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Olá, seja bem-vindo a mais um "Observadores Como Nós". Eu sou a Maria João Simões e esta tarde é meu convidado o Júlio Magalhães, o jornalista que todos conhecem, escritor, mas que é também pai, marido, amigo pra vida, bom vizinho e um pistoleiro no golfe. Olá, Júlio. Bem-vindo.

Olá, Maria João. Bom dia. Obrigado pelo convite.

Obrigado por ter aceitado. Nasceste no Porto, a 7 de fevereiro de 63, mas com três meses foste com os teus pais pra Angola. Só vieste lá em 75, com 12 anos. O que é que fica dessa infância em Lobango?

Olha, nós nunca podemos dizer que são os momentos mais felizes da nossa vida, porque depois vamos vivendo vários momentos ao longo da vida. Mas esses foram extraordinários mesmo, porque viver em África era viver ao ar livre, não era viver dentro de casa. Era mesmo ao ar livre. Não havia televisão, nós não víamos televisão. Portanto, quando as pessoas estão fora do país, e acontece com as comunidades imigrantes, e com todas, juntam-se muito mais. E, portanto, o que é que recordo? Olha, no meu bairro, estávamos sempre todos juntos, no muro da minha casa, a minha mãe fazia bolos pra toda gente, jogávamos a bola, tínhamos uma garagem na altura que fizemos uma discoteca em minha casa, que pintávamos nesses tempos a língua dos Rolling Stones.

A sério?

Também a garagem era toda preta, tava pintada com os Rolling Stones, e faziam-se lá festas do bairro. E depois, por exemplo, o Natal era com 40, 50 pessoas, normalmente. E como vivíamos num clima tropical, eu só ia à casa almoçar, jantar e dormir. Portanto, passávamos a vida sempre-

Na rua

...na rua, sempre fora.

E era aquela coisa de ter sempre a porta aberta, não é?

Sempre a porta, a porta aberta, andávamos sempre pra trás, pra frente. Portanto, vivíamos ao ar livre, era uma vida total, em liberdade total e claro, não tinha uma camisola, não era preciso, embora vivesse em Sá da Bandeira, agora chama-se Lobango, que era planalto, até era das cidades que tinha o clima mais ameno, porque era um planalto e tinha um clima mais ameno, não tinha praia. A praia ficava em Moçâmedes, na altura.

Era a muitos quilômetros?

Era a 200 quilômetros. E 200 que por estradas difíceis.

Depois dizemos exatamente, sim.

E que era preciso passar uma mítica serra que há em Angola, que é a Serra da Leva, na altura, era uma obra da engenharia extraordinária, ainda é, acho que ainda existe. E portanto, era no mês de março. Sabes que em Angola o ano letivo era igual ao de cá, mas o mês de março, como é o mais quente, não havia aulas.

Não, tinha férias nessa altura.

Portanto, nessa altura era o mês da praia. Mas vivíamos sempre com a ilusão de vir à metrópole. Porque na escola, nos livros que estudávamos-

A metrópole. Exatamente.

É verdade. Nos livros que estudávamos, víamos a Torre dos Clérigos, a Torre de Belém.

Vocês imaginavam.

Imaginávamos Lisboa, o Porto, o Estádio das Antas, o Estádio da Luz, o Estádio do Alalar. Os jogos de futebol era todos juntos no muro da minha casa, do bairro inteiro, dos meus amigos todos. Eu, meu irmão, minha irmã, todos, e com os amigos todos, ouvir os relatos pela rádio.

Tu manténs contacto com alguns amigos dessa altura?

Mantivemos, sim, ao longo destes tempos, sim, muitos ainda. Muitos somos amigos, às vezes encontramos, um vive no Algarve, outro em Santa Comba, outro no Porto.

Então de quem é o alcunha o Bolinhas?

O Bolinhas é porque é aquilo que-

Não sabias dizer que não a nada.

Não sei dizer que não a nada.

Ainda hoje é assim?

Ainda é assim. Eu dizia sempre que sim, digo sim a tudo. Às vezes combino três coisas ao mesmo tempo só pra não dizer que não, e quando vou dar conta, e estão-me sempre a massacrar.

Mas isto é uma coisa de miúdo, não é? O Bolinhas é miúdo.

É miúdo, é. Porque dizia sempre que sim, digo sempre que sim. Tá sempre tudo bem, tá assim, e, portanto, pois claro que não cumpro metade das coisas.

Não tens tempo pra isso. O dia só tem 24 horas.

Pois, mas tentava sempre mais.

Mas tu tentas. Sim.

Tento, mas tento sempre.

Eu sei que sim. Juca, estamos aqui a falar de Bolinhas, mas eu sei que tu não eras grande fã do teu nome. Em miúdo ainda tentaram que pegasse Menino Julinho, mas ainda era pior. Tens de agradecer a um cantor e humorista brasileiro da década de 70.

É verdade.

Conta lá essa história.

A história é curiosa. A minha mãe contava. O pai do meu pai era Júlio, o meu pai era Júlio. A minha irmã ficou com o nome da minha mãe, que é Natércia. O meu irmão ficou com o nome Luís, que é o padrinho dele, que era meu tio.

Portanto, tava destinado a ser Júlio.

Estava destinado. O meu pai quis que eu fosse Júlio. Pronto, e a minha mãe detestava o nome Júlio. E depois chamavam Julinho, era horrível. E pronto, nessa altura, a minha mãe estava a ver um diminutivo, enfim, que se apropriasse do nome Júlio, se pensares bem, de fato, não há.

Não há muitos, não.

