muito tempo fechado e a minha casa em Portugal é na Malveira da Serra, que é um sítio espetacular.

Já se cruzou várias vezes. Pelo menos o José Manuel Fernandes já o viu várias vezes a andar de bicicleta.

Várias vezes a Malveira, mas a andar de bicicleta na Serra de Sintra. É verdade.

O João também.

É verdade. Eu de bicicleta, ele muitas vezes está a passear com os cães.

É o mais certo.

Mas vivo na Malveira da Serra e durante a pandemia fiquei muito tempo. Aliás, eu comprei a minha casa na Malveira da Serra em 2005 e em 2006 fui trabalhar para Bruxelas. Portanto, tirando o primeiro ano que vivi na Malveira da Serra, até à pandemia, nunca tinha passado mais de uma noite na Malveira da Serra. Nunca. E durante a pandemia fiquei lá muito tempo. E agora no pós-pandemia, temos regras mais flexíveis. Também já trabalho na empresa há 10 anos, conheço ela perfeitamente. Procuro ficar sempre uma semana por mês em Portugal, a semana toda, mas mesmo as outras semanas que vou a Londres, acabo por trabalhar um dia dessa semana em Portugal.

E o surf? Está fazendo surf?

Agora faço cada vez menos, infelizmente. O meu joelho esquerdo é crónico, já não há nada a fazer. Além do surf, eu jogava muito futebol, muito ténis.

Um desportista.

Adoro fazer desporto, mas ainda gosto muito de fazer surf. E o desporto que me deu mais prazer fazer foi surf.

Por quê? É a liberdade outra vez?

É a liberdade, porque foi o desporto com mais intensidade. E apanhar uma onda, ir com velocidade numa onda. Há muita gente que nos ouve que não conhece bem surf. Fazer um tubo, que para mim é a manobra mais interessante do surf. Eu comecei a fazer surf há muito tempo. Comecei a fazer com pranchas que só tinham um fin. As pranchas têm todas agora três fins. Tenho um surf clássico, nunca na vida dei um aéreo, não sei dar aéreos. Hoje em dia todos os surfistas fazem aéreos. Eu só surfo na água, nunca fui surfar no ar. Só surfo na água. E para mim a manobra melhor do surf é o tubo, é quando se está dentro de um tubo. São sensações indescritíveis, são sensações muito fortes e fantásticas. Eu lembro-me. E durante muitos anos, o surf era quase um vício. Eu estava duas horas e meia, três horas dentro d'água, saía, sentia-me feliz. Mas até tarde. Agora faço cada vez menos por causa do joelho, o joelho atrapalha-me. O surf, sobretudo, na linguagem surfista, se chama o takeoff, a passagem do deitado, quando apanhamos a onda para pôr-nos em pé, atrapalha-me um bocado e tenho um bocado de dores.

Mas ainda não está a postos parte.

Não, não está a postos parte. Tenho prancha, tenho fato, não está nada a postos parte.

Quando se está no Reino Unido é que não há surf para ninguém.

Mas já fui fazer surf no Reino Unido. Já fui duas vezes à Cornualha, à Cornwall, fazer surf. Duas vezes.

Mas vive em Londres?

Vivo em Londres.

Portanto, Londres, Malveira, o que é que têm em comum? Alguma humidade? O que é que mais gosta em cada um dos sítios? Se tivesse que destacar um ponto na Malveira.

A Malveira é o sossego. Adoro viver no campo. E a minha casa é mesmo no campo, é numa quinta. Eu saio do portão daqui e estou na Serra de Sintra.

Que maravilha!

E acho que já não era capaz de viver numa cidade. Vir viver para Lisboa, não era capaz. Já. Deixei de ser lisboeta, agora sou da Malveira da Serra.

Mas depois Londres?

Gosto imenso de trabalhar em Londres. Gosto imenso do trabalho que faço, gosto imenso de trabalhar com os nossos clientes, são bons clientes, gosto muito do trabalho que faço, é uma boa empresa, gosto da minha empresa e gosto do ambiente profissional de Londres. As coisas acontecem. As coisas têm um princípio, um meio e um fim e portanto as coisas estão sempre a acontecer. O que me custa em Portugal é que há muitas coisas que nunca acontecem. Está sempre a adiar. Uma pessoa marca uma reunião.

