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Olá, seja bem-vindo a mais um "Observadores Como Nós". Eu sou a Maria João Simões e esta semana tenho o gosto de receber aquilo que é mais do que o meu colega Paulo Ferreira, especialista em economia, consultor, comentador, host das manhãs da TVI, empresário, mas que é também pai, irmão caçula, um amigo de confiança e que adora uma boa partida de pádel. Olá, Paulo, bem-vindo.
Olá, Maria João.
Obrigada por teres aceitado o convite.
É um gosto.
Eu sei que não é fácil.
Esta experiência é nova para mim, mas contigo é um gosto sempre.
O gosto é meu, Paulo. Nasceste na Maternidade de Viseu a 20 de outubro de 1967 e com quatro aninhos vais para Luanda, onde ficas até aos oito. Que recordações tens desses tempos, Paulo?
Fizeste trabalho de campo.
Tive muita ajuda.
Sim, imagino. Para Luanda, o meu pai era militar de carreira, portanto o meu pai foi no primeiro embarque de tropas em 61, quando a guerra rebentou em Angola, e nós depois fomos ter com ele, de alguma maneira, quando o meu pai já não estava no campo a combater, e quando estava já numa área de serviços administrativos e portanto era relativamente seguro para nós, e podíamos estar com ele também em Luanda e noutras cidades. E nós fomos, tinha eu três anos, três anos e meio. Fomos para Luanda, fiquei lá até aos sete e a memória que eu tenho disso é de uma grande liberdade, não política, obviamente, não tinha consciência política dessas idades, mas a liberdade que o bom clima nos dá de poder durante o ano todo.
O brincar na rua à vontade.
O brincar na rua, pôr uns calções e uma t-shirt o ano todo, quase, e andar por ali, basicamente.
E não era preciso muito mais, não é?
Não era preciso muito mais. E depois lembro-me, tenho memórias muito vivas já dos seis, sete anos da escola primária, porque eu fiz a primeira e a segunda classe em Luanda, das saídas que fazíamos nas férias grandes, férias escolares grandes, que íamos ter com meu pai onde ele estivesse algures lá por Angola.
Viagens longas, seguramente.
Viagens longuíssimas, viagens de 24 horas de carro. Na altura, não se andava de avião por lá. E portanto, são memórias que ainda tenho muito frescas, mas sobretudo essa grande liberdade dada pelo clima, de alguma maneira, que nós não tínhamos cá.
Tu és o mais novo de três.
Eu sou o mais novo de três.
Depois há a Olga, não é, com mais 14 e a Fátima com mais sete. Único rapaz, e também por isso a tua irmã mais velha fala no nosso menino. Diz que foste recebido com muito entusiasmo. Sentes isso, que foste muito desejado e muito mimado, não só pelos pais, mas também pelas manas?
Sem dúvida. Eu fui criado por mulheres, sempre, porque meu pai estava ausente.
Sim, lá está, como dizias.
Estava em Angola na altura da guerra. E portanto foi a minha mãe, claro, e as minhas irmãs mais velhas, com mais 14 anos a Olga e mais sete anos a Fátima. E portanto a Olga foi quase uma segunda mãe também no cuidado diário. E eu sei que quando era muito miúdo, dois, três anos, era Aguinhas a Olga, como eu a chamava, que tinha que dar banho, que dava a comida, que me preparava. A Olga, já agora, é minha meia-irmã, da parte do meu pai. O meu pai, quando esteve na tropa, logo no início, esteve em Macau e regressou de Macau com a Olga, já uma filha, depois casou com a minha mãe, já com a minha irmã nesse casamento. E a Olga, que é meia caucasiana do meu pai e meia asiática da mãe, tem a chamada paciência dos chineses também. Absolutamente.
Mas tu eras muito irrequieto e exigias muita paciência, era, Paulo?
Era, de alguma maneira, sim. Fazia as travessuras normais de um miúdo daquela idade, no campo. Mas a Olga tinha uma paciência imensa para cuidar de mim.
Por falar em travessuras, tu, como dizias há pouco, fizeste a pré-primária em Luanda e há um dia que apareces em casa com um cão que era maior que tu, Paulo.
Tu sabes essas histórias.
Até transpiravas de tão maior o peso do cão.
Transpirava, sim.
Que história é esta, Paulo?
Isso em plena Luanda, cidade mesmo na Avenida dos Combatentes, onde nós morávamos. Eu gostava de ter um cão, sempre queria ter um cão. E depois lá em casa dizia-se: os cães bons são achados, são encontrados na rua, no fundo, recuperados. E há um dia que eu saio da escola e à porta da escola está um cão. Na altura, a empregada que nós tínhamos, a Francisca, que me ia buscar, e eu pedi à Francisca para segurar na minha pasta, na mochila, e peguei no cão ao colo, porque ele tinha-o encontrado mesmo ali à porta da escola. E então levei-o para casa, de facto, e o cão era maior do que eu.
Com grande esforço.
Com grande esforço, ali no meio dos semáforos do centro de Luanda, levei para casa o cão. Obviamente que a minha mãe olhou para aquilo e disse: "Nem penses, vai lá pôr o cão. Vamos lá pôr o cão onde o encontrámos, o cão tem dono, tem coleira." Portanto, era um cão bem tratado, tinha dono, certamente. Viemos a descobrir que era de facto o cão da diretora da escola que estava mesmo ali à mão. Sim, e a história é contada de facto comigo muito autoritário, se quiseres, a dizer à Francisca, que sofreu um bocado às minhas mãos: "Não, eu levo o cão, fica tu com a pasta, tu levas a minha pasta, que eu levo o cão", e assim foi. E ela dizia: "Mas eu não consegui demovê-lo. Eu tentei que ele não o fizesse, mas não consegui."