Não é? E foi ver um espetáculo do Juca Chaves, que é esse tal humorista e cantor brasileiro, que morreu agora recentemente.

Sim, tu falaste disso no programa da manhã, sim.

E era Juca, e disse: "Olha, Júlio, Juca, passa a ser Juca". E passei a ser Juca. E nunca mais ninguém me chamou Júlio. Eu quando comecei no jornalismo, nos jornais-

Era Juca Magalhães

...era Juca Magalhães. Só que quando vou pra televisão, pra RTP, o Manuel Rocha, que foi nosso diretor, também falecido recentemente, é que disse: "Juca não é nome de televisão". Agora apresentar um jornal, Juca. Juca não é nome, é Júlio Magalhães. E pronto. Hoje, em termos profissionais, sou Júlio Magalhães.

É Júlio, mas toda a gente trata pelo mais próximo.

Mas toda a gente me trata por Juca, os mais próximos, sim.

Tu dizes que desde muito cedo percebeste que querias ser jornalista. Isto ainda vem do tempo de Angola?

Vem.

Era por causa de tu dizeres que não havia televisão.

Não havia televisão, eu via rádio muito, ia pra praça todos os dias, de manhã, tinha 10 anos.

E vieste com 12 pra Lisboa, não é?

Eu vim com 12, mas tinha oito, 10 anos. Ia pra praça, lá na praça principal da terra onde eu morava, esperar pelo jornal que vinha da metrópole, que só chegava lá no dia a seguir. Eu ia pra lá esperar pra comprar o jornal.

Mas é muito giro, com oito anos, tu já ter esse fascínio.

Pois, não percebo por quê, mas adorava ler jornais. E depois, quando vim pro Porto, fui viver pra Rua do Almada. Tu não te diz nada, mas a Rua do Almada fica no centro do Porto, em que ao fundo da rua era a sede do jornal O Comércio do Porto, e acima da minha rua era a sede do jornal Notícias. Os jornais nessa altura só saíam às 2:00, 3:00 da manhã Eu às vezes ia às 2h da manhã e estava à porta do Jornal de Notícias, à espera do jornal, pra comprar o jornal. Eu adorava ler jornais, não me perguntes por quê.

Mas ainda hoje é assim, que não te tirem os jornais.

E depois foi que não me tirem os jornais, como tu vês, eu vou todos os dias comprar os jornais. Eu só leio jornais de papel. Depois dou aqui uma estalada no telemóvel.

Mas o que têm de fascinante que tu não encontras no digital? É o folhear, é o cheiro?

É o folhear as folhas, é lá que vêm as histórias todas completas. Eu sou do tempo em que era enviar notícia e o comentário ao lado. Eu trabalhei em jornal, comecei nos jornais, rádio e televisão. De todos, onde se faz melhor jornalismo, fazia e acho que continua a ser feito, é nos jornais. Porque os jornais permitem ir recolher uma história e depois sentarmo-nos a escrevê-la. E corrigi-la e ver o que está bem, porque ela só vai pro jornal depois de estar completa. A rádio e a televisão, não.

É o que mais se erra. É o que se diz exatamente.

É como nós aqui na rádio. Quantas vezes, Neide, você já disse aqui na rádio, por de repente ir aqui ao telemóvel, ver no Google, no jornal, uma coisa qualquer, digo, e depois aquilo não é bem assim. Era isso, os jornais, adorava. E eu tinha os jornais todos guardados. Eu guardava tudo o que eu escrevia nos jornais.

Mas eras o único na família.

Era o único na família. E depois fui pro jornalismo por uma casualidade. Uma prima minha, Filomena Fontes, que era uma grande jornalista, que era amiga da família, e quase familiar, sabia deste meu gosto pelos jornais e aos 16 anos, ela trabalhava no Comércio do Porto e era ali na minha casa. E ela às tantas disse: "Olha, não queres ir pra lá colaborar, fazer uns jogos pra o desporto?" Eu: "Quero". E fui aos 16 anos. Comecei a fazer uns joguitos e aos 18 já era profissional. Nem tive que escolher curso, nem nada. A vida correu.

Já era a tua área.

Eu também tive que começar a trabalhar. Como sabes, nós quando viemos da África, os meus pais, como muitos milhares de pessoas, perdemos tudo. E eu, meu irmão, minha irmã, tivemos que começar a trabalhar cedo e a estudar na mesma, e a jogar basquete, a namorar. Estávamos fazendo tudo ao mesmo tempo.

Olha, por falar nisso, tens dois filhos, a Mariana e o André. O André, que é mais velho e trabalha aqui em Lisboa. A Mariana está contigo no Porto. Como é o Júlio Magalhães pai? Tu és sempre bem-disposto, és sempre uma pessoa muito positiva, como é que és com os teus filhos?

Sempre igual. É, e eles sabem disso. Em minha casa não entram problemas de trabalho, entra a porta de casa, acabou.

Então com quem é que falas de problemas de trabalho?

Falo com os meus amigos, mas é raro falar. Eu tudo que é problemas, evito. Eu resolvo-os. Toda mundo tem problemas na vida e eu resolvo-os. E se for umas coisas que se possa falar, falo, outras não falo.

Portanto separas muito o que é estar com a família e o que é o trabalho.

E eu sempre disse aos meus filhos, eu não queria nada que eles fossem grandes alunos, fossem alunos geniais. Eu queria que eles fossem bem-educados, tivessem bom comportamento e fossem bem-dispostos. E acho que consegui.

E esse trabalho está bem feito?

Acho que esse está, o outro não estará, mas esse está, porque eu também tenho uma vida, ao longo destes 20 e tal anos, em que vim pra TV em 1999, a minha vida começou a ser muito Lisboa-Porto, e depois o país todo, porque eu escrevo livros e corro o país.

