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A Operação Stop está com a Rádio Observador, no programa em que falamos do mundo automóvel. Eu sou o Miguel Cordeiro. Comigo está o Alfredo Lavrador. Alfredo, bem-vindo.
Olá, Miguel. Obrigado.
Parece que eu posso deixar o mundo da rádio, tu podes deixar a escrita e podemos todos ir dar aulas de condução. O governo criou um novo método para formar os interessados em obter a carta de condução B, que permite conduzir veículos até 3500 quilos e nove lugares. O que é que muda com esta alteração? Parece que vamos ter tutores a substituir instrutores de condução.
Não será bem assim. Digamos que a ajudar, a complementar. Essencialmente, esta proposta não toca em nada, rigorosamente nada, no que tem a ver com a formação em termos de código.
Certo.
Código temos de continuar a estudar e fazem aquelas raspalheiras completamente parvas. A quantos metros da curva é que se pode estacionar. Enfim, aquelas coisas que é fundamental e que todos nós cumprimos. Nunca. As alterações surgem no capítulo das aulas de condução obrigatórias, ou seja, nenhuma escola, até porque tem que faturar uma determinada número de euros, logo tem que se dar alguma coisa em troca, obrigam-te a ter 32 aulas. Hoje em dia é 32 aulas. Esse número vai passar para 16, ou seja, é uma formação substancialmente mais leve. Para complementar a prática da condução, ou seja, para compensar aquelas 16 aulas de que os alunos são aliviados, digamos assim, é permitido que esses alunos conduzam na via pública, sem carta de condução, o que obviamente hoje em dia é proibido, mas se forem acompanhados por aquele tutor com que estávamos a brincar há bocadinho. Tem que ser alguém com mais 10 anos de carta, sem crimes ou contraordenações, e eu acho que só este número do sem contraordenações elimina 50% da população. Um tutor com estas características tem ainda de frequentar uma formação mínima para poder ajudar o seu protegido. Mas atenção, as escolas de condução continuam a ser as únicas responsáveis pelos exames, pela respetiva avaliação, possuindo ainda a capacidade de exigir mais aulas se o aluno for um desastre ao volante. Logo, aí não se mexeu nada. A única coisa que se mexeu foi no número de aulas e a complementaridade com o tutor.
Mas isto parece que cai um pouco do nada. Para quem está mais desatento, ou até para quem possa estar atento, mas aparece esta medida esta semana. Qual é o objetivo que se pretende com esta nova medida?
Eu não faço ideia. Aliás, ninguém faz ideia. Sabemos, sim, que Portugal tem um número perfeitamente assustador de acidentes, de atropelamentos, e isto porque a maior parte dos acidentes com mortes acontecem nas cidades, não nas estradas e nas autoestradas. E isso era algo que importava melhorar, no mínimo. Resolver é impossível, mas melhorar. Pelo menos aproximar-nos das médias dos outros países civilizados. Também não foi anunciado se esta redução do número de aulas implica também uma redução no custo da carta de condução, uma vez que hoje não tiras carta em lado nenhum com menos de €500 a €1000, dependendo da zona do país e do tipo de escola. Há umas escolas low cost que oferecem menos e cobram menos. Sabemos como é que é. Funciona tipo supermercado, mas agora com cartas de condução. Eu creio que o objetivo destas modificações é melhorar o nível da condução dos alunos antes de os soltarem nas vias públicas. Todos sabemos que as aulas habituais de condução praticamente não incluem idas à estrada e muito menos autoestrada, pelo menos em quantidade satisfatória. Um aluno tem 32 aulas, faz o exame, não passa das 30 à hora ou das 40, empata o trânsito e então ao lado. E de repente, soltam-no na estrada e na autoestrada em que ele pode fazer 120, se cumprir as normas, que está ainda para ver, e isso é um salto brutal, sem acompanhamento, é aquele salto no escuro. Muito menos ensinam os alunos a fazer uma travagem de emergência ou uma manobra de evasão, seja ela em piso seco e muito menos em piso molhado, especialmente em curva, que é onde é mais fácil ou onde estou menos ciente perder o controle do carro. Isto será algo que se um pai, uma mãe, um irmão mais velho, um amigo, dos tais que não tenham contraordenações, se conseguir achar um, dou-te um doce, ajudar a que o candidato a futuro encartado consiga ter adquirido uma experiência que na prática não tem. Neste capítulo, não acho de todo mal.
Nós já ouvimos algumas reações ao longo desta semana. Por exemplo, a reação da Associação de Escolas de Condução, que critica a medida. Será que tem razão ou é uma reação de parte interessada, a antecipar também problemas de rentabilidade para o futuro?
Sim, já li alguns que esperam ou temem despedimentos na casa dos 4 mil funcionários, caso isto avance assim. Mas os padeiros também reclamam quando a farinha sobe e coisas do gênero. Sempre que são associações de setor, eu nunca os vi muito preocupados em melhorar a qualidade da condução que proporcionam e cobram. É natural que estejam preocupados, mas não é isso que está em causa. Não temos nada contra, até gostaríamos que os profissionais das escolas de condução Tivessem uma vida espetacular, mas estamos mais preocupados com a formação dos alunos, que não é boa, ainda que isso não seja a única responsabilidade do exagerado número de acidentes e de mortos rodoviários. Mas é o que é.
Olhando para esta medida, esta solução dos tutores, é uma invenção portuguesa, podemos dizer isso, ou é uma prática comum noutros países europeus?