E vocês moravam num terceiro andar.
Terceiro andar.
Já tens melhor pontaria? Costumavas mandar uma ou outra batata para tentar acertar nas pessoas, mas a tua irmã diz: "Sorte a nossa, que ele tinha péssima pontaria."
Bem, onde é que vocês foram?
Eras pequenino.
Era seis, sete anos.
Atiravas com a ria para baixo.
Exatamente. Mas nós morávamos em plena Luanda, centro da cidade, Avenida dos Combatentes. Acho que conseguia lá ir ainda àquele apartamento.
A sério? Nunca mais lá voltaste.
Nunca mais lá voltei. Conseguia lá ir. E essa fase das batatas atiradas da varanda, de facto, no terceiro andar, foi numa fase já final, quando a guerra civil já tinha explodido e já tinha chegado a Luanda, depois do 25 de abril, antes da descolonização. E portanto, havia tiroteios mesmo no centro de Luanda intensos entre, na altura, a UNITA e a MPLA. E eu assistia àquilo do terceiro andar muitas vezes. Deitava-me na varanda a espetar cá para baixo, porque via mesmo ali os soldados, as tropas, os movimentos ali nas arcadas dos prédios em frente.
Incrível viver tudo isso.
Incrível. Com a inconsciência de seis anos, na altura. E eu lembro-me perfeitamente que depois foram uns primos acampar lá em casa, literalmente. Saíram de bairros que eram mais problemáticos dos arredores de Luanda nessa altura. O centro de Luanda ainda assim era um espaço mais seguro. E eles abancaram lá e acamparam lá durante alguns tempos e eu tinha um primo, o Américo, da minha idade, então divertíamos, de facto. A minha mãe guardava algumas batatas na varanda, atirava batatas cá para baixo, escondendo-nos logo a seguir.
Acho que todos fizemos isso, se não com batatas, com outra coisa qualquer.
Claro, é verdade.
Paulo, tu regressas já depois do 25 de abril a Viseu.
Sim, o meu pai é militar, portanto ficou até ao fim. Nós voltámos no dia 31 de agosto de 75, portanto um ano e tal depois do 25 de abril e cerca de dois meses antes da independência de Angola.
E lembras-te como foi a mudança? Mesmo sendo miúdo, foi difícil habituares-te, porque foi toda uma nova realidade, não é?
Foi. Uma realidade numa idade em que nós não temos muita memória daquilo. Eu conheci Viseu com três anos, direto, se quiseres, do inverno da Beira para o calor de Angola. E o regresso foi isso, de alguma maneira. Lembro-me perfeitamente do regresso e disso tenho boa memória, do regresso a Viseu, do frio do inverno, que eu não tinha memória anterior dele, do frio do primeiro inverno logo, desse rigor, de voltar pra escola em Abrevezes, Viseu, o bairro onde nós morávamos. Lembro-me desses primeiros tempos. Depois, logo a seguir, nós mudámos de casa em Viseu e deixámos esse bairro, se quisermos, essa freguesia de Abrevezes, para o sítio onde ainda hoje estamos.
Tu fizeste o preparatório lá em Viseu e já nessa altura se notava o teu gosto pelos jornais e para o humor também. Os teus amigos dizem hoje que tens um humor refinado, eu comprovo isso todas as manhãs. Mas houve um concurso e tu ganhaste um relógio com a melhor anedota enviada para o jornal. Ainda te lembras disso?
Se não me engano, era o Comércio do Porto. Ou era o Comércio do Porto ou o Primeiro de Janeiro, mas estou quase de certeza que era o Comércio do Porto. Eram dois dos três jornais que havia no Porto e havia um concurso de anedotas, de facto. As pessoas, os leitores enviavam para lá anedotas. Todas as semanas era escolhida uma que ganhava um relógio, um Timex, se não me engano. Fantástico, o meu primeiro relógio. Não sei, devia ter 10, 11, 12 anos, talvez, nessa altura. Talvez menos, até. E se não me engano, era ao sábado ou domingo que era anunciado na edição dessa semana o vencedor. E eu, autodidata, ia fazendo essas coisas, de alguma maneira, dizia aos meus pais, obviamente. E houve uma semana em que eu ganhei. A anedota que enviei ganhei e eu ia todos os domingos, atravessava meio a cidade de Viseu, 20 minutos, 25 minutos a pé pra ir comprar o jornal ao quiosque para perceber, de facto, se tinha ganho. E lembro-me perfeitamente que fiz Viseu de uma ponta à outra quando vi o jornal e vi que era eu. Fiz é correr para chegar a casa e dar a notícia que tinha ganho o relógio.
Que maravilha! Depois, no secundário, dá-se a tua primeira experiência na rádio, no tempo em que fazer rádio era ilegal. Foi lá que conheceste o José Alberto Carvalho e outros bons amigos. Fazer rádio era proibido por lei e o mais curioso é que essa rádio nasceu e cresceu numas águas-furtadas mesmo em frente à polícia de Viseu. Vocês estavam a correr todos os riscos.
