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Se quiser ouvir todos os episódios de seguida, basta ser assinante Standard ou Premium do Observador. Para assinar, vá a observador.pt/assinar. É o dia 25 de outubro de 1965. O suíço Raymond Quendoz acaba de entrar no aeroporto de Havana, em Cuba. Vem buscar a mulher, que foi passar uns dias de férias ao México. Ou melhor, espera vir buscar a mulher. O plano inicial da portuguesa Annie Silva Pais era passar duas semanas fora para descansar e visitar uma amiga. Mas entretanto, já passou mais de um mês e Annie ainda não voltou. Pior do que isso: esta já é a terceira vez que Raymond vai ao aeroporto esperar por ela. E das outras duas, acabou a fazer o caminho de volta à casa sozinho. Aconteceu primeiro no dia 6 de outubro, uma quarta-feira, e aconteceu outra vez no dia 18, uma segunda. Desde então, já passou mais uma semana. 25 de outubro é a última data para o tão aguardado regresso. E não calha nada mal. É justamente o dia em que fazem cinco anos de casados. A relação tem vindo a piorar nos últimos tempos. Raymond acredita que aquele período de afastamento e agora a celebração do aniversário, até podem ajudar a um novo começo. Dentro de poucos minutos, vai finalmente reencontrar-se com a mulher. O avião da Cubana Aviación, que fez a viagem entre a Cidade do México e Havana, acaba de aterrar. Neste momento, Raymond Quendoz não admite outra hipótese. Lá dentro vem a mulher, com quem vive há dois anos em Cuba, desde que foi colocado na embaixada da Suíça em Havana. É diplomata, e esse estatuto permite-lhe estar muito perto do sítio onde o avião acaba de parar. É um local VIP, mesmo na pista. Raymond aguarda pacientemente, mas o desembarque está a demorar bem mais do que é normal. Só longos minutos depois da aterragem é que as portas do avião se abrem. Logo a seguir, as primeiras pessoas começam a sair. Uma a uma, descem as escadas e dirigem-se às instalações do aeroporto para o habitual controlo na entrada da ilha. Raymond assiste a tudo e continua à espera. Ainda não a conseguiu avistar entre a multidão. Mas há muita gente a sair. Annie deve estar quase a desembarcar. Até que, de repente, Raymond se apercebe de que não estão a descer mais passageiros. As escadas do avião são recolhidas, as portas fecham-se e o aparelho recomeça a andar. Annie não apareceu. Raymond é gentilmente afastado da pista por um homem que conhece bem. Encaminha-o para o armazém da alfândega e diz-lhe que já não pode estar ali. Os passageiros já desembarcaram todos. René Vallejo é amigo de Annie e visita habitual na embaixada da Suíça. É um dos comandantes da Revolução Cubana. Tem muito poder. É secretário, médico particular e um dos homens mais próximos de Fidel Castro. Na curta conversa que tem com Vallejo, Raymond Quendoz não consegue esconder o desconforto por mais uma vez Annie ter faltado ao prometido. "Esta menina só faz o que lhe dá na gana", chega a explodir. Tem a certeza de que é só mais um capricho da portuguesa por quem se apaixonou há cinco anos. Mas Raymond nunca mais a vai ver na vida. Seja em Portugal, seja em Cuba, toda a gente a trata carinhosamente por Annie É a alcunha de Ana Maria Palhota da Silva Pais, a filha única de Fernando Silva Pais Homem fiel a Salazar e à ditadura. Viria a ser o último diretor da PIDE. Annie mudou radicalmente de vida há três anos, quando o marido foi colocado na Embaixada da Suíça em Havana. Agora, o desaparecimento da portuguesa dará origem a um mistério de dimensão internacional, que vai mobilizar o responsável da CIA em Havana, o chefe dos serviços de segurança suíços, o mais alto representante de Portugal em Cuba e até Salazar e Fidel Castro. Durante meses, todas estas pessoas vão andar à procura de Annie. Todas, menos uma. Fidel sabe muito bem onde ela está. "Os Escândalos de uma Revolucionária" é uma série para ouvir em seis episódios, que faz parte dos podcast plus d'O Observador. É narrada por mim, Bárbara Branco, com banda sonora original de Frank Chaves. Episódio um: a filha do diretor da PIDE desapareceu.