Muita burocracia também.

Não, e a tomada de decisão não é rápida. Não se tomam decisões. É para fazer? É. Vamos tentar fazer. Então vamos fazer. Toma-se a decisão, faz-se e está feito. Em Portugal há muita discussão, até se tomar uma decisão. Eu fico impaciente em Portugal.

É impaciente?

Sou muito impaciente.

Está à conversa com o João Marques de Almeida. Vamos fazer uma pausa para as notícias. Já voltamos com a segunda parte do Observadores Com Nós. Segunda parte do Observadores Com Nós, hoje com o João Marques de Almeida, consultor político, colunista e pai de três. Já falámos deles há pouco. A Maria é a mais velha, depois vem o Gonçalo e a Inês é a mais nova. Como é que passam o vosso tempo a quatro? Como é que é o tempo de qualidade entre pai e filhos? Quando o têm.

Quando temos.

Agora é mais difícil de juntar os quatro.

É. Mas passámos muito tempo juntos. Eu e a minha ex-mulher divorciámo-nos, eles eram novos, portanto os meus filhos tinham nove, seis e quatro. E nessa altura, eles passavam os fins de semana praticamente todos comigo, porque eu entretanto fui trabalhar para Bruxelas sensivelmente um ano depois do divórcio. Fui trabalhar para Bruxelas, mas falei com eles, expliquei-lhes a minha situação pessoal e disse que tinha que vir todos os fins de semana a Portugal para passar os fins de semana com os meus filhos. E foi isso que fiz. E também já vivia na Malveira da Serra. Eu fui viver para a Malveira da Serra depois de me divorciar. E aí passámos tempos fantásticos e fins de semana ótimos na Malveira da Serra. Eles adoravam lá ir, eram miúdos, tinham imenso espaço, a casa tem um jardim grande. Aliás, eu disse-lhes quando me separei: "Agora a casa do pai é numa quinta". E até hoje eles chamam a minha casa a quinta. "Pai, podemos ir à quinta?" Mas agora acho que passam mais tempo quando eu não estou cá.

Faz parte, não é?

Mas ainda vão lá muito, mas agora têm a vida deles.

É mais difícil juntar.

É. Eles têm a vida deles em Lisboa. Portanto, quando vão agora à Malveira é para estar comigo ou porque eu não estou lá.

Exato.

São as duas razões.

Para desfrutar da quinta.

Exatamente. E tão lindamente.

Ouvi dizer que é um bom garfo.

Bom garfo.

Também é bom a cozinhar?

Não, sou péssimo a cozinhar. Não sei cozinhar. E eu vivo há tanto tempo sozinho, e mesmo isso não fez com que eu fosse bom a cozinhar.

Então opta por quê? Por comer fora?

Como imenso fora, encomendo imensa comida, compro comida a pessoas que fazem comida para fora.

Nunca teve aquela vontade de falar: "Agora vou começar."

Não, não tenho vontade nenhuma.

Porque existem alternativas, não é?

Mesmo que teoricamente pudesse pensar nisso, e às vezes dava-me jeito, acho que seria um desastre. Não tenho mesmo jeito nenhum, não vale a pena. Eu tenho consciência dos meus limites.

Quando falámos do curso de Relações Internacionais, foi na Lusíada, que soube que tinha uma particularidade: tinham umas viagens fantásticas todos os anos e numa delas foram à Rússia, pouco depois de ser inaugurado o primeiro McDonald's em Moscovo. Lembra-se disto?

Ao pé do Kremlin.

Ao pé do Kremlin.