Literalmente, eram 10 metros a atravessar a rua e estávamos à porta da polícia ali no Parede Alves Martins, em Viseu.
Mas como é que foi essa experiência, Paulo?
Olha, foi um acaso. Aliás, a minha vida é muito feita de acasos. Nunca planeei carreiras, nem tipo daqui a 10 anos ou 15 quero estar a fazer isto.
São as oportunidades que te vão surgindo.
Vão aparecendo e eu também aceito correr riscos, de alguma maneira. Não me importo nada. E foi uma altura, foi fase final de secundário, em que eu me perdi lá com associações de estudantes, não muito politizadas, mas com alguma politização já, com namoradas, claro, as primeiras namoradas. E foi uma ótima fase, aquela fase pré-faculdade. Aliás, acabei por repetir uma cadeira no 12º ano. Tinha sido um aluno razoável, bom, vai lá até aí.
Qual foi a cadeira que repetiste?
Foi Geografia. Tive que me propor a exame para acabar o 12º ano e para depois vir pra faculdade. E foi uma fase, esses dois anos foram relativamente intensos a esse nível. Muitas lutas estudantis. Na altura, em Viseu, era curioso, eu andava com pessoas muito ligadas à esquerda, ao Partido Comunista, e ser do Partido Comunista em Viseu, naquela altura, ainda hoje, mas naquela altura era uma coisa muito marginal. Nunca fui militante, obviamente, mas estava num grupo que tinha o apoio do PC para as lutas eleitorais da Associação dos Estudantes. Nunca admitido e nunca assumido, como é evidente, porque isso seria mortal em Viseu. Viseu era o cabo de São na altura, foi o distrito onde Freitas do Amaral ganhou com mais margem a Mário Soares e, portanto, um distrito conservador, se quisermos.
Era uma coisa muito pouco assumida.
Exatamente. E foi nesse âmbito que um amigo, Francisco Sarmento, um dia disse: "Epá, aí uma rádio, o Fausto Gomes", que era mais uma pessoa ligada também à União dos Sindicatos de Viseu, "está aí a montar uma rádio, uma cooperativa, uma rádio local". Mas era uma coisa absolutamente artesanal. E foi pela mão dele que eu um dia entrei num estúdio de rádio, uma coisa também muito amadora, se quisermos, as rádios locais, o início das rádios locais.
E o que é que fazias lá?
Fazia tudo no início. Tu imaginas Viseu, meados dos anos 80. Miúdos de 15, 16, 17 anos, pré-faculdade, com uma rádio, com dois pratos, gira-discos, Technics MK2.
Que música é que passavas?
Música pop, na altura.
De acid?
Não, música pop e rock dos anos 80, aquela que ainda nós ouvimos às vezes aqui no programa.
Exatamente, que me faz tão bem recordar.
Um microfone Dois pratos de gira-discos na altura, os Technics, os velhinhos Technics EB-K2, são ótimos. Decks de cassetes, não havia sequer ainda CD na altura. E o mundo era nosso, e estávamos a falar na rádio e tínhamos que ligar aos amigos, telefone fixo, como é evidente, a dizer: "Olha, vai aí à rádio a frequência 95.7, que eu estou a falar na rádio". Um nervosismo imenso. E depois passámos da animação e da música para brincar à informação, de alguma maneira. Nós sem informação qualquer, sem ideia do que era jornalismo na altura, mas ouvíamos os maiores, os profissionais, e imitávamos de alguma maneira.
Gosto de saber que depois as vossas carreiras iam passar por cima disso.
E foi por aí. Um acaso absoluto, e aquilo tornou-se um bichinho fantástico, a rádio.
O difícil era falar sobre o tempo, não é? Dar as temperaturas.
Exatamente.
Iam espreitar as temperaturas ao turbão, porque a PSP tinha a porta da esquadra.
Um turbão muito grande cá fora, de facto, daqueles, e nós íamos lá antes de subir para as Águas Furtadas em frente à polícia para ver a temperatura.
Paulo, depois então de terminares o secundário, vais para Lisboa, o Zé Alberto também. Vão viver juntos. Houve muitos telefonemas para as mães para perceberem como é que se passava a ferro os lençóis.
Por exemplo. É um dos grandes dilemas, como é que se passam os lençóis.
Ainda hoje para mim.
Ainda hoje.
Já sei que a princípio nenhum cozinhava.
Sim, tínhamos umas dicas. Exato, o arroz das saquetas Uncle Ben's que nos safou muitas vezes.
Mas o que é que fica desses primeiros tempos em Lisboa, de dois jovens sozinhos acabados de chegar de Viseu? Muito disparado, muita loucura.
Sim.
E muita descoberta.
Sim, descoberta.
Eu acho que é essencial.
Grandes grupos de amigos. Estávamos todos numa fase inicial de carreira. Eu estava a começar na altura, curiosamente, ainda não dedicado ao jornalismo. Eu estava numa corretora de bolsa, imagina. Eu fiz gestão de empresas e portanto foi a minha saída óbvia, que pensava eu que ia para a área financeira, para a área empresarial. Depois rapidamente percebi que aquilo não era para mim e estávamos no início de carreira. Eu estava a mudar para o jornalismo depois de ter colaborado com a Exame durante a faculdade. Eu gostava muito de escrever já na altura. E um convite para o Diário Económico e portanto estava a entrar no jornalismo a tempo inteiro. O Zé Alberto tinha vindo da RTP Porto para o lançamento da SIC, e portanto estava naquela fase final também de preparação do canal. Estávamos todos numa fase muito boa de início de carreira, de projetos novos, a descobrir o mundo de alguma maneira. E foi muito bom. Saíamos com muita frequência a Lisboa, quase de segunda a domingo, à noite, grupos de amigos fantásticos. Foi muito bom mesmo.