Segundo o Observador, que é um jornal que eu aconselho e que conheço bem, há outros países que já têm este tipo de solução implementada, que é o caso da França, da Áustria, da Bélgica e creio que também o Reino Unido, não tenho a certeza. Ou seja, isto não é propriamente uma inventona. Agora, se funciona, depende da forma como tu regularizas a situação. Agora, há muitos pais que não podem ajudar os filhos-- vamos pegar na situação mais normal, não podem ajudar os filhos a conduzir na via pública, porque isso é ilegal e em caso de acidente custa caro. Agora, há muitos pais que ensinam os filhos em parques de estacionamento vazios. Por exemplo, imagina o parque de estacionamento do Benfica quando não há jogo. Estou a exagerar, não vá estiver aqui alguém. Mas há N parques de estacionamento. Há 19 anos atrás, ensinei uma filha no parque do Estádio Nacional, que não tem ninguém a maior parte do tempo. Tenho um filho de 14 anos que também comecei agora a permitir-lhe contactar com a condução em zonas de estradas de terra batida, no campo, etc. Não penso ganhar nenhum prémio com isto, se a polícia me apanhar, mas não é uma situação propriamente ilegal, desde que seja numa área limitada, etc. Enfim, logo se vê. Quando me for apanhado, eu aviso. Agora, quem se interesse pode ajudar os miúdos a lidar, não durante o acidente, mas antes que esse acidente aconteça, com uma situação de perda súbita de aderência, uma travagem no molhado. É uma coisa complicada, mesmo que os carros tenham ABS, etc. Aliás, a maior parte dos condutores têm carros com ABS e não se conseguem desviar de um obstáculo colocado à sua frente. E não se apercebem porquê? Porque nem conseguem raciocinar e pensar que conseguem virar o volante, que é para isso que lá está o ABS. Percebes? E se lidarem com isso anteriormente, é mais fácil sobreviverem a um embate, por exemplo, ou evitarem o embate. Já agora, para os pais que não tenham tempo ou jeito, há mesmo escolas que ensinam toda a gente, miúdos inclusive, com ou sem carta, também não interessa, em condições limites. Não há muitas escolas destas, mas certamente há várias espalhadas pelo país fora. Eu conheço uma que é aqui relativamente próximo de Lisboa, que é em Palmela. Passe a publicidade, basta ir ao site que está lá, Milagem New, e eles fazem cursos de condução defensiva, ou seja, ensinam as pessoas a lidar com uma manobra evasiva, uma bola, um miúdo que sai a correr detrás do autocarro, e como evitá-lo, mas sem perder o controle do carro. Muitas vezes tu evitas o obstáculo e bates no desgraçado. Às vezes até atropelas a pessoa que está no passeio, para evitar aquela de um cão ou uma coisa do género. E eles ensinam esse tipo de coisas. E eu acho isso fundamental. É barato e chega a ser divertido, até.
Há aqui uma questão, há sempre as questões que se levantam perante este cenário de tutores. Quem é o responsável perante um acidente? Está um aluno ao volante, está o tutor no banco do lado, quem é que fica com a responsabilidade perante um acidente?
Esse é um tema que vai afastar muitos candidatos a tutores. Porque não foi um tema já tocado neste anúncio disto, mas o que faz sentido é que se aplique a mesma regulação que existe com os instrutores e os carros das escolas de condução. Quem paga as favas e a fatura é o instrutor. Logo, faz sentido que seja também o tutor. Agora, deixa-me chamar a atenção para um pormenor. É completamente diferente o instrutor ensinar um aluno num carro da escola, que tem, como tu sabes muito bem, porque todos nós tirámos a carta, tem um duplo retrovisor interior, que permite ao instrutor ver o que se passa atrás e ver quem se aproxima tão bem como quem está ao volante. Tem um segundo retrovisor exterior do lado do instrutor, porque o retrovisor normal está apontado ao condutor, não ao instrutor. Muitos deles têm também um retrovisor do outro lado, aqueles que permitem uma visão com um raio maior. E sobretudo têm, ou deveriam ter, forma de imobilizar o veículo caso o instruendo perca a cabeça ou faça mais nada qualquer.
E mais, e tem o carro identificado. É obrigatório por lei estar identificado o carro, para que os outros condutores saibam que ali vai uma pessoa que está a ter uma aula de condução.
Isso afasta e facilita isso tudo. Isso não acontece nos carros normais. Logo, eu prevejo alguns dissabores, sobretudo se teimarem em andar com o carro na cidade à hora de ponta. Eu acho que é fundamental, mas sabes uma coisa, ó Miguel, tudo isto pode ser feito. Ou seja, vamos lá acompanhar o ciclo. Os miúdos estudam o código, fazem exame do código e passam. Boa, felicitações. Depois começam as aulas de condução, têm as aulas todas e passam e tiram a carta. Com o papelinho já podem guiar. Agora, os pais, os adultos com mais experiência, podem chegar ao pé deles e assim: "Ok, já tens carta, agora vens comigo". E aí é legal o que estão a fazer e podem-nos ajudar, não diretamente no centro de Lisboa ou do Porto, mas vão para tal sítio, assim mais à vontade, ensinam-nos a fazer uns perigosos, como travar de repente com a direção virada, tirar o pé do travão para ver o que acontece e eles não vão gostar. Essas coisas, percebes? Lidar com problemas antes que os problemas apareçam. Eu acho que é muito mais simples, mas estou para ver o que é que vai sair daqui. Sei que a própria PRP, a Rodoviária Portuguesa, também avançou com algumas propostas, algumas soluções, que me parecem fazer sentido, se puder ser melhorada. Agora, se o sistema já existe noutros países, se calhar não é mau de todo.
Sim, vamos ver como é que corre. De facto, é uma nova medida, surpreendeu muita gente esta semana, a possibilidade de ter a parte da condução, da formação para tirar a carta de condução, mas a parte prática de conduzir com recurso a um tutor. Está feito esta semana, esta edição da "Operação Stop". Estamos de regresso para a próxima semana. Alfredo, um abraço.
Abraço, Miguel.