Na Praça Vermelha. Isto foi na primavera, março ou abril de 1990, um ano e meio antes do colapso da União Soviética, que foi em dezembro de 91. Lembro perfeitamente essa viagem. Fomos a São Petersburgo, na altura ainda era Leningrado, a Moscovo e fomos a Riga. E foi uma viagem divertidíssima. Primeiro, o grupo era divertido. O nosso ano, a nossa turma na universidade era uma turma divertida, com pessoas divertidas, bem-dispostas. Depois, já se sentia a União Soviética que estava a mudar e sentiam-se os primeiros ares de liberdade. Ainda havia muito pouca coisa. Não havia lojas, praticamente. Havia o tal McDonald's em Moscovo.

Daí a referência.

Mas em Leningrado havia, eu lembro perfeitamente, um pub que servia comida estrangeira, porque não se comia muito bem. Mesmo nos hotéis onde nós ficamos não se comia bem. Nós íamos todos os dias jantar e eu só pedinha um bife com molho de natas, que era ótimo. Lembro perfeitamente. E já começava a haver alguns russos que se queriam internacionalizar. Conhecemos russos da nossa idade, que falavam inglês, com quem passámos algum tempo, que conhecemos nesse pub, por exemplo, em Leningrado, lembro perfeitamente. Além disso, para quem tinha 20 e poucos anos nessa altura e estava a estudar, nós estávamos a assistir à história. Quando nós começámos o curso de Relações Internacionais, havia o muro de Berlim.

E que se calhar quando acabaram o curso já não.

Quando acabámos o curso de Relações Internacionais não havia muro de Berlim, a Alemanha já estava unificada e não havia União Soviética. E quando começámos, a Alemanha estava dividida, havia o muro de Berlim e havia a União Soviética. Portanto, eu acho que também isso ajudou muito a que gostasse do curso. Não houve melhor altura para estudar Relações Internacionais do que essa, com o mundo a mudar.

Tudo a acontecer.

Isso também marcou muito o nosso pensamento, pelo menos o meu pensamento político, porque eu cresci em que a principal ameaça ao nosso modo de vida, às nossas liberdades, era a União Soviética e os partidos comunistas na Europa Ocidental. O totalitarismo comunista era a maior ameaça às nossas liberdades. Não eram os regimes fascistas ou nazis, que já tinham sido derrotados. E isso é uma coisa que me separa, por exemplo, de gerações mais velhas portuguesas, para as quais o Estado Novo era a grande ameaça à sua liberdade, o que eu entendo. Cresceram, andaram na universidade durante o Estado Novo, eu entendo isso, mas isso não é a minha realidade. A minha realidade é outra. E mais, mesmo em Portugal, qual foi a grande ameaça após a noite de Abril, quais eram as grandes ameaças à nossa liberdade, à democracia liberal? Era o Partido Comunista e os seus aliados. Não havia ameaças de direita à democracia em Portugal. E isso marcou muito a nossa maneira de pensar politicamente.

Como o João dizia, estava no início dos anos 90, não era muito comum contestar-se, mas o João, diz um professor seu, nunca deixou de o fazer. E esse professor diz que gostava dessa ousadia, dessa coragem, que o João era irreverente, mas muito inteligente e com opiniões muito próprias. Revê-se nesta descrição? E que também lhe causou alguns dissabores ser assim.

Deixo, não vou comentar isso.

Não, o lado da irreverência e desta ousadia de opinião.

Causou dissabor, mas continuo a ser. Eu gosto de pessoas, gosto muito e tenho uma grande admiração por pessoas que sabem pensar contra a corrente. Uma das coisas que me faz muita confusão em Portugal é a tendência de toda a gente ter a mesma opinião, de haver muita gente que pensa da mesma maneira, de haver opiniões dominantes muito fortes. E eu gosto de combater isso. A realidade é muito mais complicada e mais plural do que as tentativas de a reduzirem em termos intelectuais. E é bom uma pessoa saber olhar para a realidade e perceber as várias perspectivas dessa realidade e tentar depois ir contra. Muitas vezes, a interpretação dominante não é a interpretação mais correta. Agora, uma pessoa tem é que ter essa liberdade de pensamento e um pouco essa ousadia e essa capacidade de ir contra, pelo menos de começar por questionar a interpretação dominante. E se começamos a perceber que não é correta, vamos tentando seguir outra linha de interpretação, outra linha de pensamento. Mas acho que é muito importante uma pessoa ser ousada intelectualmente e, sobretudo, ser livre, ter capacidade de ser livre. E uma coisa que eu sempre senti: eu não era inibido pelo pensamento da maioria. Eu era capaz de estar num grupo e se discordasse da maioria, não tinha problema nenhum com isso. Acho que isso é uma herança de ter sido um portista que cresceu em Lisboa.