Nessa altura não cozinhavas, mas hoje sim, e até te davas de uma ou outra especialidade. Qual é aquele teu prato que gostavas que todos os teus amigos tivessem a sorte de provar?
Risoto de cogumelos e bacon.
Tenho que experimentar.
Temos que combinar.
Mas é muito também disso que tu gostas, não é, Paulo? De juntar amigos à mesa, uma boa conversa, se possível com alguma controvérsia, mas um amigo que gosta muito de ti disse mesmo assim: "Os prazeres da vida chamam-se Paulo Ferreira".
Engraçado isso. Gosto, adoro. E adoro ser eu a cozinhar para os amigos. Amigos e família, e faço com alguma frequência jantares, almoços lá em casa. E eu gosto de ir para a cozinha. Para ir buscar a história do meu interesse pela cozinha e o meu gosto em fazê-lo, isso vem da minha adolescência. Eu tenho origens muito humildes, classe média, média. A minha mãe, quarta classe, meu pai o antigo terceiro ano, sétimo ano de escolaridade. E a minha mãe sempre teve uma vida de campo. Nós tivemos sempre, depois quando regressámos de Angola, sempre uma pequena terra, para agricultura de subsistência, se quiseres, e para consumo caseiro.
Sim.
E eu preferia, naquela idade da adolescência, negociar com a minha mãe, que ela ficava no campo a tratar de arrear, a sachar aquelas coisas todas, e eu preferia ir para casa, substituir-me a ela e fazer o jantar.
Que giro.
Porque eu dizia-lhe quando era miúdo, eu não quero ser agricultor, porque eu tinha uma ideia do trabalho no campo, uma coisa árdua, das 06:00 até à noite, depois tratar dos animais, da bicharada, aquilo tudo. E portanto, eu não queria aquilo para mim. E então negociava isso com a minha mãe, e a minha mãe aceitava.
E foi pensando nela que tu foste também desenvolvendo.
E eu fui aprendendo. Havia e há ainda lá em casa um manual, "O Mestre Cozinheiro", uma coisa enorme, para aí dos anos 60. E foi dos livros que eu mais consultei durante a adolescência, e seguramente a aprender a fazer coisas, porque eu preferia que a minha mãe ficasse cá fora e ela também preferia ficar a fazer aquilo que tinha a fazer cá fora no campo, e eu substituí-me a ela para ir fazer o jantar para a família, de alguma maneira, ou o almoço.
Que giro.
E gostava de fazer isso. E portanto, vem daí também o meu gosto pela cozinha. E ainda hoje adoro fazer isso e juntar amigos. Tudo acompanhado com um ótimo vinho.
Sempre, sim. Paulo, o tempo voou. Já estamos no fim da primeira parte. Vamos fazer aqui uma curta pausa para as notícias. Já regressamos com Observadores Como Nós, hoje com o Paulo Ferreira. Volte conosco. Até já. Segunda parte do Observadores Como Nós, hoje com o Paulo Ferreira, especialista em economia, comentador, empresário, mas que é também pai, pai da Maria e do Tomás, e agora tens o gatinho Travis. Os teus mais próximos falam num pai exemplar. Este é o papel da tua vida, Paulo?
É, sem dúvida. É um dos papéis mais importantes e com maior responsabilidade eu acho que nós temos, quem tem filhos. Criá-los de alguma maneira, prepará-los pra vida de alguma maneira. Pode haver sempre a tentação de os fazermos à nossa imagem, de os conduzirmos, mas eu a esse nível dou muito espaço, acho eu, até para não os superproteger nas idades mais tenras. A Maria tem 14 anos e já é superautônoma também, graças à mãe também, à educação da mãe. Nós nunca estamos sozinhos nisso.
Sim, claro.
À mãe, às mães, no caso, dos dois. Mas não, acho que sou relativamente tranquilo em relação a eles, em relação à proximidade.
E o que mais te preocupa em relação ao futuro deles, Paulo?
Olha, preocupa-me mesmo o futuro em termos de carreira e o futuro profissional deles.
De saída.
Saída. Saídas profissionais. Preocupam-me questões mais genéricas, como as questões ambientais, por exemplo, isto é, que planeta é que eles vão herdar. Depois, em termos específicos, preocupa-me muito, até porque olho à volta e conheço um bocadinho do estado do país e da economia e não vejo grande futuro, sinceramente, para as gerações que estão hoje a entrar no mercado de trabalho ou que vão entrar. Haverá sempre os melhores e os piores, como é evidente. Mas de uma forma genérica, isto é, os meus filhos não vão gozar do ambiente muito favorável que eu gozei quando tinha a idade deles. Há pouco falávamos do início do ecojornalismo. Os anos 90 foram fantásticos em Portugal, o início dos anos 90, para quem estava a começar uma carreira, quase em qualquer área. E eu sinto que eu e a minha geração beneficiamos disso.
Que eles não vão passar por uma situação semelhante.