E eles tiveram muito que se adaptar a essa tua nova vida.

Eles tiveram que se adaptar e adaptaram-se lindamente, adoram. E olha, felizmente, correu tudo bem. Tive sorte na vida. A minha vida é 80% sorte e 20% mérito meu.

Por que diz isso?

Porque tive muita sorte, sempre.

Mas a sorte não é algo que se conquista?

Também dá trabalho, mas tive sorte. A vida correu e o que é que acontece? E 20% meu, eu não devo nada a ninguém, percebes? Nunca gostei de dizer aquela coisa, devo isto a agradecer a este ou àquele. Nada. É evidente que houve pessoas na minha carreira que me deram oportunidades, mas essas oportunidades é a vida e eu agarrei-as ou não.

Exatamente.

E acho que consegui agarrar. E tive muita sorte, porque sempre que estava insatisfeito num sítio, aparecia outro. E eu fui mudando sempre muito. Eu tenho mudado sempre de vida.

És daqueles que quando não está bem, muda.

Quando não estou bem. E fui vendo na televisão, ao longo dos anos, tanta gente que quando era miúdo via gente na televisão, como agora, as pessoas veem me na rua, "ei, Júlio Magalhães", eu não sou assim uma pessoa.

Tu não passas despercebido. Agora que falas assim.

Sim, mas também não sou extraordinário. Mas nessa altura havia, as pessoas da televisão, havia uma separação muito grande. Quem era de jornal era de jornal, da rádio era da rádio, da televisão era da televisão, e os da televisão eram. Hoje está tudo misturado. E depois fui trabalhar com eles, com algumas dessas pessoas que eu admirava ou que eu via na televisão, e acompanhei depois o fim do percurso dessa gente. E o fim do percurso dessa gente entristeceu-me bastante.

Porque vias que se resignavam, que desmandavam.

Pois, claro. A determinada altura eram números, já ninguém lhes ligava nenhuma, porque estava a entrar uma nova geração, e eram pessoas que tinham tido uma carreira notável, e de repente, já não serviam. E como acontece hoje. E eu disse: "Eu isto não quero viver". E como tu sabes, depois, fiz o percurso nos jornais, rádio e televisão. A televisão é um meio muito violento pra quem lá trabalha. Não é pra quem vê, mas também pra quem trabalha. Quem aparece na televisão adora aparecer na televisão. E gosta de ser conhecido, e gosta de ir na rua e gosta que as pessoas o conheçam. E o palco da televisão absorve-nos muito. Nós a partir do momento em que aparecemos na televisão, pois não queremos desaparecer mais.

Gerir isso é muito complicado.

Eu vi muitas situações difíceis ao longo da minha vida na televisão e evitei sempre viver isso. E consegui. E por isso é que escrevo livros por causa disso.

Por quê? Porque não é certa a televisão e tens sempre ali aquele teu mundo.

Tenho ali uma almofada. Eu gosto de ir às livrarias, aos supermercados, aos sítios onde há livros, e ver lá o meu livro. E disse assim: "Um dia, porque eu perca a televisão A ida às livrarias e aos sebos, isto está ali.

Os livros vão lá estar sempre.

Vão lá estar sempre. E portanto, é uma almofada, é um conforto e que me permite este equilíbrio de não ser obcecado pela televisão. Não sou obcecado, mas gosto de aparecer.

Sim.

E terei muita pena no dia em que perder esse palco da televisão. Com toda a certeza vai ser difícil.

Júlio, tu dás também imenso valor aos teus amigos, muitos que vêm desde o tempo do Comércio do Porto, que falavas há pouco. Tens o grupo que janta todas as semanas e com quem falas ao telefone todas as noites antes de ires para a cama. Falam sobre o quê?

É o dia, é a resenha do dia, da política, da economia, do desporto. Falamos sempre sobre tudo. Eu, com o Manuel Serrão ou com o Manuel Queiroz ou com outro amigo meu, que é o Fernando Rocha, também falo. Vou falando com eles à noite, antes de me deitar, falo sempre com um ou com outro, porque há sempre coisas do dia para comentarmos, até para comentarmos mesmo o dia.

Isso é muito bom.

E às vezes para dizer mal de alguém.

Também faz parte.

Também faz parte.

É um bocadinho a noite má língua. Noite da má língua.

Este núcleo de amigos que eu tenho, que são oito ou nove, às vezes 10, vêm todos do meu tempo de jornais. E nós, há 30 anos que todas as semanas nos juntamos para jantar. Agora menos, porque na semana em que estou em Lisboa não posso ir com eles, mas juntamo-nos ou para ver um jogo de futebol ou para jantar ou para estarmos juntos e depois falamos ao telefone. E portanto, este núcleo de amigos mantém-se.

É o mesmo núcleo duro.

É o mesmo núcleo. Não estou a dizer que em Lisboa isto não é possível. É possível em todo lado, mas é mais fácil numa cidade como o Porto.

Porquê?

Estamos mais juntos. A cidade é mais pequena.

Tu dizes isso com muita frequência.

A cidade é mais pequena, nós estamos mais perto uns dos outros. Se eu tivesse aqui um amigo, que estou em Lisboa e ele mora na Caparica ou mora em Cascais, é mais difícil. Percebes?

Já ali um entravezinho para que...