O João foi professor na Universidade Lusíada, na Universidade de Coimbra, na Católica. Gostou de dar aulas. Quando era aluno, quando andava no liceu, alguma vez pensou um dia em estar daquele lado da sala?

Nunca. Eu nunca tive uma grande proximidade com os professores. Na Lusíada houve dois professores que me marcaram intelectualmente, de quem eu gostei muito, os dois por quem tive maior admiração de longe e que hoje são meus amigos, que foi o Vasco Rato e o Carlos Gaspar, e que foram verdadeiramente os únicos professores com quem eu aprendi. Com eles aprendi qualquer coisa de útil, aprendi a pensar, gostei muito de os ter como professores. Portanto, eu não tinha uma grande proximidade com os professores. Nunca fiz projetos de carreira acadêmica, nunca na vida, tudo foi acontecendo. Eu fui fazer o mestrado porque queria viver um ano fora de Portugal. O mestrado correu-me bem.

E foi aí que se apaixonou muito pelo estudar.

Gostei muito de ler e de estudar. Tive boas notas, fiz um bom mestrado. E depois houve um professor do mestrado, que orientou a minha tese de mestrado, que me disse: "Eu acho que devias fazer o doutoramento". E fui, mas mais uma vez foi quase por acidente. E depois, quando voltei pra Portugal com o doutoramento, fui convidado pra dar aulas. E aceitei, tinha que trabalhar. Fui convidado pra dar aulas, aceitei dar aulas na Lusíada, em Lisboa, na Lusíada, no Porto, em Coimbra, na Católica, depois. E também fui trabalhar para o Instituto de Defesa Nacional.

Sim, foi diretor. Aliás, como é que se sentiu por ser o mais jovem de sempre a ser nomeado? Isto foi entre 2004 e 2006.

Talvez não tenha sido o mais jovem, fui o segundo civil. O primeiro foi o Nuno Severiano Teixeira.

Era ráfer, era civil.

Como é que me senti? Eu fui convidado pelo Paulo Portas, na altura era o ministro da Defesa. Quando fui convidado, foi uma surpresa total. Não estava nada à espera. Pensei uns tempos, não disse logo que sim, disse que ia pensar, e depois aceitei. Era o Paulo Portas, ministro da Defesa, e o Durão Barroso, primeiro-ministro. E depois aceitei e fui diretor do IDN durante dois anos. Até ir pra Bruxelas trabalhar com o Durão Barroso.

Como assessor político do Durão Barroso. Esteve lá seis anos. 2012?

Estive lá quase sete. De meados de 2006 a final de 2012.

Como é que foi essa experiência?

Foi ótima. Gostei imenso. Gostei imenso de trabalhar com o Durão Barroso. E dou-me bem com ele. Ainda hoje dou-me bem com ele, sou amigo dele, gosto imenso dele. Gostei muito do trabalho. Mais uma vez, tive imensa sorte, trabalhei com o presidente da Comissão Europeia numa altura em que muita coisa mudou na Europa, toda a crise financeira. Eu lembro, quando cheguei à Comissão Europeia, o grande tema era os franceses e holandeses tinham votado contra o tratado constitucional, a Constituição da União Europeia, era preciso fazer o Tratado de Lisboa, portanto, transformar o tratado constitucional em Tratado de Lisboa. E eu trabalhei muito nisso. Era um dos dossiês em que eu tinha responsabilidade no gabinete do Durão Barroso. E depois houve a crise financeira, a crise da zona euro. O tempo todo que eu estive em Bruxelas, a União Europeia esteve em crise. E é em crise que se aprende muito. E eu aprendi imenso.

