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"Operação Stop" na Rádio Observador. Vamos falar de automóveis e contamos, claro, com o nosso Alfredo Lavrador. Alfredo, bem-vindo.
Olá, viva, Miguel. Obrigado por me teres mais uma vez.
É verdade, é sempre um prazer. Vamos hoje falar sobre gasolina, sobre diesel. Vamos olhar para o que pode acontecer efetivamente nos próximos anos. Eu confesso que já começo a ter dúvidas quanto à possibilidade ou não de ser permitido adquirir, neste caso, automóveis com motores a gasolina ou a gasóleo até esse ano de 2035. Afinal, a venda deste tipo de veículos vai ou não ser banida da União Europeia, fazendo as contas, dentro de 13 anos?
Olha, Miguel, eu percebo a tua dúvida, porque se tem falado bastante no assunto e as explicações de suporte, às tantas, é possível que os nossos ouvintes fiquem meio baralhados com aquilo que ouvem falar. Mas começando, indo por partes, vamos dizer já para o computador. Em julho de 2021, a Comissão Europeia apresentou uma proposta que, entre outros temas, propunha o fim dos motores de combustão em 2035. E foi essa a primeira vez em que se falou no assunto. E esta proposta surgiu, como podes imaginar, depois de muita análise, discussão com os técnicos, com os construtores de um lado e os países que o representam, porque imagina tu, na Alemanha, a principal indústria é automóvel. Logo, tudo que mexa com os empregos, os impostos que as empresas pagam devido aos lucros, etc, é importante para o governo alemão e logo o governo alemão protege-os e a mesma coisa acontece em França, em Reino Unido, etc. E do outro lado contrário, digamos, da barricada dos construtores, temos os ambientalistas, também têm as suas bandeiras pelas quais se batem. Mas isto, te contava teu, em julho de 2021. Em maio de 2022, já este ano, o Parlamento Europeu aprovou esta proposta da Comissão Europeia, mas em resposta a esta aprovação, o grupo do lobby dos construtores alemães, sobretudo, apresentaram contrapropostas para suavizar as medidas. E a este pedido de suavizar as medidas, os ambientalistas responderam com um pedido e propostas a acompanhar, para regras mais restritivas, que também tiveram que ser votadas. E foram estas duas situações, por um lado, um pedido para agravar as medidas, por outro, outro pedido para suavizar, que justificou esta última votação, já em junho, este mês, no princípio de junho, que continuou a garantir que os motores a gasolina e a gasóleo, como tu falavas e muito bem, continuam banidos a partir de 2035.
Então, mas o que é que suscitou estas dúvidas e este aparente avanço e recuo, toda esta situação desta forma? Pronto, agora temos 2035, mas o que é que suscitou tudo isto?
Olha, Miguel, na prática, tem tudo a ver com os interesses completamente antagônicos dos ambientalistas por um lado e dos fabricantes de automóveis por outro.
Ok.
Os ambientalistas, por vontade deles, antecipavam o fim da venda de motores de combustão já para ontem, enquanto os construtores pretendem continuar a vender aquilo, porque é a realidade. E aqui, construtores, estou a falar dos europeus, são construtores que há 100 anos vendem carros com motor a combustão, e muitos deles com lucros chorudos sempre, sobretudo os alemães, e que gostavam de continuar a vender exatamente aquilo em que são bons e a continuar a manter os lucros que sempre tiveram. E para mais, não estão nada inclinados para investir em novas fábricas, novas plataformas e novas tecnologias a que os veículos elétricos obrigam. Logo, percebes que há já ali o problema de interesses difíceis de contemplar, digamos assim.
Sim, mas então, que outras propostas foram colocadas aqui, neste caso, em cima da mesa, pelo lobby dos construtores?
Do lado dos construtores, o que eles propuseram, depois daquela aprovação em maio, para manter os motores de combustão, o objetivo deles era retirar os motores, substituir os combustíveis fósseis, portanto a gasolina e o gasóleo produzidos a partir da refinação do crude, substituindo por combustíveis sintéticos, que são produzidos com carbono capturado da atmosfera e hidrogênio gerado a partir da eletrólise da água, que por sua vez a energia acaba por ser verde, logo é não poluente. E no papel, esta proposta faz algum sentido, porque efetivamente o combustível sintético é menos poluente que o combustível fóssil. Porém, é menos poluente, não quer dizer que não seja poluente todo, porque é. E sobretudo polui no centro das grandes cidades, onde os veículos com esses combustíveis se deslocam, e isso é algo que o Parlamento Europeu quer evitar. E daí que essa proposta tenha sido recusada.
E os ambientalistas, neste caso, não tentaram também igualmente incrementar aqui o nível das exigências?