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Kia. Movement that inspires. Annie não regressou das férias na última data combinada. Raymond não sabe o que fazer. Sai do aeroporto em direção à Embaixada da Suíça, onde vive. Quando chega, tem à espera um telegrama. Foi enviado nesse dia, às 16h10, a partir da Cidade do México, e diz apenas: "Partirei hoje via Europa. Escrevi à minha família. Annie". O telegrama não apresenta uma justificação, um pedido de desculpas, nem sequer deixa antever nada sobre o futuro. Raymond fica ainda mais preocupado. Logo a seguir, percebe que toda a correspondência privada de Annie desapareceu. Documentos, moradas de amigos, agendas com números de telefone de pessoas próximas. À medida que as horas passam sem notícias de Annie, Raymond começa a admitir outras possibilidades. Agora que pensa nisso, reconhece que antes de viajar para o México, a mulher andava estranha. Num relatório que mais tarde há de entregar ao embaixador suíço, Raymond escreve que Annie está a passar por uma crise muito forte, que se tornou mais séria antes das férias. Chama-lhe infantilismo e diz que ela sempre foi assim, mas ressalva: nos últimos tempos esse comportamento intensificou-se. A razão, continua o relatório, deve-se ao facto de o trabalho de Raymond Quendoz em Cuba estar prestes a terminar. O casal vai viver para Berna. Aparentemente, essa mudança nem estava a ser mal encarada. Raymond acha que a Annie se afastou dos amigos cubanos e tem mostrado algum entusiasmo com a nova vida. Até já enviou malas com roupa de inverno para a Suíça. Mas ao mesmo tempo emagreceu imenso e estava fisicamente esgotada. Raymond está confuso, inquieto e sem respostas. Decide ligar à amiga com quem a mulher esteve de férias na Cidade do México. Laura Bosques é filha do ex-embaixador mexicano em Cuba. Garante-lhe que não sabe de nada. Foi levar a amiga ao aeroporto, acompanhou-a até às escadas do avião, viu-a subir a bordo e até esperou que levantasse voo. Tem a certeza. Annie embarcou no avião que Raymond foi esperar na pista do aeroporto de Havana. Desde que se mudaram para Cuba, Annie fez amizade com várias pessoas ligadas à revolução, o que leva Raymond Quendoz ao passo seguinte: pedir ajuda aos cubanos. A primeira pessoa a quem se lembra de recorrer é René Vallejo. Estava na pista do aeroporto quando o avião de Annie chegou. Pode ter visto algo mais? Mas o contacto do médico de Fidel estava numa das agendas de Annie que desapareceram. Por isso, tenta Roberto Meléndez. Além de amigo da mulher, é chefe do protocolo do governo cubano e dos homens mais próximos de Fidel e de outras altas figuras do regime. Procura-o e pergunta-lhe se por acaso sabe alguma coisa sobre o paradeiro da mulher. E para surpresa dele, o cubano diz-lhe imediatamente que sim. "Annie mandou entregar-lhe uma carta", revela, instantes antes de lhe passar o papel para as mãos. É uma mensagem curta, datada de 25 de outubro, tal como o telegrama que a Annie enviou para o próprio marido. O conteúdo, percebe Raymond, também não é muito diferente. "Partirei amanhã para a Europa e escrever-te-ei a partir de lá." Há pelo menos uma coisa que não bate certo. Annie escreveu duas cartas na mesma data. Raymond recebeu a primeira, onde a mulher o informava de que iria partir nesse mesmo dia para a Europa. Na segunda, enviada a Roberto Meléndez, a portuguesa também