O desafio foi enorme também, por isso, ter militado tantas crises.

Eu aprendi muito mais sobre política nesses seis anos do que no meu mestrado e no meu doutoramento juntos. Muito mais.

Mas também por quê? Porque estava no terreno.

Estava no terreno e aprendi imenso. Pra quem se interessa por política e gosta de analisar política, é preciso trabalhar com político para aprender o que é política. Não basta ler. Eu costumo dizer, é como um investidor que investe em ações, em obrigações, um investidor de mercados. Não basta ler sobre os mercados, é preciso estar a investir, é preciso ganhar e perder dinheiro. E é também assim que se aprende a política, é trabalhar na política. É preciso perceber as pequenas vitórias e as pequenas derrotas do dia a dia de um político pra perceber a política.

Mas recebeu convites, depois desses seis anos e meio, pra voltar à política.

Tive algumas abordagens na altura do governo de Passos Coelho, mas nunca chegaram a ser convites. De resto, teve sempre o governo socialista. Os governos socialistas nunca me hão de convidar pra nada. Ainda bem, porque eu nunca aceitaria nada, nenhum convite de um governo socialista. E, portanto, eu acho que há uma compreensão absoluta entre mim e o Partido Socialista. O Partido Socialista nunca me há de convidar pra nada e eu nunca aceitaria nada por que fosse convidado pelo Partido Socialista. Portanto, é uma relação perfeita de distância.

Quem o conhece diz que não dispensa um bom combate político. Aliás, vemos isso no "Fora do Baralho". E que é muito assertivo. Aliás, como dá pra ver aqui na nossa conversa.

Mas é fundamental as pessoas serem capazes de discutir, de discordar, mas sobretudo as pessoas não podem ficar ofendidas e não podem interpretar em termos pessoais uma crítica política. Nós temos que ser duros na discussão política, discutir com convicção, defender no que acreditamos, mas eu não tenho qualquer problema pessoal com pessoas que me critiquem. Acho muito bem que as pessoas me critiquem e discordem de mim. Eu ficava bastante desapontado e desiludido se não houvesse pessoas que discordassem de mim. Ficava, achava muita tristeza. Alguma coisa está mal. Se alguma vez as pessoas de esquerda me começarem a elogiar, eu começo a ficar preocupado, alguma coisa está a correr mal. Eu não tenho qualquer problema e acho que a política é isso. A política é o debate, é a discussão. Isso é que é uma democracia pluralista. Há várias posições e há uma coisa que me custa imenso em Portugal: não termos um grande partido que se assuma de centro-direita. Ainda hoje, no PSD, há pessoas que dizem que o partido é de centro-esquerda. É uma coisa extraordinária. Há pouco tempo, um dos fundadores do PSD, Pinto Pau-Samão, disse que o PSD é um partido de centro-esquerda. Ora, expliquem-me como é que um partido de centro-esquerda pode apresentar uma alternativa credível e bem diferente de outro partido de centro-esquerda? É impossível. Portanto, só pode haver uma verdadeira alternativa ao PS em Portugal, que, na verdade, nunca houve. Quando o PSD se assumir que é um partido mesmo de centro-direita, e que se for pro governo não governa como o PS, governa de maneira muito diferente do PS. Agora, o PSD falhou uma oportunidade histórica, como nunca se assumiu como um partido de centro-direita verdadeiramente, permitiu que aparecesse o CHEGA E agora o Chega está a ocupar o espaço da direita que estava vazio. E vai ser muito mais difícil para o PSD tornar-se um partido de centro-direita, porque agora não só tem que se distanciar do PS, verdadeiramente, como também tem que se distanciar do Chega. Nunca tivemos um grande partido, como em todos os outros países europeus, que se assumisse de centro-direita, e isso afeta bastante o debate político em Portugal. Não há debate ideológico em Portugal a sério.

João, para além de tudo o que faz e que já aqui falámos, é colunista do Observador, na rádio tem o "Fora do Baralho", todas as sextas-feiras. Lembra-se de como é que surgiu o convite para fazer parte da equipa Observador?

