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Domingo, 07 de dezembro, mais uma "Operação Stop" na Rádio Observador, o programa em que falamos do mundo automóvel. Eu sou o Miguel Cordeiro, comigo em linha, como sempre, está o Alfredo Lavrador. Bem-vindo, Alfredo.
Viva, Miguel.
Hoje vamos falar inicialmente de algo que foi trágico para tentar também ajudar os nossos ouvintes em situações semelhantes ou situações que se possam aproximar daquilo que aconteceu também neste incidente. De facto, qualquer acidente com perdas de vida é sempre uma tragédia, mas por mais triste que seja, deve-nos levar a pensar um pouco sobre como seria possível sobreviver em determinadas situações. Estar dentro de um automóvel que caia à água, é disto que vamos falar. Pode acontecer por distração, pode acontecer por acidente e, na verdade, tradicionalmente acaba por fazer vítimas. Alfredo, por que é tão difícil escapar num caso destes, em que um automóvel fica submerso?
Olha, Miguel, o tema efetivamente não é muito agradável, é um facto. Mas como também temos o dever de tentar dar uma ajuda aos nossos ouvintes, desafiamos a pensar um bocadinho nisto e pensar numa solução. Estabelecer uma estratégia que lhes permita, se um dia, credo Deus que não, se virem num destes açados, conseguirem sair deles com vida. Numa situação deste género, em que tu estás dentro de um carro e o carro começa a rolar em direção à água, mergulha e desaparece, flutua um pouco, uns segundos, e depois acaba por ir para o fundo, tens tudo contra ti. Rapidamente, o medo impede-te de agir, é mais o pânico do momento, do que o medo. Depois de te afundares na água, a visibilidade é zero, se for de noite, sobretudo, é muito difícil. Ficas sob um stress imenso. Depois sentes a água entrar e percebes o que é que vem aí, ou seja, tudo aquilo está contra ti. Se a isto somares, por exemplo, uma ou outra situação, pensares que a queda na água pode ter ocorrido após um embate numa árvore, ou num rail, ou um despiste seguido de capotamento, por exemplo, aí podes estar atordoado, podes ter ferimentos que te limitem até a mobilidade. Ou seja, nada daquilo é bom. É melhor que as pessoas estabeleçam uma estratégia, arranjem uma estratégia e saibam onde está o quê para os ajudar a sair daquela situação. E é melhor pensar nisso antes que aconteça o acidente. E sempre na esperança que nunca aconteça o acidente.
Claro. Obviamente que o ideal é nunca passarmos por uma situação deste tipo.
Certamente.
Como é certo. Mas temos partir do princípio que acontece. Sabemos que acontece. Como é que pode um condutor ou até mesmo um passageiro estar preparado para tentar sair de um veículo e regressar à superfície?
Olha, Miguel, David Copperfield será o homem ideal para te responder essa questão. Ele consegue sempre safar-se das situações mais incríveis. Mas como não somos o David Copperfield, temos de ter presente que não morremos ainda. Vamos ter que fazer alguma coisa para viver. O tempo não abunda e há duas coisas que é fundamental realizar para início de conversa: uma é tirar o cinto de segurança e a outra é abrir ou partir os vidros das portas. Se os vidros forem de acionamento manual, toca a dar à manivela e aquilo abre num instantinho, funcionam sempre. Se tiverem vidros elétricos, é a altura de amargurar o facto de terem pago mais por um sistema que não lhes vai ajudar a escapar naquele momento. Contudo, enquanto o carro está a flutuar, ou seja, o carro não mergulha, a não ser que caia de uma ponte ou assim uma coisa do género, o carro não desaparece logo para as profundezas do rio, ou do mar, ou do lago. Se entra a rolar na água, o carro flutua durante uns segundos, porque a água entra no habitáculo, que tem orifícios por onde sai o ar lá de dentro, não é uma coisa estanque, tem que ter ventilação. O ar entra, logo a água também entra. Mas, durante aqueles breves instantes em que o carro está a flutuar e os vidros estão ainda fora da água, ou seja, tens ali água pela baladeira ou pouco mais, tens as rodas ainda parcialmente descobertas, nessa fase, o mais natural é que os comandos elétricos dos vidros ainda funcionem. É abrir, todos. A seguir, o carro vai mergulhar a frente ou a traseira, vai ficar assim a fazer um pino, uma vez que afunda pela parte mais pesada, que é normalmente onde está o motor e a caixa de velocidades, são as peças mais pesadas do carro. Se não conseguires abrir o vidro, vais ter que o partir. E aí há vários sistemas. Enquanto não tiveres o habitáculo cheio de água, tu tens a mesma mobilidade de movimentos que tens quando estás sentado à tua secretária. Podes partir com o tevel, podes partir com não sei o quê, por muito que doa a seguir, nada que o Herdol não trate, mas consegues trabalhar. Normalmente os especialistas dessas coisas aconselham a retirar o encosto de cabeça. É mais fácil nos carros mais antigos do que nos carros mais novos, mas é possível retirar o encosto de cabeça e aqueles dois ferros que fazem de guia do encosto de cabeça facilmente partem o qualquer vidro. Uma vez dentro da água, submerso, é muito difícil realizar, e tu sabes disso, no mar quando nadas, sabes que é muito difícil fazer movimentos muito rápidos que possam levar a energia suficiente para partir o vidro. São as coisas que tens que fazer antes de teres o habitáculo cheio de água, que é cinto de segurança, abrir ou partir os vidros.