anunciava que iria viajar para o mesmo destino, mas só no dia seguinte. A maior prova de que algo de muito errado se está a passar, reside no próprio papel da carta enviada a Meléndez. Esta mensagem não foi escrita em papel de telegrama. Vem numa folha com o timbre do Habana Riviera, o hotel casino inaugurado dois anos antes da Revolução Cubana, no bairro de El Vedado, pelo gângster russo-americano Meyer Lansky. Esta mensagem é a primeira indicação que Raymond Quendoz tem de que a mulher, afinal, talvez estivesse mesmo no avião que aterrou na véspera na capital cubana, vindo da Cidade do México. Agora, o diplomata suíço coloca a hipótese de Annie poder ter desembarcado e ter se escondido dele no Habana Riviera, ao que tudo indica, com o objetivo de apanhar depois outro avião rumo à Europa. O chefe de protocolo de Cuba, que lhe mostrou a mensagem de forma tão solícita, jura a Quendoz que não sabe mais nada. Não tem mais pistas sobre a Annie, mas pelo menos agora, os suíços sabem onde continuar a procurar. Inaugurado no final de 1957, o Habana Riviera foi o primeiro hotel de luxo a ser construído na ilha. Atrai pessoas de todo o mundo, principalmente pelo casino, e há de ficar para sempre ligado à revolução cubana. Primeiro, quando poucas semanas depois da tomada do poder, Fidel Castro realiza no cabaré Copa Room, o histórico bar do hotel, uma conferência de imprensa para explicar aos jornalistas estrangeiros o que está a acontecer no país. E depois, quando meses após o triunfo da revolução, o líder cubano manda encerrar o casino e nacionaliza o hotel. Meyer Lansky haveria de ficar conhecido como o contabilista da máfia e por inspirar o personagem do principal rival de Don Corleone no segundo filme da saga O Padrinho. Em 1965, o gângster já perdeu a participação que tinha no Havana Riviera e noutros dois casinos em Cuba. Por ordem direta de Fidel, todas as casas de jogo da ilha foram ilegalizadas. Apesar de tudo, as altas entidades do regime continuam a ter regalias. É com isso que Raymond se depara quando chega ao Havana Riviera para procurar a Annie. Ninguém com o apelido Silva Pais ou Quendoz deu entrada no hotel no dia 25 de outubro. Ou melhor, ninguém, a não ser que se trate de um convidado do governo. A informação dada pelo recepcionista é clara: Annie até pode ter passado a noite no hotel, mas se entrou acompanhada de uma alta entidade do governo cubano, é impossível descobrir-lhe o rasto. As estadias dos principais dirigentes do regime nunca são inscritas nos livros de registo. Mas Raymond Quendoz também não é um cidadão comum. É um diplomata e como diplomata, também tem privilégios. Pode aceder a informações que não estão ao dispor de qualquer um. A Annie está desaparecida há praticamente 24 horas. É o dia 26 de outubro de 1965 Na pista do aeroporto de Havana, está um avião da companhia Cubana Aviación, pronto a descolar. É o voo número 467, com destino a Praga. Hoje, é o único avião que vai sair de Cuba com destino à Europa, para onde Annie tinha dito que iria partir. Está tudo pronto pra viagem, que faz escala em Gander, uma cidade na ilha da Terra Nova, no Canadá. Os passageiros estão a bordo, a tripulação já fez os avisos de segurança e os motores já estão ligados. É hora de arrancar. Só que nesse preciso momento, toca um telefone. A chamada vem da central telefônica de Cuba e transmite uma ordem