Foi mesmo no início do Observador. Eu comecei a escrever logo no início do Observador. A coluna de opinião foi o José Manuel Fernandes e o Rui Ramos que me convidaram na altura. Eu já tinha estado nuns projetos com o Rui Ramos. Eu depois estava em Londres quando começou o Observador, estava a acompanhar à distância a discussão e as conversas para começar o Observador. E quando começou o Observador, o Rui Ramos e depois o José Manuel Fernandes, que vai trabalhar como publisher, convidaram-me para escrever e eu aceitei com muito gosto e escrevo no Observador desde a fundação do Observador com enorme gosto.

E depois a rádio.

E depois a rádio. A rádio foi o José Manuel Fernandes que me convidou.

Aceitou prontamente também?

Aceitei. Achei graça à ideia do programa e aceitei. Eu não compro jornais, praticamente, agora. Os jornais portugueses não compro. Por razões profissionais, leio todos os dias o Financial Times e todas as semanas o Economist. E depois tenho muitas outras coisas para ler por razões profissionais e leituras que gosto de fazer. Leio muito pouco os jornais portugueses, dou uma vista de olhos. Mas a grande fonte de informação para mim sobre o que se passa em Portugal é o Observador. Leio todos os dias o Observador e gosto imenso do Observador. Há coisas que eu acho que o Observador devia ser mais de direita, devia ser mais claramente de direita, mas não sou eu que tenho que dar, eu sou apenas um colunista. Isto é a minha visão pessoal, não tenho que dar opinião sobre a política editorial do Observador. O Observador tem a sua política editorial. Mas às vezes há coisas, sobretudo as notícias, que me deixam bom. Não é bem assim, mas vá lá.

João, ainda falta, mas a caminho dos 60, o que é que ainda tem por fazer?

O que é que ainda tenho que fazer? Tanta coisa.

Como por exemplo? Melhorar o joelho, voltar ao surf.

Se quer voltar a fazer surf. Já há alguns anos estou a começar a jogar paddle, gosto imenso. Também estou a começar a gostar. Ao princípio eu não gostava, porque adorava jogar ténis e gosto ainda imenso de jogar ténis. Aliás, é muito mais difícil jogar ténis que paddle. Paddle é um desporto para as pessoas que nunca foram bons em ténis. Agora, alguns que eram bons em ténis, mas já não conseguem jogar bem ténis, estão a começar a ir para o paddle. Se calhar é o meu caso. Mas quero ainda trabalhar mais. Gosto imenso de trabalhar. Aliás, eu não sou capaz de me imaginar reformado. Não sou capaz de me imaginar sem trabalhar. Quero continuar a trabalhar em Londres, gosto muito do que faço, gosto de trabalhar com investidores, gosto de perceber as estratégias de investimento, gosto de ajudar investidores a fazer bons investimentos. Gosto imenso disso. O mundo está outra vez a passar por uma grande transformação geopolítica, que é uma coisa que eu acompanho com muita regularidade, faz parte do meu trabalho ajudar os clientes a perceberem as transformações geopolíticas. Acho que são transformações que vão durar muito tempo a acontecer e, portanto, o mundo também se tornou muito mais interessante e gosto muito de acompanhar isso e de trabalhar sobre isso. E depois gostava imenso de fazer mais viagens no futuro. Há uma coisa que eu gostava imenso de fazer, que era escrever livros sobre viagens. Viajar e escrever livros sobre viagens.

Como se fosse um diário de viagens?

Gostava imenso de fazer isso. Gosto imenso de literatura de viagens, que também é uma tradição anglo-saxónica fortíssima. Leio muitos livros de viagens e gostava imenso de fazer isso.

João Marques de Almeida, gostei muito de o conhecer melhor. Obrigada por ter aceitado o meu desafio. Obrigada, João.

Tive muito gosto, obrigado.

Eu sou a Maria João Simões. Obrigada pela companhia. Até ao próximo Observadores Como Nós.