Eles não vão. Eu me arriscaria a dizer que a geração dos meus filhos será a primeira geração, em muitas décadas, que provavelmente vai ter um nível de vida inferior ao dos pais. Eu olhando para trás, pra minha família, incomparavelmente a minha qualidade de vida, por causa das qualificações, porque eu estudei. Eu, na minha família, eu e os meus irmãos fomos a primeira geração a ir pra faculdade. Já disse há pouco que os meus pais tinham uma formação muito básica, curricular, os meus avós nem isso. Eram pessoas de campo, numa vida muito dura. E portanto, eu acho que, olhando pra trás, não tenho a mínima dúvida que durante décadas, séculos, provavelmente, todos nós vivemos melhor do que os nossos pais. Eu tenho dúvidas que os meus filhos possam dizer isso daqui a 10 ou 15 anos.
Olha, e o gatinho Travis, que está a ser uma aventura, rende-me esta conversa.
Absolutamente. Olha, foi presente do Tomás e da Maria, presente atrasado de Dia do Pai. Recebi agora há dois meses. Eles tinham identificado já uma gata de rua que estava grávida, que ia parir. Isto com a cumplicidade da namorada do Tomás, da Bia. E então identificaram a gata, foram acompanhando a gestação e depois o parto. E depois a gata e os gatinhos foram para uma instituição de acolhimento e eles foram logo, identificaram e disseram que iam lá buscar. E então quando fez dois meses, mais ou menos, o Travis.
Tão pequenino.
Tão pequenino, mas é uma delícia.
Sabes, além dos teus amigos destacarem o teu sentido de humor refinado, sabem do que falam. As nossas viagens de trabalho são sempre memoráveis. É unânime dizerem que és muito amigo do teu amigo e absolutamente confiável. E até há quem ponha as coisas nestes termos: "Tenho quatro filhos, uma namorada que amo e se o Paulo me dissesse pra me atirar da janela, que era seguro, eu não pensava duas vezes."
Eu acho que os amigos são fantásticos. Enorme responsabilidade.
Como é que te sentes ao ouvir isto?
Sinto muito bem, como é evidente, mas é uma enorme responsabilidade isso.
Eu senti que não era exagero, era um exemplo de coração, era mesmo sentir que há uma segurança e uma confiança tão grande.
Era capaz de adivinhar quem é que disse isso.
É coisa que quatro filhos calhar já ajuda, não é?
Exato. Os grandes amigos, como esse, seguramente, penso que é o Sérgio, são poucos. Eu conheço muita gente, conhecemos muita gente, nós, por causa da atividade que exercemos. Quer dizer, há muita gente que passa pelas nossas vidas de alguma maneira, sobretudo nível profissionais, mas depois há aquele núcleo duro de amigos que se tem. Podemos não estar todos os dias, nem falar todos os dias, nem todos os meses, muitas vezes, mas sabemos que estão lá, sabemos com o que podemos contar e isso não tenho a mínima dúvida que é absolutamente recíproco. Isto é, precisando, há um telefonema, há uma conversa e nós estamos lá e damos todo o apoio necessário.
Olha, Paulo, há pouco falavas de uma corretora. Como é que tu passas depois da corretora pro jornalismo?
O bichinho estava cá da rádio, portanto, o processo é este.
Ficou.
Ficou. Adolescência, rádio, e aí com uma experiência absolutamente amadora, se quisermos, quer de animação, quer de informação. Não éramos jornalistas, éramos jornalistas amadores.
Mas falar tu sentiste que era?
Ficou, porque mesmo durante a faculdade eu aproveitava todas as férias de Páscoa, de Natal, quebra escolar, férias grandes, se quisermos, e eu só queria era ir pra Viseu para estar na rádio, basicamente. Depois foi lá que se teve a namorada, foi lá que fizemos amigos que duram pra vida, o José Alberto Carvalha é um deles. Eu passava o tempo todo em Viseu durante as férias fora de casa, portanto, saía de manhã de casa, voltava à noite, porque estava na rádio. Não ganhava um tostão com aquilo, mas aquilo era um gosto, e portanto, isso ficou. Quando acabo o curso e faço essa experiência, se quiseres, aí no mundo financeiro, na Bolsa portuguesa, claramente, uma corretora de bolsas em Portugal, a Sofim. Durante a faculdade eu já tinha colaborado com a Exame, e depois surge um convite, por causa desse tipo de colaborações que eu fazia, na altura, do Jaime António e da Sá Leite Fernandes, fundadores do Diário Económico, e eu não hesitei. Lá está, quem é que troca e como é que explicas isto aos teus pais, que estão em Viseu, que não sabem como é que isto funciona. Que não têm conhecimento sequer, muitas vezes, pra perceber.
E quando é que tu decidiste que querias seguir economia?
Eu fui pra gestão, foi por acaso, mais um acaso. Não tinha média pra ir pra veterinária, que talvez fosse o curso que eu Mais queria no final do secundário, não tinha média. Acabei por ir para Gestão de Empresas, não me arrependo minimamente. Era um curso que eu faria agora de novo.
É mesmo aquilo que tu gostas?
Exato. Primeiro, é um curso muito multifacetado. Tens de saber muitas coisas de várias áreas de conhecimento.
Tem que estar para muita coisa.