É o trânsito. E depois quando nos encontramos é para jantar fora de casa, nunca em casa. E isto depois começa a cansar. No Porto isso não acontece. No Porto, nas cidades mais pequenas. Lisboa é uma cidade magnífica, eu adoro Lisboa, mas é uma cidade demasiado grande e portanto as pessoas estão mais longe umas das outras, naturalmente há menos tempo para isso e no Porto há tempo para isso. Eu vou tomar café todas as noites com os meus amigos, praticamente.

Estou mesmo a perguntar se vai abrir o expediente ou não.

Vai, abre o expediente. Hoje há expediente, perguntamos sempre ao telemóvel: "Há expediente hoje? Abre o expediente?" Ou é aqui ou é ali, eu estou a jantar aqui, vou lá tomar café ou é do outro lado.

Isso é muito giro.

E mantemos esta relação de amizade com toda a gente.

Tu não és só bom amigo, também és bom vizinho. No Natal fazes questão de oferecer uma prenda.

Estás aí informada.

A cada um dos vizinhos da tua praceta. Isso é muito querido e também és assim conosco no "Três Toques".

É, eu adoro isso. Mesmo no grupo dos meus amigos, quando há alguém faz anos, sou eu que vou comprar as prendas. Eu gosto de coisas criativas.

Gostas do quê? De surpreender?

De surpreender as pessoas. Não gosto de entregar uma coisa qualquer. Toma lá um ramo de flores ou um lenço, qualquer coisa. Gosto de ir buscar coisas, gosto de andar à procura de coisas que as pessoas depois digam: "Isto, de facto, é bom".

Diz aí essa prenda mais original que tenhas dado. Tu és sempre criativo.

Aos vizinhos, uma vez, no segundo ano em que eu morava naquela praceta, eram só praí 10 casas, 10 vizinhos. O que é que eu fiz? Tirei uma fotografia à casa de cada um deles e mandei estampar numa tampa de uma caixa de vinho, dei duas garrafas de vinho. A tampa da caixa era a fotografia da casa deles. É diferente.

Bem, está a socorrer esta primeira parte. Está à conversa com o Júlio Magalhães. Vamos fazer uma pausa para as notícias. Já voltamos com a segunda parte do "Observadores como nós". Segunda parte do "Observadores como nós". Hoje com o Júlio Magalhães, jornalista, escritor e um amante de tudo o que é desporto, segundo ouvi dizer pela tua filha. Tu experimentas todo o tipo de esporte, mas depois, e tirando o golfe, não praticas.

Não, eu fui jogador de basquete aos 18.

Marcaste 100 pontos em miúdos.

122 pontos num jogo.

Isso é um recorde?

É um recorde, foi um recorde na altura.

Que idade tinhas?

Tinha 14 anos. Foi nos iniciados na categoria. Agora não se chama iniciados, é sub 14, acho eu. Mas foi, e jogava bem basquete. Tive pena de não ter seguido uma carreira de basquete.

E não seguiste por quê?

Porque eu precisava de trabalhar.

Tinhas de trabalhar, como dizias há pouco.

E depois era como te digo há pouco, trabalhava, jogava basquete, estudava e ainda namorava. Eu não tinha tempo para ir a todas.

Ficou o basquete.

Até pedi uma moto ao meu pai para ir a todo lado, na altura.

Como é que era? Lembras-te?

E o meu pai deu-me uma Sachs. Lembras-te da Sachs?

Perfeitamente.

Que era a moto da Construção Civil, dos trabalhadores da Construção Civil, que na altura até se chamava pejorativamente os trouxas.

Sim.

E então ia para a faculdade e deixava a moto a 1 km, porque os meus amigos iam com DTs e Yamahas DTs e eu ia com uma Sachs. Mas o meu pai disse: "É para trabalhar, é. Então é esta".

Esta serve.

Esta serve. E para chegar a todo lado. E portanto, pratiquei e depois comecei a trabalhar e o basquete profissionalizou-se, para depois, como conseguias uma carreira no basquete sénior, tinhas que só jogar basquete. Eu já não podia, já trabalhava no Comércio do Porto, já tinha de ganhar o dinheiro para mim.

Claro.

E portanto, o basquete ficou para trás, mas o desporto manteve-se.

Tu és um apaixonado por tudo o que é desporto.

Gosto de ver desporto, eu adoro.

E vê-se, tu no "Três Toques" falas de tudo.

Eu vejo mesmo. E já pratiquei de quase tudo. Já basquete, surf, golfe, ciclismo. Já fiz quase todos os esportes.

Então e que história é esta de teres um handicap pistoleiro no golfe?

Isso é o Manuel Serrão.

Foste 19 e agora és 27.

Uma vez, o Manuel Serrão e eu fomos a uma viagem ao estrangeiro. Era um torneio de golfe na neve, era uma coisa promocional. E o Manuel Serrão já jogava golfe há um ano. E eu nunca tinha pegado nem em ferros de golfe. E houve lá um torneio de golfe na neve. Aquilo não era bem golfe, era outra coisa. E eu fiquei em terceiro lugar no torneio e ganhei ao Serrão. Ele ficou danado.

Puxa!

E o Serrão, como não gosta de perder com ninguém, chegou ao fim do saco: "Isto aqui é a brincadeira, golfe é a sério é nos greens". E eu quando vim para o Porto, sem ele saber, fui treinar golfe, fui aprender golfe E ele continuava a jogar. E só me dizia: "Meu amigo, um dia tem que vir, tem que praticar golfe, tem que jogar golfe". Mal ele sabia o que eu andava a treinar. Quando eu já estava pronto, disse assim: "Vamos lá fazer um joguinho de golfe". E fui e ganhei.

Deste-lhe uma abada.

E depois, a partir daí, eu às vezes-

Ficaste o pistoleiro.

Não, eu às vezes deixo ganhar.

