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E já cá tenho comigo o Alfredo Lavrador, o mundo automóvel sempre em destaque aqui na Rádio Observador, para mais uma edição do "Operação Stop". Alfredo, muito bem-vindo.

Obrigado, Nelson.

Vamos falar de reciclagem e de baterias, que normalmente vão para o lixo, mas foi agora anunciado que, até com a ajuda dos fundos do Plano de Recuperação e Resiliência, vai ser construída em Portugal uma fábrica destinada à reciclagem de baterias de lítio e será a única na Europa Ocidental. Tenho aqui várias questões, Alfredo, vamos já a uma primeira. Esta fábrica vem para Portugal porque a reciclagem de baterias velhas é uma solução muito poluente e nenhum outro país europeu a quis?

Assustaste logo.

É o caminho.

No tema essencial.

É o caminho que acontece nestas questões, não é?

É uma pergunta bem colocada, mas antes disso, para posicionar o assunto junto dos nossos ouvintes, a fabricação de baterias sempre teve dois problemas muito graves e todos eles relacionados com o ambiente. Um é a extração dos metais, a maior parte deles são metais, que são necessários para produzir uma bateria. E essa extração ocorre sempre em países longínquos, África, sobretudo, em que as condições são muito más e gerando muita poluição. Depois, a segunda parte é a produção das baterias, verdadeiramente dita, que também gera poluição. Portanto, partindo deste princípio, a verdade é que a reciclagem das baterias para recuperar os metais utilizados na sua produção, tem evoluído de forma impressionante. Aliás, tudo na vida, da medicina, em tudo o resto, e por que não nas baterias? Hoje é possível recuperar mais de 90%, em alguns casos até 98% dos materiais utilizados numa bateria velha, para com eles fabricar novas baterias com capacidade similar. A perda é mínima. Aliás, hoje em dia há mesmo empresas a desenvolver soluções que conseguem atingir 100% de recuperação de materiais velhos, de baterias usadas, tipo lítio, cobalto ou níquel, também o alumínio e o cobre e até mesmo a grafite, calcula tudo, que é carbono, mas é muito utilizado nos ânodos atuais. Como vês, está tudo bem encaminhado, porque deixamos de necessitar de tanto material minerado, para produzir baterias novas, coisa que até aqui era uma constante, não havia praticamente reciclagem para recuperação de metais. Hoje em dia é possível recuperar, aparentemente em breve, muito em breve, até 100%.

Tinha aqui também uma outra questão que é relacionada com o facto de haver ou não outros países interessados em possuir esta fábrica de reciclagem de baterias, que vai acabar em Portugal, mas havia outros interessados?

Isto não foi anunciado, mas supõe que a tua questão é até que ponto é que isto é tão mau para o ambiente, e supõe que é uma questão partilhada com muitos dos nossos ouvintes, é tão mau para o ambiente que só Portugal é que quis uma fábrica destas. Não é verdade, isso não se confirma. Posso-te garantir que na Península Ibérica esta é a única fábrica que de momento vai existir. Mas para tranquilizar quem nos está a ouvir, posso avançar que há vários países que possuem instalações similares, e nenhum deles é problemático, não é um país de terceiro mundo, é pouco mais ou menos. Posso dizer que a Noruega, que é um país particularmente belicoso em relação ao ambiente, recicla 12 milhões de toneladas de bateria por ano, numas instalações que possui no país. A Alemanha tem só quatro fábricas deste tipo para recuperar materiais para os acumuladores, existindo mais duas instalações fabris do gênero em solo europeu, respetivamente na Polónia e no Reino Unido. E sabes que hoje, com o recurso à hidrometalurgia, reciclar baterias é uma operação muito mais limpa e que, em termos ambientais, já não mete medo a ninguém.

A reciclagem de baterias, de facto, também teve aqui uma grande evolução, é cada vez mais amiga do ambiente e muito por culpa dessa hidrometalurgia. O que é isto, Alfredo?

Olha, para não estar a aborrecer quem está em casa a ouvir-nos ou no carro, a hidrometalurgia é uma técnica específica para extração e purificação dos metais. Recorre a reações químicas, em meio aquoso, o que permite francamente poupar o ambiente, reduzir emissões tóxicas, reduzir basicamente os poluentes. E isso é a grande vantagem. É basicamente esta hidrometalurgia que torna tudo mais simples. Lembra-te que a bateria tem que ser destruída em milhares de pequenos bocadinhos mínimos, para expor o metal que se pretende extrair e tudo isto é feito de uma forma, hoje em dia, muito mais evoluída e mais amiga do ambiente.

E esta questão da reciclagem de baterias parece a melhor solução. Quais são as vantagens de reciclar uma bateria de lítio?

Olha, é uma boa solução e agora é uma solução, porque finalmente é possível reciclar uma bateria sem poluir tremendamente e simultaneamente deixar de recorrer em grande quantidade aos metais extraídos numa série de minas onde ninguém quer ir, algures no meio de África, sobretudo aquelas do cobalto, etc. Eu e muita gente, não estou sozinho nesta ideia, acho que há outra solução que começa já a dar os primeiros passos e que tem, sobretudo, pés para andar. Estamos a falar de utilizar as baterias. Hoje em dia, toda a gente que pode, que tem meios, mas, sobretudo, que tem condições para recorrer a esta solução, aposta nos painéis solares. Basicamente porque investe um bocadinho à cabeça, mas a prazo deixa de prescindir de forma tão evidente da energia que compra aos operadores da rede elétrica. Esta solução é muito mais interessante se for acompanhada por baterias estacionárias. As chamadas baterias estacionárias são aqueles acumuladores que servem para armazenar energia quando há sol, para depois utilizares quando deixa de haver sol. E a bateria de um carro pode estar morta. Diz-se que está morta quando perde 30% da sua capacidade inicial, passa a ter apenas 70%. Essas baterias a 70%, uma vez retiradas do carro e adaptadas por empresas especializadas do mercado para baterias estacionárias, duram-te o resto da vida, porque nunca mais têm cargas rápidas, nunca mais têm que alimentar um motor potente, nunca mais são abusadas, digamos assim, em termos de utilização, permitindo que tenha uma vida confortável na velhice, entre aspas, e armazenando a energia que tu deixas de consumir à rede, o que é um excelente negócio. Eu acredito que, para muita gente que possa, as baterias estacionárias, em paralelo com os painéis solares, são a melhor solução para quem tem que mudar a bateria do seu carro, quando chega a essa altura. Agora, a reciclagem das baterias é excelente em termos de ambiente, porque deixas de minerar e deixas de poluir quando as produzes.

Ficam também mais baratas, imagino.

E ficam mais baratas, porque obviamente, a partir do momento em que consegues ter o níquel, o cobalto, os metais que normalmente necessitas para produzir as baterias, passam a estar disponíveis mais baratos, o preço da bateria continua a baixar, tem vindo a baixar e vai baixar ainda mais.

Está feito o "Operação Stop" desta semana, com o Alfredo Lavrador, o nosso especialista no mundo automóvel. Pode também, sempre que quiser, ouvir todos os episódios desta "Operação Stop" no site do Observador e nas plataformas de podcast. Obrigado, Alfredo. Um abraço.

Abraço, Nelson.