Acho que a economia é muitas vezes muito teórica. Na gestão, abarcas matemática financeira, direito laboral, sociologia, liderança, esse tipo de coisas. Aliás, os economistas na faculdade, os estudantes não eram os merceeiros para os estudantes de economia. Esse era o termo carinhoso com que eles nos chamavam. Mas mais uma vez foi ao acaso a gestão. E depois da gestão, o jornalismo também, por esta razão. Porque ficou o bichinho. E depois o jornalismo económico aí um bocadinho lógico também, porque nesses anos 90, no início, um bocadinho em terra de seca, entranhou-lhe a rei. Houve um crescimento muito grande do jornalismo nesta altura, sobretudo do jornalismo económico. Começaram as privatizações, a economia começou-se a desenvolver, portanto, a procura por informação económica era muito grande e eu tinha conhecimentos de base também. Aí o curso ajudou-me muito para perceber muitas coisas.
Um dos teus amigos que te conheceu precisamente por volta dessa altura, em 95, diz que adoravas gadgets, que deves ter sido o primeiro de todos a fazer compras na internet e que eles se assustavam imenso quando te viam pôr os dados do teu cartão de crédito. Muito assustados, mas que tu dominavas aquilo. Lembras-te dessa altura?
Lembro-me perfeitamente.
E que ainda hoje és assim, és muito curioso e enquanto não aprendes uma coisa, não descansas.
É isso, é curiosidade. Eu gosto de experimentar as coisas todas, mesmo que depois me desinteresse de alguma maneira, em termos de aparelhos, de coisas práticas para o dia a dia. Não sou um acumulador de gadgets por aí fora, mas gosto de ver, de experimentar.
De perceber.
De perceber. Mas sobre isso, também fui um pouco atrás de José Alberto Carvalho. Ele sim, um geek. Das primeiras experiências de internet, foi quando nós partilhávamos casa, portanto, no arranque da SIC, se quiseres, 92, em que o José Alberto ligava o computador dele, na altura um Mac, que era uma coisa assim excêntrica, ligávamos à tomada telefónica para ele entrar nos servidores da SIC, claro, tudo autorizado. Portanto, as primeiras experiências de internet, se quiseres, ligação à distância. Mas tenho esse gosto.
Mas este não falava das compras online, acho que era mais isso que te assustava.
Também. Não tenho problema nenhum em fazê-lo. Eu acho que é como roubarem-nos a carteira na rua, é um risco. Não é por causa disso que eu deixo de andar na rua e deixo de tirar as coisas.
Sim, eu acho que era mais por ser naquele tempo.
Naquele tempo. Era uma coisa excêntrica.
Sim.
Sem dúvida.
O maior risco.
Sim, mas vou a todas e experimento tudo. E mesmo as apps e as redes sociais, tenho que entrar para saber o que se passa, para ver como é que funciona, depois passado uma semana ou duas, provavelmente desinteresso-me. Mas gosto de saber o que se passa.
Paulo, falavas dos vários sítios por onde passaste, o Diário Económico, Jornal de Negócios, Público, Dinheiro Vivo. Depois na RTP, começaste por ser editor de economia e passas a diretor de informação. Quem se cruzou contigo nessa altura, diz que foste o único diretor para quem, em primeiro lugar, estavam as pessoas e depois o resto. Isso é pouco comum.
É pouco comum.
Infelizmente.
E foi uma altura muito difícil do país. A empresa em si, sujeita também às restrições todas que o Orçamento do Estado tinha. Estávamos em plena intervenção da troica. Mas também sobrava pouco tempo nessa altura, nessas funções, para nos dedicarmos àquilo que é suposto, que é de facto a informação, as notícias, a atualidade, porque a gestão, se quiseres, a gestão interna da área, a gestão das pessoas é muito absorvente, sobretudo numa empresa grande como aquela. E referes-te como RTP.
Não era novidade para ti seres diretor, mas de informação da RTP era outra responsabilidade.
Absolutamente, e uma exposição muito grande mesmo.
E como é que se prepara para um cargo destes? A pessoa não está preparada, vai-se adaptando.
Ou estamos preparados na altura, porque de facto aquilo não há um estágio para isso e o convite surge.
Surge e ou se aceita e avança.
Ou se aceita, ou mais uma vez, o risco que eu ponderadamente aceitei correr num sítio de grande exposição, numa empresa que também é muito mediática, que não é uma empresa fácil, é uma empresa grande, com grande conhecimento de televisão. Impressionante. Aliás, foi da RTP que saíram depois as pessoas que fizeram os outros canais.
Os outros canais. É a base.
O conhecimento é muito grande de forma de fazer televisão e eu próprio aprendi muito lá também. Aliás, se eu não tivesse passado pela RTP, provavelmente não faria aquilo que fiz depois, que foi achar que fazia sentido criar uma mini produtora de vídeo.
Tua produtora.
Quando saí da RTP. E portanto, aquilo é uma escola fantástica e um grupo vasto de pessoas que, de facto, dominam, que sabem fazer televisão e que fazem televisão e de alguma forma ensinaram nas várias gerações também o país de alguma forma a fazer televisão.
Paulo, e no dia em que assumiste a direção de informação, decidiste não aparecer em programas, o que também é raro. Diretores de televisão perceberem que ser diretor é estar fora de tudo para depois poder decidir sobre os programas e de uma forma justa e independente.