superior: o avião não pode levantar voo. É preciso esperar por uma senhora que está atrasada, mas já saiu do centro de Havana, em direção ao aeroporto. É a passageira número 62 na lista de embarque. A senhora pela qual todos aguardam é Annie Silva Pais. Quando aborda os funcionários da companhia cubana no balcão do aeroporto, este é o relato que Raymond Quendoz ouve. A mulher, garantem-lhe, entrou no avião e seguiu viagem rumo a Praga. Mas pro suíço, a história continua a não bater certo. Sabe que a Annie não tinha dinheiro pra comprar um bilhete de avião. E através da informação privilegiada a que tem acesso como diplomata, descobre que a passagem foi debitada na conta do Instituto de Aeronáutica Civil. É a prova que lhe faltava. Agora, Raymond Quendoz tem a certeza de que um organismo oficial de Cuba está envolvido no desaparecimento da mulher. E acaba por ser também a pista de que precisa pra procurar Annie de forma ainda mais ativa. Primeiro, comunica ao embaixador suíço o desaparecimento dela, mas a embaixada não dá grande importância ao caso, pelo menos não pra já. Raymond continua a investigação sozinho. E volta a usar um acesso que só o cargo de diplomata lhe confere. Recorre à Interpol pra tentar perceber se a Annie aterrou ou não em Praga. A intuição diz-lhe que não, mas só com provas vai poder ter certezas e, inevitavelmente, mudar o rumo da investigação. A Interpol confirma. Nenhuma passageira com os apelidos em causa, seja com o nome de solteira ou de casada, chegou a Praga no voo que saiu de Havana no dia 26 de outubro. Alguma coisa aconteceu à Annie Resta saber se decidiu abandonar o marido ou se está em perigo. Até agora, Raymond tem evitado os pais da mulher, mas não dá pra adiar mais. Pega no telefone que usa na embaixada da Suíça em Havana e liga diretamente pra casa dos sogros, na rua de Moçambique, em Lisboa. Pede pra falar com Fernando Silva Pais. Tinha a esperança de que a Annie tivesse ido pra Lisboa, mas nem o pai nem a mãe têm qualquer notícia da filha. Nem vão ter ao longo das semanas seguintes. Nem um telefonema, nem uma carta, nem um postal, muito menos uma chegada à casa de surpresa, que até podia comprovar o fracasso do casamento com Raymond, mas pelo menos mostraria que estava bem, sã e salva. A prima de Annie Madalena Nita Palhota, recorda essa fase de agonia à espera de uma notícia.
Sabia-se que ela estava desaparecida. Raymond não sabia de nada, estava tudo num desespero, mas a família estava muito abalada com a falta de notícias. Enquanto não se soube exatamente o que é que tinha acontecido, podia ser qualquer coisa. Eu lembro na altura até se falou muito que podia ser espionagem, que ela tinha acesso ao gabinete dele.
Essa continua a ser uma das hipóteses pro desaparecimento de Annie. E torna-se ainda mais relevante, porque a embaixada suíça é a representante de vários países em Cuba, entre eles, os Estados Unidos da América. Esse acordo existe desde que Fidel Castro decidiu expulsar dezenas de funcionários da embaixada norte-americana em Havana, e o presidente Dwight Eisenhower cortou as relações diplomáticas entre os dois países. Raymond Quendoz trabalhava com documentos confidenciais, recebia e descodificava mensagens secretas enviadas pra embaixada, diz Rui Ferreira, amigo de Annie e jornalista que acompanhou de perto a realidade cubana e as relações entre Cuba e Estados Unidos.