Isto vai dar muito que falar.

Pois, e ele acha sempre que é o handicap. Ele joga sempre. Eu só jogo de vez em quando, quando vou jogar, ganho-lhe.

Olha, Juca, falávamos há pouco, a tua carreira passou e agora volta a passar muito por Lisboa com a rádio, e a CNN. E ouvi dizer que fruto destas muitas viagens que fazes de carro, Lisboa, Porto, falas muito sozinho.

Estou sempre a falar sozinho. Não é só no carro, é em todo lado. Fico muito sozinho.

Mas o que é que falas? Estás a falar contigo próprio?

Comigo, a comentar coisas minhas, zango-me comigo, às vezes. Às vezes no carro falo alto comigo. Até digo asneiras, às vezes, pra mim. E às vezes digo: "És mesmo um palerma". E venho a falar, porque eu já fiz milhões de quilómetros. Eu desde que vim pra TV, em 99, eu era ir e vir todas as semanas. E agora continuo. E depois com os livros, comecei a percorrer o país todo pra ir a bibliotecas, a escolas, etc. E ia de carro, vou sempre de carro, ando sempre de carro. E vou sozinho. E vou falar com quem? Tenho que falar comigo.

Mas vens a ouvir música, notícias.

Venho a ouvir música, normalmente música, na hora das notícias passo pra as notícias, depois ouço música, e vou a falar comigo. E habituei-me a isso. Falo muito. Eu quando era miúdo, era sonâmbulo. Não sei se tem a ver com isso. Eu levantava-me da cama e andava pela casa, e o meu irmão é que depois dizia: "Vai te deitar". E eu deitava-me, nem sabia, depois que tinha andado pela casa.

Entretanto, isso passou.

Passou-me completamente. Mas olha, eu fiquei a falar sozinho. É mesmo o termo.

Vai falar sozinho.

Eu normalmente fico a falar sozinho.

Andas sempre de um lado pro outro, além da rádio e da televisão, conferências, tens os teus livros, eventos. Como é que tu organizas? Já sei que não tens uma agenda.

Nada, zero. Eu sou um desorganizado total, em tudo na vida, e já tive alguns dissabores por causa disso. E sou muito desorganizado, mas eu gosto da vida assim. Gosto mesmo, eu gosto disto.

Mas de quê? É uma pequena adrenalina? É o quê?

É adrenalina, é o dia a dia, um dia não ser igual ao outro. E no dia a seguir, se me disserem: "Olha, de repente tens que ir aqui". Mas isso já me aconteceu, no dia a seguir, dizem-me não sei da onde: "Olhe, estamos à sua espera hoje". Eu já não me lembrava que tinha que ir lá. Lá vou eu outra vez.

Mas não ficas estressado?

Nada, nunca fico estressado. A vida é pra levar assim. E acho que os portugueses levam-se muito a sério e as pessoas levam-se muito a sério.

Isso vem de África, se calhar. Esse deixar é viver.

Deixar viver, viver a vida. Gostava até de viver a vida mais lentamente. Às vezes vivo a correr porque enfim, é encandar.

Se impõe, não é?

Sim, mas adoro andar pra todo lado, adoro o desconhecido, e portanto vou sempre, os meus amigos ficam entusiasmados.

Isto é ao contrário daquilo que falávamos há pouco, tu não consegues dizer que não.

Não consigo dizer que não a nada. Por isso é que eu te digo, às vezes tenho três coisas ao mesmo tempo, e lá vou eu, depois invento uma coisa de um lado, invento outra de um lado.

Mas o que é certo é que marcas sempre presença.

Marco sempre presença, não falho, e quando falho, as pessoas percebem. Há um dirigente político mundialmente conhecido que dizia: "Não gosto de renunciar nunca à deliciosa liberdade de me enganar". E eu não gosto da vida lecão-lec, crecão-cre. Percebes?

Sim.

A vida muito certinha. Não gosto disso. Vivi a vida assim, gosto de saber tudo e não sei de nada, a verdade é essa. Eu falo de tudo, mas não sei especificamente de nada. E portanto, acho que as pessoas que olham pra mim dizem assim: "Ele vive bem a vida".

Sim, é essa a imagem que passas.

E isso foi minha preocupação. Não posso chegar a uma idade e olhar pra trás e dizer assim: "Eu não vivi". Agora olho pras pessoas e digo: "Caramba, podia ter feito isto e não fiz". Fiz tudo.

Que maravilha. Olha, falávamos há pouco dos teus amigos com quem jantas todas as semanas. Na pandemia foi mais difícil.

Foi.

Mas mesmo assim lá arranjavam, nem que fosse uma vez por mês, e tu fazias sempre uma música, nesse encontro mensal, com uma letra tua, a música era uma cover, pros teus amigos. Cada um teve direito a uma música.

Teve.

Foi um fartote, disseram eles.

Foi um fartote.

Tu és assim, tu gostas de ser criativo.

Estava em casa, o meu sonho era ser músico. Tenho dois sonhos, um é ser músico e outro era ter um hotel. E como vês, nem uma coisa nem outra.

Ainda.

Nada. E então o que eu fazia? Estávamos em casa confinados e eu marcava hora de espetáculo à noite, não tinha nada que fazer. E então punha-os em direta, gravava em casa com um órgão, fazia que tocava órgão, mas a música era gravada, e inventava uma letra pra cada um deles. E fiz pra eles todos e fiz pras minhas colegas todas do Porto Canal, também. E então àquela hora dizia: "Hoje, às 10 horas..." como se fazia nessa altura, que as pessoas iam pra varanda.

Sim.