Sim, não aparecer em programas, não fazer comentário em antena também, que era uma coisa que eu fazia muito quando era editor de economia. Aliás, também fui para a RTP por causa disso, convidado para editor de economia. Não precisamente por isso, por várias razões. Primeiro, porque de facto, o protagonismo, o aparecer não é de todo o meu objetivo, nunca foi. Não só para dar espaço, como também para me concentrar naquilo que Que era mais importante, que é a gestão não só da informação, como é evidente, tudo aquilo que tem que se fazer no dia a dia, como a gestão da área.
E isso cria um trabalho muito complexo. Muito exigente.
É muito complexo. E depois, se nós começamos a fazer muitas coisas, começamos a desleixar, de alguma maneira. E é preciso ter um pouco a noção.
O foco.
Exatamente. O foco é muito importante. Mas depois, por isso também, não gosto de ser eu a decidir que sou eu que vou para o palco, de alguma maneira, entendes?
Entendo, exatamente.
E quando se está numa posição dessa, somos nós que decidimos, de alguma maneira. Então prefiro não ser eu a decidir que eu me vou colocar no palco. E há tanta gente capaz de fazer isso melhor do que eu lá.
Paulo, tu chegaste a dar aulas, primeiro na Escola Superior de Tecnologia de Abrantes, anos mais tarde no ISCSP.
É verdade.
Aulas de quê?
Aulas de jornalismo económico, comunicação empresarial e no ISCSP também de comunicação empresarial e política, se quisermos.
Como é que foi a experiência? Gostavas de dar aula?
Obrigava-nos a pensar. Eu gosto muito de dar aulas. Obriga-nos a pensar muitas vezes e a sistematizar assuntos que para nós já são absolutamente corriqueiros, do dia a dia. Jornalismo económico, por exemplo. Eu quando dei aula já tinha uma carreira de 15 anos.
Pensar como é que eu vou explicar, fazer entender isso.
Como é que eu vou explicar o básico dos indicadores económicos a uma turma de pessoas de 18, 19, 20 anos? Como é que eu lhes explico o que é um lead, o que é um título, como é que se controla aquele título.
Tu tens uma capacidade incrível. Eu digo isto muitas vezes, até mesmo no ar, que é: tu descomplicas muito tudo aquilo que é difícil para um leigo entender. Portanto, acredito que os alunos ganhem muito com isso.
Sim, o feedback que tive, sobretudo em Abrantes, foi sempre muito bom a esse nível. E a ideia ali era explicar-lhes os básicos, basicamente, da economia e das finanças, para que eles pudessem, a partir daí, praticar então o jornalismo económico. Eu acho que uma das coisas boas que nós temos que fazer é ajudar as pessoas a perceberem os mecanismos básicos da economia, porque é que as coisas nos vão acontecendo, não só em termos de finanças pessoais, como em termos da economia do país. Tento fazê-lo, umas vezes com mais sucesso, outras vezes com menos. Eu tenho um pensamento muito esquemático. Eu sinto isso, gosto muito de números, de matemática e, portanto, dou-me muito bem com o raciocínio matemático. Tento esquematizar um processo, seja ele qual for, e acho que isso me ajuda a decompor muitas vezes um processo económico qualquer em passos para explicá-lo às pessoas de alguma maneira. Tento fazer isso, umas vezes com sucesso, outras sem, mas as aulas mais uma vez obrigam-nos a ir um bocadinho à essência desses processos, a percebê-los e depois para explicá-los. Se nós não conseguimos perceber bem um assunto, nós nunca vamos conseguir explicar.
Paulo, estás na Rádio Observador desde o dia zero.
É um gosto.
Lembras-te como surgiu o convite e da tua reação?
Lembro, foi o José Manuel Fernandes que fez a primeira abordagem, depois do Observador jornal estar lançado, que foi um processo também que eu fui acompanhando. Eu estive com o José Manuel Fernandes no Público, ele convidou-me, era diretor da altura, convidou-me para a direção dele, que eu integrei com muito gosto. Aprendi imenso com ele e com o Público, a equipa do Público também. Também um período fantástico. Depois eu fui para a RTP, o José Manuel também saiu do Público, acabou por fundar o Observador e eu fora ainda deste projeto. E há um dia em que vamos almoçar, ele convidou-me para almoçar, falando de um projeto de uma rádio, se eu estaria ou não disponível para entrar, de alguma maneira.
Tu depois de Vizela não fizeste mais rádio.
Depois de Vizela eu nunca fiz mais rádio. Tirando o comentário.
Não, eu digo fazer enquanto está no podcast.
Exatamente, isso não. E eu achei interessante. Na altura, não foi fácil encaixar estas manhãs na minha vida, porque eu tinha a empresa já, salários para pagar, meia dúzia de salários para pagar. Tudo isso lá, que era a minha vida, basicamente, o essencial da minha vida profissional era esse, mais o comentário em televisão, mas isso não nos ocupa assim tanto tempo. Temos que estar sempre preparados. Ponto um, querendo eu, e achei muito interessante o facto de ser um projeto novo, um projeto com a qualidade do Observador, que já o tinha, e eu reconhecia o jornal, mas também um projeto absolutamente inovador na forma como nós nos apresentamos em antena. E portanto, isso agradou-me, sem saber qual era a equipa na altura. Aliás, nenhum de nós sabia. Depois tive a sorte fantástica de ter a Ti, a Carla.
Depois o Juca.
Depois o Juca, o Júlio. Nós não nos conhecíamos.
Verdade.
E acabamos por ter aqui uma química de equipa que eu acho que é fantástica, é das melhores que eu tive.