Tinha um trabalho que era importante. O marido levava as cifras e os códigos da embaixada, de modo que isso já era um perigo
A família e o marido temem que a Annie, de alguma forma, tenha tido acesso a esses papéis e possa estar a ser manipulada. Passam apenas três dias desde que a Annie desapareceu, quando o encarregado de negócios português, Luís Gonzaga Ferreira, decide convidar Roberto Meléndez, o chefe de protocolo cubano, que é muito próximo de Fidel Castro, para almoçar na embaixada. Neste momento, o objetivo nem é fazer perguntas sobre a portuguesa. O caso é muito recente. Gonzaga Ferreira quer falar sobre as relações entre Portugal e Cuba e sobre a Tricontinental, a primeira conferência de solidariedade dos povos de África, Ásia e América Latina, que vai realizar-se em Havana no início de 1966. Mas vai ser surpreendido. Meléndez passa o almoço inteiro a falar sobre a portuguesa que misteriosamente desapareceu em Havana. A Annie não é uma pessoa qualquer. Além de ser mulher de um diplomata suíço e de viver dentro da própria embaixada, ainda para mais a embaixada que trata dos interesses dos Estados Unidos em Cuba, é também filha do diretor da PIDE, a polícia política do regime de Salazar. Meléndez diz ao encarregado de negócios português que ficou espantadíssimo quando recebeu a carta escrita por Annie a avisá-lo de que ia viajar para a Europa. E revela que, entretanto, o marido dela lhe ligou diretamente a perguntar onde é que os cubanos tinham escondido a Annie, o que o deixou muito irritado. Garante que no regime ninguém sabe de nada e desvaloriza o assunto como um mero desencontro, no máximo um arrufo de um casal diplomático. E diz mais: é uma vergonha pensarem que as autoridades cubanas têm algo que ver com semelhante porcaria. Garante que a Annie nunca falou com Fidel Castro e que só foi apresentada a Che Guevara depois de muita insistência, no dia da Festa Nacional da Suíça de 1964. É uma mulher perigosa, diz o chefe de protocolo de Fidel. Alguém que aborrece as autoridades com loucos e comprometedores entusiasmos revolucionários. Luís Gonzaga Ferreira ouve tudo com atenção, intui imediatamente o que se está a passar, mas não o interrompe. Mais tarde, num telegrama que há de enviar para Lisboa, vai escrever: „era flagrante que o diretor do protocolo estava a representar”. Gonzaga Ferreira sabe que a Annie conhecia Che Guevara há mais tempo, e sabe também que os revolucionários cubanos não tinham quaisquer reservas em relação à portuguesa. A embaixada da Suíça demora a agir por acreditar que o desaparecimento de Annie pode ser única e simplesmente um assunto de ordem sentimental, um desentendimento entre marido e mulher. Mas com o tempo a passar, é preciso tomar medidas ou, no mínimo, procurar mais respostas. O embaixador suíço está na embaixada de Portugal, em Havana, para falar com Luís Gonzaga Ferreira. Quer discutir três possíveis cenários. Um: a Annie pode estar a ser usada por serviços de países de leste. Dois: pode ter-se juntado a Che Guevara. Três: pode ter sido apanhada por um grupo extremista africano para ser utilizada na reunião da Conferência Tricontinental, em Havana. Para Gonzaga Ferreira, as primeiras duas hipóteses fazem pouco sentido. Se quisessem, os países de leste teriam ao dispor uma série de pessoas mais qualificadas do que a Annie. E tendo em conta as constantes viagens secretas de Che Guevara para outros países para tentar provocar mudanças políticas como aconteceu em Cuba, também seria pouco provável que alguém se conseguisse juntar a ele. A opção mais plausível é a terceira. Acreditam que os cubanos podem usar a Annie para fazer rebentar um escândalo. Imagine-se o que seria ouvir a filha do diretor da PIDE, uma polícia política de um país ocidental, a defender a revolução cubana na reunião que tem como grande objetivo criar uma frente comum contra o colonialismo, o neocolonialismo, o imperialismo e a influência dos Estados Unidos no contexto da Guerra Fria. O embaixador suíço acha provável que a Annie tenha apenas fugido do casamento com Raymond. Um desastre, como lhe chama, mas