Eu pelo telefone. Estava gravado no telemóvel, minha filha gravava. E às 10 horas: "Há concerto". E era dedicada a cada uma. E inventava letras para eles. Houve alguns que ficaram zangados.

Já sei que sim.

Houve alguns que não gostaram muito da letra, porque aquilo era a falar deles. Mas foi uma forma de passarmos uma altura do confinamento magnífica.

E de estarem juntos de alguma maneira.

E de estarmos juntos de alguma maneira. E de vez em quando jantávamos. A verdade é essa.

Sim, já sei que sim. A tua experiência em África contribuiu muito para o processo de alguns dos teus livros. "Um Amor em Tempo de Guerra", "Os Retornados", mas houve tantos outros. "Longe do Meu Coração" foi o último. Já pensas no novo?

Já, está quase a acabar.

A sério? Este foi de 2000?

Mas já não escrevo há 10 anos.

Há 10 anos?

O último foi há 10 anos. Eu depois que fui para o Porto Canal nunca mais escrevi. Agora estou a acabar um livro e fico contente.

Mas quando é que tu escreves, Júlio? Quando é que tu tens tempo para escrever?

Em todo lado.

Não tens um momento específico?

Não, Maria Joana, eu não sou escritor, eu sou jornalista que escreve umas histórias. Não, é verdade.

Autor, então, quando muito.

Autor, sim, quando muito. Mas escrevo umas histórias, as minhas histórias são reportagens jornalísticas mais alargadas e romanceadas. Eu não sou um escritor. E não preciso de me retirar três meses para um sítio, estar sozinho, era o que mais me faltava.

Tu sozinho contigo e a gente três meses.

Nem pensar. Era o que faltava. E vou escrevendo, às vezes no meio do trabalho, no meio da redação. O livro "Os Retornados" foi praticamente escrito na redação da TVI, lá no meio, nas minhas horas vagas, ia escrevendo. Depois ia para o hotel, que eu cá em Lisboa vivia sempre num hotel, e escrevia mais um bocado. Depois chegava à TVI, tinha uma ideia, escrevia mais outro bocado. Ia escrevendo o livro dessa maneira. É a maneira mais natural de saírem as coisas.

Mas é incrível o ritmo que tu tens. Tu nunca estás parado.

E detesto apontar. Tenho uma ideia, agora tenho aqui um bloquinho para apontar e ando com uma caneta e com um bloco.

Não?

Não, era o que mais faltava.

Até nisso és prático.

É, prático. Tenho que ser prático.

Podes ser muito jeitoso para escrever, mas para os negócios, os teus amigos dizem que não tens muita queda.

Os meus negócios têm sido desastres.

Tu foste um cabeleireiro?

Fui.

E um bar?

Foi tudo um desastre. Foi mais com amigos. Isto é como tudo, a gente só se deve meter naquilo que sabe. No que não sabe, não se deve meter. E pronto, correu sempre mal, foi um desastre mesmo. E fica para a vida.

Exatamente. Passaram.

Passaram.

Foi uma experiência.

Foi uma experiência e chega.

Júlio, não é só o Marcelo, tu também tens o vício de dar aqueles mergulhos no mar, mesmo que faça frio. Quem é que começou primeiro, tu ou o presidente?

Ele que é mais velho, certeza. Mas eu amo o mar é desde miúdo mesmo. E dar mergulhos. E no Porto dou sempre, mesmo no inverno. Eu vou lá todas as semanas, nem todos os dias.

Isso era também por quê? Porque em África o mar está assim tão longe e aqui está perto.

Era. E no Porto, então é muito perto mesmo. E eu gosto de ir. Acho que ganhamos anos de vida. Entrar na água no Porto a 100 e sair a 200, ganhas anos de vida, porque é mesmo o que eu faço. Eu não ando lá a nadar.

Sim, é mesmo mergulho.

Nada, é ir lá mergulhar, porque aquilo é entrar e sair. E faço e tenho esse hábito, mas não é todas as semanas, todos os dias como a pessoa pensa.

É quando te apetece. Lá está, coisa assim.

É quando me apetece. Não é preciso estar sol, não pode estar muito vento. Se estiver vento, já não vou. Mas se não tiver vento, vou dar um mergulho.

Já foste várias vezes convidado para te candidatares a presidente de câmara. Nunca aceitaste, mas uma vez disseste que gostavas de ser. É coisa que não está descartada?

Não, agora está. Na altura, era uma coisa que eu ponderava, que dizia: "Acho que é onde se faz boa política. Está à espeta das pessoas, é dizer assim: tens ali uma cidade ou uma localidade, e diz assim: "Aqui é possível trabalhar para as pessoas que aqui vivem, não é para o país inteiro". Mas depois, ao longo dos anos, fui percebendo que, tal como os negócios, a política para mim também seria, ou administrar uma câmara devia ser o fim do mundo. Além do mais, a política também se foi degradando bastante, a exposição é enorme e é preciso uma capacidade grande para isso. Em tempos, sim, fui convidado algumas vezes, e fui convidado não na perspectiva porque alguém reconhecia em mim capacidade para isso, provavelmente mais pelo meu nome, pelo nome que ganhei, pela televisão.

Sim, é figura pública.

Uma relativa figura pública, que eu não sou dos mais conhecidos. Mas recusei e hoje isso é fora de questão, completamente, nem pensar.

Júlio, tu dizeres que não és uma figura pública, isso é humildade da tua parte.

É nem pensar, a gente não pode dizer nunca o dia de amanhã, mas não está nos meus horizontes, não.