Estamos aqui a falar muito dos vidros. Sair pela porta não é uma opção?
Não é. Se conseguires abrir antes, imagina que o carro vai a rolar, já tens a água pela base das portas, aí podes abrir a porta e sair rapidamente. Mas tudo depende do que é que tu vou à água, ou seja, o que é que tu fizeste para mereceres esse castigo. Uma vez com a água pelos vidros, a porta é quase impossível de abrir, porque a pressão da água que te rodeia impede por completo abrir a porta. E uma vez mergulhado o carro, então não abres mesmo a porta, tem que ser pelo vidro. Não te preocupes em partir o vidro, que o carro vai ficar sem conserto ou muito difícil de recuperar, mas o mais barato daquilo tudo é o vidro que tu vais partir.
Esta questão dos vidros. Há vários vidros, não é? O que é o ideal? Os vidros das janelas, o para-brisas, o óculo traseiro? Neste caso, o para-brisas até acaba por ser de maior dimensão, mas o que é que faz mais sentido aqui?
Não é uma questão de sentido. Tem a ver com o acesso, tem a ver com a forma do carro. Imagina um desses cupês muito baixinhos, normalmente têm uns para-brisas muito inclinados, de difícil acesso, tens o tablier à frente e para além do volante. É complicado. E depois, sabes também como eu, que o para-brisas é um vidro laminado, ou seja, são várias lâminas, várias fatias de vidro e uma película que o une. Tu não consegues partir, estilhaçar um para-brisas. Consegues, quando muito, se lhe deres pancada suficiente, consegues desencaixá-lo, mas isso leva tempo. Não é fácil.
E ainda bem que assim é, porque é isso que garante também a segurança na estrada quando vamos com alguma pedrinha no vidro ou com alguma pedra maior. É isso que garante que o vidro não voa para nós.
É um sistema de proteção, que neste caso não te vai ajudar. Mas na prática, tu tens ao teu lado um vidro de uma janela, da porta. Dá-te um espaço mais que suficiente para conseguires sair dali, se conseguires abrir o vidro ou parti-lo. E é relativamente simples. Lamentavelmente, todos nós já passámos por, às vezes a bater uma porta, o vidro estilhaça-se e desaparece, faz-se em mil bocadinhos e agora tu queres mesmo que ele faça isso.
Sim, neste caso, acaba por ser o que faz mais sentido. Fazes ideia até que ponto são frequentes os acidentes em que automóveis caem na água e se afundam com pessoas a bordo?
Olha, quando li sobre o que aconteceu àqueles dois jovens, pesquisei rapidamente o que é que acontecia, o que é que aconteceu, se houve mais casos, pelo menos recentemente. E rapidamente encontrei um acidente, um despiste de um carro ali em Tavira, ia com quatro pessoas lá dentro e foram parar a um riacho. Acho que não era muito fundo, pela descrição, mas foi suficiente para morrer, creio que não foi todos, pelo menos a maior parte deles. Ou seja, é uma coisa que percentualmente poderemos ter um num milhão. Ok, mas como são uns 10 milhões de portugueses, tem 10 pessoas por ano que morrem nestas condições. Se calhar as enxurradas, aquilo que falávamos no início, provocam mais mortes deste tipo, porque arrastam os carros e depois aquele resboliço de pedras, árvores, vidros partidos e as pessoas lá dentro, acaba por causar aquilhas. Felizmente, é muito pouco frequente, mas toca a todos. E a ideia é que não nos toque a nós, a nós e a quem nos ouve. E se pelo menos nos tocar, que consigam evitar maus bolhos.
Alfredo Lavrador, está feita mais uma Operação Stop, com recomendações sobre como lidar com esta situação em que automóveis ficam submersos. A Operação Stop desta semana está feita. Voltamos no próximo domingo. Um abraço.
Para a semana com um tema mais agradável.
Isso, garantidamente. Um abraço, Alfredo.
Um abraço.