teme que ao pedir ajuda às autoridades cubanas, possa ter sido aliciada a participar numa ação de propaganda. O evento vai durar 15 dias e vai juntar 500 delegados de mais de 80 países. São chefes de Estado, guerrilheiros e líderes de movimentos de libertação nacional de África, Ásia e América Latina. Como Eduardo Mondlane, o primeiro presidente da FRELIMO, que vai ser assassinado dentro de apenas três anos com uma encomenda-bomba Ou Amílcar Cabral e Salvador Allende, que vão ambos morrer em 1973. O fundador do PAIGC à porta de casa, em Conacri, às mãos de membros do próprio partido que criou. O presidente chileno com um tiro na própria cabeça, durante o golpe de Estado liderado pelo general Augusto Pinochet. Qualquer um dos movimentos representados na Tricontinental, sobretudo os provenientes das colónias portuguesas, pode lucrar com o apoio da filha do diretor da PIDE. Em África, há investidas contra o regime colonial português, que trava guerras em Angola, Guiné-Bissau e Moçambique. Mas Luís Gonzaga Ferreira conhece bem a Annie de muitos almoços, jantares e conversas na embaixada portuguesa. E tem muitas dúvidas de que ela faça alguma coisa para prejudicar o pai. A Annie está desaparecida há praticamente dois meses. Luís Gonzaga Ferreira não pode esperar mais. Tem de informar Portugal. Como ela estava a viver na embaixada da Suíça, era casada com um diplomata daquele país e tinha passaporte diplomático suíço, inicialmente o responsável máximo pela embaixada portuguesa achou que não havia motivos para comunicar o caso a Lisboa. Faltam quatro dias para o Natal, quando Gonzaga Ferreira se senta à secretária para escrever ao Ministro dos Negócios Estrangeiros, Franco Nogueira. Será ele a decidir se deve ou não contar tudo a Salazar. Passa pouco das 15h15 da tarde de 20 de dezembro de 1965, quando um telegrama cifrado é enviado a partir da embaixada de Portugal em Havana para Lisboa. No dia seguinte, três horas depois de ser recebida no Ministério dos Negócios Estrangeiros, a mensagem está descodificada e pronta a ler. É urgente. O encarregado de negócios português em Havana comunica que a filha do diretor da PIDE desapareceu há praticamente dois meses, em Cuba ou atrás da cortina de ferro. Supõe-se que teria tomado o avião para Praga, explica Gonzaga Ferreira. E há mais. Acredita-se que o desaparecimento contou com a cumplicidade das autoridades cubanas. O embaixador suíço teme que a Annie possa vir a ser utilizada por um grupo extremista africano para provocar um escândalo capaz de afetar Salazar durante a Conferência Tricontinental em Havana. Luís Gonzaga Ferreira tem muito mais a dizer sobre o caso, mas o telegrama acaba com esta informação. Vai guardar todos os detalhes que recolheu ao longo dos últimos dois meses para um aerograma que escreve no mesmo dia, à máquina, e que há de seguir para Portugal na mala diplomática. O documento, assinado à mão pelo encarregado de negócios, está hoje no arquivo de Salazar, na Torre do Tombo, em Lisboa. Tem 11 páginas e começa com uma nota em letras maiúsculas. Secreto. Dá seguimento ao primeiro telegrama, mas vai muito mais longe. Logo a abrir, Gonzaga Ferreira informa: a senhora Quendoz era sobejamente conhecida em Havana pelas suas inclinações esquerdistas e pela amizade e estreitíssimas relações que mantinha com altas individualidades da revolução cubana, muito em especial com o comandante Vallejo, secretário, médico particular e sombra de Fidel Castro, e oficiais G2, polícia política cubana. Conhecia-se ainda a sua profunda admiração, talvez possa dizer mesmo obsessão, pela obra e personalidade de Che Guevara, que conhecia pessoalmente, não sendo possível dizer, porém, o grau de relações políticas que manteriam. Descreve ainda o que se passou no aeroporto, o almoço com Roberto Meléndez e as desconfianças do embaixador suíço. Habituado a receber regularmente a Annie e o marido na embaixada, o encarregado de negócios faz até questão de escrever que a relação entre ambos estava notoriamente a piorar. Tanto que já discutiam em público. E acrescenta que a família com quem a Annie foi