Não há quem não te reconheça na rua, e dá para perceber pela forma como reages sempre, que adoras o carinho das pessoas. Estás sempre disponível, isso é muito bonito de ver e de assistir. Nunca tiveste um momento em que gostasses de passar despercebido? Eu não estou a dizer que não quisesses ter o carinho, mas que gostasses de passar despercebido.

Sim, já tive. Quando é que eu gosto de passar despercebido, não consigo e isso incomoda-me? É nos jornais. Eu vou de manhã ler os jornais.

Ah. Que é o teu momento.

A coisa que eu mais gosto é sentar-me a tomar café em frente ao mar, onde for, e estar com os jornais, a ler os jornais. E acontece-me sempre que há pessoas que chegam: "Olá, está bom?" E interrompem, isso não tem problema nenhum, mas há muitos que às vezes dizem assim: "Olha, já agora vou tomar aqui um cafezinho consigo". E ficam ali a falar comigo. E eu aí já fui de uma vez ou outra, uma coisa que eu detesto ser, que é um bocado antipático, que foi eles a falarem e eu a continuar os jornais, para ver se eles percebiam que eu estava a ler jornais.

Sim.

É o único momento da minha vida em que isso me incomoda. E acontecia-me muito. Pessoas que passavam, e tal, e punham-se a contar a história da vida deles.

É como se estivesses ali disponível para.

Disponível para. E depois alguns passavam, davam e iam embora, outros não. "Olha, vou tomar aqui um cafezinho, já agora, traga-me aí um café". E sentam-se na minha mesa Isso é o único momento. De resto, eu adoro ser conhecido.

E tu és muito simpático com as pessoas.

Eu só sou simpático.

E sempre disponível.

Não sou um grande profissional, sou um tipo normal. Fiquei conhecido por causa da televisão, mas o que eu gosto mesmo é que as pessoas digam que eu sou simpático. Porque eu detesto pessoas antipáticas.

Sim, mas tu não fazes por ser. Tu podias gostar de ser e fazeres um esforço, tu és naturalmente.

Detesto pessoas que nós olhamos e dizemos: "Olha, esta como podia estragar-te todas as manhãs. Está sempre mal disposta, nem bom dia dizem". Eu detestava entrar nas redações e dizer: "Bom dia", e ninguém respondia. E eu dizia bom dia várias vezes até todos responderem. Eu respeito isso. Claro, cada um é como é. Mas há pessoas que dizem: "De manhã ninguém fala comigo. Acordo, ninguém fala comigo". Eu fico logo danado com isso. Há muita gente que diz isso. Mas é uma característica que eu não gosto, não aprecio e não pratico.

Juca, são mais de 40 anos de carreira.

Qualquer dia dou um concerto. Concertos de 40 anos.

No fim do ano passado recebes o convite pra seres um dos pivôs principais da CNN Portugal e disseste na altura que já não te passava pela cabeça voltar à televisão.

Não.

Por quê?

Não, porque eu na altura tomei uma opção, que estava na TVI, fazia o jornal com o professor Marcelo, que era o jornal de maior audiência do país, à conta do professor Marcelo, não era à minha conta. E depois tomei aquela opção. Já estava há 12 anos em Lisboa e eu sempre disse que achava que o resto do país tinha que ter televisão e que o Porto devia ter uma televisão. E fui convidado pra esse projeto do Porto Canal pra fazer uma televisão generalista, não foi pra fazer uma televisão de clube. E fui, aceitei e adorei. Durante sete, oito anos fizemos uma televisão magnífica, acho eu que era magnífica, as pessoas eram magníficas, os programas também. Era uma televisão com programa de história, de música clássica. Fazíamos tudo ali, informação, entretenimento, tudo. Não estávamos condicionados pelas audiências.

Sim, havia espaço.

Havia espaço pra isso. Os últimos dois anos não foi assim, houve a alteração de estratégia do proprietário do canal, as coisas transformaram-se, acabou com a minha saída do Porto Canal. E por que já não me passava fazer? Porque passei ali um momento difícil. Difícil e não vou dizer triste, porque a vida é mesmo assim. Quando saí do Porto Canal, as pessoas todas, um amigo e tal, mas depois, durante três meses, quatro, ninguém mais me ligou. Dos amigos que eu tinha aqui em Lisboa ou no Porto, aquele meu núcleo, não.

Pois, isso já sabemos que é pra vida.

Que é familiar e amigos do núcleo de família, não, estivemos sempre juntos. Mas toda a gente que eu conhecia, e muitas que eu ajudei, algumas meti na televisão, fui diretor deles, muita gente. E fui companheiro, diretor não interessa nada aqui, companheiro, colega, que me viram sempre disponível, eu sou um tipo sempre disponível pra toda gente, desapareceram da minha vida, completamente. O que é normal.

Mas é triste.

Sim, mas eu percebi um bocadinho também a reação deles, que era assim. Eles não tinham nada pra me dar. E, portanto, também podiam se sentir de alguma maneira constrangidos a ligarem-me só pra dizer: "Estás bem?" Eu percebo isso. Há uns que não, desapareceram. Não está cá, não aparece na televisão, esqueceu.

Já não interessa.

Outros, eu acho que foi isso que aconteceu. Percebes? E, portanto, tive ali uns meses que estava em casa sozinho, fazia a minha vida sozinho e eu que estava a receber as chamadas, e que não ligo nenhum telemóvel, deixaram de ligar, desapareceram. E depois eu tive o convite da Rádio Observador.

Sim, era isso que eu ia perguntar, porque depois, nos primeiros anos da tua carreira, teres passado pela Rádio Nova.

Que foi a coisa que eu menos gostei de fazer. Eu fiz jornal, rádio e televisão.