É mesmo, e é recíproco. E sentimos todos o mesmo.
Sentimos isso.
É mesmo de facto.
Mas lá está, depois o José Manuel convidou, pensei, vamos a isso, e depois passámos a falar com o Pedro Jorge Castro. A concretizar, a definir depois o formato de emissão, a grelha, lembras-te das primeiras conversas? Aí já nós falávamos uns com os outros, já sabíamos quem é que ia ser o resto da equipa e correu muito bem. E estou superfeliz aqui. Acho que se percebe isso.
Acho que se percebe, sim, todos os dias de manhã. Acho que isso é notório. Além da rádio, és comentador da CNN, consultor, escreves no Eco, moderas, apresentas N conferências, tens a tua empresa. Consegues eleger aquilo que te preenche mais ou é difícil? Porque tu vais buscar o melhor de cada mundo, não é?
É. Não é fácil isso. Aquilo que me faz mais feliz. No fundo, isso complementa-se de alguma maneira, tudo. Eu gosto muito de estar aqui. Aliás, só isso é que nos faz levantar aquela hora quando ainda temos depois um longo dia e outras responsabilidades pela frente, mas acabamos por ter todos, de alguma maneira. É mesmo esse complemento, porque eu podia largar qualquer coisa dessas. Felizmente, conseguia concentrar-me só numa dessas tarefas, se quisesses. Mas é esse complemento, porque depois exige de nós coisas diferentes. Com a equipa na empresa, agora integrada no grupo Lift, é uma gestão também que já foi mais dia a dia do que é agora, porque entretanto a equipa também vai crescendo E vão se criando estruturas que não dependam tanto de nós como quando se está a lançar uma empresa. Aí o tempo inteiro é fundamental e fazemos tudo. Mas aí há um espaço de criação também muito importante. Aqui na rádio, o espaço de documentário também, e na CNN, que é não só o exercício de estar a explicar às pessoas, mas também a obrigação que nos dá de estarmos atentos à atualidade. Isso é fundamental. Por isso é que temos que estar sempre preparados.
E depois as conferências também, que são vários temas.
N temas, N pessoas que se conhecem. O que eu aprendo nas conferências que modero. Eu digo sempre isto no fim. Eu aprendi muito convosco aqui. Uma hora, uma hora e meia, duas horas, às vezes uma tarde inteira. Aprende-se imenso, seja qual for o tema, com aquelas pessoas que muitas vezes são os melhores das suas áreas que estão ali a falar. E eu acho que é uma benção poder ter isto. Poder, de alguma forma, ter acesso a pessoas destas que no fundo estão ali a expor o seu conhecimento sobre N matérias. Eu saio sempre mais rico do que entro nessas coisas.
Paulo, tu és um apaixonado pela vida. O que é que ainda tens por fazer ou gostavas muito de fazer?
Um livro, eventualmente, não sei o quê, não sei se é um ensaio sobre economia. Não seria seguramente mais um desses livros, que isso já muita gente fez, sobre a economia pura e dura, mas acho que há algumas coisas talvez a explorar. Sim, um livro a solo. Já colaborei em livros a quatro mãos, se quisermos, com António Nogueira Leite, por exemplo, ou com António Pedro Vasconcelos. E talvez isso. O que é que eu gostava de fazer mais? Viajar.
Sempre, não é? Tão bom.
Sempre. Eu acho que a melhor forma de gastar tempo e dinheiro, se quisermos, é viajar, é conhecer sítios, é conhecer pessoas. Repara, eu estou numa fase da vida muito engraçada, porque depois de 20 e tal anos em redações, em que aquilo em termos de horários, como tu sabes, é basicamente uma ditadura. Nós não somos, quando estamos numa redação, sobretudo com funções de direção, donos da nossa agenda. Nós andamos a reboque da agenda do país, dos políticos, dos empresários, por aí fora. E eu consegui ser dono do meu tempo há sete ou oito anos, quando depois de sair da RTP, decidi criar uma pequena empresa, dedicar-me a estas tarefas, que são tarefas típicas de freelancer.
Fazes tu a gestão do teu tempo.
Faço eu a gestão do meu tempo. O que não significa que trabalhe menos.
Pois não. Às vezes até ao contrário.
Mas trabalho quando quero, porque eu durante 20, 25 anos, há bocado falámos nos filhos, o peso na consciência de ter que ir a uma reunião de escola, por exemplo, de estar lá, e eu sempre fiz questão de estar em quase todas. Reunião normal de fim de período, mas ao mesmo tempo o peso na consciência de ter deixado uma redação em que o telejornal ainda estava a ser preparado, a edição estava a ser fechada, a primeira página estava para ser decidida.
Essas escolhas que tiveres de fazer.
E eu essa escolha fiz-la agora há uns anos e estou muito contente por ela. Sou dono do meu tempo e eu acho que é daqueles luxos que nós temos cada vez menos. E eu tento aproveitá-lo de alguma maneira.
Paulo, já está.
Já acabou?
Já.
E o que te fosse caro.
Obrigada por esta hora. Gostei muito de conversar contigo, Paulo.
É um gosto sempre.
Sabes que gosto muito de ti. Obrigada.
E tu sabes que é recíproco. É tão bom estar aqui convosco. Obrigada.
Eu sou a Maria João Simões. Obrigada pela companhia. Até ao próximo "Observadores Como Nós".