passar férias ao México, os Bosques, é conhecida pelas simpatias em relação aos revolucionários cubanos. Gonzaga Ferreira fala numa fuga de Annie e garante que o regime cubano tinha de estar a par dela, até porque ninguém pode sair ou entrar no país sem a polícia saber. Há situações que apontam gritantemente para uma intervenção oficial, escreve. No final da carta, tendo em conta a delicadeza do assunto, acrescenta: deste aerograma, guardo uma única cópia que destruirei, se assim vossa excelência o entender conveniente. Quando a mensagem lhe chega às mãos, Franco Nogueira não dá qualquer ordem de destruição do documento. Em vez disso, decide entregá-lo imediatamente a Salazar. E junta ele próprio uma nota. Aerograma pessoal, de cujo conteúdo não dei até agora conhecimento a ninguém É assim que o presidente do Conselho fica a saber que a filha do diretor da PIDE desapareceu. No dia 25 de outubro, quando foi buscar a mulher pela terceira vez ao aeroporto de Havana, Raymond Quendoz ocupou um lugar VIP na pista de aterragem. Estava perto do avião acabado de chegar da Cidade do México, mas nem por isso tinha um campo de visão privilegiado. Apercebeu-se de que passou mais tempo do que o habitual até os passageiros começarem a desembarcar. Mas não percebeu que isso só aconteceu porque instantes depois de o avião aterrar, um homem cubano entrou no avião e pediu para falar com uma das pessoas que estavam a bordo. Lá dentro, os restantes passageiros foram avisados pela tripulação de que havia um problema na escada que estava a atrasar a descida. Quando finalmente o comandante deu luz verde ao desembarque, todos saíram do avião, menos a mulher com quem o cubano tinha estado a conversar. Essa mulher era Annie Silva Pais. Outra coisa que Raymond Quendoz não pôde ver, porque lhe disseram que tinha de sair da pista e ir para o armazém da alfândega. Depois de recomeçar a andar, o avião parou num lugar mais afastado e logo a seguir chegou uma ambulância. Na carta de 11 páginas que enviou para Lisboa, o encarregado de negócios Luís Gonzaga Ferreira revela que os paramédicos subiram a bordo com uma maca e poucos minutos depois voltaram a descer. Transportavam uma pessoa, entraram na ambulância e deixaram o aeroporto. São só mais provas de que os cubanos sabem mais do que aquilo que dizem, mas não dão resposta às dúvidas que Raymond Quendoz os suíços, os americanos e agora Salazar querem ver respondidas. Onde está a filha do diretor da PIDE? Com quem? E a fazer o quê? Se não apanhou aquele voo para Praga, isso significa que a Annie está escondida algures em Cuba. Poucos dias depois, a 3 de janeiro de 1966, começa a tão temida reunião da Tricontinental, que junta em Havana representantes de movimentos revolucionários e anticolonialistas de mais de 80 países. É justamente nessa altura que a Annie volta a aparecer. Mas essa é uma história para o próximo episódio. No entanto, se for assinante standard ou premium do Observador, pode ouvir já todos os seis episódios. Se ainda não for, basta assinar em observador.pt/assinar. No próximo episódio:
"Ela era recebida na embaixada, eles estavam naqueles círculos diplomáticos que têm outro tipo de tratamento."
"A viagem ao México e o regresso é o que se chama, em termos de espionagem, uma exfiltração. Ela apaixonou-se pela revolução, de facto."
"Ela põe a família toda, principalmente o pai, numa situação complexa."
"Os Escândalos de uma Revolucionária" é uma série para ouvir em seis episódios, que faz parte dos Podcast Plus do Observador. É narrada por mim, Bárbara Branco, com banda sonora original de Frankie Chavez. O guião e as entrevistas são de Inês André Figueiredo. A sonoplastia e o desenho de som são de Pedro Oliveira. O design gráfico é de Miguel Feraso Cabral. A edição é de João Santos Duarte e Tânia Pereirinha A coordenação é de Miguel Pinheiro e Sara Antunes de Oliveira. Neste episódio, ouvimos sons retirados do YouTube. Se tem alguma informação para partilhar sobre este podcast ou se conhece alguma história que acha que deve ser investigada, pode escrever-nos para podcastplus@observador.pt.