Sim.

A rádio foi o que eu menos gostei de fazer, a Rádio Nova, porque eu não tinha jeito nenhum pra rádio, nenhum. Achava que não tinha jeito pra aquilo.

Mas o que é certo é que estás de regresso. E já lá vão dois anos.

Porque esta é uma rádio, de fato, diferente, a Observador.

Mas o que te fez aceitar? Lembras-te da altura quando recebeste o convite?

Lembro. Primeiro o convite foi do Pedro Castro, que foi para fazer umas entrevistas lá em cima, só. Fazer umas entrevistas, ver e tal.

Isto foi antes da CNN, estamos aqui no tempo, é importante dizer.

Antes de arrancar as entrevistas, o Pedro Castro chamou-me aqui, e o Ricardo, e disse: "Olha, tínhamos aqui uma ideia que era o programa da manhã convosco, às 7h da manhã". Eu disse: "Às 7h, eu não consigo". E foram duas premissas que eu lhes pus na altura. Disse: "Em boa verdade, eu precisava trabalhar, eu gosto de trabalhar". Era uma oportunidade que me estavam a dar, porque tinha que ser. E eu disse: "Olha, vamos fazer aqui uma coisa, até agosto", isto foi em maio, "até agosto, eu faço. Se eu não me aguentar a levantar-me todos os dias às 06h, estar das 7h às 10h, eu desisto. E além do mais, temos que ver se a equipa que faz o programa da manhã, que era tu, a Carla e o Paulo, também queriam. A hipótese é que agora vinha um tipo do Porto e que não faz rádio, vem pra aqui pra equipa. Eles disseram: "Não, vais ver, eles são impecáveis, vão gostar imenso". "Pronto, então vamos experimentar até agosto".

Já lá vão dois anos.

E vão dois anos. E adoro trabalhar convosco. Vocês são a melhor equipa que eu encontrei até hoje.

E nós contigo.

Eu acho que sim.

É muito bom, nós divertimo-nos muito. Isto é uma rádio de informação.

Às vezes ficamos amuados.

És amuado?

Sou, e tu?

Por quê?

Sou.

Mas és mimado?

Não, não é mimado.

O amuado é o quê?

Eu ando sempre bem disposto. Eu faço tudo pelos outros, nunca digo que não a nada. Quando me dizem a mim, eu fico chateado. Mas pronto, tu às vezes tratas mal, a Carla também diz qualquer coisa. O Paulo às vezes não me mete boa moeda em má moeda.

Isto é maravilhoso. Juca, os teus filhos dizem que fazes 1001 coisas ao mesmo tempo, como falamos aqui ao longo desta entrevista. O que ainda tens por fazer aos 60 anos?

Olha, ainda gostava de fazer imensas coisas. Já sei música e ter um autódromo. Nunca mais vou conseguir. Depois, por que eu faço 1001 coisas ao mesmo tempo? Tem a ver com o professor Marcelo. Eu senti isso ao longo da minha vida. Eu quando vim pra TVI, jantava sempre com os meus colegas, íamos jantar fora todos os dias. Depois eu deixei de ir, fui pro Estoril, viver lá pra uma barraca, uma barraca não, uma casa modesta, porque fiquei cansado da vida, era sempre jantar fora, às vezes beber um copo à noite. E depois, o que é que a gente fazia? Trabalhávamos o dia todo na televisão e à noite íamos jantar pra dizer mal da televisão, ou uns dos outros, ou da televisão, ou daquilo não correr bem. E aquilo afunilava-me imenso. Eu ficava cansado daquilo. E lembro-me do professor Marcelo, uma vez, quando eu fazia o jornal com ele, me ter dito assim: "Olhe, quer um conselho?" "Diga." "Faça várias coisas na sua vida ao mesmo tempo. Não se dedique só à televisão, porque quando uma coisa correr mal, há outra que está a correr bem." E portanto, eu fui fazendo várias coisas e faço. É uma forma de viver a vida.

Mas o balanço é positivo.

O balanço é altamente positivo. Tenho tido muita sorte na vida, tive uma sorte que não imaginas. E acho que a sorte tem mais a ver com isso. Tem a ver com o facto de nós sermos simpáticos. Acho que uma pessoa simpática tem mais sorte que as outras. E foi isso que me aconteceu.

Atrai melhores coisas.

Atrai melhores coisas, não arranjo problemas, não crio problemas. Eu só gosto de trabalhar em bons ambientes, é por isso que eu digo bom dia a toda a gente de manhã. Dizem assim: " És um grande profissional, és muito conhecido, és dos melhores jornalistas da televisão." Não, não sou nada. Os outros são todos melhores que eu. Sou razoável, acho que tenho uma carreira razoável. Também não posso ser modesto ao ponto de dizer que não. Mas fiz uma carreira razoável.

Mas há uma coisa que toda a gente diz sobre ti: és muito boa pessoa.

Pois, e é isso que eu gosto de ouvir de ti e de toda a gente, porque dizerem-me: " És um grande profissional", e depois os outros dizerem: "O tipo é um grande profissional, mas é um sacana da pior espécie". Eu já conheci alguns assim.

Tira todo o valor.

E conheço alguns assim, que não tenho admiração nenhuma por eles, precisamente por isso. São tipos muito bons, são geniais, são fantásticos, mas depois tratam mal as pessoas. A vida é pra se viver e temos que viver bem com todos.

Júlio, obrigada por esta entrevista. Fiquei a conhecer-te ainda melhor. Obrigada por teres dado a oportunidade. Eu sou a Maria João Simões. Obrigada pela companhia. Até ao próximo "Observadores Como Nós".