Pois, os ambientalistas, acho que é aquela rapaziada que quer sempre este mundo e o outro e não se preocupa muito sobre quem vai pagar a fatura. É preciso ter presente, vamos esquecer agora um bocadinho que estamos em envolvidos Direta ou indiretamente, numa guerra que nos está a prejudicar a todos entre a Rússia e a Ucrânia. Mas só para teres uma ideia, nesta altura, a nossa sociedade está a investir muitos meios, incentivando a venda de veículos elétricos, a construção de redes de postos de carga. Estou a falar na Europa. Substituir a produção de eletricidade, gerar eletricidade sem ser pela queima de carvão ou de combustíveis fósseis, e desenvolver soluções menos poluentes para os motores dos aviões e dos navios, que são uma fonte muito maior de poluição do que os automóveis.
Certo.
E tudo isto precisa de muito tempo e de muito dinheiro. Logo, é preciso ter alguma calma e não exagerar nesta velocidade da transição. É algo que os ambientalistas nem sempre percebem.
Sim, percebo. Mas achas mesmo que não vão ser vendidos veículos com motor de combustão a partir de 2035?
Não sei se és fã dos motores de combustão. Eu sou, estou-te a dizer isto, mas quando um dia desaparecerem os motores V12 e V8 da Ferrari, eu vou ficar tristíssimo.
Sim.
Na prática, esses não vão desaparecer, esses vão continuar a andar, os carros mesmo. O que estamos a falar é a proibição da venda de carros novos com motores de combustão em 2035. Não é proibir os carros de combustão de circular. Ou seja, quem tem um carro de combustão, continua com ele. Porque o Parlamento Europeu considera que os carros podem ser usados durante 10, 15 anos, logo, até 2050, todos esses veículos, mesmo que sejam comprados novos em 2034, a consumir gasolina ou gasóleo, vão deixar de andar alguns antes de 2050. Logo, o problema fica resolvido. As pessoas têm que estar, por um lado, tranquilas em relação ao facto que se tiverem um carro agora ou se comprarem um carro em 2034, com motor de combustão, vão poder continuar a utilizá-lo até ele cair de podre. Ou então até serem incentivados a não o usar, que é outra alternativa. Seja por não poderem aceder a certas zonas das principais cidades, seja por alguém lhes propor um negócio muito interessante e competitivo para se livrarem do carro poluente. Agora, na minha modesta opinião, e isto vale o que vale, eu estou convencido que os automóveis com motores de combustão vão deixar de ser vendidos muito antes de 2035. E o curioso é que não vai ser Bruxelas que vai brandir a sua espada e impedir os clientes de comprar os carros. Os carros não vão ser produzidos, porque vão deixar de ser competitivos face ao lucro que geram. Ou seja, os construtores vão descobrir que conseguem ganhar, e hoje em dia a maior parte deles já não têm dúvidas a esse nível, que vai conseguir ganhar mais dinheiro com os carros elétricos do que com os carros tradicionais, com motores de combustão.
E, portanto, vai deixar de vender os carros de combustão.
Não vão fabricar.
Pois.
Por isso, quando lá fores chorar a dizer: "Eu quero um carro com motor de combustão", eles dizem: "Lamento imenso, mas já não há. Já houve, acabaram-se. Eram muito bons, mas acabaram-se". E depois há outras coisas que temos que ter em consideração. A partir de 2025, e já não falta muito tempo, vão começar a chegar ao mercado europeu vários modelos elétricos mais pequenos, mas não estou a falar do minicarro daqueles que parece que é das bicicletas. Estou a falar de um carro tipo um Peugeot 208, um Renault Clio, carros de quatro metros, que vão ser propostos entre 20 e 25 mil euros. Hoje em dia, o elétrico mais barato do mercado custa de 30 mil euros a 34 mil euros. Não estou a falar do Dacia Spring, que é um caso à parte. Ou seja, vão aparecer carros muito mais baratos, muito mais competitivos. E tudo isto, essa democratização da tecnologia, também vai ajudar a que as pessoas entrem por aí. Logo, acredito que muito antes de 2025, o grosso dos construtores vão deixar de propor veículos de combustão.
Muito bem, vamos ver o que é que o futuro nos dá. Alfredo Lavrador-
Apostamos um almoço.
Muito bem, fica apostado. Tu dizes que antes de 2035, o próprio mercado vai acabar por resolver esta questão e não vai ser preciso qualquer tipo de lei, porque o mercado a funcionar vai despachar isto um bocadinho mais depressa, não é?
É. Isto são empresas que, felizmente, se destinam ao lucro, não são ONGs. E quando perceberem que o lucro está aí, vão ser os primeiros a fazer o shift para os elétricos.
Muito bem, Alfredo. Está feita mais uma operação stop. Estamos de regresso na próxima semana. Na próxima semana ainda vamos ter à venda carros a combustão.
Infelizmente.
Na próxima semana, precisamente. Este não precisamos apostar.
Não muitos, porque com a falta de chips e de cablagens, etc, eu acho que todos os construtores gostariam de conseguir construir mais uns carrinhos do que na prática conseguem.
É verdade. Está feita a operação stop. Estamos de regresso na próxima semana.